Entrevista com Silviano Santiago | “Bambino a Roma”, novo romance de Chico Buarque

Bambino a Roma, o mais recente romance de Chico Buarque, é o tema da entrevista com Silviano Santiago que a BVPS tem a alegria de publicar hoje, como um presente de boas festas.

Silviano Santiago destaca como o novo livro de Chico Buarque transcende as memórias de infância ao construir um retrato complexo da identidade cultural e da formação artística. Além disso, reflete sobre como as lembranças de menino se entrelaçam com a imaginação, dando origem a uma narrativa autoficcional.

Com este post, a BVPS agradece colaboradoras/es e leitoras/es pelo ano intenso em reflexões e informações. Desejamos um excelente 2025! Voltaremos às nossas atividades em fevereiro, com muitas novidades!

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Entrevista de Silviano Santiago concedida à Revista Comunità Italiana

O que diferencia o livro Bambino a Roma de um simples livro de memórias de infância?

Silviano Santiago. O pai de Chico Buarque, professor universitário de renome, recebe bolsa generosa da Universidade La Sapienza, de Roma, e decide levar a família para uma curta temporada na Europa. A primeira originalidade do livro está na experiência italiana de uma criança brasileira descendente de portugueses. Não se trata de viagem para o reconhecimento de parentes que não deixaram “il nostro paese”. A infância de artistas brasileiros tem como pano de fundo o cotidiano e o grupo escolar, seguido do ginásio. As narrativas tipicamente brasileiras se diferenciam umas das outras pelas cinco regiões que nos dividem e nos distanciam. Bambino a Roma relata a experiência do menino e futuro artista entre pessoas desconhecidas. Seus olhos têm acesso a um ambiente cultural inédito para o garoto tropical.

Como as memórias infantis são tradicionalmente um bom suporte para se conhecer a obra artística que virá na maturidade, percebem-se algumas opções futuras de Chico. Passando parte da meninice na Europa, opta pelo “popular” e não pelo “pop”, diferenciando-se desde a raiz da vida de importante contemporâneo dele, Caetano Veloso. Violão e guitarra elétrica seria um só exemplo da distância que os separa. Mais evidente se torna a diferença caso se leia que o bambino Chico se insere gradativamente na cultura europeia popular da época e o baiano na cultura pop americanizada a dominar o lazer. Outro exemplo, agora fonte para os futuros temas de canções. Caetano é sensível à mitologia pop de super-heróis e de filmes hollywoodianos, com destaque no início da carreira para Carmen Miranda. Esse universo mítico contemporâneo é escasso na obra de Chico. Sobra o popularesco brasileiro (carnaval, escola de samba, futebol, participação partidária etc.), associado aos temas românticos de romance de aventuras italiano para jovens. Que eu saiba, nenhuma outra estrela da música popular se esbaldou tanto na meninice com as variadas aventuras narradas por Emilio Salgari (1862-1911), autor de uns quarenta romances de piratas e aventureiros que alimentou o cinema mudo italiano de obras-primas.

Algum(ns) trecho(s) descrito(s) no livro explica(m) um pouco da formação musical e política de Chico Buarque, depois de adulto?

SS. Disso falava na resposta anterior. A curiosidade do menino Chico se enriquece com objetos bem precisos e diferentes, mesmo numa leitura superficial do livro. Sem querer destacar um dos interesses, faço uma lista que pode ser revista e corrigida pelo leitor atento. Lá estão as canções populares de carnaval lideradas pela que afirma que cachaça não é água não. Lá está o seu forte interesse por livrarias e livros, e menos intenso por cinema e teatro. Pouco se vale do transporte coletivo, prefere o individualismo da bicicleta e a solidão das caminhadas. Lá está também o interesse por grandes notícias jornalísticas sobre a vida de políticos (a morte de Stalin é um bom exemplo). A atriz de cinema Alida Valli está presente no livro não tanto pelas obras-primas em que atuou (o filme O Terceiro homem é um clássico), mas por ser a mãe de um coleguinha cujo pai estava nas manchetes de jornal em virtude de um grande escândalo de orgias da época, semelhante ao famoso de Cláudia Lessin, no Rio de Janeiro (1977). Não se pode esquecer que a Segunda Grande Guerra havia terminado e o plano Marshall comandava a reconstrução e/ou gentrificação das cidades bombardeadas. A trilogia de Michelangelo Antonioni (“A aventura”, “A noite” e “O eclipse”) mostrará bem o período, quando o helicóptero passa a ser meio urbano de transporte e o avião bombardeio é substituído pelos supersônicos caças imperialistas. Os dólares corriam à solta. O menino Chico acompanha mais os esportes profissionais que os grandes hits musicais norte-americanos. Não escuta Frank Sinatra nem os famosos músicos e cantores de jazz pretos. Seu interesse se dirige também para as grandes figuras da política nacional, como Getúlio Vargas. Que o leitor bote tudo isso num liquidificador (que é o objeto doméstico mais importante da época para a criança) e se tem a arquitetura da futura produção artística de Chico Buarque que, numa descrição do Brasil nos trópicos de então, oferece quase nenhuma semelhança com os elementos da cultura pop internacional que alicerçarão a produção contemporânea dos “tropicalistas”, como o já mencionado Caetano, mas também Gilberto Gil e Ney Matogrosso.

Finalmente, saindo pela tangente da pergunta, pode-se estranhar um pouco a quase ausência da figura do pai, em oposição à presença marcante da mãe e da irmã mais velha.

A obra mistura realidade e ficção, conforme o senhor declarou: “No passado, o bambino brasiliano largara mão da ideia de um diário, sugerido pela mãe. Optava pelo esquecimento, que abriria espaço para a imaginação ficcional cobrir as lacunas da memória”. Como acontece esta integração literária de fatos reais e imaginários? De que forma esta mistura pode atrair o leitor?

SS. Muitos dos gêneros tradicionais de narrativa vêm passando por grandes reformas desde o século XX. Truman Capote, autor do famoso “A sangue-frio”, classificou seu livro de “faction” e não “fiction”. Ele misturava a escrita “factual” de jornalista a investigar um assassinato de família por jovens criminosos com a escrita “ficcional” em que já era mestre. Annie Ernaux, recente prêmio Nobel, escreve “autoficção”. Seus livros curtos seguem a linha das histórias íntimas vividas pela escritora com a retórica e as elegâncias da ficção tradicional francesa, o conhecido “récit”. Bambino a Roma se enquadraria, a meu ver, na autoficção. Atualmente, o público dos vários meios de comunicação tem a curiosidade intelectual despertada e prisioneira dos “retratos” de personalidades famosas pela obra ou pelos quinze minutos do “reality show”. Esse público não está mais interessado em separar de maneira categórica a experiência-de-vida da experiência-cultural (no sentido estético do termo). Toda a produção “identitária” nos nossos dias é prova da atualidade da autoficção de Chico. Não é por casualidade que Chico traz mais e mais a sua própria vida para o romance tradicional que ele começou a escrever com o elogiado Estorvo. Aliás, O irmão alemão talvez seja o romance de transição para a autoficção de Bambino a Roma.

O livro descreve um pouco da conjuntura política e social de Roma na época em que a família Buarque foi morar na capital italiana?

SS. Cidadão com definição política clara, radical e em nada propensa a vira-casaca, não deixa de ser fascinante o fato de o artista Chico ser um romancista que não tem prazer em simplificar a análise dos fatos reais. Seus vários romances têm pouco a ver com os da primeira fase de Jorge Amado, por exemplo. A sutileza no trato da Roma dos Césares, que ele vive “de passagem” (para empregar a adjetivação dele), pode ser apreendida no modo como torna a famosa atriz Alida Valli e o filho dela, amigo de Chico na escola, personagens. Personagens às voltas com o maior escândalo do pós-guerra italiano, o assassinato encoberto da jovem atriz Wilma Montesi em 1953. A morte da moça, possível obra de um amante perverso, membro de um grupo de traficantes de drogas e que se entrega a orgias sexuais a se esbaldar em iates no Adriático, levou a investigações infinitas por parte da polícia e dos jornais. Pouco a pouco, no processo de invenção do moderno jornalismo investigativo que foca escândalos de personalidades famosas, foram revelando à nação italiana as grandes figuras da alta sociedade romana que estavam envolvidas na morte absurda de Wilma Montesi. O escândalo denuncia os resquícios no pós-guerra das fortunas fascistas que se locupletavam com as verbas do plano Marshall. Dois grandes cineastas italianos, Federico Fellini e Michelangelo Antonioni (já mencionado), vão embasar os scripts que escrevem com a morte de Wilma Montesi. Com grande contundência e com o gosto pela sátira, Fellini torna a história da moça o centro do filme La dolce vita. Antonioni mais sutil e dramático, aproveita o tema para elaborar outro filme notável, A Aventura. O alvo dos dois cineastas era o de se valer do caso Montesi para escapar da prisão estética que o neorrealismo já representava para a jovem geração de cineastas italianos. O famoso cineasta de Paisà e Roma, cidade aberta, Roberto Rosselini dará o passo antes de Antonioni e Fellini com a obra-prima pioneira que é Viagem à Itália (1954). Chico narra o caso Wilma Montesi, mas não busca, na crítica radical da alta burguesia romana, a contundência satírica de Fellini nem a dramaticidade trágica do vazio de Antonioni. Chico se volta para uma inocente, Alida Valli, e o seu filho. Mãe e filho passam a receber, no recato do lar, todas as consequências de atos horrendos em que figuras queridas delas participaram. O escândalo Wilma Montesi recebe, por parte de Chico, um tratamento reservado, na vida privada, que, a meu ver, dilata a importância do retrato da Itália que inegavelmente Bambino a Roma clica.