Coluna Renato Ortiz | Sensacionalismo

O sensacionalismo não é apenas exagero ou distorção, mas uma amplificação do insignificante que transforma o presente em espetáculo. Retomando sua coluna em 2025, Renato Ortiz reflete sobre como o sensacionalismo se tornou uma exigência do contemporâneo, fixando o extraordinário apenas para ser imediatamente esquecido. Afinal, vivemos sob o império do presenteísmo, diz Ortiz: quem não está na imagem, não existe. O texto mergulha no mundo fugaz do cotidiano superlativo para sugerir que esse fenômeno se insere numa lógica maior da comunicação contemporânea. Qual? Vale a leitura.

A Coluna Renato Ortiz é publicada quinzenalmente às quartas-feiras. Outros posts podem ser acessados clicando aqui.

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Sensacionalismo

Por Renato Ortiz (Unicamp)

O sensacionalismo é volumoso, sua virtude é a hipérbole, o exagero. Não se trata tanto de uma distorção dos fatos, seu antônimo não é a mentira ou as fake news, a veracidade dos acontecimentos lhe é indiferente. Eles podem ser verdadeiros ou falsos, reais ou imaginários, mas a matéria na qual se assenta a “sensação” de certa forma é arbitrária. Tampouco ele se importa com a superficialidade das coisas, pelo contrário, sua definição exige que dela se destaque. Sensacional é sinônimo de misterioso, fenomenal, impressionante, enfim, o inabitual, extra-ordinário. O sensacionalismo é uma amplificação que torna o insignificante superlativo, essa é sua natureza. É preciso que o irrelevante se expresse de maneira estridente, ruidosa, para se tornar efetivo, visível. Cada acontecimento se apresenta assim como um elemento singular, entretanto, deve ser trabalhado por uma intenção de segunda ordem que o transforma em algo palpável, hiperbólico.

O contraponto com o minimalismo é sugestivo. As obras minimalistas utilizam um mínimo de recursos (uso limitado de cores, geralmente tom sobre tom) e privilegiam formas geométricas dispostas de maneira repetitiva dentro de uma sequência contínua exposta na tela (ou no espaço, como os cubos de Sol LeWitt). Também na música os sons quase se confundem e se sobrepõem uns aos outros (lembro Philip Glass). Não é necessário que cada um desses elementos (formas e sons) sejam idênticos, é a contiguidade entre eles, a cadeia que formam entre si, que ilude a visão ou a audição. O efeito resulta da superposição dos mínimos detalhes que fazem das partes um conjunto mais amplo.

O sensacionalismo faz o movimento inverso; pelo excesso, torna descontínuo o que se desvenda aos olhos: um crime, uma catástrofe climática, um roubo, o funeral de uma celebridade, um discurso político. Ele não se furta à repetição, em particular na esfera midiática (a lógica da televisão funda-se na repetição incansável do mesmo), mas ela não se articula à continuidade de uma sequência de detalhes como no minimalismo; cada evento é único, indivisível, ecoado em sua idiossincrasia amplificada. Para isso o recurso à dramatização (gestos exagerados, estridência da voz, particularmente nos programas televisivos policialescos) é imprescindível; é preciso “fabricar” uma narrativa que transubstancie os fatos em algo intrigante, eles se tornam assim frutos de uma encenação, sem a qual sua presença se tornaria opaca.

O sensacionalismo vive do espaço público, sem ele sua intenção se desfaz. A hipérbole que cultiva não pode ser apenas uma figura de linguagem, seu volume deve ser contemplado e apreciado pelos outros. A reação do espectador é parte constitutiva de sua verdade. Os meios técnicos à sua disposição devem, portanto, ser eficientes e efetivos. Primeiro, enquanto recursos para a construção do exagero: os efeitos sonoros da voz do radialista que narra um evento; o close da câmera de televisão ao apreender um fato qualquer; a edição e montagem da sequência de imagens na narrativa televisiva; os comentários exacerbados do jornalista político. Palavras, sons e imagens são cuidadosamente tratados dentro de uma perspectiva que confere sentido, não ao fato em si, mas a forma na qual é retratado. A mise en scène é decisiva para sua existência. Segundo, enquanto meios de comunicação, isto é, de projeção de um determinado elemento no espaço público, são os meios que fazem circular o excesso, o retiram de sua particularidade espacial. Sem eles o hiperbólico se restringiria a seu papel original de artifício de linguagem. A história do sensacionalismo se conjuga com a história do espaço público e dos meios de comunicação, também se atualiza e se transforma com as mudanças técnicas que aí se inserem (dos jornais com tiragens incipientes ainda no século XVIII à era digital). O desenvolvimento tecnológico cria possibilidades e oportunidades para sua estridência “fenomenal”.

Há, no entanto, uma dimensão essencial para sua manifestação: o atual. A reação ativada pela “notícia” ancora-se no presente, a singularidade do fato sensacional privilegia o que está ao alcance, desperta uma sensação de atualidade. O pretérito é desprezível para sua ambição, é preciso exibir o volume daquilo que nos cerca. Tudo se resume a uma intensificação desse sentimento. Ele se dirige a um fato específico: o traço trabalhado como excepcional que permite ainda às pessoas se reconhecerem em algo que é comum, transmitido em escala ampliada. “Todos” compartem a sensação projetada. O particular torna-se assim parte de um mesmo solo, de uma opinião pública. O desenvolvimento das tecnologias digitais exacerba essa dimensão, disponibiliza nas redes sociais mecanismos para construção do exagero: fotoshop, sinais, emojis, imagens, vídeos, gráficos, inteligência artificial. Os aplicativos têm a função de modificar a aparência daquilo que é difundido, os indivíduos deles se apropriam para fabricar suas hipérboles. A internet lhes propicia um canal de distribuição de suas impressões exageradas e lhes garante ainda uma qualidade intrínseca à contemporaneidade: o presenteísmo. O mundo digital caracteriza-se pelo volume e a velocidade das informações; em sua espacialidade dilatada tudo é célere (é preciso processar um volume de dados quase que instantaneamente; os algoritmos fazem isso). Estar conectado não significa apenas ter acesso à rede informática, mas também estar ligado aos fatos; implica em se ajustar ao tempo real da exposição das coisas. O digital favorece o atual. Diz o ditado popular: “you need at least one picture daily, if not, you are dead”. O presente torna-se, então, uma propriedade superlativa da experiência quotidiana e o sensacionalismo uma exigência do contemporâneo. Ele fixa o extraordinário que será imediatamente esquecido, sua vida é curta; na aceleração da temporalidade digital a existência condensa-se em um átimo. Porém, é o movimento que conta, a continuidade dos pontos descontínuos que o constitui, ela assegura a fugacidade perene da sensação anunciada.


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