Ocupação Mulheres 2025 | “No meio do caminho, deslizantes águas”: as aspas do discurso de posse da presidente da ABA (biênio 2025-2026), por Luciana Dias

Na primeira rodada de postagens deste segundo dia da Ocupação Mulheres, publicamos o discurso de posse de Luciana de Oliveira Dias (UFG), atual presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), biênio 2025-2026. Em uma fala marcada pela pluralidade de vozes e referências, Dias destaca a importância da ascensão de um saber/fazer antropológico negro, que se apresenta à ABA e à antropologia como disciplina. Sua defesa é por uma antropologia antirracista, inclusiva e comprometida com a justiça social.

Não perca, na parte da tarde, mais textos inéditos escritos por pesquisadoras, artistas e ativistas de diferentes gerações e instituições brasileiras. Boa leitura!


“No meio do caminho, deslizantes águas”: as aspas do discurso de posse da presidente da ABA (biênio 2025-2026)

Por Luciana de Oliveira Dias (ABA e UFG)

O objetivo deste texto é tornar público o discurso por mim proferido, durante a posse da diretoria da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), gestão 2025-2026, evidenciando as muitas vozes que ecoaram e as muitas aspas que compuseram o referido discurso. As referências que insuflaram vida ao texto não foram lidas, mas somente informadas no ato de posse, quando alertei que o texto fora composto por muitas aspas. Neste manuscrito, que integra a Ocupação Mulheres do Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social (BVPS), aquelas aspas são informadas para que um pensamento/ação seja acessado de maneira mais aprofundada, elucidando, assim, o seu “caráter coletivo e dialógico”, sendo este também uma das características do “pensamento feminista negro” (Collins, 2019).

O discurso teve início com cumprimentos às autoridades que compunham a mesa da cerimônia de posse da Diretoria eleita, majoritariamente constituída por pessoas negras e mulheres. As saudações se estenderam a toda a diretoria empossada, bem como a todas as diretorias anteriores, à secretaria da ABA, aos conselhos diretor, científico e fiscal, além dos comitês e comissões de assessoramento. No mesmo tom de agradecimento, foram saudadas todas as pessoas associadas e, como um convite a se associarem, todas as pessoas não associadas que também foram fundamentais para que essa realidade fosse possível.

O pronunciamento teve início com a reafirmação do compromisso ético-político e profissional da ABA na defesa dos Direitos Humanos e na busca pela realização da justiça social. Foi manifestado o respeito à Associação, que congrega expoentes da antropologia; que demonstra um engajamento na conciliação entre a excelência no fazer antropológico e a inquietação sociopolítica; que valoriza a imprescindível mediação na defesa de direitos, no compromisso ético e no enfrentamento a crises; e que se dedica ao reconhecimento da intersecção de saberes e interpelações que apontam para atores plurais e transformações epistêmicas, em uma corajosa perspectiva crítica.

A percepção informada foi a de que a ABA tem se aprimorado ao longo destas sete décadas e está em um deslocamento que indica um movimento importante contra uma inércia que pode ser impeditiva de reconhecimento e respeito à pluridiversidade, a saberes e fazeres antirracistas, antimachistas, anticapacitistas e antidiscriminatórios. Foi destacada a repactuação da diretoria empossada em aderir a este movimento, buscando acelerar o passo em direção à pluralização política e epistêmica da ABA e da antropologia. Assim, foi reafirmado o compromisso da Diretoria com:

  • O apoio às diretorias regionais e o fortalecimento dos comitês e comissões, fundamentais na articulação das questões científicas com a defesa e proteção dos Direitos Humanos, sempre com observância da equidade e justiça social;
  • O zelo pela efetivação de direitos de povos e populações ainda hoje discriminados, como os povos quilombolas e indígenas, as populações negras, ciganas, 60+ e juventudes, as pessoas LGBTQIAPN+ e PCDs;
  • O avanço no debate para o reconhecimento e proteção dos profissionais da antropologia;
  • O aprimoramento das estratégias de comunicação e técnico-científicas da ABA;
  • A promoção da pluridiversidade e da representatividade na ABA, inclusive no que tange à diversidade teórica e epistêmica;
  • O fortalecimento de atuações locais, regionais, nacionais e internacionais, sempre pautadas em diretrizes éticas consolidadas e atualizadas, visando à difusão da antropologia feita no Brasil.

A emoção, cheia de gratidão pela posse da diretoria, marcou presença, e eu fiz um esforço genuíno para me aproximar da realidade, como diz Conceição Evaristo (2021): “a realidade escapa, a realidade é incompreensível… quando você vive um fato e fala desse fato, a sua fala já modifica o fato”. Ainda assim, contive a vontade de falar de mim mesma, já que, como diz Frida Kahlo, “sou a matéria que melhor conheço”. Quis dizer que sou goiana, filha da dona Fia Tapuya, costureira, e do seu Raimundo Preto, pedreiro; contar que aprendi, desde cedo, a compartilhar tudo na vida, em meio a uma pobreza extrema e a uma escassez absoluta. E que hoje, às vezes, me pego pensando: “De que cor eram os olhos de minha mãe?” (Evaristo, 2014), ela, “que sempre costurou a vida com fios de ferro”, para que minha voz “recolhesse vozes mudas, caladas, engasgadas nas gargantas” e “ressoasse o eco da vida-liberdade” (Evaristo, 2021). Quis contar também que, no início da juventude, descobri que precisava voltar a estudar e que, sem muitas certezas, me encontrei nas ciências sociais e me abriguei na antropologia. E, retomando meu esforço de falar da realidade, falo rapidamente sobre minha presença na ABA nesses últimos 16 anos, como associada, esforçada e sempre atenta aos movimentos da Associação.

Meu histórico, como um “corpo-político” em um “tempo espiralar” (Martins, 2021) na ABA, tem sido marcado pela ocupação de lugares de grande responsabilidade. Fui a primeira coordenadora do Comitê de Antropólogas Negras e Antropólogos Negros no biênio 2019-2020, quando colaboramos com a problematização, enfrentamento e combate ao racismo estrutural, ainda presente nas instituições e que tanto violenta, de múltiplas formas, pessoas negras. Fui diretora da região Centro-Oeste no biênio 2021-2022, quando tive a oportunidade de atuar reconhecendo as especificidades da região na proposta de “defender direitos e fazer antropologia”. Compus a comissão eleitoral que elegeu a diretoria do biênio 2023-2024. Hoje, “no meio do caminho” (Evaristo, 2021), e em condições políticas no âmbito nacional mais favoráveis ao diálogo e apontando para um “conhecimento indígena” que sabe que “Nosso futuro é ancestral” (MPI, 2024), ou, ainda, para um “conhecimento quilombola” que informa que “a roda não tem fim e a circularidade é o que marca a capoeira, o congado, o jongo, o samba, o reggae, o batuque, a umbanda, o candomblé, os cabelos crespos…” (dos Santos, 2015), assumo a presidência da Associação, muito honrada e muito desafiada porque sou “povoada”, ou seja, “sou uma, mas não sou só” (Nunes, 2021) e porque a “reciprocidade conforma o caráter deste circuito antropológico” (Dias, 2021), dadivoso, diverso e plural.

Este é o cenário de uma vida que, em 2025, permite sonhar ativamente com uma antropologia ainda mais plural — um terreno democrático, diverso e compartilhado por pessoas e pensamentos múltiplos. Uma antropologia que considere todas as ricas experiências acumuladas, tanto em qualidade quanto em volume da produção científica, articuladas com a abertura para uma alteridade que reconhece que há “no meio do caminho, deslizantes águas” (Evaristo, 2021). Uma antropologia que mobilize uma gramática inclusiva, reparadora e antirracista, para ser, de fato, efetivamente democrática.

Para colocar em relevo uma “agência negra coletiva” (Dias, 2022) que tem sinalizado para a atualização e pluralização do campo da antropologia por meio de uma práxis antirracista, segui com a narrativa de um evento. O convite foi para um recuo até o final do ano de 2018, durante a 31ª Reunião Brasileira de Antropologia (RBA), ocorrida em Brasília, quando as antropólogas negras e antropólogos negros participantes do evento manifestaram seu descontentamento com a escassa representatividade racial negra no evento e na ABA. Aqueles reclamantes se “atreveram” (Gonzalez, 2018) a apresentar uma demanda por maior abertura às discussões raciais, com representatividade e reconhecimento horizontalizado de presenças negras. Foi nesse cenário que nasceu, na mais antiga das associações científicas nacionais no campo das ciências sociais, o Comitê de Antropólogas/os Negras/os, que, além de assessorar a ABA, anseia por construir, movimentar e articular saberes no campo da antropologia em uma perspectiva antirracista.

A compreensão é a de que esse Comitê foi gestado no mesmo ventre sociopolítico que deu vida às ações afirmativas no Brasil. Os efeitos acumulados da discriminação racial são sentidos pela população negra em diversas dimensões da vida em sociedade, e os espaços de produção de conhecimentos especializados não estão isentos desses nefastos efeitos. Daí a necessidade de adotar medidas especiais que colaborem no combate às desigualdades raciais infiltradas nas instituições.

As políticas de ações afirmativas têm alterado a composição racial do campo e inserido a perspectiva dos plurissaberes, provocando mudanças nas rotas e destinos e evidenciando possibilidades de um saber/fazer antropológico interpelante e “demandante” (Segato, 2015). Em decorrência dessas políticas, a ABA e a antropologia no Brasil vivem hoje um dinamismo que movimenta a disciplina, impulsionado pela força êmica do que tenho chamado de “antropologia negra” (Dias, 2021), a qual pode levar a uma atualização de saberes.

Durante a 32ª RBA, realizada no final de 2020, na cidade do Rio de Janeiro, de forma totalmente remota em decorrência do distanciamento social provocado pela pandemia da Covid-19, foi notório o engajamento de antropólogas negras e antropólogos negros, que evidenciaram seus lugares de enunciação, promovendo uma espécie de “giro multicultural” (Vigoya, 2020). Destacaram uma especificidade em uma escrita marcada por trajetórias, encontros e memórias racializadas. Naquela reunião, houve presenças negras na comissão organizadora do evento, inclusive na comissão de isenções de taxa de inscrição, na cerimônia de abertura, nas exposições e videoinstalações, na realização da primeira edição do Prêmio Lélia Gonzalez, nas conferências, simpósios especiais, grupos de trabalho, oficinas, minicursos, mesas-redondas, entre outros espaços. De forma mais evidente, puderam ser percebidos os contornos de uma antropologia negra.

Durante a 34ª RBA, realizada em Belo Horizonte, Minas Gerais, foi proclamado o resultado da eleição da primeira presidente negra da ABA, ao longo de seus setenta anos de existência. Hoje, em uma perspectiva de “Sankofa”, pode-se perceber um “negritar” da Associação e da antropologia. O pássaro mítico africano representado pela “Sankofa” traz uma forte presença no aqui e agora, com uma de suas cabeças voltada para trás, simbolizando o passado, e a outra voltada para a frente, para o futuro (Mbembe, 2001). “Negritar, além de realçar, delimitar e marcar o que se considera relevante” (Dias, 2022), é também adotar uma perspectiva de “Sankofa”, caracterizada pelo antirracismo no manejo de conhecimentos antropológicos, com atuação e autoria negras atentas às subjetividades múltiplas e favoráveis aos plurissaberes.

Um saber/fazer antropológico negro se apresenta à ABA e à antropologia, cada vez mais vibrantes e abertas ao diálogo. Isso não significa que tal saber não estivesse presente nas antropologias pretéritas dos estudos raciais, mas revela que há um deslocamento atual de um saber/fazer antropológico específico que denuncia sua impossibilidade de ser etnografado como ausência, objeto, apagamento ou silenciamento. A presença que se manifesta ricocheteia um fazer antropológico negro “esperançado” (Freire, 1992), que pressupõe a agência, “considerando o acúmulo histórico sobre o tema” (Pinho & Sansone, 2008) e também as “demandas atuais por autonomia, reconhecimento e reparação” (Dias & Castro, 2020).

Desde “minha posicionalidade” (Dias, Souza & Henning, 2020), nesta última década — não por coincidência uma década em que se encerram os primeiros ciclos de formação com ações afirmativas —, escancara-se uma interpelante “antropologia negra com agências e autorias negras que são resultantes de uma dupla potência, ética e estética” (Dias, 2022). Trata-se de uma antropologia voltada para a realização de etnografias reparadoras, conscientes da potência do conhecimento de si para o conhecimento das culturas. A antropologia negra que vislumbro é propositiva, de “alta performance” (Segato, 2016), e dialoga com uma “pedagogia da esperança”, de Paulo Freire (1992), que busca sua concretude histórica na prática.

No campo da respeitável antropologia feita no Brasil — que também é mutilada por “dispositivos de racialidade” (Carneiro, 2005) —, o alcance de uma reparação epistêmica, no que se refere à intelectualidade negra, se realiza à medida que estejam asseguradas a presença equânime, a relação dialógica, a redistribuição de poderes, a ressignificação de linguagens e a horizontalidade de saberes e fazeres. Negrito aqui, finalmente, a importância de celebrarmos um “pacto pela igualdade racial” (MIR, 2024) e a esperança de que prevaleça uma bioética — uma ética da vida não universalizada, que considere um “pluralismo histórico” (Segato, 2015) —, capaz de insuflar vida na coexistência e na reinvenção do campo, respeitando o fluxo das águas.

Caminhando para a finalização, agradeci a absolutamente todas as pessoas que, direta ou indiretamente, de forma contínua ou esporádica, se dispuseram e continuam se dispondo a seguir em marcha “por reparação e pelo bem viver” (Marcha das Mulheres Negras, 2024). Por este caminho que nos alerta para as “deslizantes águas” (Evaristo, 2021), nos irmanamos em um saber/fazer antropológico absolutamente comprometido com a democracia, os direitos, a justiça social, a equidade e a reparação dos prejuízos sócio-históricos e políticos experimentados por uma maioria tornada minoria e discriminada por ser quem é. Por fim, reafirmo o empenho da diretoria que toma posse em corresponder à confiança depositada em nós, reafirmando também nossa disposição, criatividade, criticidade e as melhores energias e expectativas para seguirmos caminhando, atentas aos movimentos das águas deslizantes, coabitando, renovando e reinventando a nossa Associação Brasileira de Antropologia.


Referências

CARNEIRO, Sueli. (2005) A Construção do Outro como Não-Ser como Fundamento do Ser. Tese de doutorado em Educação. São Paulo: Universidade de São Paulo.

COLLINS, Patricia Hill. (2019) Pensamento Feminista Negro: Conhecimento, Consciência e a Política do Empoderamento. São Paulo: Boitempo.

DIAS, Luciana de Oliveira. (2022). Negritando Esperanças nas Encruzilhadas dos Saberes: pelo reconhecimento de uma epistemologia negra no espaço acadêmico. In: GOMES, Nilma Lino (Org.). Saberes das Lutas do Movimento Negro Educador. Rio de Janeiro: Editora Vozes.

DIAS, Luciana de Oliveira. (2021). Circuitos Antropológicos: Por uma Antropologia Negra no Brasil. Novos Debates, v. 7, n. 2, e7216.

DIAS, Luciana de Oliveira & CASTRO, Ana Luísa Machado de. (2020) Mulheres negras nas universidades e saberes decoloniais: por uma teorização de um pensamento feminista negro. Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD, v. 9. n. 17, jan./jun.

DIAS, Luciana de Oliveira & SOUZA, Cristiane Santos & HENNING, Carlos Eduardo. (2020). Orí e Cabaça são Femininas: mulheres-raízes e suas insurgências na intelectualidade brasileira. Revista Humanidades & Inovação, v. 7, n. 25, p. 88-105.

EVARISTO, Conceição. (2021). Poemas da recordação e outros movimentos. Rio de Janeiro: Malê.

EVARISTO, Conceição. (2014). Olhos D’água. Rio de Janeiro: Pallas, Fundação Biblioteca Nacional.

FREIRE, Paulo. (1992) Pedagogia da Esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

GONZALEZ, Lélia. (2018). Primavera para as rosas negras: Lélia Gonzalez em primeira pessoa. Diáspora Africana: Editora Filhos da África.

MARCHA das Mulheres Negras. Disponível aqui.

MARTINS, Leda Maria. (2021). Performances do Tempo Espiralar, Poéticas do Corpo Tela. São Paulo: Cóbogo.

MBEMBE, Achile. (2001). As Formas Africanas de Auto-Inscrição. Estudos Afro-Asiáticos, Ano 23, nº 1, pp. 173-209.

MIR, Ministério da Igualdade Racial. 2024. Disponível aqui.

MPI, Ministério dos Povos Indígenas. 2024. Disponível aqui.

NUNES, Sued. Povoada. Recôncavo Baiano: Mugunzá Records, 2021. Disponível aqui.

PINHO, Osmundo & SANSONE, Livio (Orgs.). (2008). Raça: novas perspectivas antropológicas. Salvador: Associação Brasileira de Antropologia: EDUFBA.

SANTOS, Antônio Bispo dos. (2015). Colonização, Quilombos: Modos e Significados. Brasília: INCTI – UnB.

SEGATO, Rita Laura. (2015). Que cada pueblo teja los hilos de su historia: el pluralismo jurídico en diálogo didáctico con legisladores. In: La Crítica de la Colonialidad en Ocho Ensayos y una Antropología por Demanda. Buenos Aires: Prometeo.

SEGATO, Rita Laura. (2016). La Guerra Contra las Mujeres. Madrid: Traficantes de Sueños.

VIGOYA, Mara Viveros. (2020). As cores do antirracismo (na Améfrica Ladina). Sexualidad, Salud y Sociedad – Revista Latinoamericana. n. 36, p. 35-50.

Sobre a autora

Luciana de Oliveira Dias é antropóloga. Estudiosa do pensamento feminista negro, graduou-se em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e obteve o mestrado e o doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UnB), além de estudos pós-doutorais em Direitos Humanos e Interculturalidades também pela UnB. Atualmente, é professora associada na Universidade Federal de Goiás (UFG), atuando na Faculdade de Ciências Sociais e nos Programas de Pós-Graduação Interdisciplinar em Direitos Humanos e em Antropologia Social. É presidenta da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), sendo a primeira mulher negra a ocupar esse cargo.