
A coluna Cenas de escrita para um diário íntimo, de Ítalo Moriconi, apresenta hoje Ao vencedor, batatas podres (Parte I), convidando-nos a percorrer uma sequência de reflexões que oscilam entre poesia e comentário político. O texto entrelaça a hesitação entre ser ou não ser poeta com o espanto diante do mundo contemporâneo – das batalhas da geopolítica às disputas pela própria narrativa da história. Ora, o que significa ser poeta quando a realidade insiste em desordenar as palavras? E quando a história se repete, seria possível escapar do eurocentrismo das referências? De São Sebastião à guerra em Israel e ao expansionismo de Trump, Moriconi constrói um texto que confronta, mas também se refaz, buscando na escrita uma forma de resistir ao presente.
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Ao vencedor, batatas podres (I)
Por Ítalo Moriconi
[20 de janeiro]
Dia de Sebastião. Num de meus poemas para o mês de janeiro, glorifico Iracemo, símbolo de uma entrega sensual desabrida, que celebro. Signo de uma época em que ainda sobrevivia a vontade de amor livre. Iracemo: um nome de guerra para o amante anônimo. No poema, do sortilégio da nudez erotizada à beira d’água, transmigro para o africano, no mato inominado, em memória de alguém real na vida real, a outra vida, passada e presente, a vida de Ítalomóri. Não escapei de cometer uns versos para Sebastião, para a estátua de São Sebastião, situada no Largo da Glória, no Rio. Cismei que o poema, ou parte dele, é puro plágio de Chico Buarque, mas não consigo identificar de que canção. A imagem dos passarinhos fazendo cocô na estátua. Só o mantenho no poemário (a expressão é da poeta Lu Menezes) por capricho, por motivação pessoal, por ser para Sebastião. Não faço questão, e ao mesmo tempo daria tudo na vida (se tivesse sido outra), de ser identificado como poeta. Hesito nessa identificação, fico na soleira da afirmação de identidade. Identidade de poeta? Apenas um sujeito que escreve versos, tendentes ao aforismático, ao sentencioso. Ponto de fuga das sentenças ordenadoras da análise social e dos comentários políticos.
[24 de janeiro]
TPS – tempo perdido na sesta – acompanhar a pauta sobre alta dos alimentos na Globonews – só abobrinhas e inutilidades – esse pessoal não tem mais o que fazer? – me alieno, viajo em semi narcose até Paris, epa, até a CNN americana – está palpitante e preocupante a sequência de atos e éditos do imperador Trump – a âncora Amanpour dando uma colher de chá à causa palestina – logo ela, que já foi porta-voz e defensora das piores truculências israelenses.
[26 de janeiro]
Nem sei se existe mesmo dentro de mim tanta necessidade de produzir um livro, ou uma plaquete. Que seja, seria uma plaquete. O que me leva, aos 71 anos, a novamente lutar na tentativa de organizar o poemário, com largos intervalos de tempo entre uma versão e outra? Falar em fidelidade a mim mesmo soa demagógico, grandiloquente. Agora que todas as máscaras foram experimentadas e ajustadas, sobraria algo de convincente como núcleo identitário? Faço e refaço as sequências de poemas, assim como ordeno meu jogo de figurinhas capturadas da Internet. Enfileiradas, serializadas, como os soldadinhos de chumbo que eu em criança continuamente rearrumava, no chão da casa.
O forte apache do solilóquio. Sobre isso, tenho uns poemas de fevereiro. Entre o solilóquio e a carne bruta, cega. A poesia renascendo nas férias.
[29 de janeiro]
(Sem título)
Um campo minado
plantado de corpos mortos,
caminhão de memórias,
o fardo a carregar.
Era tudo um rascunho
da catástrofe iminente
que toda vida é.
Viro a página do álbum,
assim vivem as famílias felizes,
os vitoriosos, os vencedores,
no mausoléu do flash.
Este poema, carta sem destinatário.
Talvez você prefira não ler, mas guardá-lo.
[31 de janeiro]
Eleitores latinos de Trump agora se dizem arrependidos do seu voto. Cambada de gente burra. Dizia-se que os imigrantes, legalizados, estabelecidos, votavam na posição de Trump sobre imigrantes por temerem a perda de conquistas, temendo a competição com tanta gente. “Eu cheguei até aqui, agora a casa está lotada, os outros que se explodam”. Vai prevalecendo a interpretação corrente de que houve autoengano do eleitorado latino. Votou na imagem que tinha do Trump do primeiro mandato.
Autoiludiu-se. No que tange à questão da imigração, o primeiro Trump recuou ou foi recuado o tempo todo, nem terminar o Muro terminou – mal começou. Ou seja, os latinos não acreditaram que Trump faria o que está fazendo. Talvez, muitos ainda confiem que o sistema jurídico há de pôr um paradeiro nessa loucura, nessa caça às bruxas, nesse uso da paranoia como prática política intimidatória, técnica terrorista para manter a sociedade em suspenso, em permanente expectativa. Os sinais de caos já estão se manifestando, na própria torneira de asneiras do Autocrata Amerikano. Por ora, porém, os supremacistas brancos, expansionistas, estão no controle. Capital predatório.
***
O discurso expansionista de Trump é replicado pelo expansionismo de Israel.
Israel está se sentindo com forças para botar pra quebrar. De maneira imediata, está em pauta a anexação total da Cisjordânia. Torná-la demograficamente terra só de judeus. Judéia. Israel se sente forte o suficiente para retomar o processo iniciado na Nakba. A proposta é expulsar, no mínimo, 2 milhões de árabes palestinos, somando à população de Gaza a tomada violenta da Judéia. Essencial no conceito raiz do sionismo é a busca da primazia populacional dos judeus sobre os árabes no território de Israel. A ocupação violenta da Cisjordânia agora é apenas uma gradação a mais, uma finalização do que já existe desde sempre. O povo árabe, escravizado pelos judeus de Israel. Uma história bíblica, aqui e agora, a ser registrada para as gerações futuras. E agora, se tudo der certo para os vencedores, é a hora da expulsão. “Vocês estarão sendo expulsos do Inferno!”, é o que exclama Trump. Ele patrocina o Inferno e incentiva as vítimas a fugirem. O deserto é o nada.
O juízo moral, que admito ser o que me guia, fica paralisado diante do conflito visceral, carnal, a carnificina normalizada. Sem sentimentos. Só demografia aplicada na veia. Sinto que meu amigo se cala. Nosso silêncio é pesado. Seu silêncio me dói tanto quanto minha eloquência. Ele não pode se desvencilhar da identidade. A sua identidade judaica. Identidade, dificuldade.
[2 de fevereiro]
Um dos filmes em cartaz, nesta temporada intensa de cinema, que antecede o Oscar, é sobre o Congo, onde neste momento ocorre uma guerra civil, com direito a invasão por milícias violentas vindas de Ruanda, carnificinas, genocídio. Não conheço os detalhes do contexto, só sei que a notícia é de genocídio, carnificinas, violências, matanças.
“Enquanto você escreve, obsessivo, repetitivo, sobre as guerras de Israel e da Ucrânia, idênticos horrores acontecem na África e eles mal chamam tua atenção.”
Minha escrita geopolítica é pessoal, da esfera da opinião, não pretende a generosidade de coincidir com o mapa mundi todo.
“Você e suas guerras europeias.”
Sim, fico ligado só nas guerras europeias. A guerra de Israel em certo sentido não deixa de ser uma guerra europeia. Todo o esforço de construção do Estado sionista no Oriente Médio é episódio da expansão colonialista europeia, de que a hegemonia americana é uma continuidade.
A guerra europeia faz parte do meu passado afetivo. É um período obscuro e, ao mesmo tempo, intensamente rememorado, quando meu pai ainda não havia imigrado para o Brasil. Obscuro porque no Brasil, ele, ainda jovem, conseguiu construir uma vida integral, depois que se despedaçou o mundo em que nascera e crescera. Ao serem relatados, na longa hora do jantar, os sofrimentos na guerra pareciam ao menino ter durado séculos. Quando a gente pensa que a guerra da Ucrânia está chegando aos três anos… Foi mais ou menos o tempo que durou a catástrofe italiana. A barra pesou muito para os civis italianos entre os anos de 1941 e 1944. No final, o país ocupado ao sul pelos americanos, ao norte pelos alemães.
A guerra da Ucrânia e a guerra de Israel são novos capítulos do grande livro de história do mundo que me formou. Eurocentrismo das referências, eurocentrismo da vida, eurocentrismo pai.
[3 de fevereiro]
Aí a gente se pergunta qual a diferença entre um regime dito autoritário antidemocrático e o regime que vige sob Trump. Assim como na Alemanha e Itália há cem anos, o fascismo instala-se no poder via eleições. As maiorias podem ser ganhas pelo fascismo.
É em nome dessa maioria que Musk está enviando hordas de seguidores para invadir repartições públicas (como fez certa época o bolsonarismo daqui do Rio) e colocando arbitrariamente em licença remunerada todos os funcionários públicos do país. Mediante ato de violência, o DOGE de Musk começou a obter acesso aos dados de todos os funcionários públicos do país, todos ameaçados de demissões – centenas aconteceram durante a semana.
A justificativa para seus atos de governo, Musk as dá na sua rede X e são todas apoiadas em mentiras e narrativas conspiratórias sem comprovação. Este é um dos homens que está mandando nos Estados Unidos. Adquiriu o poder de desmantelar instituições e destruir vidas profissionais com o apoio de seus seguidores, milícias desarmadas a que logo talvez venham se juntar, como força intimidatória da população, as milícias armadas que Trump perdoou e tirou da cadeia, pelo 06 de janeiro. É um “assalto à mão desarmada”, como escreveu ontem Dorrit Harazim.
***
Com a maior sem-cerimônia, Marco Rubio exerceu a política do big stick. Só que, na versão original, de Theodore Roosevelt em 1903, they were supposed to speak softly. Na modalidade imperial de agora, Rubio e Trump já foram de cara avisando que iam descer o cacete. E Rubio desceu. Saiu do Panamá levando a decisão do presidente daquele país de que não assinará o acordo pretendido com a China, no quadro do programa global Nova Rota da Seda. Em termos de América Central, a política de Trump ficou clara: erradicar a presença da China. Ou rompe relações comerciais com a China, ou eu te invado militarmente. Esta foi a mensagem de Rubio, expressa claramente para todo mundo verouvir.
Não sabemos como Trump vai lidar com a presença da China na América do Sul, no Brasil. Imagino que os diplomatas do Itamaraty e os assessores do PT estejam em polvorosa, na expectativa do que vem por aí. Não dá para invadir o Brasil, certo, Donald?
[5 de fevereiro]
O palestino nu, com sua criança
sem perna, sem olho, sem boca,
atravessando o deserto de escombros.
A família de Israel! A sombra
da estrela de cinco pontas, furiosamente azuis,
dedilhadas pelo Imperador dos cabelos de fogo.
Se eles te incomodam tanto,
é melhor eliminá-los para sempre,
sussurrou na surdina o Anjo da Shoah, a maldição.
Sucedeu que saiu o édito do Imperador.
Cairá no ridículo? algum dia reis terão sido
deixados nus, a não ser no seu enterro ou enforcamento?
Toda profecia se concretiza sobre escombros,
pedaços de corpos, no resort
a ser construído por doadores da campanha.
Palestina errante, erradia,
mediterrânea e agreste,
o que fizeste de errado?
