
O dever pode ser uma virtude, um imperativo moral ou uma exigência social. Mas o que acontece quando ele se torna uma obsessão? Em sua coluna Modulações desta semana, Alcida Rita Ramos reflete sobre os perigos do dever levado ao extremo. A partir de O crepúsculo do mundo, de Werner Herzog, a autora revisita a história do tenente Hiroo Onoda, o soldado japonês que passou quase três décadas na selva filipina, fiel a uma guerra que já havia acabado. A saga de Onoda ecoa em outras narrativas, do coronel britânico de A ponte do rio Kwai aos trabalhadores anônimos das ferrovias da Ásia e da Amazônia ‒ todos vítimas de um senso de dever que descarrilou. O que há em comum entre essas histórias? Entre ficção e realidade, o texto lança um olhar crítico sobre como certos ideais, cristalizados em crenças inabaláveis, podem ter consequências devastadoras.
Não deixem de acompanhar a nova coluna de Alcida na BVPS, que conta com a ilustração de Joana Lavôr. Para saber mais, clique aqui.
Boa leitura!
Dever, para que te quero?
Por Alcida Rita Ramos (UnB)
… e assim, de pouco dormir e de muito ler,
seu cérebro secou, de maneira que veio a perder o juízo.
(Cervantes, Dom Quixote)
O senso de dever é um dos pilares da cidadania, um conceito básico do estoicismo, uma virtude pessoal, uma exigência legal. Mas, como todo exagero, o dever levado às últimas consequências pode acabar sendo contraproducente, senão mesmo desastroso. Há exemplos canônicos na ficção ‒ como o inefável Dom Quixote ‒ como na vida real. Este tema me fez pensar quando li O crepúsculo do mundo, de Werner Herzog, publicado no Brasil em 2022. Em 94 páginas, ele expõe a saga do soldado japonês que continuou lutando a Segunda Guerra Mundial durante quase 30 anos depois da rendição do seu país em 1945. Passou as três décadas seguintes defendendo com unhas e dentes um Japão já derrotado, certo de que contribuía para a sua vitória final.
Sem entrar nos detalhes da magnífica prosa de Herzog, destaco a sua habilidade de transformar uma longa entrevista com o veterano japonês num verdadeiro thriller à altura da aventura vivida. Como seria de esperar, há um sabor cinematográfico no enredo que o formato de pergunta e resposta típico de entrevistas teria abolido. O resultado é uma leitura que não quer chegar ao FIM.
Em dezembro de 1944, o Tenente Hiroo Onoda foi deixado por um certo major Tanigushi em Lubang, uma ilha remota das Filipinas, com a incumbência de manter uma guerra de guerrilha contra o inimigo e governar a área com suas próprias regras, ordens essas que entrariam em vigor assim que as tropas japonesas fossem evacuadas do local e até o retorno do exército imperial. Do major recebeu uma única ordem: “Não lhe é permitido morrer por suas próprias mãos. Em vez disso, caso o senhor seja capturado, dará ao inimigo grande quantidade de informações enganosas” [fake news avant la lettre].
E assim se passaram 29 anos, Onoda guerreando aldeões filipinos, espantando-se com o que percebia como truques inimigos, como os inexplicáveis aviões sem hélice que lhe passavam sobre a cabeça, vendo morrer seu único companheiro, o cabo Shimada, resistindo a toda e qualquer tentativa de aproximação de emissários japoneses à sua procura. Por fim, em março de 1974, depois de várias missões de resgate frustradas, o mesmo major Tanigushi, agora um ancião civil, reencontra Onoda para a cerimônia de sua rendição perante as forças filipinas. Como que num choque temporal, Onoda emudece, e, num estado de torpor, estranha: “ ‘Se hoje é 9 de março, … então meu calendário está cinco dias atrasado’. ‘O senhor está vinte e nove anos atrasado’, Tanigushi replica”. O ápice da rendição foi a entrega da sua veneranda espada ao “inimigo” vencedor.
O senso de dever exacerbado de Onoda acabou ceifando vidas camponesas e destruindo a sua própria, mantida à força de uma ordem militar ‒ “não lhe é permitido morrer por suas próprias mãos” ‒ levada à risca. De volta ao presente, refeito do choque temporal e depois de uma temporada criando gado em Mato Grosso, Onoda faleceu em Tóquio em 2014 aos 91 anos de idade. As honras que nunca recebeu nos anos 1940 transformaram-no em celebridade instantânea três décadas depois, reavivada pela verve de Herzog.

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Em 1957, ainda no embalo da Segunda Guerra Mundial, estreia o filme britânico A bridge on the River Kwai, amplamente elogiado e premiado. De novo, cenas do Japão em guerra com o Ocidente. Uma ponte a ser construída, um pelotão britânico estagnado num campo de prisioneiros no Oriente, um coronel britânico imponente e orgulhoso e uma quase traição. Em comum com o caso de Onoda está o excesso de senso de dever que descarrila.
O filme é baseado no romance de Pierre Boulle Le Pont de la rivière Kwaï, de 1952. História parcialmente fictícia sobre a expansão e derrota japonesa na Ásia, a necessidade de uma rota providencial e a mão de obra de prisioneiros britânicos convenientemente posicionados para construir uma ponte que viabilizasse essa rota. O comandante japonês do acampamento impõe ao coronel britânico a tarefa de erguer a ponte. O Coronel Nicholson vê aí uma oportunidade de levantar o ânimo da sua tropa em desalinho moral e, ao mesmo tempo, mostrar sua habilidade de engenheiro. Escolhido à perfeição para esse papel, o ator Alec Guinness esbanja orgulho e elegância para gerar admiração no seu próprio algoz japonês. Ao longo da construção, a tropa se anima como se estivesse engrandecendo a própria Grã-Bretanha, enquanto seu comandante, perfeccionista, supervisiona a obra, saboreando seu distorcido senso de dever.
Entretanto, prisioneiros norte-americanos percebem o equívoco a tempo e propõem dinamitar a ponte, para horror do coronel. À sua revelia, instalam as bananas de dinamite já ouvindo o apito do primeiro trem. No auge do pandemônio que se segue, o Coronel Nicholson, finalmente percebendo que seu dever cego representava um devastador tiro no próprio pé, leva as mãos à cabeça e grita: O que foi que eu fiz?! Exemplo impecável de dever transformado em obsessão.

Estes comentários pedem uma pausa no tema dos limites do dever para fazer uma digressão que o ultrapassa. Pierre Boulle, no livro Le Pont de la rivière Kwaï, e David Lean, no filme A bridge on the River Kwai, produzem ficções fortemente baseadas em fatos históricos. É digna de nota a correspondência dessas obras com o romance brasileiro Mad Maria, do amazonense Márcio Souza. Destaca-se nas três obras um protagonista omnipresente: a ferrovia. Na Ásia, como no Brasil, ela devorou vidas em excesso para propósitos humanamente duvidosos e historicamente inúteis. Sua fama vem da destruição que causou e ninguém se lembra de qualquer benefício que tenha produzido.
Na Ásia, em plena Segunda Guerra Mundial, o exército japonês recrutou cerca de 300 mil prisioneiros para construir a estrada de ferro da Birmânia (hoje Myanmar) como antídoto militar contra derrotas contínuas. A construção envolvia cortar a densa floresta infestada de mosquitos num sobe-e-desce constante sob os aguaceiros das monções. Como se não bastasse, os prisioneiros-trabalhadores estavam expostos a doenças, desnutrição e a castigos e tortura pelos japoneses. Disenteria e diarreia contribuíram com mais de um terço de todas as mortes, além de cólera, malária e outras pestes tropicais. Cerca de sete mil soldados aliados estão enterrados ao longo da ferrovia fantasma asiática. O impacto da catástrofe foi tão grande que a Ferrovia da Birmânia passou a ser um lugar de peregrinação e turismo.
Três décadas antes, numa desastrada transação geopolítica na Amazônia, ficou acertada a construção da ferrovia Madeira-Mamoré, pano de fundo do livro de Márcio Souza. Supostamente para escoar a produção de borracha, no início do século XX, a estrada consumiu gigantescos recursos e uma multidão de vidas humanas para, ao terminar a obra em 1912, já ser obsoleta pelo declínio do ciclo da borracha. No livro Trem Fantasma (1988), Francisco Foot Hardman impacta o leitor com o tamanho da insensatez do projeto e o espantoso desperdício de recursos naturais e humanos. Com admirável ironia, nos diz na página 139:
Um nome, uma sigla ‒ Madeira-Mamoré Railway Company ‒ pesa mais do que todos os mortos anônimos da estrada. Sua lógica também nada tem de razoável, mas é capaz de produzir gestos pseudo-autônomos, na verdade automáticos, como se se tratasse de uma montagem teatral já meio desgastada após tantas e repetidas encenações.
E os mortos foram muitos! De 1907 a 1912, foram recrutados quase 22 mil trabalhadores vindos de cerca de 50 países diferentes. Foram registradas aproximadamente 1.600 mortes. Quantas ocorreram sem registro, não se sabe. As pestes que mataram esses trabalhadores não eram muito diferentes das que assolaram a ferrovia da Birmânia: disenteria, febre amarela, malária, além de calazar, pneumonia e sarampo. Tudo isso, diz Foot Hardman, motivado pela “fabulação ilusória em torno de sua necessidade, em função de sonhos incontidos, representações cristalizadas e crenças inabaláveis como a grandeza nacional”.
Crenças inabaláveis!
Voltemos aos heróis impolutos do dever a cumprir.
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Não é por acaso que Miguel de Cervantes Saavedra chega incólume ao século XXI. Seu feito, aparentemente imortal, foi transformar uma paródia de heroísmo em arquétipo de insensatez. Assim como Shakespeare, que criou personagens-protótipos da complexidade humana, também Cervantes ‒ por coincidência, ambos mortos no mesmo ano, 1616 ‒ doou à posteridade um dos monumentos mais espetaculares da literatura ocidental. Criar, como ambos criaram, personagens que contêm características universais talvez não tenha sido um ato consciente, já que a inspiração vem quase sempre do que se passa ao redor do criador, e é na diacronia que a universalidade se revela. Mas há que ter uma aguçada sensibilidade para distinguir o duradouro do momentâneo, a longa duração do imediatismo, e eles, sem dúvida, a tinham.

Compor o personagem de “um fidalgo daqueles de lança em riste, escudo antigo, cavalo magro e galgo caçador” e transformá-lo em aguerrido destruidor de inimigos imaginários, espelha, perfeitamente, os personagens do século XX que visito aqui. A insensatez de Dom Quixote, que confundia exércitos inimigos com moinhos de vento, foi alimentada por uma indigestão de leitura de livros de cavalaria (fenômeno que, aliás, também destruiu a vida da romântica e frustrada Madame Bovary, em busca de luxo e luxúria). Insuflado por essas leituras excessivas, o destino de Dom Quixote reverbera nas nossas histórias da Segunda Guerra Mundial. Enquanto Onoda, perdido no tempo, causa transtornos aos pacíficos camponeses das Filipinas, o Coronel Nicholson, perdido no orgulho do dever cumprido, por um triz, não premiou regiamente os seus algozes japoneses. O fio condutor que liga esses personagens é, precisamente, o exacerbado senso de dever, que, de tão evidente, tem merecido geniais obras de ficção. Mas a complexidade desse sentimento talvez caiba numa casca de noz: se escasso, pode descambar para a bandidagem; se excessivo, acaba desembocando na loucura.
Moral da história, se é que há uma: Dever, use com moderação.
De fato, que mais poderia convir à Loucura do que ser o arauto do próprio mérito e fazer ecoar por toda parte os seus próprios louvores? (Erasmo de Rotterdam, Elogio da loucura).
