
No palco do Teatro Firjan SESI, no centro do Rio de Janeiro, um clássico de Sófocles ganha novos contornos com Édipo Rec, peça do Grupo Magiluth que celebra os 20 anos da trupe pernambucana. Com direção de Luiz Fernando Marques e dramaturgia de Giordano Castro, a encenação reinventa Édipo Rei ao fundi-lo a um debate contemporâneo sobre a onipresença das imagens, a efemeridade do tempo e a busca por sentido em uma era saturada de registros.
Na crítica de Verônica Filippovna (UFRJ), publicada hoje pela BVPS, a peça é apresentada como uma experiência poética e sensorial de desconstrução e reconstrução de um texto clássico que questiona os modos como vemos e nos deixamos ver em um tempo em que tudo é imagem, gravação e performance.
Boa leitura!
Édipo, um clamor da vida
Por Verônica Filippovna (UFRJ)
Para os amantes do teatro, está lançado um instigante desafio: ver a atualidade da tragédia grega na contemporaneidade. Uma das peças, talvez, a mais encenada na história do teatro, Édipo Rei, escrita aproximadamente em 427 a.C., tem uma nova adaptação. O drama de Édipo – o decifrador de enigmas – motiva a pensar sobre o nosso destino e a nossa condição trágica.
Decifra-me ou te devoro. Em uma ousadia criativa, Édipo ganha os palcos da fictícia Tebas brasileira. Estreou em março no Teatro Firjan SESI a temporada carioca do espetáculo Édipo Rec. É uma peça que, a partir do enredo do parricídio e do enlace entre mãe e filho, faz uma crítica ao uso excessivo de imagens na atualidade, sobretudo as produzidas pelo celular nosso de cada dia. Música, dança, projeções audiovisuais e diálogos tanto irônicos quanto trágicos, transformam o espaço cênico em um lugar de tomada de decisões. O espetáculo começa não no palco, mas no hall de entrada do teatro: primeiro o espectador é seduzido pela música, que o convida ao canto e à dança; em seguida, personagens surgem e, quando menos se espera, todos, atores e público, estão no palco, participando de uma grande festa. O espectador tem consciência da situação dramática, instiga Édipo e Jocasta à ação, participa como coro, mas não se envolve diretamente.


Fotos de divulgação do Grupo Magiluth
Édipo Rec tanto retoma a força plástica da narrativa de Sófocles quanto celebra os 20 anos do Grupo Teatral Magiluth. A dramaturgia, assinada por Giordano Castro, foi se consolidando ao longo dos ensaios. Não se trata de mais uma “montagem” de Édipo Rei, e sim de uma experiência poética e sensorial de desconstrução e reconstrução de um texto clássico a partir da inserção e intervenção poética de elementos contemporâneos. Sobressaem-se, amiúde, a utilização e a interação com vídeos. Desse modo, opera-se na peça um experimentalismo assaz forte com a Sétima Arte. Cenas de filmes como Hiroshima, meu amor, de Alain Resnais (1959), Cabaret, de Bob Fosse, Cinema paradiso (1990), de Giuseppe Tornatore, Funeral de rosas (1969), de Toshio Matsumoto, são projetadas em telões espalhados pelo palco. Evidentemente, o longa-metragem Édipo Rex (1967), de Pier Paolo Pasolini, destaca-se como a mais relevante e, quiçá, a primeira inspiração da trupe para a composição do espetáculo.
É interessante destacar que o diretor Luiz Fernando Marques, o Lubi, tem realizado um trabalho que busca conciliar teatro e cinema; por outro lado, o Magiluth desenvolve um projeto teatral de pesquisa e experimentos sensoriais. Assim, Édipo Rec homenageia e, ao mesmo tempo, questiona o papel do teatro e do cinema na contemporaneidade. E, inclusive, coloca em debate a hipertrofia das imagens na atualidade, imagens triviais e quase sacras: cultuadas e, paralelamente, efêmeras, substituídas rapidamente por outras – instantâneas, passageiras, fugazes…
Ao contrário do que acontece na narrativa de Sófocles, a trama começa não com a peste, mas com a alegria esfuziante de uma Tebas que, sob o comando do DJ Édipo, “dança até os pés ficarem inchados”. Passado, presente e futuro se entrelaçam e envolvem o espectador no oculto – que está escancarado bem diante dos seus olhos! –, levando-o a sondar um sentido que, em vez de dar respostas às indagações, recoloca o enigma. A peste, a pandemia da Covid-19, aparecerá como um leitmotiv imaginário do Recife em 2024, e será fundamental para a peripécia e a anagnórise de Édipo.
Dividida em dois atos, a narrativa atrai nossa atenção de imediato. O primeiro ato é marcado pela excitação, pelo júbilo e vigor de um reino embevecido com o som do rei e DJ Édipo; já o segundo, caracteriza-se por uma busca da verdade. Qual verdade? O que é a verdade? A presença de memórias pessoais e históricas e eventos traumáticos, o questionamento da ânsia de o ser humano querer registrar praticamente tudo em imagens se amalgamam cenicamente e motivam o questionamento do sentido que imprimimos à nossa própria existência.
Édipo Rex dá corpo e voz à alteridade, muitas vezes apagada e silenciada em nossa sociedade conservadora. As personagens convidam à reflexão ao quebrarem tabus e romperem com preconceitos. Édipo (Giordano Castro) é um famoso DJ de tecno-brega que, entre o carisma e a arrogância, vai ao encontro de seu destino trágico. O corifeu (Erivaldo Oliveira) é uma personagem queer que, com sua “cabeça de Apolo e a língua de Dioniso” praticamente “rouba” a cena. Com seu leque e botas-de-salto, com elegância e autoridade, rege o coro e dialoga com as personagens por meio de palavras ou gestos ou danças. Tirésias (Pedro Wagner), o vidente cego, é um andrógeno. No mito grego, Tirésias já foi homem, mulher. E tudo vê/sabe em relação ao passado, presente e futuro. Um novo mito sobre a cegueira e a vida do adivinho tebano é criado. Kreon (Mario Sergio Cabral) oferece a irmã como troféu para o novo rei tebano. O mensageiro (Lucas Torres), fiel protetor de Laio, é um bêbado de boate e presenciou seu assassinato. Assim como em “O beijo no asfalto”, de Nelson Rodrigues, ele atende o último pedido de seu protegido e amigo. O rapsodo (Bruno Parmera) não recita nada, pelo contrário, registra todos os acontecimentos que consegue captar com sua câmera. Jocasta (Nash Laila) é uma mulher elegante e empoderada, não se subjuga a Édipo e desacredita de oráculos. Sua personagem representa uma mulher que desafia o patriarcado.

Vale acrescentar que a relação entre Édipo e Creonte, em alguns momentos, aproxima-se do tragicômico. É como se Sófocles e Nelson Rodrigues entrassem em cena, dialogassem um com o outro, orquestrassem experimentos teatrais, tocassem na nervosidade da vida e, antes de saírem do palco, deixassem a vida em seu grito. De regozijo? De dor? Há a cada instante um chamado, um apelo, um clamor da vida.
Também merece atenção o título Édipo Rec: Rec é uma referência direta ao Recife, terra natal da trupe, e é também a nomenclatura de audiovisual que significa “gravando”.
O Magiluth é um grupo de teatro criado na Faculdade de Teatro da Universidade Federal de Pernambuco. A trupe trabalha de modo coletivo e independente. Com paixão e entusiasmo, busca novos arranjos sensoriais e estéticos. Parte considerável da crítica teatral o considera um dos grupos teatrais mais relevantes do país. Em sua teatrologia, destacam-se Dinamarca (2017), criada a partir de Hamlet, Viúva, porém honesta (2017), a partir do texto original de Nelson Rodrigues, e Estudo N° 1: Morte e Vida (2022), inspirada no romance Morte e vida severnina, de João Cabral de Melo Neto, em que o problema dos refugiados do clima, desde o Nordeste do Brasil à Kiribati, no Oceano Pacífico, é representado a partir do protagonista Severino.
A retomada e atualização de uma tragédia grega ocorre pela primeira vez com Édipo Rec. A originalidade do drama trágico de Édipo torna a ida ao teatro um prazer absoluto. Convite à reflexão de nosso próprio destino trágico, a peça nos faz perceber que estamos sempre recomeçando. A vida, essa trama de venturas e desventuras, esse emaranhado de encontros e desencontros, essa travessia tensa e intensa arrasta-nos por caminhos sinuosos, desencontrados, desconhecidos… Afinal, o que fazer?!
