Presença da língua e da literatura francesa no Brasil, por Silviano Santiago

Trazemos texto de Silviano Santiago, divulgado anos atrás, sobre momentos emblemáticos da história dos afetos culturais franco-brasileiros, tema geral do I Colóquio Internacional Diálogos Possíveis: Brasil–França, organizado por Ana Karla Canarinos e Rodrigo Jorge Neves, que está acontecendo essa semana na Uerj (Campus Maracanã). Silviano fará a conferência de encerramento amanhã, às 17h30, na qual certamente retomará problemas e questões indicados para o nosso público leitor.

Para conferir informações sobre o Colóquio, clique aqui. Boa leitura!


Presença da língua e da literatura francesa no Brasil

(Para uma história dos afetos culturais franco-brasileiros)

Por Silviano Santiago

Para Denílson Lopes

Entre os tempos diferentes da história, a longa duração se apresenta como um personagem volumoso, complicado e muitas vezes inédito. Admiti-lo no coração de nosso ofício não será uma manobra simples, semelhante ao habitual alargamento dos estudos e das curiosidades. Não se trata, tampouco, duma escolha em que ele será o único favorecido. Aceitá-lo, para o historiador, significa prestar-se a uma mudança de estilo e de atitude, a uma contravolta de pensamento e nova concepção de social. Trata-se de se familiarizar com um tempo em câmara lenta, algumas vezes apenas à margem do que move.[1]

Fernand Braudel, Histoire et sciences sociales : la longue durée (Annales, 1958).

Antes de entrar no tema proposto pela Academia Brasileira de Letras – o da presença persistente e ainda viva da língua e da literatura francesa no Brasil –, seria preciso esboçar um patamar para a fala. Devem ser nomeados os pressupostos teóricos duma longa e delicada história dos afetos nas relações culturais entre duas regiões populacionais distantes no espaço geográfico do planeta e desarticuladas no tempo de maturação do Ocidente. Traçar as linhas gerais dessa história desequilibrada e, no entanto, calorosa, implica voltar à época dos grandes descobrimentos marítimos, quando, em evidente afronta ao poder administrativo e militar lusitano, os gauleses pisaram o território que não pertencia de direito ao rei cristianíssimo da França e estenderam as mãos aos nossos indígenas.

Na História canônica do Brasil, a apelação para os primeiros franceses que desembarcam aqui é a de invasores, quando não é a de corsários, em contraste patente com a apelação legal de conquistadores e de colonizadores concedida aos portugueses. A tradicional distinção entre colonizadores portugueses e invasores franceses se sobrepõe a outra, de caráter religioso, derivada da instabilidade doutrinária que atinge as monarquias europeias no período da reforma e da contra-reforma. Os marinheiros lusos são secundados pelos missionários pertencentes à Companhia de Jesus, enquanto os franceses buscam disseminar na terra recém-descoberta os ensinamentos reformistas de Calvino.

Acrescente-se, finalmente, que o acontecimento da descoberta do Novo Mundo e as primeiras décadas de sua colonização trafegam em mão única. Nosso indígena não desbrava o Atlântico Sul em direção ao hemisfério norte, com a intenção de conhecer seu outro, dito civilizado. Já o marinheiro europeu ultrapassa a linha do Equador e aqui desembarca a fim de ocidentalizar seu outro, dito selvagem. A desarticulação entre a história europeia e a história americana – responsável pelo propalado desequilíbrio entre as nações do norte e as do sul – é consequência de conhecimento técnico-científico, segregado por apenas uma das partes. No nosso caso, a dita superioridade da cultura lusitana sobre a indígena se deve aos fundamentos cosmográficos e náuticos desenvolvidos e aperfeiçoados na mítica Escola de Sagres.

Trazida aos dias de hoje, a viagem dos grandes descobrimentos se casa com outra de mão única – a viagem interplanetária em tempos de globalização, ciceroneada pelo lançamento do Sputnik. Ontem, por audácia ou coragem, por cobiça ou ânsia de glória, ou pela majestática implantação da Fé e do Império (como nos ensinou Luís de Camões), o marinheiro europeu se rebelava contra a mentalidade feudal e a doutrina religiosa reinantes no velho continente e se atirava aos mares desconhecidos em busca de novas terras e outras gentes. Nos melhores casos, a conquista se abraçava à busca de liberdade. Atualmente, por motivações semelhantes, o astronauta se rebela contra a visão apocalíptica decorrente do meio ambiente poluído da terra e, montado num foguete tão solitário e frágil quanto a antiga caravela, se lança pelo espaço intergaláctico, a fim de pôr o pé em outro planeta, para nele fincar sua bandeira nacional.

A narrativa dos afetos culturais entre brasileiros e europeus – a ser limitada, posteriormente, aos aspectos linguísticos e literários que associam os franceses a nós e nós a eles – recobre, pois, pouco mais de cinco séculos e, se narrada, como é nosso intento, abriria outro capítulo na história das mentalidades, de que foram arautos os pesquisadores da École des Annales. Trata-se de estabelecer os pressupostos e traçar as linhas duma “histoire de longue durée”, para retomar o conceito de Fernand Braudel. Apesar de contar com meio milênio de vida, essa história narra um pequeno número de acidentes de percurso e poucas peripécias arrojadas. No entanto, durante o mesmo período de cinco séculos, o trepidante e cambiante progresso econômico e técnico da Europa coabitou – sim e não – com o progresso social, intelectual e moral do Ocidente. As conquistas históricas do homem, de que são exemplos os descobrimentos marítimos, o Iluminismo, a Revolução Industrial e a soviética, e os acontecimentos de maio de 1968, foram sucedidas por movimentos lamentáveis de marcha à ré, de que são exemplos a Santa Inquisição, a escravidão dos índios e dos africanos, as infindáveis guerras continentais e mundiais e, mais recentemente, o Holocausto.

Essas voltas e reviravoltas da história événementielle, para retomar outro conceito de Fernand Braudel, se passaram sob a força coerciva de governos nacionais e de convenções administrativas e religiosas arbitrárias, pouquíssimas vezes justas, toleráveis algumas vezes e sempre cruéis. Por isso é que, dos últimos cinco séculos da saltitante e apressada história sócio-política e econômica do Ocidente, sairão ao final os “homens ocos”, de que falou em 1925 o poeta inglês T. S. Eliot, ou os “homens partidos”, de que fala em 1945 o brasileiro Carlos Drummond no poema “Nosso Tempo”. Já da lenta história dos afetos culturais, que transitam de um lado ao outro do Atlântico, sairá fortalecido o “homem humano”, para retomar a reveladora expressão do acadêmico Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas.

Ao início desta fala, cito alegoricamente nosso companheiro de Letras a fim de passar ao ouvinte o sentido da história dos afetos culturais franco-brasileiros e o gostinho da última frase a ser proferida: “Existe é homem humano. Travessia.”

Cada nova geração de brasileiros que desenvolve o afeto pela língua e pela literatura francesa fala de sua simpatia sentimental e intelectual por seres semelhantes e de boa formação artística, técnica e intelectual, ainda que nossos análogos do norte – nos primeiros séculos do meio milênio em questão – sejam considerados superiores. Mesmo se a diferença colonial tivesse ganhado peso nas disputas técnico-científicas e financeiras, continuamos semelhantes porque na condição de viventes somos todos iguais no plano dos sentimentos, das emoções e das paixões, e são legítimas as aspirações estéticas, sócio-políticas e espirituais dos brasileiros. Liberté, égalité et fraternité – não é o que prega a Revolução Francesa?

Quando se fala de afeto cultural entre franceses e brasileiros, fala-se, portanto, da ambiguidade sentimental e racional como uma rainha caprichosa e mordaz, que dá o braço a torcer para que não haja discórdia entre as partes envolvidas, porque sabe, de antemão, que do desentendimento técnico-científico e financeiro nasce também a harmonia moral entre nações distantes no tempo de maturação do Ocidente e no espaço que separou durante milênios o velho mundo europeu das nações americanas que lhe foram agregadas. As sucessivas gerações de antigos colonos e de cidadãos brasileiros falam da adesão incondicional, ou relativa, ao Ocidente. Salientam, em primeiro lugar, os aspectos estranhos ou mesmo bizarros duma sociedade distante e diferente da nossa, a francesa, que – no meio milênio em questão – conseguiu nos atrair, por ter incorporado, depurando e atualizando, a papa-fina do glorioso passado greco-romano e judaico-cristão.

Como era gostoso o meu francês – não foi o brejeiro e sintomático título escolhido pelo cineasta e acadêmico Nelson Pereira dos Santos para um de seus filmes mais notáveis? Esse título não traduziria a ambivalência dos afetos a que estamos nos referindo? Ou seja, não associa ele a crueldade antropofágica existente no convívio político e financeiro com os franceses ao deleite sensorial e estético dos brasileiros no aprendizado ocidental? No comovente poema “Arrivée dans la baie de Guanabara”, a poeta moderna Jane Catulle Mendès, confessa-se tomada por um misto de euforia e medo frente à paisagem da então capital federal: “Heureuse d’être vive et toujours en danger, / Rien des mondes sacrés ne peut m’être étranger”. [1]

Da história dos afetos culturais franco-brasileiros não poderá estar ausente nem mesmo a figura maior do apostolado lusitano nos trópicos – o basco Inácio de Loyola. Ao final de sua formação intelectual, comungou com a língua e as letras francesas no Colégio de Santa Bárbara, em Paris. Lá, estudou Artes e se licenciou em 1533, tendo sido feito Mestre em Artes em 1534. Naquele colégio parisiense conheceu o futuro Padre Fabro, de nascimento Pierre Lefèvre, premier Compagnon de Saint Ignace. Em seus momentos iniciais, a história dos afetos culturais que associam o Brasil à França já era trabalhada indiretamente e às costas da desavença político-econômica e religiosa quinhentista, que jogará colonizadores portugueses contra invasores franceses na capitania que hoje é esse nosso Estado do Rio de Janeiro.

No correr dos séculos, sucederam-se as gerações de portugueses e de estrangeiros aclimatados, de colonos e de cidadãos brasileiros, que passaremos a chamar de afrancesados. Em meio milênio de vida no planeta, os laços culturais estabelecidos entre nós e os gauleses se acumularam, enriqueceram-nos mutuamente e, muitas vezes, se autodestruíram frente a forças militares que se tornaram poderosas no xadrez da História événementielle. Laços culturais são estáveis e são efêmeros, já que a experimentação em comum de ideias e de pensamentos diversos, às vezes conflitantes, outras vezes contraditórios e até mesmo paradoxais, passa pela experiência individualizadora de sucessivos e precários seres humanos, dedicados e solitários, a que chamamos de leitores.

Leitores afrancesados são seres sentados na escrivaninha de casa ou são consulentes numa biblioteca pública ou universitária, a ler jornais, revistas e livros estrangeiros, à luz do sol, da vela, do lampião ou do abajur. Infelizmente, a história dos afetos culturais, que nos compete narrar, tem como personagem apenas o minguado número de cidadãos letrados do Brasil colonial e monárquico. Hélas! – como exclamam os amigos franceses.[2] Cidadãos letrados são seres humanos de carne e coração tristes, como reza o verso de Stéphane Mallarmé: “La chair est triste, hélas! et j’ai lu tous les livres”.[3]

Dar os primeiros passos numa história dos afetos culturais significa, pois, pôr a mão do pensamento e o dedo do coração na experiência pessoal e transferível do leitor brasileiro afrancesado. Graças aos valores herdados pelo convívio fraterno com a letra impressa, nosso conterrâneo pôde, por seu turno e como exemplo, inspirar movimentos sócio-políticos de grande complexidade humana, como a Inconfidência Mineira. Já no século XVIII, não fosse afetuosa a relação cultural entre os brasileiros cultos e rebeldes e as instituições de ensino francesas, Vendek, codinome do jovem José Joaquim Maia e Barbalho, não teria se matriculado na Faculdade de Medicina de Montpellier e não teria escrito a Thomas Jefferson, então presidente dos Estados Unidos da América, uma carta que se tornaria histórica. Nela, o acadêmico carioca se autodefine pela língua francesa: “Je suis brésilien et vous savez que ma malheureuse patrie gémit dans un affreux esclavage, qui devient chaque jour plus insupportable depuis l’époque de votre glorieuse indépendance”. E Vendek continua, dizendo que os brasileiros queriam romper as cadeias que os prendiam a Portugal, a fim de “faire revivre notre liberté”.

A revolta do brasileiro contra a opressão colonial se exprime, pois, por um idioma que nos é estrangeiro, o francês, que passa a questionar – do lado de fora do português, por dentro do pensamento libertário francês e em território gaulês – o andamento abusivo e cruel da administração lusa nos trópicos. Exprime-se por um vocábulo francês – liberté – que estará de volta nos anos 1940 no poema de Paul Éluard, traduzido por Carlos Drummond e Manuel Bandeira em plena vigência do Estado Novo. Vale a pena citar a estrofe final do poema em tradução: “E ao poder de uma palavra / recomeço minha vida / nasci pra te conhecer / e te chamar Liberdade”. Além de a tradução do poema ser um exemplo moderno na nossa história dos afetos, também o é o ato heróico do pintor Cícero Dias, então residente em Paris. É ele que contrabandeia o poema de Eluard para a Inglaterra, sendo coresponsável pela sua divulgação sob a forma de panfletos lançados dos aviões por toda a Europa ocupada pelos nazistas.

Se não tivesse havido a libertária Faculdade de Montpellier no passado setecentista brasileiro, outro de seus alunos, o futuro inconfidente Domingos Vidal Barbosa, não teria tido acesso à Histoire philosophique et politique des établissements et du commerce des Européens dans les deux Indes, escrita pelo Abade de Raynal. Na província do ouro e das pedras preciosas, Vidal Barbosa recitava de cor trechos e mais trechos dos quatro densos volumes escritos pelo abade, que eram ouvidos e apreciados pelos companheiros inconfidentes. Comenta o historiador Kenneth Maxwell em A devassa da devassa: “[…] a ampla descrição do Brasil feita por Raynal, seu depreciativo retrato de Portugal e a condenação da influência exercida pela Inglaterra, econômica e politicamente, e o parecer de que os portos do Brasil deviam ser abertos ao comércio de todas as nações, contradiziam frontalmente a nova tendência política de Lisboa”.[4]

Quando se quer narrar uma história dos afetos culturais que são intermediados unicamente pela letra impressa em língua francesa e pela leitura no original, ou mesmo na tradução deste à língua portuguesa, há que se adentrar de imediato no campo da Educação nacional. O relacionamento afetuoso entre brasileiros e franceses se iniciou – de maneira apenas virtual, como diríamos hoje – na sala patriarcal e se estendeu por décadas a fio de aprendizado e de leituras nos bancos escolares. Língua e literatura francesa estão na base da formação moral e intelectual de brasileiros privilegiados, e se perpetuam em carreiras profissionais de maior ou de menor prestígio cultural, sócio-político e financeiro.

A partir da queda de Napoleão e da chegada da Mission artistique française ao Rio de Janeiro, em 1816, é o solo educacional, onde pisa o cidadão brasileiro privilegiado, que se torna afrancesado. A curiosidade intelectual dos nossos antepassados – tanto pelos clássicos da literatura e do pensamento universal, quanto pelos autores estrangeiros contemporâneos – passa a ser satisfeita pelas edições em francês, que nos chegam pelo cais do porto. Dois livros de Fénélon (1651-1715) – o romance didático Les aventures de Télémaque e as Fables choisies – são os mais adotados pelos mestres-escolas de francês. A preferência indica que, no Brasil colonial e monárquico, o principal eixo na formação literária do jovem estudante era conservador, já que idêntico ao desenhado para o adolescente nobre e culto francês, às voltas com a educação do Duque de Borgonha, a quem, aliás, é dedicado As aventuras de Telêmaco.

No ensaio “O francês como língua de desenvolvimento”, Antonio Candido (1977) surpreende o momento histórico em que os letrados brasileiros adotam o francês como língua “universal” (as aspas se impõem hoje, quando se questiona o eurocentrismo). Escreve Candido: “Foi por intermédio das traduções francesas, por exemplo, que os brasileiros do século XIX leram autores clássicos da literatura mundial, como Goethe, Byron, Schiller […]”. Em meados do século XX, Walter Benjamin não traduziu ideia diferente ao estudar a obra de Charles Baudelaire no contexto de Paris, a capital do século XIX.

Entre nós, a mediação universalizante da língua francesa – continua o ensaísta paulista – trouxe como consequência – já agora entre os que se queriam artistas e intelectuais – a paulatina substituição do estudo das culturas clássicas (em língua grega e, principalmente, em língua latina) pelo estudo do francês e de sua extraordinária literatura.[5] Em apoio à observação e à tese de Antonio Candido, assinale-se que o ensino obrigatório da língua francesa na escola pública brasileira teve início com a criação do Colégio Pedro II, em 1837. Observa o historiador e pintor J. B. Debret (Debret, 1954: 17-18) a respeito do ensino do francês em época anterior: “Em 1816 havia apenas dois colégios particulares […]. Também alguns franceses, forçados a tirar partido de sua educação, davam lições de Língua Francesa e de Geografia, em casa de pessoas ricas. […] As moças aprendem com facilidade a traduzir e a escrever a Língua Francesa, mas encontram em geral certa timidez em falá-la”.

A precursora instituição imperial de ensino público, cujos currículos enciclopédicos apresentavam-se com feição predominantemente literária,[6] propunha também a leitura de manuais escritos em francês, versando sobre disciplinas científicas, como a zoologia, a botânica, a física e a química. No livro Belle Époque tropical, o brasilianistaJeffrey Needell (Needell, 1993: 78) arrola os livros franceses que eram estudados no Colégio Pedro II: “o Atlas de Delamarche, a Grammatica Franceza de Sevène, as Nouvelles narrations françaises de Filon, a Historia romana de De Rosoir e Dumont, o Cours de Littérature française de Claude André, o Cours élémentaire de philosophie de Barbe e o Manuel d’Etudes pour la préparation du baccalauréat en lettres: Histoire des temps modernes”.

Sendo o francês obrigatório no currículo da escola pública do século XIX, natural que seja inaugurada, em 1885, uma Aliança Francesa no Rio de Janeiro, ou seja, dois anos após a fundação da sociedade em Paris. Graças à intermediação do psicólogo Georges Dumas, um verdadeiro diplomata universitário no Brasil da República Velha, cria-se em 1915 o Liceu Francês no Rio de Janeiro, e em 1923, o Liceu Francês em São Paulo. Conforme informa Claude Lévi-Strauss em Tristes tropiques, é ainda Georges Dumas que, no início da década de 1930, é contatado em Paris pela elite governamental e financeira paulista, para convidar jovens universitários franceses, agrégés, dispostos a compor o quadro docente inaugural da Universidade de São Paulo.[7] Nesta, é criada em 1934 a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que tem como uma de suas atividades o curso precursor de Língua e Literatura Francesa. Seu primeiro regente foi o professor Robert Garric.[8]

A história dos afetos culturais entre cidadãos brasileiros e franceses se articula e se movimenta predominantemente num jogo entre docentes e discípulos, entre livros e leitores. E requisita por parte dos segundos – discípulos e leitores – o aprendizado de uma língua suplementar, o francês, que passou a ser nossa segunda no século XIX. Nos dias de hoje, a língua francesa se esconde – hélas! – nos interstícios da língua inglesa, dominante e planetária.

Dado o quadro pedagógico descrito sumariamente acima, natural que, em seguida à Independência brasileira e por ocasião da aclimatação nos trópicos do movimento romântico, a literatura francesa, e outras literaturas europeias em tradução francesa, passem a ser o principal “influxo externo” (para retomar a expressão de Machado de Assis) [9] a movimentar a nossa produção literária e intelectual. As nossas histórias da literatura – desde a do francês Ferdinand Denis, cujo Resumo histórico do Brasil foi adotado nacionalmente durante o segundo reinado, até as de Afrânio Coutinho, de Antonio Candido, de Alfredo Bosi e de Wilson Martins, consagrados mestres da universidade brasileira – não camuflam o trânsito em direção ao Brasil das ideias e ideais estéticos franceses.

Acentuaremos, no entanto, o modo singular como a literatura francesa é acolhida pelos nossos futuros escritores e o tratamento estético que lhe é dispensado por eles em suas obras. Acolhida e tratamento estético da literatura francesa por brasileiros não se apresenta sob a forma de cópia ou de plágio, mas se afirma de maneira substantiva e original. Nas transformações operadas pela língua portuguesa na língua francesa, nas transformações operadas pelo texto literário brasileiro no texto literário francês, é que nasce a originalidade da literatura brasileira no século XIX. [10]

Na rota marítima por onde transita o afeto cultural franco-brasileiro, nesse espaço de transformação – que preferimos à apelação ultrapassada de influência, que carreia consigo os conceitos de matriz francesa e de cópia brasileira – se a palavra – por exemplo, indien / índio – é a mesma, seu significado circula entre nós e pelo mundo uma mensagem, outra e diferente. Uma mensagem de sentido inverso à proposta pelo texto francês que o brasileiro lê. Estamos isolando, por mera comodidade expositiva, a palavra índio. Nos romances de Cha­teau­briand e de muitos outros românticos europeus, a palavra indien está na origem de um notável tema literário oitocentista que, ao expor o desejo de escapar dos limites estreitos da pátria europeia, convida o leitor à evasão e à viagem transatlântica. Incita-o, enfim, a viver a utopia exótica, cujo modelo lhes é dado pelo “bon sauvage”, estudado pelo acadêmico Afonso Arinos de Melo Franco em O índio brasileiro e a Revolução Francesa; as origens brasileiras da teoria da bondade natural.

Já num romance indianista de José de Alencar, onde é visível a presença dos famosos romances americanistas de Chateaubriand, como Atala, a transformação de indien em índio está na origem da constituição dum símbolo político. O índio — Peri, Iracema ou Ubirajara — é símbolo do nacionalismo que eleva sua voz livre (aparentemente livre, como infelizmente é muitas vezes o caso), depois das sangrentas lutas a favor da independência do Brasil. Se o significante é o mesmo, o significado é completamente diferente.

Se entre os europeus o vocábulo indien exprime um desejo de expansão colonizadora, já sua transformação em índio pelo escritor brasileiro marca a vontade de estabelecer os limites da nova pátria, o Brasil. Representa ele a forma mais profunda de uma nova comunidade no Novo Mundo – a brasileira –, que se afirma pela imaginação do artista. No século XIX, nossos melhores romancistas, poetas e ensaístas deram forma à nação brasileira graças ao influxo externo europeu – francês, em particular. Exibiam o Brasil ao mundo sob a forma duma “comunidade imaginada”, para retomar o conceito de Benedict Anderson, (2008), recentemente retrabalhado com grande êxito por Doris Sommer (2004).

As comunidades imaginadas por nossos artistas da palavra foram escritas pelo estilo romântico e re-escritas, sucessivamente, pelos estilos realista-naturalista, parnasiano e simbolista. Já nas primeiras décadas do século XX, serão re-escritas pelo estilo modernista, de que são exemplos o romance Macunaíma, de Mário de Andrade, e a Poesia Pau-Brasil, de Oswald de Andrade.

Com esses dois modernistas e as respectivas obras, reabro o capítulo onde o afeto cultural franco-brasileiro transborda. Transborda e abala a rota tranquila dos cargueiros de café paulista pelo oceano Atlântico e o trânsito das letras e artes francesas para o Brasil. Pelo gesto iconoclasta e pelo prazer da boutade, o afeto cultural do jovem modernista pela França compromete o ritmo das transformações, a que estava acostumado o brasileiro letrado no século XIX. Na primeira metade do século XX, jovens escritores e intelectuais de todo o Brasil procuraram aclimatar as ousadíssimas teorias vanguardistas europeias ao então acanhado ambiente cultural brasileiro, tendo a agressiva antropofagia como proposta teórica. Essa história também já foi narrada pela melhor crítica nacional e estrangeira.

Para não repeti-la, resolvo interferir no debate modernista por um viés insuspeito e emblemático – o da viagem de Paul Claudel e do compositor Darius Milhaud ao Brasil, mais precisamente, ao Rio de Janeiro, em 1917. O poeta chega como “Ministro”, para utilizar o jargão técnico do Quai d’Orsay, e tinha sido nomeado Encarregado dos Negócios da França no Brasil. Substituía Jules Chevalier, técnico em economia.[11] O compositor e músico fora escolhido pelo próprio Claudel para ser não só seu secretário na Legação, como também o responsável pelo serviço de propaganda (estamos em plena Primeira Grande Guerra, não esqueçamos).

Tínhamos de terminar a história dos afetos culturais franco-brasileiros por um questionamento da interjeição hélas!, de que nos valemos para salientar que o brasileiro não-letrado e economicamente desprivilegiado esteve ausente da história de longa duração que narrávamos. Ele aparece ao final de nossa história – e muito bem –, se evocarmos a figura extraordinária do compositor Darius Milhaud e as palavras de que se serve para descrever sua estada de ano e meio no Rio de Janeiro. Sigamos o caminho traçado por ele no livro intitulado Notes sans musique. [12]

Ali, o famoso compositor relembra que tinha chegado ao Rio de Janeiro na época certa. O carnaval soprava “um vento de loucura” sobre a cidade. Entusiasma-se com a beleza da Rua Paissandu, onde se encontra a Legação da França, e com os cocares das palmeiras esguias. Admira os cordões carnavalescos, o corso, os desfiles das escolas e, em qualquer praça da cidade, regala-se com as danças populares. Anota o sucesso do samba de Donga, “Pelo telefone”, eleito o melhor de 1917. Ouvidos atentos, ele observa que o samba de Donga é tocado pelas bandas militares, as pianolas e os gramofones, é cantado pelos orfeões municipais. É assobiado por todos os transeuntes.

Milhaud se deixa embalar pelo ritmo personalíssimo da música popular brasileira. Compra uma grande quantidade de partituras de maxixes e de tangos (nome pelo qual era conhecido o chorinho na época). Surpreende-se com a batida negra e sofisticada das melodias. O compositor anota: “há no breque uma suspensão imperceptível, uma respiração nonchalante, uma parada ligeira”. No salão da rua Paissandu, ele tira do piano maxixes e tangos, para em seguida concluir: “meus esforços foram recompensados”. Admira Ernesto Nazareth, que toca piano à porta do antigo cinema Odeon. Anota: “seu toque fluido, impalpável e triste me ajudou também a melhor conhecer a alma brasileira”.

Milhaud se lembra de quando deixou o Rio de Janeiro em fins de 1918: “Estava feliz com a ideia de voltar a Paris, de rever parentes e amigos, mas minha alegria estava marcada por certa nostalgia: amava profundamente o Brasil”. Segundo Alexandre Eulálio, “Darius Milhaud foi sem dúvida o primeiro intelectual a despertar a curiosidade de [Blaise] Cendrars pelo Brasil”. O resto da passagem desse francês por nossa terra está nas suas grandes obras musicais, como a composição Le Bœuf sur le toit, de 1919, que teve como inspiração confessa o tango O boi no telhado…, de Zé Boiadêro, lançado no carnaval carioca de 1918. Dois anos depois, Milhaud compôs a suíte Saudades do Brasil, onde cada composição leva o nome de um bairro carioca. Em 1922, a convite seu, o famoso grupo do Pixinguinha, Os Oito Batutas, tocava em Paris. O popular e complexo adubo musical encontrado pelo francês Milhaud nas ruas e praças do Rio de Janeiro fez também florir o gênio de um de seus melhores amigos brasileiros, Villa-Lobos.

Retomo Guimarães Rosa para uma vez mais definir o sentido da história dos afetos culturais franco-brasileiros: “Existe é homem humano. Travessia”.


Notas

[1] “Entre les temps différents de l’histoire, la longue durée se présente ainsi comme un personnage encombrant, compliqué, souvent inédit. L’admettre au cœur de notre métier ne sera pas un simple jeu, l’habituel élargissement d’études et de curiosités. Il ne s’agira pas, non plus, d’un choix dont il serait le seul bénéficiaire. Pour l’historien, l’accepter c’est se prêter à un changement de style, d’attitude, à un renversement de pensée, à une nouvelle conception du social. C’est se familiariser avec un temps ralenti, parfois presque à la limite du mouvant.” A tradução é minha.

[1] Na tradução de Cláudio Veiga: “Feliz por estar viva e sempre no perigo, / Neste mundo sagrado, eu nada julgo estranho”.

[2] Em 1846, a viajante austríaca Ida Pfeiffer observava: “Admito de boa vontade que, com relação à instrução, [os negros brasileiros] não se aproximam dos brancos, apenas creio que não é preciso procurar a causa em sua falta de inteligência, mas na falta completa de educação. Não existe escola para eles, não recebem qualquer instrução; numa palavra, não se faz coisa alguma para desenvolver suas faculdades intelectuais”.

[3] Na tradução de Guilherme de Almeida: “A carne é triste, e já li todos os livros, todos”.

[4] Do mesmo autor, consultar Naked tropics: Essays on Empire and Other Rogues, em especial o capítulo 7, “The Idea of the Luso-Brazilian Empire”.

[5] Ainda bem atual, em especial no caso das nações africanas, seria o capítulo que trataria das dificuldades que uma língua de colonização teria para se transformar em língua de cultura dos novos cidadãos. Se correta a tese do acadêmico Celso Cunha de que “até 1759 o sistema pedagógico adotado tanto em Portugal como em suas colônias, nos níveis que poderemos considerar secundário e superior, não incluía o ensino de português, ensino que se restringia à alfabetização nas escolas menores”, chega-se à conclusão de que a língua dominante no século XIX, o francês, estaria predestinada a ser “universal” nessas regiões. A tese do professor Celso se apóia em crítica à Ratio Studiorum dos jesuítas, que visava a passar “os alunos da alfabetização diretamente para o latim da Gramática do Padre Manuel Alves, inteiramente escrita nessa língua”. Daí que, ainda segundo o mestre, há que avançar “outra verdade, que desmente a afirmação […] de que os colégios dos jesuítas foram, no Brasil-colônia, centros de cultivo e de difusão da língua portuguesa”. Enfraquecida pelos séculos de colonização, a língua portuguesa não tinha estatuto condigno para propiciar o acesso da elite brasileira ao melhor da cultura Ocidental. As citações acima foram extraídas de Celso Cunha, “Um pouco de história”.

[6] O programa do Colégio Pedro II em 1850 indicava como leitura obrigatória: Grammaire (primeiro ano), Buffon, Morceaux choisis (segundo), Fénélon, Morceaux choisis (terceiro), Massillon, Petit Carême (quarto), Montesquieu, Selecta de Blair (quinto), Racine, Athalie (sexto) e Bossuet, Oraisons funèbres (sétimo ano).

[7] Além de Lévi-Strauss, citem-se os nomes de Roger Bastide (sociologia), Paul Arbousse-Bastide (sociologia), e Fernand Braudel (história). Lembrou-me o acadêmico Alberto Venâncio Filho que, em 1935, Anísio Teixeira, Secretário de Educação do Distrito Federal, criou a Universidade do Distrito Federal (UDF) e convocou para reitor Afrânio Peixoto. Este, em contacto com Georges Dumas, contratou uma equipe de professores franceses. A UDF recebeu elenco de grandes mestres da Sorbonne, entre os quais Henri Hauser (história), Henri Tronchon (literatura comparada), Emile Bréhier (filosofia), Jean Bourcier (filosofia romana), Eugen Albertini (história antiga) e Pierre Desfontaines (geografia). A partir de 1936, Dumas é de novo requisitado. Dessa feita pelo Ministro Gustavo Capanema. Às exigências de qualidade acadêmica Capanema acrescenta outras de ordem religiosa. Os convidados para a Faculdade Nacional de Filosofia deveriam ser professores católicos: René Lucien Poirier (filosofia), André Ombredonne (psicologia), Jacques Lambert (sociologia), André Gros (ciência política), Charles Antoine Bon (história da antiguidade e da idade média), Maurice Byé (economia política), Victor Marie Lucien Tapié (história moderna).

[8] Maria Sabina Kundman observa que o citado curso, do ponto de vista docente, apresenta dois momentos bem significativos. Escreve ela: “Um primeiro, de 1934 a 1974, marcado pela presença dos professores franceses como regentes de curso, e o segundo, a partir de 1974, caracterizado pela regência pedagógica e administrativa de professores locais”.

[9] Em 1879, o patrono desta Casa, Machado de Assis, dá como “verdade de La Palisse” [sic] o fato de que é “o influxo externo que determina a direção do movimento [cultural brasileiro]; não há por ora no nosso ambiente a força necessária à invenção de doutrinas novas”.

[10] Seguimos de perto os ensinamentos de Jacques Derrida (1972): “Nos limites em que ela é possível, ou pelo menos ela PARECE possível, a tradução pratica a diferença entre significado e significante. Mas se essa diferença nunca é pura, a tradução não o será mais, por isso é necessário substituir a noção de tradução por uma noção de TRANSFORMAÇÃO: transformação regulada de uma língua para outra, de um texto para outro” (Dans les limites où elle est possible, où du moins elle PARAIT possible, la traduction pratique la différence entre signifié et signifiant. Mais si cette différence n’est jamais pure, la traduction ne l’est pas davantage et, à la notion de traduction, il faudra substituer une notion de TRANSFORMATION: transformation réglée d’une langue par une autre, d’un texte par un autre.)

[11] Escreve o diplomata e historiador Henri Hoppenot (1961): “Desde o Conde de Gobineau, cuja missão recua a 1870, nossa legação no Brasil só tinha recebido como titulares, com raras exceções, velhos funcionários cansados e próximos da aposentadoria. A designação de Claudel rompe essa tradição”. (Depuis le Comte de Gobineau, dont la mission remontait à 1870, notre légation au Brésil n’avait, à de rares exceptions près, reçu pour titulaires que de vieux agents fatigués et proches de la retraite. La désignation de Claudel rompait avec cette tradition.)

[12] Darius Milhaud, Notes sans musique.

Referências

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SOMMER, Doris. (2004). Ficções de fundação (os romances nacionais da América Latina). Belo Horizonte: Editora da UFMG.

A imagem que abre o post é uma reprodução da obra “Carnaval em Madureira” (1924), de Tarsila do Amaral.