
Na Coluna Primeiros Escritos, Miguel Cunha, doutorando em Ciências Sociais na UFRRJ, narra, com sensibilidade e entusiasmo, a experiência de assistir ao aguardado show de Lady Gaga na praia mais icônica do Rio de Janeiro, neste início de maio. Misturando relato íntimo e análise cultural, o autor reflete sobre o papel dos superastros como catalisadores de experiências coletivas. Mais do que uma noite de música, a crônica celebra o poder da presença de Gaga como figura de identificação e transformação para a comunidade LGBTQIA+ — e, claro, o eterno magnetismo de Copacabana.
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Boa leitura!
“As noivas de Copacabana”
Por Miguel Cunha (PPGCS/UFRRJ)
Que título dar a essa crônica/reportagem?
“Ai de ti, Copacabana”!
Como achar um título para uma noite em que me senti em estado de catarse?
“Copacabana/Copacabana/Louca total e completamente louca”…
Sou eu a menina muito contente que bota Coca-Cola na boca?
Mas, vai, foi um desses momentos especiais. Desde a notável chegada de pessoas de todos os lugares do Rio, do Brasil e da América Latina, percebi como estava dentro de algo muito maior que poderia imaginar.
Os dias que antecederam a um dos maiores shows já realizados antecipavam o acontecimento que estava por vir. Ruas movimentadas, sotaques e idiomas diversos, eventos programados para acontecer após o show — os famosos afters —, barracas de rua vendendo produtos customizados, pessoas acampadas em frente ao hotel Copacabana Palace, bares e restaurantes repletos de almas em festa servindo cerveja antes mesmo do convencional “depois do meio-dia” porque, convenhamos, é como se o próprio tempo pudesse ser dobrado e as regras do mundo dissolvidas.
Ou seja, o mais trivial dia a dia do bairro carioca.
“Copacabana, Princesinha do mar”. Sim! Princesa, porque ela, a Rainha, estava para chegar!
A ansiedade, vou confessar, já tomava conta de mim há semanas, desde que o palco começou a ser montado nas areias da praia, momento em que ficou claro que Ela viria. Mas ainda faltavam muitos dias. Boatos de que ela poderia não vir mais — como acontecera há 8 anos — começaram a pipocar nas redes sociais, alimentados pela pouca divulgação de seu rosto nas ruas, ao contrário do que se viu no ano passado com a Madonna. E quando retiraram o cartaz de divulgação do show apenas cinco dias após sua instalação no Túnel Engenheiro Coelho Cintra, que liga Botafogo a Copacabana? Seria possível que isso acontecesse novamente? O grito de “Ela não vem mais!” voltaria a ecoar em nossos ouvidos!? Não podia ser. Um pensamento me confortava: devia ser exagero de quem vivera um jejum de 13 anos entre a primeira — e até então única — aparição de Gaga no Brasil e a iminente que se anunciava.
“Uma noite no Rio” em Copacabana? Não, “a” noite em Copacabana.
Mas o fato é que a cidade estava totalmente mobilizada e ansiava por ela. Só mesmo mulheres como Stefani Joanne Angelina Germanotta, nossa “Mother Monster” Lady Gaga, seriam capazes de tal feito. Mas por que ela?
Quando despontou em 2008 com a música “Poker Face”, Lady Gaga talvez não imaginasse a figura símbolo que se tornaria entre a comunidade LGBTQIA+. Ou talvez soubesse, afinal, tudo nela sempre foi maior do que, à primeira vista, podia parecer: as roupas, os clipes, as performances e, principalmente, as mensagens.
Desde o icônico vestido feito de carne crua usado por ela na premiação do VMA (MTV Video Music Awards) de 2010 — um protesto contra a política norte-americana que impedia soldados de se assumirem homossexuais —, passando por canções como “Born This Way”, “Bloody Mary”, “The Edge of Glory”, “Bad Romance”, “Judas”, “Alejandro”, entre tantas outras, Lady Gaga, com sua deliberada estranheza, tornou-se a “mãe” daqueles que, como eu, se sentiam diferentes e viam nela a chance de se enxergar no mundo. Um marco para a geração que nasceu entre meados dos anos 1990 e início dos anos 2000. Lembro de assistir incessantemente, por volta dos meus 11 anos, ao videoclipe de “Bad Romance” e tentar performar em meu quarto — sempre trancado, inevitavelmente, a fim de evitar surpresas indesejadas. As portas dos quartos, o que trazem? O que levam?
Mas não só isso. Lady Gaga construiu uma carreira que permitiu ser adorada por diferentes públicos. Sua discografia ultrapassa o “pop macabro” do início da carreira, incluindo faixas country, conceituais, trabalhos de jazz com Tony Bennett, e suas participações na televisão e no cinema fizeram dela muito mais do que apenas a “Mother Monster”. Como não lembrar da sua atuação na recente versão do filme Nasce uma Estrela (2018) que rendeu a ela, inclusive, a indicação ao Oscar de melhor atriz?
Não temos como ir ao mesmo show duas vezes. Mas, o meu show. Partindo da rua Sá Ferreira, passo pela fiscalização da polícia militar e percebo cometer o erro de chegar às 19 horas na orla. Movimento muito tranquilo para quem, afinal, está caminhando a dois postos do palco. Mas era um prenúncio: a maioria já estava lá. A ida, portanto, acabou sendo o momento mais tranquilo, cheio de conversas extrovertidas que ajudavam a acalmar os ânimos para o que viria a poucos metros. Tirando o instante em que uma amiga, num gesto que parecia coreografado pela própria Gaga, conseguiu desviar e evitar ser atropelada por um daqueles horríveis patinetes amarelos espalhados pelas orlas da zona sul carioca — disponíveis a qualquer um que queira se aventurar (e colocar a si e aos outros em risco) —, a caminhada foi animada e pouco tensionada, sentimento alavancado pelos carros de sons nada sincronizados, cada qual tocando uma música diferente da cantora.
Até aqui tudo bem ao estilo Copacabana – no show da Madonna de 2024, no Réveillon de cada ano, no carnaval, no dia a dia… Como será a Copacabana dos bolsonaristas?
“Copacabana me engana”.
Chego na multidão. Não consigo o ângulo que gostaria para contemplar a Lady Gaga da maneira que idealizei. O jeito foi ficar relativamente próximo ao palco, mas na lateral, quase em um ponto cego, na altura da rua Duvivier. Sob uma árvore, vejo pessoas montadas nos galhos em busca de um campo de visão privilegiado. Pelo menos dez delas estão literalmente sobre mim. Entre discussões acaloradas por disputa de espaço, ouço uma moça carioca, aos berros, se dirigir a alguém: “Eu que pago IPTU nessa cidade!”. Sinto pedaços de galho, folhas e pingos — até agora, volta e meia, penso nisso. Torço com todas as forças para ter me molhado com cerveja. É uma leitura otimista da situação — tudo caindo sobre mim, mas eu me convencendo de que ninguém despencaria na minha cabeça. Mantive-me firme, confiante de que aquele era o lugar mais seguro do mundo, e onde eu devia estar, mesmo conferindo, a cada cinco minutos, se meu celular ainda permanecia no bolso. Dali, eu não sairia pelas próximas horas.
O que fiz durante as quase três horas até que Lady Gaga aparecesse no telão? Confesso: não me lembro muito bem. Entre goles e conversas contaminadas de exercícios de predição sobre como seria a apresentação, Ela aparece.
O show, dividido em quatro atos e um final, começa misturando os hits que alçaram Lady Gaga ao panteão das grandes divas pop com faixas de seu novo álbum, Mayhem. Foi justamente nessa mistura entre músicas antigas e as novas que percebi: grande parte do público não estava ali por causa da turnê internacional “The Mayhem Ball”, voltada à divulgação do novo disco — poucos cantavam as músicas novas. Estavam ali como devotos da figura que, em algum momento, os marcou com suas composições e performances. Poucas são as artistas que conseguem reunir públicos tão diversos, mesmo que tão venerada pela comunidade LGBTQIA+. Mas Lady Gaga, sim.
Em um discurso emocionante e emocionado, Lady Gaga, com a bandeira do Brasil à sua frente, pede desculpas ao público por ter cancelado sua apresentação no Rock in Rio de 2017, relembrando sua célebre frase: “Brazil, I’m devastated”, e por estar há mais de dez anos sem vir ao país. Em um exercício nada rigoroso de semiótica, percebi como o choro recíproco do público selava uma reconciliação entre Gaga e o povo brasileiro e latino-americano. Acredito que o gracejo de tantos, entre os quais me incluo, que por despeito tornaram um bordão de humor a frase “Gaga fracassada, sem hit solo desde 2011”, será deixado de lado por muitos anos.
A cantora agradece: “Obrigado por me esperarem”; ela se declara: “Eu amava vocês há 10 anos e eu amo vocês esta noite. Obrigado, Brasil, eu amo vocês para sempre”. Valeu cada minuto. Valeu ver os looks pensados meticulosamente para a ocasião. Valeram as diversas horas em pé com meus movimentos limitados a meros passos. Valeu a pena compartilhar esse momento com pessoas tão queridas. Valeu a pena cantar “Vanish Into You” até a voz falhar, mesmo com o sentimento que aquilo tudo estava por um fio de terminar.
Mas Copacabana não perdoa. E o encanto foi interrompido, brevemente, para nos lembrar que estávamos ali, em Copacabana. No instante final do espetáculo, com a performance de “Bad Romance”, fogos de artifício espocaram no ar — como se o tempo tivesse sido rasgado ao meio por uma lâmina invisível, querendo anunciar o começo de um novo ano, uma nova era.
Não!
Eu não queria uma passagem, mas uma suspensão do tempo!
Eu queria mais do que duas horas e meia. Queria que aquilo se estendesse até dissolver a noite por completo.
“Copacabana mon amour.”
Mal percebi, estava lançado de volta ao mundo de concreto de Copacabana, empurrado por uma multidão sem rosto rumo à estação de metrô Siqueira Campos, onde o chão parecia ondular sob meus pés e os corpos se moviam como marés cegas prestes a engolir tudo.
Havia um risco no ar — para além do de ser pisoteado: o de acordar.
Aquilo não valeu. Mas decido esquecer. Ou, talvez, reinventar.
Nada naquela noite poderia ter sido mais perfeito do que aquilo que projetei nos meus picos de ansiedade e nervosismo.
Esqueço de Émile Durkheim em seu clássico As formas elementares da vida religiosa. O que aconteceu naquela noite não foi apenas uma efervescência coletiva, um sentimento coletivo de emoções compartilhadas e sincronizadas.
A noção de superastro, apresentada por Silviano Santiago no ensaio “Caetano Veloso enquanto superastro” (1973), talvez nos forneça a melhor resposta para o que realmente aconteceu naquela noite de 3 de maio de 2025. Segundo Silviano, a figura do superastro funciona como um catalisador social: ao surgir, provoca uma transformação do cotidiano em espetáculo, como num carnaval. Sua identidade é marcada por uma constante representação. Lady Gaga é sempre a mesma porque é sempre diferente, um enigma que só se resolve na percepção do público. Através da linguagem, das roupas e dos acessórios, todos os presentes se comunicavam com o mínimo de esforço, já que todas as formas de aparência estavam subordinadas ao código da semelhança.
Eu e mais de 2 milhões de pessoas compartilhamos isso. Estávamos em catarse social.
Há quem conteste o número de fãs em Copacabana.
“Copacabana.”
Eu não estou nem aí para quem duvida. Pelo que me lembro, naquela noite histórica, estiveram presentes todos os “Little Monsters” em uma sinfonia perfeita de leques e cantos em uníssono. Afinal, we are all born superstars!
Obrigado e volte sempre, Lady Gaga. Louca, real, completamente louca.
E “Ai de ti, Copacabana!”.
E eu superbacana
Vou sonhando até explodir colorido
Caetano Veloso, Superbacana
