Coluna MinasMundo | Série: A mesa dos mineiros narra Minas

A BVPS Edições tem o prazer de anunciar mais uma nova série, agora na Coluna MinasMundo: A mesa dos mineiros narra Minas.

Curada pelo historiador José Newton Coelho Meneses (UFMG), essa série propõe investigar a mesa mineira como linguagem e expressão de um cosmopolitismo cultural próprio da região. Em 11 textos assinados por pesquisadores de diversas instituições brasileiras, a série aborda a comida de Minas como narrativa viva de suas heranças coloniais, do trânsito entre quintais e mercados, da memória e do desejo.

Ao longo dos próximos meses, quinzenalmente às quartas-feiras, temas como os intelectuais que pensam a comida, os caminhos da cachaça, os doces festivos, os vinhos vindos do mar e as tensões entre fartura e carência à mesa serão discutidos em textos inéditos a partir de olhares da História, da Antropologia, da Literatura e da Sociologia.

Neste post, além da apresentação da série, publicamos o primeiro texto, “A comida e a lábia dos mineiros”, assinado por José Newton Coelho Meneses. O autor propõe uma leitura a partir da literatura, enxergando a comida como patrimônio vivo, múltiplo e significativo na construção da cultura de Minas Gerais.

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Série: A mesa dos mineiros narra Minas | Apresentação

O conjunto de textos a serem apresentados nesta série objetiva pensar a mesa mineira como linguagem que dá a conhecer a cultura de Minas. São propostas compreensivas, abertas à crítica dos leitores. Há mesa que não seja cosmopolita? Uma indagação que instiga reflexões. E a mesa dos mineiros? Expressa o cosmopolitismo da cultura mineira em suas práticas e gosto alimentares e em sua cozinha? Acreditamos em uma comida-linguagem, expressão de uma dinâmica cultural diversa e ampla.

Pensando-a desde seu tempo colonial, período deste espaço fronteiriço inicial, quando “Minas é portuguesa, mas não é Portugal” (Meneses, 2013: 293), temos perceptíveis uma herança lusa como eixo importante, mas não rígido; uma raiz das culturas originárias como alicerce sustentador, aberta às levezas das sazonalidades; as culturas africanas como baluarte essencial de cerne moldável, em diversas africanidades edificadoras. Minas registra em sua comida maleabilidades de influências variadas dessa “tríade colonizadora”, múltipla em sua composição: um português plástico, conhecedor dos mundos, e etnias indígenas e africanas múltiplas, detentoras de saberes e de fazeres plurais. Sobretudo em sua cozinha e em seus gostos, apresenta a inter-relação das regiões do Brasil, em um processo histórico marcado pelo trânsito inter-regional e pela receptividade fácil e comedida do outro. Minas Gerais, desde sua formação colonial, é um interior paradoxal de sertão fechado e de fronteira aberta, com permeabilidades e cosmopolitismos que sua cozinha denota. Há nela um apego à domesticidade e abertura às relações e às trocas. Uma construção de um gosto reprimido pela tentação do isolamento confortável e pelo rompimento de linhas demarcatórias em direção aos cantos do mundo, porque o diálogo se impõe no ato de buscar alimento, de cozinhar e de comer.

A comida de Minas é o vasculhar do quintal e o desejar o que ele não tem. É o nosso cotidiano de complementaridade entre a cozinha e o quintal que fornece variedades, mas não sossega o desejo de buscar e ter o diferente. Gosto é, sobretudo, desejo. E o desejo seria a base estrutural de um cosmopolitismo criativo a forjar os comeres das gentes de Minas.

A história, a literatura, a sociologia, a antropologia, o cinema, as artes plásticas, muitas narrativas buscam a apreensão do real do traquejo alimentar dos mineiros. Como elas mostram a mesa como memória desta cultura? Como nossa memória evidencia a nossa comida e aparece como transmissão de práticas e de gostos, como tradição? Nas letras e nas artes, a comida mineira narra. A mesa de bar, a da casa da avó, a da família rica da cidade que acolhe o parente rural, a mesa da roça, os quintais, as cozinhas, seus cheiros, sua plástica, suas sociabilidades, suas extravagâncias… narram vivências de heranças múltiplas onde o local e o universal amalgamam-se e tensionam-se. É esse o cosmopolitismo de nossa mesa, fruto desta tensão derivada do desejo? São, a cozinha, a mesa, o gosto, a comida, o conjunto complexo e dinâmico de tradições específicas marcadas pelo diálogo aberto e pelo ensimesmamento contido? Questões motivadoras da busca compreensiva desta série.

Os leitores terão o que comer e beber em palavras, em textos quinzenais neste espaço, sob edição coordenada de José Newton Coelho Meneses. Neles conheceremos diversas narrativas do próprio e de Amanda Alexandre F. Geraldes, Carolina Figueira da Costa, Juliana de Souza Duarte, Maurício Ayer, Maria do Carmo Pires, Renato Pinto Venâncio, Rodrigo de Almeida Ferreira e Sônia Maria de Magalhães, buscando compreender memórias sobre uma comida que dá a ler uma cultura.


A comida e a lábia dos mineiros

Por José Newton Coelho Meneses (UFMG)

Nascemos nas mesmas casas, tivemos os mesmos retratos e a mesma Folhinha de Mariana nas paredes, as mesmas despensas cheirando ao porco no sal e à banha ardida na lata. As mesmas cozinhas escuras onde a lenha verde chia, a seca estala e o fumo enegrece paredes, barrotes, e o picumã que o sangue estanca. Pedro Nava, Baú de ossos (1972)

A comida como linguagem expressa relações sociais, pertenças, práticas, valores e identidades. “A mesa narra o mundo”, como nos diz Massimo Montanari. E narra Minas Gerais. Montanari afirma “que toda narrativa sobre o alimento e a mesa possui uma densidade especial, uma trama de perspectivas que a enriquece de conteúdos e de significados. Pois narram-se coisas que, por sua vez, narram.” (Montanari, 2016: 11). As “coisas” narram. Como historiador, busco a compreensão dos artefatos como linguagem e como inteligência; como parte do gesto humano. E a comida é para mim artefato-gesto-linguagem-narrativa. Tentar ver em poetas e literatos as narrativas da mesa mineira e nelas a linguagem de uma cultura mineira tem sido rica investigação, iniciada com o Projeto MinasMundo, a colher, cultivar e comer palavras de sabores infindos. Palavras de narradores astutos.

Minas se constituiu historicamente como um interior paradoxal de sertão fechado com as fronteiras sempre abertas e permeáveis. Cosmopolitismos, assim, forjam uma comida que não se apega apenas à domesticidade do quintal, embora tenha nele o lugar basilar das gentes da casa, incluída a abastança da cozinha. A vizinhança do quintal alheio é o primeiro desejo efetivado com as trocas através das cercas que separam territórios e unem as pessoas. Delas as panelas cozinham a “comida de cerca” usando os frutos das ramas de chuchu, de maxixe, de maracujá, de melão-de-são-caetano… Outros desejos, no entanto, são parte do cotidiano da cozinha e o fogo dos fogões não satisfazem apenas as necessidades. Afinal, o desejo é fundamental na construção dos gostos. Este, parece, às vezes, reprimido por certo isolamento em si, mas é fundamentalmente marcado pelo rompimento de linhas fronteiriças em direções aos quintos cantos do mundo.

No decorrer do século XX, muitas narrativas expressaram leituras da mesa mineira. De romancistas a ensaístas, de intelectuais a chefs de cozinha, de poetas a cientistas sociais, várias são as interpretações de uma mesa diversa que traduz contextos e expressa culturas. Complexa a mesa, as narrativas tentam, às vezes, unificá-la em compreensões simplificadoras; às vezes, simplistas. Apegam-se ao modelo das tentativas de compreensão marcadas pela preocupação regionalista, reafirmativa de parâmetros de estudos tradicionais como os de Câmara Cascudo e os de Gilberto Freyre. As práticas alimentares, múltiplas e diversas, encaixadas na tríade de culturas formadoras, também elas unitariamente observadas, levam esses estudos a afirmações e negações conformadoras de um patrimônio alimentar simplificado de compreensões, visando comemorações e gourmetizações.

O ensaísmo regionalista continua a ser experimentado por autores diversos em nossos dias. São ensaios que veem a comida como exemplo de localismos medulares e de nacionalismos e, também, estudos provocadores que pasteurizam e buscam unidades estanques, quando deveriam reconhecer diversidades de manifestações ricas e variadas, dialogantes com maior multiplicidade de culturas. Partem de perspectivas válidas: não há fronteira limítrofe para a comida regional e há inserção de fatores socioambientais e culturais variados na construção de uma dada comida. No entanto, contraditoriamente, abandonam a premissa e constroem unidades simplificadoras e negadoras da realidade variada e diversa.

A literatura é mais sofisticada ao expressar a experiência da comida mineira. Ela muito nos diz sobre a mesa dos mineiros e o faz com criatividade, atenta à memória social. Parafraseando Pessoa, o “fingidor” emula bem a realidade e ao leitor é dado o prazer de consumir seu verbo. Se “chega a fingir que é dor”, inventa em bom tom a experiência do viver. E do comer! História e literatura se aproximam na busca do real vivido e narrado e, neste sentido, leem a comida igualmente com a mesma capacidade compreensiva. A boa ficção não trata a história apenas como um verniz contextual e a história não se alimenta da literatura como mera ilustração. Combinam saberes e compreensões da experiência humana.

Acostumado a análises de um repertório de fontes com caracteres distintos, sou um iniciante em ter a literatura modernista dos mineiros como mais uma delas neste acervo ampliado. Busco aquilatar as narrativas com sensibilidade de quem confronta sentidos e significados, práticas e costumes. Enfim, realidades forjadas em várias temporalidades. Ensaios, romances, poesias vão compondo, em amostra, uma escolha qualitativa, no sentido de abarcar representatividade circunstanciada pelos problemas que o percurso da pesquisa vai me indicando. Percurso aberto, como em “picada” desbravadora. Como no léxico do artesanato, a prática da pesquisa vai sendo condicionada aos problemas e à complexidade do artefato, no percurso reflexivo do objeto de investigação.

O presente texto apresenta uma amostra pequena de narrativas férteis da literatura para pensar a comida de Minas, sua história, suas representações e seus significados. Uma comida que identifica e que narra, de forma muito tangível e materializável, gostos, práticas, hábitos, jeitos, mesas, cozinhas e quintais. Contrario a insistência do campo do patrimônio em dicotomizar o material e o imaterial na compreensão das culturas. Tento fugir desta bipartição, apreendendo a cultura como indivisível; simbólico e artefato como parte de uma única experiência complexa e dinâmica.

Cyro dos Anjos, em A menina do sobrado, memoriza sua família, em Santana do Rio Verde, os costumes de ser a mesa o ponto de reunião, uma coisa no almoço que “corria sem problemas” e outra no jantar, quando “a inquietação nos assaltava: seria longo o trecho que o Pai ia ler à sobremesa?”[1]. No pospasto, o pai lia fragmentos de livros para todos os ouvidos, impedidos de se ausentar. Interminável leitura de “reflexões filosóficas” a “assunto mais crespo”, de “páginas de divulgação científica” a “ensaios” ou “biografias”, tudo menos pior que “discursos de Rui no Senado”. À mesa ficavam todos para ouvir os trechos do pai. Permanece em Minas os atos corriqueiros de ler, de rezar, de discutir problemas, de espalhar notícias… no pós-refeição. Para a agrura das crianças, vai-se ficando à mesa. Come-se calado, como nos relatou Saint-Hilaire, após sua visita no século XIX[2]. A conversa é para depois. Nos narra Cyro dos Anjos:

Em torno da mesa de pereiro branco, larga e comprida, cabiam os quatorze filhos e os parentes que se criavam na casa, mas poucas vezes o clã se reuniu por inteiro. Dos rapazes, alguns viviam fora, a estudar ou tentar a vida, e a primogênita, casada, participava da refeição paterna só em ágapes comemorativos. Contudo, não faltavam hóspedes ou convivas que preenchessem os claros deixados à esquerda ou à direita da venerável peça. (Anjos, 1994: 9).

Gravura de autoria de Euridyce, 1960 (Anjos, 1994: 11).

A mesa mineira foi e é, também, para agregados que, nela, se tornam iguais, substituem um ou outro filho morando na capital. Rotina de uma família interiorana na qual a mesa é o momento do comer, do ouvir e do conversar sob a batuta do pai ou da mãe de família. Já na cozinha da casa, lugar da inventividade e dos saberes das cozinheiras, reinava Luísa, mas, às vezes, era necessário acudir

[…] a chancela da sábia Maria Parteira, que fora escrava do meu Avô materno e acompanhava nossa família desde o casamento de meus pais. […] quando tínhamos hóspedes ou meu Pai devia acolher eleitores na casa ao lado, ela não trepidava em invadir a jurisdição de Luísa e empunhar a colher de pau, que, na cozinha, era o emblema do poder. Em tempos imemoriais, fora uma cozinheira preclara. Recordando antigos jantares à mesa do meu Avô, Loiola a equiparava a um Goethe, um Shakespeare ou um Dante, no mundo da arte culinária, que, a seu ver, trazia aos homens mais felicidade que o da poesia. E, maravilhado, repetia a resposta que, com a singeleza dos gênios, ela dera, ao perguntar-lhe minha Avó o segredo de certo prato: ‘Sinhá, cozinheira legítima já nasce com o gosto na boca e o prumo na mão!’ (Anjos, 1994: 31-32).

O prumo da criatividade se estabelece em espaço de domínio de quem sabe e tem o poder do conhecimento. A cozinha é o lugar da essencialidade, nem sagrado e impenetrável, muito menos da algazarra de qualquer um. Ela acolhe quem domina o saber de suas práticas, de sua ordem e quem respeita certa hierarquia constituída na fundamental e imprescindível banalidade do dia a dia.

Gravura de autoria de Euridyce, 1960 (Anjos, 1994: 25).

As memórias de Pedro Nava são primorosas na descrição das cozinhas e das comidas marcantes na vida do autor e de seus antepassados portugueses, italianos, cearenses e mineiros. Como avalia André Botelho, Nava quer “restituir a vida em sua total significação” (Botelho, 2012: 17). Ele não se preocupa em definir um jeito mineiro de fazer comida e de comer. Trata é de co-memorar em texto os costumes de seus entes, inclusive nas cozinhas e mesas. Em Balão cativo, descrevendo a cozinha da casa da Inhá Luísa, a avó materna de Juiz de Fora (não a paterna Dona Nanoca, do Ceará, igualmente exímia nas receitas), e os vários cheiros vindos do seu fogão, dentre tantos aromas descritos, nos diz:

O acídulo do molho pardo dos judeus noturnos. (…) Judeu em culinária mineira é, em geral, nome da boia de ceia e mais particularmente da cabidela de galinha para depois das procissões e para depois das coroações de Nossa Senhora, nas noites de seu mês de maio (Nava, 2012a: 32-33).

As cozinhas narram e nomeiam as “coisas” da cultura, incluindo pratos e refeições, costumes, ritos devocionais e temporalidades. Judeu: significados e sentidos a descobrir nessa expressão ainda presente no leste mineiro! Galinha ou frango ao molho pardo são agora mais usuais na nomeação dos molhos à cabidela.

Falemos da doçaria porque, segundo Nava, concordemos ou não com ele,

A cozinha mineira, pouco abundante nos pratos de sal, que ficam nas variações em torno do porco, do toucinho, da couve, do feijão, do fubá e da farinha — é de uma riqueza extraordinária em matéria de sobrepastos. Hoje tudo mudou e minguou. Mas lembro-me bem da mesa de minha avó materna, em Juiz de Fora, onde a Inhá Luísa, da cabeceira, podia olhar a ponta dos meninos e das compoteiras, de que havia, ao jantar, umas quatro ou cinco repletas de doce. Menos era penúria. E que doces… (Nava, 2012: 190).

Negligenciando a multiplicidade do que vem do porco, da couve, do feijão e do milho, ele descreve goiabadas, cocadas e derivados, pessegadas, do abacaxi aos figos, da manga à carambola, da banana à jabuticaba, da abóbora à batata-doce e, ainda o melado e a pamonha, tudo nos tachos de cobre, tirado o azinhavre, com fartura de açúcar. Narrados em Minas, mas comuns a todo o Brasil, porque, aqui “Os sobrepastos vernáculos e lusitanos mudavam”. Como “por exemplo, os de ovos – que viraram noutros à simples adição do coco. […] Viva o coco da Bahia” (Nava, 2012: 192). Mineiro é assim: dá vivas às outras regiões. Pedro Nava reinventa sua existência e constrói um farto documento dos costumes mesclados de suas vivências, incluídas aquelas de Belo Horizonte e de Juiz de Fora.

Os feijões de Pedro Nava, aqueles “(…) cheio(s) de carne de porco, de orelha de porco, de focinho de porco, de pistola de porco, de rabo de porco, de pé de porco. Do tutu com carne de porco” (Nava, 2012a: 32), em narrativas de beleza e complexidade ímpares, vão obtendo descrições cada vez mais polpudas e saborosas, à medida que avançam as construções narrativas de suas memórias. Denotam aprimoramento na pesquisa para o texto e apresentam-se com informações complementares em momentos distintos de suas recordações.

As estruturas materiais do cozinhar doméstico não são esquecidas pelo memorialista. Afinal, a cozinha se faz de saberes criativos e de artefatos que os instrumentalizam e dela são partes intrínsecas. Dentre as materialidades temos o onipresente forno de barro nos terreiros das casas e sua sentida ausência em novos tempos. Diz a sua narrativa:

O forno do fogão de ferro de minha avó servia só para pequenas obras. Para suspiro, bolo de fubá, biscoito de polvilho, assar galinha, no máximo. Quando se exigiam as grandes virtuosidades da carne inteira dum leitão de casamento, dum peru de aniversário, ou dum pato de batizado – funcionava o forno de barro do terreiro. Quem os conhece hoje? Quem? Onde estão? Onde? Os fornos de antanho … Sumiram de todo o litoral, sumiram das grandes cidades, recuaram para o interior, como índios acossados pelo invasor. No caso, a indignidade dos fogões elétricos, a infâmia dos fogões a gás. O velho forno-lar, o verdadeiro, o genuíno, autêntico – era autônomo, não podia ficar dentro da cozinha, ou da casa. Era um templo à parte, construído fora, no terreiro. Tem base quadrada, de metro, metro e pouco de cada lado. Sobre esse nível, constrói-se com tijolo, uma espécie de zimbório de mesquita, circular, oco, com boca embaixo e, por cima, um respiradouro que tem forma de chaminé alentejana (Nava, 2012a, 34).

Nos fornos, dois verbos principais se conjugam e se confundem: enfornar (levar ao forno) e enformar (dar forma e colocar na forma de assar), saberes de quitandeiras. Em Baú de Ossos, Pedro Nava narra a técnica de enformar o biscoito de polvilho, quando caracteriza a casa de “seu Carneiro”: “Na copa eu admirava d. Elisa preparando seus tabuleiros de biscoito de polvilho. Enchia com a massa um pano furado e fazia os pontos, as linhas, os círculos, as cicloides que iam inchar no forno” (Nava, 2012: 310). E o biscoito de polvilho tem, também, seu cheiro inconfundível.

Minas e sua comida, meio campo e meio cidade, como em Autran Dourado em Uma vida em segredo, em que a distinção entre figuras rurais e urbanas encorpa a personagem Biela e embaraça essa identidade que a “caipirice” explica, mas pode igualmente confundir. Ninguém em Minas é de um mundo só. A moça da roça “descobre o caminho da cozinha” para se sentir bem na urbe.

Os momentos mais difíceis eram na mesa, quando se juntava com a família. Primo Conrado na cabeceira, os meninos defronte, ela entre Mazília e Constança. Não dizia nada, […]. Olhava como prima Constança comia, como segurava os talheres, como levava a comida à boca. Procurava imitá-la, se atrapalhava, enfiava o garfo todo na boca, a comida caía na toalha, jamais conseguiria segurar o garfo e a faca daquele jeito, quando partia a carne. A carne podia voar longe. Olhava com vergonha para Silvino e Alfeu, que com medo do pai engoliam o riso (Dourado, 2000: 32-33).

Outra vez a mesa aparece como o lugar dos (des)encontros dos da casa, de várias idades, de muitas experiências. Lá na cozinha, “Joviana tinha sempre torresmo guardado, e vendo os olhos compridos nas trempes do fogão, oferecia-lhe torresmo com um pouco de farinha. Biela comia assentada no cepo do pilão. Era como se estivesse na roça” (Dourado, 2000: 33).

Na cidade também tem

(…) panelas de pedra, que fumegam
nas velhas trempes dos fogões de lenha,
e à mesa vêm,
para servir o arroz – o arroz do brejo
com banana da terra – uma iguaria,
que é tradição em casa de mineiros:
de mais ninguém (Resende, 1967: 120).

As panelas de pedra, pelo peso, seguras na chapa do fogão e incômodas à mão ao lavar, cozinham e temperam na medida certa uma “economia” da cozinha.

A literatura dos mineiros escolhidos para a leitura nos apresenta temporalidades de uma construção cultural e de sua tradição. As vanguardas e permanências dessa transmissão no tempo, podem, ao serem indagadas, fornecer evidências de uma diversidade sem fim. Rusticidade e sofisticação não são antíteses na cozinha. Uma e outra são perspectivas de olhar, formas de fazer, buscas de degustar. Uma jacuba… uma canjiquinha…, “mata-fome” ou “sustança”, frequentam os momentos de carência ou de abundância porque satisfazem o gosto.

— E o senhor também não é mineiro, seu Joãozinho Bem-Bem?

— Isso sim, que sou… Sou da beira do rio… Sei lá de onde é que eu sou?!… Mas, por me lembrar, mano velho, não leve a mal o que eu vou lhe pedir: sua janta está de primeira, está boa até de regalo.., mas eu ando muito escandecido e meu estômago não presta p’ra mais… Se for coisa de pouco incômodo, o que eu queria era que o senhor mandasse aprontar para mim uma jacuba quente, com a rapadura bem preta e a farinha bem fina, e com umas folhinhas de laranjada-terra no meio… Será que pode? (Rosa, 2001: 228).

Para Nhô Augusto tudo pode. “— Já, já…Vou ver. — Deus lhe ajude, mano velho.” E o mais que as visitas quiserem de gosto a cozinha de Augusto Matraga fornece, antes do retorno à estrada e às encruzilhadas dessas Gerais de Rosa.

Enquanto isso, os outros devoravam, com muita esganação e lambança. E, quando Nhô Augusto chegou com a jacuba, interpelou-o o Zeferino, que multiplicava as sílabas, com esforço, e, como tartamudo teimoso, jogava, a cada sílaba, a cabeça para trás: — Pois eu… eu est-t-tou m’me-espan-t-tando é de uma c’coisa, meu senhor: é de, neste jantar, com t-t-tantas c’c’comerias finas, não haver d-d-duas delas, das mais principais!

— Que é que está fazendo falta, amigo?

— É o m’molho da sa-mam-baia e a so-p-p’pa da c’c’anjiquinha!

Nhô Augusto sorriu:

— Eu agaranto que, na hora da zoeira, tu no pinguelo não gagueja!

— Que nada! — apoiou seu Joãozinho Bem-Bem. — Isto é cabra macho e remacheado, que dá pulo em-cruz… (Rosa, 2001: 228-229).

As estradas, as cruzes, as roças, os córregos, as montanhas; lugares do viver e da memória; do lembrar e do esquecer. Essa terra-encruzilhada que Drumond, em Fazendeiros da cana, identifica.

Minha terra tem palmeiras?
Não. Minha terra tem engenhocas de rapadura e cachaça
e açúcar marrom, tiquinho, para o gasto (Andrade, 1983: 697).

Comida de Minas: variada, múltipla, diversa e sem parcimônia. Construção de naturezas e de tempos fartos, de agências humanas e não-humanas, de lugares, heranças, fronteiras. Percebida à luz de um investigador da História, para quem o tempo não é apenas o cronológico, mas o de temporalidades dinâmicas e incidentes em diacronias e sincronias, ela narra muitas Minas. Identifica muitos mineiros. Comedida? Que nada! Escandalosa! Diz de nós. Patrimônio conformado em materialidades e significados.


Notas

[1] Santana do Rio Verde é cidade fictícia na obra memorialística de Cyro dos Anjos. Ele é natural de Montes Claros, no norte de Minas. A força ficcional da cidade imaginada toma grande dimensão na literatura mineira. Como exemplo, ela serve à intertextualidade em O grande mentecapto, de Fernando Sabino: “(…) não passava de um mero distrito de Montes Claros. Isso de Santana do Rio Verde era arte e manha de um cujo de nome dos Arcanjos, dito Belmyro, que nasceu lá e depois de se apaixonar pela menina do sobrado (o único existente então no lugar), mudou-se para a capital onde, de amanuense, passou a escrita maior da montanha, laureado e aclamado (Sabino, 2006: 190).

[2] O botânico francês relatou: “Os mineiros não costumam conversar quando comem. Devoram os alimentos com uma rapidez que, confesso, muitas vezes me desesperou, e quem se contentasse em assisti-los a comer, tomá-los-ia pelo povo da terra mais avaro de seu tempo.” (Saint-Hilaire, 2000: 97)

Referências

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BOTELHO, André. (2012). Balão cativo: o aprendizado da memória. In: NAVA, Pedro. Balão Cativo. São Paulo: Companhia das Letras.

CASCUDO, Luís da Câmara. (2011). História da Alimentação no Brasil. São Paulo: Global.

DÓRIA, Carlos Alberto & BASTOS, Marcelo Corrêa. (2018). A culinária caipira da Paulistânia: a história e as receitas de um modo antigo de comer. São Paulo: Três Estrelas.

DOURADO, Autran. (2000). Uma vida em Segredo. Rio de Janeiro: Rocco.

ANDRADE, Carlos Drumond de. (1983). Nova reunião: 19 livros de Poesia. Rio de Janeiro: José Olympio Editora.

MENESES, José Newton C. (2013). Artes Fabris & Ofícios Banais. O controle dos ofícios mecânicos pelas Câmaras de Lisboa e das Vilas de Minas Gerais (1750-1808). Belo Horizonte: Fino Traço Editora.

MONTANARI, Massimo. (2016). Histórias da Mesa. São Paulo: Estação Liberdade.

NAVA, Pedro. (2012a). Balão Cativo. São Paulo: Companhia das Letras.

NAVA, Pedro. (2012). Baú de Ossos. São Paulo: Companhia das Letras.

RESENDE, Enrique. (1967). Carta aos residentes na Guanabara. In: ANDRADE, Carlos Drumond de. (Org.). (1967). Brasil, Terra e Alma – Minas Gerais. Rio de Janeiro: Editora do Autor.

ROSA, João Guimarães. (2001). “A hora e a vez de Augusto Matraga”. Sagarana. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira.

SABINO, Fernando. (2006). O grande mentecapto: relato das aventuras e desventuras de Viramundo e de suas inenarráveis peregrinações. 67ª ed. Rio de Janeiro: Best Seller.

SAINT-HILAIRE, Auguste de. (2000). Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Belo Horizonte: Editora Itatiaia.

Sobre o autor

José Newton Coelho Meneses é Doutor em História e professor do Departamento de História da FAFICH-UFMG e do PPGH-FAFICH-UFMG. Líder do Grupo de Pesquisa CNPq-UFMG GESTO – Elementos Materiais da Cultura e Patrimônio e do TUTU– História da alimentação e das práticas alimentares.