Série especial | A República sem sujeitos. Comentário sobre “Benjamin Constant, O Fundador da República”, por João Marcelo Maia

Encerramos hoje a série especial preparatória para o seminário A outra crise do liberalismo? À margem da história da República (1924), com textos de Maurício Hoelz (UFRRJ) e João Marcelo E. Maia (FGV/CPDOC).

O texto de Hoelz analisa o que considera o pequeno ensaio de interpretação do Brasil de Alceu Amoroso Lima, escrito sob o pseudônimo de Tristão de Athayde, apontando como há nele uma afirmação do papel social e político dos intelectuais. Já Maia revisita o perfil de Benjamin Constant escrito por Vicente Licínio Cardoso, que traça o retrato de uma República fundada sem sujeitos sociais concretos. Nesse retrato, o herói não representa grupos ou interesses organizados, mas simboliza uma República abstrata, marcada pelo descompasso entre a ação política e a vida coletiva.

Curada por Christian Lynch, André Botelho e Rennan Pimentel, os textos dessa série especial da BVPS Edições comentam os capítulos da coletânea À margem da história da República, objeto de discussão no seminário que acontece nesta sexta-feira, 23 de maio, na Casa de Rui Barbosa.

Boa leitura! Confira aqui outros textos da série.


A República sem sujeitos. Comentário sobre “Benjamin Constant, O Fundador da República”

Por João Marcelo E. Maia (FGV/CPDOC)

Como ler, mais de 100 anos depois, esse elogioso perfil de Benjamin Constant feito por Vicente Licínio Cardoso, organizador de À Margem da História da República? Como interpretar de modo novo um texto que nos parece datado, em especial pela linguagem grandiloquente, que nos fala de um “professor elegantíssimo” que dirigiu a revolta republicana com a “elegância sóbria de um homem sério”?

Neste breve comentário, gostaria de trabalhar de modo tentativo o sentido assumido pelo “perfil do grande homem” no texto de Vicente Licínio, explorando o que ele pode nos revelar sobre as tensões entre agentes intelectuais e vida social na Primeira República. Argumento que a análise desse perfil à luz de outras produções do autor revela não apenas uma visão crítica do período, tema conhecido dos estudiosos deste contexto, mas também as limitações do republicanismo de Vicente Licínio, pautado por uma visão hierárquica e de difícil comunicação com os sujeitos e os interesses emergentes na vida social brasileira de então[1].

Essa hipótese é trabalhada em duas breves seções. Na primeira, investigo o lugar do “perfil dos grandes homens” nos textos de Vicente Licínio, tomando o seu escrito sobre Benjamin Constant como peça central. Na segunda, avanço a ideia de que esse perfil específico revela as limitações do republicanismo de Vicente Licínio, em especial à luz de sua interpretação do tema democrático.

O perfil dos grandes homens 

Ao longo da obra ensaística de Vicente Licínio, editada em sua maioria ao longo da década de 1920, não são incomuns os textos dedicados a perfis intelectuais, destacando-se escritos sobre Dostoiévski, George Washington, Euclides da Cunha e Henry Ford, além do perfil dedicado a Benjamin Constant. Alguns dos próprios títulos de livros do autor indicam esse interesse, como se pode depreender de obras como Vultos e Ideias (Cardoso, 1924a) e Figuras e Conceitos (Cardoso, 1924b).  

Ao retomar o livro em que analisei alguns desses textos, verifiquei que minhas interpretações de então voltavam-se fundamentalmente para o que esses perfis diziam sobre as associações entre terra e imaginação periférica, tema que então me obcecava. Assim, argumentei que Vicente Licínio mobilizava esses personagens para ilustrar sua visão de que o Brasil se situava numa geografia periférica, marcada pela necessidade de inventar novas formas de vida que refletissem as potencialidades de um espaço não regulado pela urbanidade do mundo europeu. Como todo doutorando, tudo que eu lia era filtrado a partir do ponto central que movia meu texto, o que talvez explique, com uma boa dose de generosidade, o fato de eu não ter me buscado analisar a forma assumida por esses textos.   

Sabe-se que o modelo para o perfil dos grandes homens vem do historiador de origem escocesa Thomas Carlyle, que em 1840 editou uma obra com seis palestras sobre os heróis e suas façanhas. Nessas palestras, Carlyle defendeu a tese de que esses personagens não seriam produtos de seu tempo, mas, na verdade, escultores de suas coletividades, criadores potentes do mundo à sua volta (Carlyle, [1840] 1872).

Isso torna ainda mais estranho o interesse liciniano. Positivista tardio, Vicente Licínio tem uma conhecida tese sobre filosofia da arte em que defendeu justamente o oposto, ou seja, a hipótese de que as ideias que se traduzem em formas estéticas são expressões da evolução do meio social, o que explicaria, por exemplo, a originalidade da arquitetura norte-americana (Cardoso, 1918). Além disso, parte significativa de seus ensaios busca entender exatamente o modo como a geografia e o meio social condicionam destinos de países e coletividades. Como pensar essa aparente contradição?

Uma resposta possível é dada a partir das próprias pistas deixadas por Vicente Licínio no seu perfil. Diz ele:

Quem quiser encontrar na biografia de Benjamin Constant lances de bravura e de gênio, à maneira daqueles que sagram as vidas dos heróis de Carlile ou dos homens representativos de Emerson, perderia o tempo e ganharia desilusões. Nada há nele de fato, que indique um predestinado, ou que faça prever um realizador de sentenças. Dir-se-ia que ele mesmo não compreendera até 88 a finalidade de sua vida na sociedade brasileira. Não ouvia a voz secreta que segredava e anima a Sócrates, nem possuía a confiança em sua estrela que arregimenta a ousadia dos homens de ação (Cardoso, 1981: 87).

E, de fato, ao longo do texto, Vicente Licínio retrata um Benjamin Constant que é quase um herói a contragosto. Por exemplo, após apresentar episódios iniciais de sua vida que reforçam a dimensão do sofrimento e da humildade que o marcariam, o autor nos diz: “Benjamin não comandava, propriamente. Inspirava, excitava e conduzia, conduzido” (Cardoso, 1981: 83). Vejamos melhor como Vicente Licínio trabalha esse paradoxo.

Por um lado, a excitação produzida por Benjamin Constant é reafirmada por meio de episódios nos quais Licínio Cardoso evidencia o quanto o líder despertava entusiasmo e adesão, particularmente por conta de sua conduta exemplar no Exército, pela fidelidade aos ideais republicanos e por sua atuação como professor de matemática. Esses fatores tornariam o líder positivista uma figura quase apostólica, fato reconhecido pelo intelectual carioca, que não hesita em nomear o seu anti-herói de um ‘formador de almas’.

Mas, ao mesmo tempo em que destaca esses episódios, Licínio Cardoso também reitera em diversas passagens que Benjamin Constant não aspirava de forma individual a nada, agindo quase sempre movido por convicções éticas sólidas e comedimento na conduta e nos desejos. Vejamos como o autor descreve o episódio de 15 de novembro:

Na madrugada de 15 de novembro, ao se despedir da esposa amantíssima, ele não comenta com ênfase aquilo que será em pouco realizado. Não alardeia o seu mérito, não fala como um chefe. Ao contrário, ele diz singelamente: -‘Vou cumprir o meu dever’. E cumpriu!” (Cardoso, 1981: 87).

Em outra passagem, que trata do contexto histórico da recém-instalada República, o autor afirma: “(…) Benjamin compreende e rejeitará a senatoria oferecida pelo Pará, em 1890, o oferecimento de um prédio por subscrição de amigos, e, até mesmo ‘qualquer cargo da República para o qual viesse a ser eleito’” (Cardoso, 1981: 88).

Tudo isso permite a Licínio Cardoso tecer a seguinte conclusão, já nos momentos finais de seu texto:

(…) era um homem abstrato no sentido comum do termo, indicando um homem capaz algumas vezes de olhar sem ver, ou de apalpar sem sentir, realidades concretas. Fardado, ele foi visto mais de uma vez, de chapéu civil (Cardoso, 1981: 91).

A hipótese de um herói a contragosto não é peculiar. Um dos maiores especialistas na trajetória de Benjamin Constant, o historiador Renato Lemos, argumenta que o republicanismo não era uma marca de sua formação política e intelectual, que foi antes plasmada pelo positivismo e por desejos de reforma social e moral que só se alinharam ao ideal republicano nas vésperas do movimento de 1889 (Lemos, 2008). Nas suas palavras:

Na verdade, Benjamin Constant era visto pela mocidade militar, em grande parte republicana e positivista, como um portador privilegiado de virtudes pessoais e intelectuais, mas não como uma influência política. Depois de se envolver na Questão Militar, ele passou a ser assediado por alunos e jovens oficiais que nele perceberam atributos para liderar um movimento armado contra o regime. Elevado, pela religiosidade messiânica dos positivistas, à condição de “mestre” e “guia” no caminho da República, foi seduzido pelo lugar que lhe ofereciam aqueles em quem entrevia os futuros cidadãos-soldados (Lemos, 2008: 9). 

Mas o que importa reter aqui é menos a exatidão historiográfica do perfil do que o significado que o texto tem para o entendimento não apenas dos dilemas e aspirações da geração de Vicente Licínio Cardoso, mas dos mal-entendidos que cercam o republicanismo entre nós. Vejamos esse tema mais de perto.

O que o perfil de Constant nos diz?

Ao longo de todo perfil, Vicente Licínio situa Benjamin Constant numa espécie de limbo interpretativo, que não nos permite identificar que relação existiria entre o agente político e a vida social traduzida em interesses e coletividades. Constant não é o herói de Carlyle, mas também não é o líder que expressa, representa, significa e traduz uma dada coletividade organizada e consciente de si. Licínio nos diz que ele inspira e conduz, mas é conduzido. Mas conduzido por quem ou pelo quê?

Interessante notar como os perfis que o autor traça de dois heróis americanos, Ford e Rodó, surgem robustos e poderosos em comparação com este. Nesses outros cantos da América – o Uruguai e os Estados Unidos –, Vicente Licínio parecia ver lideranças que traduziam a organicidade e expressividade da terra. Mas não aqui, onde o fundador da República diz muito pouco sobre o republicanismo como força social e organização de interesses e seu perfil não oferece propriamente um modelo a ser seguido, pois o leitor tem dificuldade de entender qual o tipo de ação política-intelectual que está ali representada como exemplar.

Esse perfil algo aéreo é condizente com a perspectiva alimentada por essa geração crítica, que localizava na República de 1891 uma falta de organicidade e um desajuste entre as ideias e a realidade nacional, temas já bem explorados pelos intérpretes do pensamento social no Brasil. Mas no caso aqui temos algo além: a própria ação política, a despeito de criadora, oscila entre a abstração e os interesses organizados, sem encontrar um chão sólido para se enraizar.

O retrato que Vicente Licínio faz da República é a de uma espécie de um vazio no qual faltariam vertebração e coesão. Esse diagnóstico teria como solução um projeto futuro capaz de articular as energias e inquietações que surgem dessa terra nova e periférica a uma nova elite capaz de moldá-la numa direção modernizadora. Não à toa, o autor encontrou na educação a chave para a resolução da questão, tornando-se uma figura central na emergente Associação Brasileira de Educação (ABE). Note-se, porém, que essa crença na educação não vem acompanhada de uma convicção democrática forte, que implicaria valorizar as potências e qualidades dos homens comuns.  

A República, afinal, deveria ser inventada, mas até mesmo as elites destinadas a tal tarefa não estariam formadas. Não se trata, portanto, apenas da suposta ausência de ‘povo’, tema comum aos intérpretes do período, mas a um problema mais amplo que diz respeito aos desajustes entre ação e vida social, ou, como explorei na tese de 2006, entre intelectuais e energia da terra. Onde estão os atores que seriam capazes de interpretar o passado e expressar o novo que nem se conhece ainda?  Onde estariam os agentes capazes de conduzir?

O próprio positivismo não surge como uma resposta intelectual a esse problema. Descrente da suposta influência da ortodoxia do Apostolado sobre os anos iniciais da República, Vicente Licínio despreza a consistência intelectual da doutrina no Brasil, a despeito da honradez de seus principais representantes.

Em outros ensaios de Vicente Licínio, o autor emprega a expressão “força da terra” para nomear essa potência criativa que não encontra propriamente tradução política apropriada. No livro de 2008, apontei as possibilidades analíticas dessa expressão, que interpretei como uma forma de imaginação espacial que nos aproximava de uma modernidade periférica criativa, que prescindiria do substrato metropolitano europeu para afirmar sua contemporaneidade. Entretanto, relendo o texto em 2025, o tema da democracia ganha relevo, e a releitura da cisão entre agentes intelectuais e vida social republicana assume outros contornos, que apontam para as limitações da análise do próprio Vicente Licínio.

Licínio não vê republicanos organizados na capital, mas também não vê nos sertões brasileiros, geografia real de onde emanaria a força da terra, quaisquer atores transformadores, fossem eles camponeses, trabalhadores rurais, ex-escravos, ribeirinhos etc. Trata-se de uma terra sem sujeitos. Não à toa, a visão de Vicente Licínio a respeito da Abolição é essencialmente conservadora, pois ele interpreta o fenômeno do ponto de vista da ‘desorganização’ da economia brasileira, e não da perspectiva da autonomia e da liberdade dos homens.  

Há, portanto, um espelhamento entre o perfil traçado do apóstolo republicano e o retrato que surge dessa geração crítica. Assim como Benjamin Constant é conduzido por um processo que parece desprovido de ação coletiva organizada, Vicente Licínio nos apresenta uma República que surge de repente, afirma-se sem sujeitos e interesses organizados, e orienta-se para o futuro calçado nas promessas da educação, mas em desajuste com as gentes reais que fazem a República. Mais de cem anos depois, é outra a República, certamente, mas nunca é demais inquirir o que o sentimento coletivo de desajuste dos agentes intelectuais diz sobre eles, ou melhor, sobre nós.

Vicente Licínio

Nota

[1] Como nota metodológica, ressalto que este curto ensaio articula duas temporalidades distintas de leitura da obra de Vicente Licínio. A primeira é a do momento presente, em que retorno ao texto de 1924 instigado pelo convite dos organizadores para uma revisita coletiva a esse inventário crítico da experiência republicana. Este tempo presente é marcado pela longa crise que temos experimentado desde 2014, que evidenciou o quanto a democracia pós-1988 se mostrou mais frágil do que imaginado. Esse espanto, que penso não ser singular, instigou-me a um olhar mais atento ao modo como as questões da democracia são trabalhadas nas interpretações clássicas do Brasil. Essa revisita se dá em diálogo com outro tempo de leitura, aquele da tese sobre a terra no pensamento brasileiro, que defendi em 2006, e que resultou em um livro publicado em 2008, o qual reabri novamente depois de muito tempo (Maia, 2008). Naquela ocasião, ao menos para mim, a democracia parecia de certo modo estabelecida, e o tema da inscrição do Brasil em uma modernidade periférica, mas criativa, (vivia-se então o auge dos BRICS) parecia animar parte dos esforços de entendimento do pensamento brasileiro (Maia, 2009). Esse exercício hermenêutico talvez explique como este breve ensaio apresenta um Vicente Licínio diferente daquele que analisei então.

Referências

CARDOSO, Vicente Licínio. (1918). Philosophya de arte: Synthese positive e notas à margem. Rio de Janeiro: Leite Ribeiro e Mauríllio.

CARDOSO, Vicente Licínio. (1924a). Vultos e ideias. Rio de Janeiro: Annuario do Brasil.

CARDOSO, Vicente Licínio. (1924b). Figuras e conceitos. Rio de Janeiro: Annuario do Brasil.

CARDOSO, Vicente Licínio. (1981). Benjamin Constant, o fundador da República. In: À margem da história da República. Tomo II. Brasília: Editora da Universidade de Brasília.

CARLYLE, Thomas. (1872). On heroes, hero-worship, and the heroic in history. London: Chapman & Hall.

LEMOS, Renato. (2008). Benjamim Constant e o positivismo na periferia do capitalismo. In: Ciência, história e historiografia. p. 207-215.

MAIA, João Marcelo Ehlert. (2008). A terra como invenção: O espaço no pensamento social brasileiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

MAIA, João Marcelo Ehlert. (2009). Pensamento brasileiro e teoria social: Notas para uma agenda de pesquisa. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 24, p. 155-168.