Cenas de escrita para um diário íntimo | Coluna de Ítalo Moriconi

Ítalo Moriconi está de volta às páginas da BVPS com sua coluna Cenas de escrita para um diário íntimo. Intitulado Diário de maio: a Literatura, o texto converte a tradição literária brasileira em objeto de reflexão. Moriconi passeia pelos clássicos, homenageia, relembra momentos de sua formação, e afirma, ao fim e ao cabo, os potenciais existenciais da literatura, tecendo uma escrita que é pensamento em movimento. Aqui, ler e escrever são atos pulsantes de vida.

Cenas de escrita para um diário íntimo é publicada mensalmente às sextas-feiras. Outros posts desta coluna podem ser acessados aqui.


Diário de maio: a Literatura

Por Ítalo Moriconi

[12 de maio]

O quequieu estou fazendo aqui, é o que me pergunto enquanto leio Grande sertão: veredas. Não pertenço a este universo, não tenho nada a ver com isso. E, no entanto, prossigo, com vontade, até voracidade no virar as páginas, oscilando entre o prazer e o ódio que me causam obras literárias desafiadoras, ao serem lidas pela primeira vez. O misto de sedução e estranheza que a palavra nova, porém forte, suscita em quem lê. Um clássico é forte a priori. Como diz Italo Calvino, um clássico é um livro que as pessoas dizem que estão “relendo”. Mas, como se sabe, a releitura de um clássico é sempre uma primeira leitura. Estou (re)lendo, lendo de primeira. A cada estação da vida, corresponde uma estação de apreensão do grande clássico. Um grande clássico literário é, em princípio, um livro longo. Como vou chegar à página 700 do Grande sertão? Conseguirei chegar lá? Não quis ler a edição de bolso, mas é bem complicado manusear o volumão que tenho em mãos.

É que me deu a louca, típica de professor de literatura aposentado da sala de aula, de retornar aos clássicos, de (re)ler os livros grossões da grande tradição. Me deu uma vontade louca de pegar o Grande sertão de jeito. A grande tradição tem que ser um legado real.

Tão voltado ao movimento contemporâneo que sempre fui, observei que não é nada, não é nada, o romanção de Guimarães Rosa permanece vivo, sobretudo nas adaptações. Muito me impressionaram a peça e o filme de Bia Lessa e, por causa do jeito que a vida e os circuitos de consumo se dispersam, ainda não vi a adaptação de Guel Arraes. Caio Blat é o Riobaldo da hora. E não são poucas as leitoras profissionais (leia-se: professores) que têm uma leitura de Grande sertão viva no repertório, pelo que depreendo de conversas informais recentes. Será que leram o livro todo?

Eu quero a leitura, sem saltar uma linha, sem pular nenhuma página. O livro. Não as leituras de leituras. Supõe-se que nas centenas de páginas do grande clássico tudo seja proteína, não descartável. Teria a leitura literária se tornado uma técnica subsidiária, fonte de histórias para as artes audiovisuais? Esses que adaptaram certamente enfrentaram o bicho de cabo a rabo. A avaliação crítica da adaptação começa pela verificação de quais foram as ênfases e as supressões na passagem das centenas de páginas para o artefato estético. É um dos prazeres advindos do enfrentamento do livro coisa em si.

Portanto, empreendo a leitura selvagem, esse misto de prazer e obrigação que é a leitura do clássico ilegível, esquecendo a enorme fortuna crítica existente, alguma bem recente, esquecendo num primeiro momento as filmagens do Manuelzão, as correspondências com os tradutores.

[14 de maio, 8h]

Flores
Elas estão aqui.
Você está aqui.
Insistem.
Trancadas no apartamento,
imunes às intempéries. Artificiais,
embora naturais – extirpadas da Natureza.
Teu fantasma,
imune às intempéries.
Este antúrio –
choque de cor discreta, sigilosa,
contra parede neutra.
O arranjo que te dei há tanto tempo,
multicor, em meio ao drama. Você aqui.

Coloco neste diário o poema que publiquei no Facebook, devidamente modificado. Em geral, os poemas (ou poemetos) que posto no fb são inspirações/respirações do momento. Saem de improviso. Se pretendo dar vida mais longa a eles, transpondo-os a este diário, ou mesmo um arquivo para livro, cabe efetuar cortes. E/ou expansões, que funcionam como “explicações”. Neste poema, cortei frases (versos) excessivas que dificultavam a percepção, por parte de possível leitora, de haver no texto uma estrutura ideativa/afetiva, mesmo que elusiva, que era o que eu pretendia. Uma vez, eu poeta efebo (a expressão de Harold Bloom), fui alertado a evitar linguagem cifrada. Doutra vez, um crítico malsão publicou que eu era um poeta de pouco fôlego. Bem, ele tinha razão. Tem razão a Fernanda Medeiros quando diz que meus poemas são epigramáticos. É muito recente isso de dar-me conta do caráter epigramático dos meus poemas.

Com efeito, a frase, o frasear, as modulações rítmicas e os ecos sonoros aqui e ali, de frase-verso a frase-verso, são minha Beatriz. De vez em quando, gosto de dar uma puxada para ecos de uma frase de prosa (e não de uma frase-verso-epigrama), introduzindo fragmentos de narratividade. Neste poema, no final, assumi o dramalhão e fiz poesia sentimental, ao contrário da índole inicial dele. Me vinha à memória, na fração de segundo anterior ao início da digitação do improviso, o poema “A flor e a náusea”, do Drummond, aquela flor que furava o asfalto como signo de esperança de que tempos melhores haveriam de vir. Eu queria uma flor distinta desta, aquela mais prosaica, a que fica num apartamento qualquer de Copacabana, como a violeta que desabrochou repentinamente aqui em casa, ao puro ar do marinho maio carioca. Depois, por coincidência, num sarau de domingo na Gávea, o poeta Cabelo falou lindamente “A flor e a náusea”, corporificando a força verbal (até mesmo retórica) da poesia de Drummond e sobretudo acentuando a atualidade do sentimento expresso no poema. Sentimento de impotência diante das sacanagens do mundo. A flor da esperança emerge rompendo a pedra dura da náusea política. Eu queria a flor irrompendo num ambiente hostil, antinatural, mas não queria o sentido de esperança. Quem pode ter esperança neste nosso tempo distópico? E, no entanto, seguimos em frente, cuidando para que o distópico do mundo não se transforme em algum apocalipse individual. Seguimos em frente, com a cara neutra, como a cor da parede do meu poemeto.

[14 de maio, meio-dia]

Aquelas flores servem à imaginação do poeta (da poeta) como uma tela, agregando outras cenas à sua cena de espetáculo, espectrais, fantasmáticas, armando moldura invisível a olho nu. Mas para o jardineiro, a flor existe como materialidade pura, sem fala, ao mesmo tempo que fala o tempo todo. O corpo da flor fala, ao ritmo irregular das intempéries e ao passo das regulares estações do ano. Fala direto para a mente pensante do trabalhador.

[18 de maio]

Não sei se estou numa de “les événements m’ennuyent”, como no tédio aos acontecimentos associado à virada conservadora de Drummond, ao ver o que era a República de 46 e diante de seus embates crescentes com o dogmatismo dos marxistas. Paralelo aos livros que líamos, que estudávamos ou estudaríamos, paralelo às crônicas que acompanhávamos religiosamente no Jornal do Brasil, o Drummond real com quem convivemos nos últimos tempos, no nível da pequena política, era o Drummond que apoiou Sandra Cavalcanti, candidata a governadora, mas foi também o Drummond que deu apoio público à “greve das professoras” de 1979.

A grande greve contra Chagas Freitas, que levou de arrastão a classe média carioca e fluminense e multiplicou por quatro o salário das professoras primárias do estado. Eu estava metido nesse movimento. Daí emergiu o SEPE, até hoje uma organização que tem alguma voz em nome dos professores da rede pública.

***

Os acontecimentos me entediam, dizia o poeta brasileiro, pela interposta voz do poeta francês – Valéry, sempre um norte, um guia, para os poetas brasileiros da geração modernista. Repercutir os acontecimentos, como se numa tribuna (lateral), tem sido o mote dos meus posts, há tantos anos já. De repente, parei. Há dias não comento os acontecimentos no espaço ambíguo dos posts feicebuquianos. Ambíguo porque me causa desconforto estar submetido à engrenagem capitalista. Faria do discurso da negação algo hipócrita de minha parte. E, no entanto, um discurso tipo dialética negativa é sempre um contraponto necessário para ilustrar o grau da hipocrisia vigente.

Mudou o Natal ou mudei eu.

Nunca esqueço o Julio Cezar Montenegro nas reuniões do Beijo, jornal dissidente dos anos 70. As pessoas reclamavam da desmobilização “das massas”, ele protestava. O “refluxo” dos momentos de ida às ruas. Dizia que as pessoas estavam engajadas em outras mobilizações. A desmobilização aqui é outra mobilização ali. Mobilizar-se para resolver seus problemas individuais é uma política. Naquele contexto dos 70 tinha a ver com diversas formas de emancipação pessoal e até mesmo desbunde, tal como minha tribo vivenciou e Heloisa Teixeira, então Buarque de Holanda, narrou e sistematizou numa linha do tempo (em Impressões de viagem). O perigo do não-me-importismo é levar ao conservadorismo e, em casos extremos de exteriorização, ao populismo agressivo de direita.

***

A virada conservadora de Drummond refletia um estado generalizado no estrato literário nacional e internacional que ia muito além do que se reduz à fórmula “geração 45”. Um clima geral, contraditoriamente paralelo a diversos sinais de progresso civilizacional trazidos pelo pós-Segunda Guerra Mundial. Era um conservadorismo em alguns casos complementar ao progressismo (o da recusa de ideologias, como em Drummond), em outros, francamente retrocessivos (como no caso de um T. S. Eliot). Na linha do tempo da poesia de Drummond, a virada deu em Claro Enigma, um livro pelo qual tenho particular apreço. Nele, perde viço a flor da esperança. No lugar desta, introspecção e indagação do próprio passado, sem hipocrisias. O tônus esteticamente conservador durou relativamente pouco. Sob o impacto do concretismo, Drummond produziu Lição de Coisas, supremo, suco supra, “mel do melhor”, usando a expressão de Waly Salomão.

[19 de maio]

Leio um post sobre Rubem Fonseca. Nos meus esquemas históricos em aula, eu tinha o hábito de contrastar as figuras de Rubem Fonseca e Clarice Lispector. A meu ver, nos anos 1960, os dois jogaram a linguagem literária para um novo terreno, em relação ao padrão moderno até então dominante, estabelecido pela evolução do modernismo desde a década de 1930, regionalista e social. Adotando-os como marco, verificamos que o mainstream da expressão literária se tornou urbano. Ficava para trás, claro que sem perder a relevância histórico-estética, a narração do mundo arcaico, rural, em confronto com o processo de modernização. A sociedade mudava. Para um Brasil mais urbano, uma literatura urbana. Certo, eles não inauguravam a literatura urbana brasileira, esta se fazia presente desde sempre, desde no mínimo Memórias de um sargento de milícias. Porém, tomando-os como marco, é patente a inflexão na dominante cultural. (Junto com Clarice havia uma Lygia Fagundes Telles, mas esta que eu saiba nunca publicou na revista Senhor).

Um casal improvável? Um casal improvável. Mais impossível que o desejo de Clarice por Lucio Cardoso. Clarice e Rubem “causaram” no panorama literário da primeira metade dos anos 1960. Marcaram época dois volumes de contos: A coleira do cão, de Rubem, Laços de família, de Clarice. Foi uma revolução. Clarice vinha de antes. Dada por extravagante no contexto dos anos 1940 e 1950, ocupa lugar inaugural nos 1960 e daí em diante. Na esfera dos ícones maiores da história literária, Clarice nos anos 1950 formara par não com Rubem, mas com outro extravagante, Guimarães Rosa, cuja literatura era presa ao imaginário rural, interiorano, embora de forma inovadora, moderna a seu modo anacrônico, operando uma superação dialética do regionalismo, como avaliou Antonio Candido.

Também a história e a crítica literárias podem ser vistas pela perspectiva de gênero. Há um viés de gênero na comparação entre as duas figuras do par impossível. Em Rubem, é central a questão do masculino. Sobre Clarice, é repetir o óbvio afirmar que faz uma literatura feminina, em que pese o travestismo do narrador de A hora da estrela, uma obra tardia na linha do tempo de sua escrita. O que tem hoje a dizer a obra de Rubem a uma crítica feminista? Em que medida a crítica brasileira escarafunchou o viés masculino nos nossos grandes autores modernos? Viés masculino deve ser entendido como a estrutura do ponto de vista narrador. É, pois, a performance subjetiva, vivida, individual, do narrador. Sociologicamente, é a concretização, na vida real e na ficção, da cultura patriarcal. Mas no exercício da crítica literária, é útil deixar de lado, nas análises, as obviedades do paradigma cultural e ater-se aos mecanismos, nuances e sentidos de suas manifestações numa escrita autoral.

[23 de maio]

Todas as homenagens do mundo festejando a eleição de Paulo Henriques Britto para a Academia Brasileira de Letras. Alegria! Em termos de grupo geracional, Paulo dá match com Geraldo Carneiro – é nóis na ABL. Além de poetas, ambos têm em comum o fato de serem notáveis tradutores do inglês.

Tenho dificuldade de ser protocolar na homenagem, pela proximidade pessoal de uma amizade que dura mais de quarenta anos. Paulo Henriques Britto e Ana Cristina Cesar foram minhas primeiras amizades literárias, assim que cheguei ao Rio em 1976, buscando sobretudo entrar para o mundo dos escritores, fazer vida literária – para mim, o mestrado em letras era um caminho para a vida literária. E a sala de aula, meu ganha-pão. Havia o enlace com a tradução do inglês, também neste grupo – Paulo já com seu hercúleo Wallace Stevens, Ana C. com sua abissal Sylvia Plath. Eu, sequer Rosencrantz ou Guilderstern, dava pitacos inteligentes a seus esforços braçais. Tardes de oficina. Teriam existido ou é invenção da memória? Ganhei de presente traduzir alguns poemas de LeRoi Jones para a antologia Quingumbo, organizada por Ana C. ao mesmo tempo que ela tinha seus poemas requisitados para a antologia que Heloisa Buarque de Hollanda estava organizando e que viria a ser 26 poetas hoje.

Admiro muito a obra tradutória de Paulo. Não apenas as traduções poéticas, que ele fez por amor, como também as profissionais. É matéria de devoção (sou obrigado a isso, despindo-me de toda inveja) o fato dele ter traduzido Faulkner e Pynchon. Não é para qualquer um. Impossível separar do trabalho de Paulo a presença de Elizabeth Bishop no paradigma literário brasileiro. Na ABL, vai conviver com outro tradutor respeitável: o multilíngue Marco Lucchesi.

Tudo parece tão natural e próximo na poesia de Paulo. Um mestre do verso, do metro. O melhor de sua poesia se singulariza pela combinação entre coloquialidade conversacional e formas clássicas do verso. E é o jeito natural e desassumido dele que o torna unanimidade como personagem no panorama intelectual. Ele é literatura saindo por todos os poros. Literalmente, os poros do suor. Invejável sua capacidade de trabalho braçal. Sem trabalho braçal com a linguagem não há literatura.