
Isabel Lustosa (Universidade Nova de Lisboa) junta-se à Série Nordestes com dois textos que se complementam na tarefa de desmistificar o cangaço e a figura de Virgulino Ferreira da Silva, o histórico Lampião. O ponto de partida é uma lembrança de infância de sua mãe, que testemunhou a invasão de Cajazeiras, na Paraíba; episódio depois confirmado em registros históricos e na literatura de Ivan Bichara. Lustosa, assim, mostra como histórias locais se misturam a medos coletivos e à mítica do “rei do cangaço”. Vai além da memória pessoal para questionar o mito de Lampião como herói popular e revelar sua faceta violenta, cruel e pouco comprometida com a melhoria da vida do povo. Isso para desmontar, afinal, a imagem do “Robin Hood sertanejo”, sugerindo como ela foi fabricada e por que ainda hoje continua a surpreender.
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Boa leitura!
Heróis e bandidos & D. Dolores e o bando de Lampião
Por Isabel Lustosa (Universidade Nova de Lisboa)
Heróis e bandidos (15/10/2011)
Publiquei há pouco um livro sobre Lampião. Obra que me foi encomendada para uma coleção organizada por Lilia Schwarcz e Lúcia Garcia. A ideia da coleção é convidar escritores, jornalistas e historiadores para traçarem perfis de personagens da história do Brasil, contextualizando-os e propondo, no final, algumas atividades a serem desenvolvidas em sala de aula pelo professor. Enfim, um livro paradidático que seja também agradável e útil para qualquer leitor que se interesse pelo assunto.
Há muito tempo eu tinha pensado em escrever um livro para crianças sobre Lampião, inspirado numa história que mamãe me contou sobre a invasão de Cajazeiras, na Paraíba. A história era muito boa, pois entre sustos e tiros, os cajazeirenses protegeram seus bens e suas famílias dos bandidos e enxotaram-nos da cidade. Mamãe sempre me dissera que, na verdade, o ataque fora levado a cabo por Sabino, cabra de lampião.
Quando me convidaram para escrever esse livro voltado para um público mais amplo, pensei em incluir a história que mamãe me contou. Ela tinha me dito que a invasão de cajazeiras tinha sido em 1928. Eu procurei e não achei nada sobre o assunto. Mais do que isso, vi que na data da suposta invasão, Sabino já tinha morrido.
Achei muita coisa sobre a invasão de Sousa, também na Paraíba e sobre o papel que Sabino desempenhara na mesma. Fiquei achando que mamãe se enganara, que com sua idade avançada talvez estivesse confundindo as histórias. Ou ainda, que o medo que toda a gente da Paraíba tinha dos cangaceiros era tão grande que a história que acontecera em Sousa passara a ser lembrada como tendo acontecido na própria cidade.
Mas foi então que encontrei o livro do meu saudoso confrade de Sabadoyle, Ivan Bichara: Carcará. Quando conheci o ex-governador da Paraíba e escritor Ivan Bichara na casa de Plínio Doyle, ele me disse que se lembrava bem de mamãe e me presenteou com um de seus livros. Não era Carcará, e não me recordo se chegamos a conversar sobre aquele episódio nos poucos encontros que tivemos ali.
O romance dele relata minuciosamente a invasão, naturalmente com elementos de ficção. Está tudo lá, e mamãe só se enganou na data: trocou o dia, 28, pelo ano, 26. De modo que ela tinha 12 anos e lembrava em detalhes das sensações de pavor que tomaram conta de Cajazeiras quando se soube que o bando havia entrado na cidade. Sua irmã mais velha, Sinhá, tinha ido à igreja com os gêmeos recém-nascidos, e ela ficara em casa com vovó Chaguinha, ainda de resguardo, os irmãos menores e o pai, vovô Piano. Este queria sair a qualquer custo, mas foi convencido por minha avó a permanecer em casa. O resto da história – com a corajosa e inteligente reação do povo de Cajazeiras ao ataque – está muito bem contada no livro de Bichara.
Mas o que quero falar aqui é o que sempre soube e o que as pessoas da geração de minha mãe sabiam: os cangaceiros eram violentos, cruéis e impiedosos. E isto eu disse em meu livro sobre eles e sobre Lampião em particular. Não disse nada de novo, contudo. Em seu excelente livro sobre Lampião, publicado nos anos 1980, Billy Jane Chandler já havia refutado a tese de Hobsbawn sobre o banditismo social no que dizia respeito ao cangaço. Depois do livro de Chandler, inúmeros trabalhos foram publicados e, por mais entusiasta que se seja das teses sobre a necessidade da violência para mudar o mundo, essa extensa bibliografia já deveria ter consolidado a certeza de que não era de jeito nenhum o objetivo de Lampião mudar o mundo no sentido de melhorar a vida do pobre.
Lampião jamais roubou dos ricos para dar aos pobres, a muitos dos quais roubou, torturou e matou com requintes de crueldade. Sua motivação sempre foi pessoal e ele, desde a juventude, junto com os irmãos, se metera em várias brigas na vizinhança, fazendo seus primeiros inimigos entre essas pessoas às quais continuaria a perseguir pela vida afora.
De onde vem a crença de que esse bandido inteligente, astucioso e bom estrategista, mas também violento e cruel, era uma espécie de Robin Hood? Algumas pessoas que leram meu livro pareceram muito surpreendidas com essa constatação.
Estou convencida que esse mito foi construído no âmbito de uma certa cultura de esquerda que predominou no Brasil entre os anos 1950 e 1970. O fascínio por Lampião surgiu ainda durante o seu longo reinado. A imprensa sensacionalista, tal como ainda hoje faz com alguns bandidos, também contribuiu para fixar a imagem de Lampião, repercutindo seus crimes, batalhas e fugas mais impressionantes. Ela, junto com a literatura de cordel, ajudou a criar e a difundir toda a mítica que cercaria a imagem do cangaceiro rico, poderoso e invencível com o qual muitos moços pobres certamente sonharam em se equiparar, vendo no cangaço uma chance de vitória sobre o triste destino que lhes estava reservado.
Mas foi só com a emergência da luta pela reforma agrária no final dos anos 1950 – as famosas Ligas Camponesas – que o cangaço foi escolhido como símbolo maior da luta do povo sertanejo contra a opressão e a miséria. O herói redentor tinha que vir do meio do povo e, se a violência era o caminho legítimo para o sucesso da luta de classes, o cangaceiro tinha os elementos estéticos mais adequados para preencher a imagem daquele herói. A classe média urbana de esquerda, com seu desconhecimento da realidade sertaneja sendo preenchido por imagens românticas da literatura, se traduziria em obras que buscaram sua lírica em elementos da paisagem da caatinga e em uma representação do sertanejo que era herdeira direta da descrição feita por Euclides da Cunha.
D. Dolores e o bando de Lampião (13/03/2010)
Há muitos anos ouço minha mãe, Dolores Lustosa, contar com detalhes a história da invasão de Cazajeiras pelo bando de Lampião. Não que o próprio Lampião lá tenha estado: quem teria comandado esse ataque teria sido Sabino Gomes, um de seus cabras. Quando não tinha em vista alguma ação, Virgulino usava dividir o bando entre os homens que mais confiava, e Sabino era de sua inteira confiança. Na entrevista que Lampião deu em Juazeiro, declarou que Sabino e seu irmão Antonio Ferreira eram seus substitutos naturais. Ambos, aliás, se tornaram tenentes pelo mesmo ato de pantomina com que o Padre Cícero fez de Virgulino, Capitão. Minha mãe me contava que o ataque ocorrera a 28 de setembro de 1928 e que lembrava da data porque foi o dia em que a mãe dela dera à luz aos gêmeos. Sua irmã Sinhá tinha levado os dois meninos para batizar na igreja do Colégio Diocesano, que ficava no Alto do Cabelão, um bairro que hoje tem o nome de Belo Horizonte.
Acontece que, recentemente, nas pesquisas que fiz para um pequeno estudo sobre Lampião, achei muitas referências ao ataque à cidade de Sousa, também na Paraíba, e nada sobre Cajazeiras. Alguns detalhes do ataque a Sousa, aliás, coincidiam com aspectos da narrativa de mamãe. A possível data da morte de Sabino também era anterior a setembro de 1928. Como uma constante na bibliografia sobre o cangaço é a descrição do verdadeiro pânico que tomava conta da população das pequenas cidades do interior diante de qualquer ameaça de invasão, me ocorreu pensar que, talvez, minha mãe tivesse ficado tão impressionada com o relato do ataque a Sousa que imaginou que o mesmo tivesse sido contra Cajazeiras. Até que, finalmente, achei referência ao ataque àquela cidade, só que com a data de 1926. Liguei para mamãe e perguntei novamente a data. Ela disse: 28 de setembro de 1928. Mas emendou: ou teria sido 1926?
Foi em 1926, e quase tudo que mamãe contou está também narrado no livro de Ivan Bichara, Carcará. Achei referências ao livro na internet e o comprei em um sebo virtual. Conheci o ex-governador da Paraíba na casa de meu saudoso amigo Plínio Doyle, numa daquelas reuniões tão simpáticas que passaram à história com o nome de Sabadoyle. Ele, hoje já falecido, era de 1918, e minha mãe, que é de 1914, passaram infância e adolescência em Cajazeiras. Bichara lembrava de mamãe, cuja extraordinária beleza devia impressionar os rapazes daquela cidade. Ele me ofereceu um de seus livros; trocamos algumas palavras cordiais em outros encontros do Sabadoyle, mas eu não sabia – até porque então não tinha interesse no assunto – que ele escrevera sobre o ataque de Sabino Gomes a Cajazeiras
Segundo o relato de D. Dolores, apesar de ter corrido o boato de que os cangaceiros iam atacar a cidade, ninguém acreditava, porque Cajazeiras era grande – depois de Campina Grande, era a maior cidade da Paraíba. Quando a invasão começou, todo mundo ficou apavorado e foi se trancar em casa. Mas os que sabiam que a invasão ia acontecer estavam esperando e reagiram de arma na mão, pondo em fuga os cangaceiros. Estes deixaram a cidade atirando e, no caminho, mataram um alfaiate que, por curiosidade, metera a cabeça na janela para olhar.
Carcará, o livro de Ivan Bichara, é obra de ficção, mas cita muitos nomes de personalidades da cidade que tiveram atuação efetiva no combate. Como minha mãe, que tinha então 13 anos, Ivan, aos nove, ficou em casa deitado debaixo da cama com outros meninos. O que conta em seu livro certamente junta memória e história, pois seu pai e outros de seus familiares figuram ali como personagens. Mas o elemento importante que une as duas narrativas é o orgulho pela corajosa reação do povo de Cajazeiras. Ao contrário dos tantos relatos em que, a um simples bilhete de Lampião ou de um de seus asseclas, as cidades imediatamente se submetiam, Cajazeiras se organizou para a reação armada. Prefeito, juiz, bispo, padre, delegado, comerciantes e a gente simples do povo se prepararam para reagir e reagiram, honrando a tradição de valentia da Paraíba.
