É preciso falar sobre as ausentes, por Alexandro Henrique Paixão

Trazemos hoje texto de Alexandro Henrique Paixão (Unicamp) sobre o projeto É preciso falar sobre as ausentes: a colaboração feminina no jornal O Paiz (1884-1934)”, financiado pelo CNPq entre 2022 e 2025. Coordenado por Tania Regina de Luca (Unesp de Assis), em parceria com pesquisadores da Unicamp, Unesp, UFPR e University College London, o projeto resgatou a colaboração de mulheres na imprensa do Rio de Janeiro durante a chamada Belle Époque.

Um dos resultados é a coleção publicada em e-book As mulheres no jornal O Paiz (Editora FE-Unicamp), que recupera e analisa a produção de escritoras como Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921), Maria Benedita Câmara Bormann (pseudônimo Délia, 1853-1895), Emília Moncorvo Bandeira de Melo (pseudônimo Carmen Dolores, 1852-1910) e Júlia Lopes de Almeida (1862-1934).

Paixão destaca especialmente a trajetória de Délia e seus contos publicados entre 1887 e 1892, nos quais surgem heroínas que buscavam a liberdade a qualquer custo, enfatizando a luta das mulheres contra a sociedade patriarcal.

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É preciso falar sobre as ausentes

Por Alexandro Henrique Paixão (Unicamp)

Com este título, “É preciso falar sobre as ausentes”, apresento uma pesquisa financiada pelo CNPq[1] intitulada É preciso falar sobre as ausentes: a colaboração feminina no jornal O Paiz (1884-1934), coordenada por Tania Regina de Luca (Unesp de Assis) e com a participação de quatro docentes-pesquisadores e seus respectivos estudantes-bolsistas, advindos de três universidades brasileiras (Unicamp, Unesp e Universidade Federal do Paraná) e de uma universidade estrangeira (University College London).[2] Todos os pesquisadores envolvidos dedicaram-se a estudar as mulheres cronistas do jornal O Paiz, o que resultou na coleção publicada em e-book pela Editora da FE-Unicamp, intitulada As mulheres no jornal O Paiz.[3] A pesquisa, de caráter coletivo e cooperativo, propôs-se a levantar, de forma exaustiva, a colaboração das escritoras Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921), Délia, pseudônimo de Maria Benedita Câmara Bormann (1853-1895), Carmem Dolores, pseudônimo de Emília Moncorvo Bandeira de Melo (1852-1910), e Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), desde a fundação do matutino O Paiz até o ano de 1912.

Partindo das ponderações que os organizadores dos e-books apresentaram em seis edições já publicadas[4] – outras três estão em andamento –, as autoras estudadas no projeto, disponibilizadas ao público em edições digitais de acesso aberto, vêm acompanhadas de estudos sobre suas trajetórias pessoais e intelectuais, análise dos textos, espaço ocupado na geografia do impresso, bem como diálogos mantidos com os demais conteúdos e com o contexto sociopolítico brasileiro. Lendo O Paiz, buscamos apresentar o papel social, cultural e intelectual das escritoras. A escolha desse jornal justificou-se tanto pelas posturas políticas adotadas, de caráter republicano e abolicionista, quanto pela presença significativa das autoras estudadas em suas páginas, demonstrando a relevância da escrita feminina no século XIX.

Sobre o jornal O Paiz, conforme destacaram Ana Cláudia Suriani da Silva e Tania Regina de Luca[5], vale destacar que a edição inaugural do impresso circulou em 1º de outubro de 1884, no interior de uma conjuntura marcada por intensa agitação política, devido aos conflitos entre o Exército e o regime monárquico vigente, acompanhados de um crescimento expressivo do movimento social antiescravagista. O novo periódico, com apenas quatro páginas, conforme as convenções da época, tinha sua redação instalada na Rua do Ouvidor, nº 63, então a mais famosa da capital do Império, que abrigava outros jornais tradicionais concorrentes, como Jornal do Commercio, Gazeta de Notícias e Diário de Notícias. No início, a direção de O Paiz esteve sob a responsabilidade de Rui Barbosa, substituído por Quintino Bocaiúva, a quem coube, durante anos, responder pelos rumos do jornal. Adotando um vezo abolicionista, a redação de O Paiz era cautelosa nas críticas à Monarquia, declarando, segundo as pesquisadoras Ana Cláudia Suriani da Silva e Tania Regina de Luca, neutralidade e independência em relação aos partidos políticos da época, embora não se isentasse de tratar das questões políticas emergentes e em andamento na sociedade brasileira. Para além das escritoras estudadas, destaca-se a participação no jornal de autores e personalidades consagradas, como Aluísio de Azevedo e Joaquim Nabuco. Em relação às tiragens, inicialmente teve cerca de 11 mil exemplares, chegando à marca de 30.600 em 1889, adotando então o seguinte slogan em seu cabeçalho: “O Paiz é a folha de maior circulação na América do Sul”.

No que se refere às edições em que foram publicados os contos e as crônicas das autoras estudadas, os diferentes organizadores dos e-books consideram que os resultados obtidos com a pesquisa preenchem significativa lacuna na história da imprensa e da cultura letrada brasileira. A despeito da hegemonia masculina de um sistema patriarcal, foi possível encontrar escritoras que conseguiram impor seu caráter autoral feminino nas tintas e no papel da imprensa oitocentista, convidando-nos a conhecer novos conteúdos e estratagemas literários atravessadores das tradições seletivas em voga. A gramática do projeto consistiu em localizar, examinar e publicar sistematicamente os contos e as crônicas, alguns inéditos, outros recolhidos em livros, capítulos e artigos, pelas próprias autoras e por pesquisadores da contemporaneidade[6]. O que apresentamos ao público literário brasileiro hoje é mais um passo na construção de novas perspectivas sobre as vozes femininas encontradas no final do século XIX.

Para terminar, apresento considerações de forma esquemática e parcial sobre Délia e alguns de seus contos, a partir da pesquisa que Ana Cláudia Suriani da Silva e eu iniciamos em 2019 na UCL e na Unicamp[7], e que veio depois a se somar a este grande projeto do CNPq.

Maria Benedita Câmara Bormann, pseudônimo Délia, entre 1870 e 1895 publicou romances, crônicas e contos em livros e periódicos brasileiros. Nasceu em 25 de novembro de 1853, em Porto Alegre, e morreu em 23 de julho de 1895, no Rio de Janeiro. Manteve sua coluna no jornal O Paiz entre 2 de novembro de 1887 e 31 de julho de 1892, publicando um total de 25 contos. Nesses contos, Délia criou heroínas que buscavam a liberdade a qualquer custo, enfatizando a luta das mulheres contra a sociedade patriarcal. Algumas delas são mais fortes que outras, como a cortesã apelidada de Alegria, do conto “Uma história de ontem”, ou Lélia, de “Uma história”, que se recusa a casar com o primo e se veste de homem para narrar suas aventuras na Europa. Outras optaram por cometer suicídio, como as heroínas de “A suicida” e “Nevrose”, em um ato de revolta ou desobediência contra a resignação feminina geralmente defendida na época.

Tais contos retratam, entre outras coisas, por meio de um narrador onisciente, afetos sexuais vivenciados de forma confessional. Quando Délia começou a escrever sobre a temática dos afetos sexuais, a psicanálise freudiana ainda não havia sido sistematizada, e as ideias sobre neuroses de ansiedade causadas por relações sexuais estavam apenas sendo desenvolvidas. No entanto, Délia já apresentava aos leitores “momentos psicológicos” em seus textos, criando uma narrativa em forma de confissão sobre a sedução vivida ficcionalmente por suas personagens femininas, algo que podemos caracterizar como fenômeno libidinoso.

Popularmente definida como “tesão”, essa energia vital, sistematicamente discutida por Freud em vários ensaios ao longo das duas primeiras décadas do século XX, foi apresentada pela primeira vez pelo pai da psicanálise em uma carta enviada a seu amigo Fliess, em junho de 1894 (“Rascunho E – Como se origina a angústia”). Ali, ele discute tanto o que chamou de “libido psíquica” quanto o problema da “sedução”.

Délia contemporiza elementos da psicanálise vienense, como o tema da sedução, ao tratar da sexualidade feminina por meio de paixões proibidas, vista como um fenômeno libidinoso por excelência – ela mesma uma estrutura de sentimento da época, seja na Viena de Freud, seja no Rio de Janeiro de Délia. A autora gaúcha-carioca preenche as páginas de seus contos com erotismo, proibições, culpa, morte e sexo – ou seja, um mosaico de elementos libidinosos, como acontece no conto “Sensitiva”, em que a personagem Sofia prefere morrer a se casar com seu prometido.

Isso era inédito para a época, pois a moda romântica havia transformado as moças em personagens delicadas, indefesas e puras, cujo melhor exemplo é Ceci, do romance O Guarani (1857), de José de Alencar (1829-1877). Délia chega a recuperar essa musa romântica, apenas para transformá-la em uma personagem forte, mas que também está fora de si, tomada por fantasias eróticas proibidas, como estar apaixonada pelo irmão – exemplo do incesto implicitamente construído no conto “Sensitiva”.

Haveria muito mais a explorar sobre Délia, a libido sexual e comparações com a psicanálise nascente ou mesmo com outros escritores do período, mas espero ter conseguido apresentar algumas sínteses que instiguem os leitores do Blog Virtual do Pensamento Social Brasileiro a ler Délia e as demais colaboradoras do jornal O Paiz.

Notas

[1] Edital Universal, 18/2021 – Processo: 402968/2021-2; Vigência: 03/02/2022 a 28/02/2025.

[2] Respectivamente, os docentes pesquisadores são: Alexandro Henrique Paixão (Unicamp), Álvaro Santos Simões Junior (Unesp), Milena Ribeiro Martins (UFPR) e Ana Cláudia Suriani da Silva (UCL); os estudantes bolsistas, em ordem alfabética: Arieta Marafon Fabrício (Unicamp); Daphne Nathielle Goulart da Costa (Unicamp); Filipi Gomes de Souza (Unesp); Helen de Oliveira Silva (Unesp); Jacqueline Lourenço Paschoim (Unesp); Juliana Carolina de Castilhos (UFPR); Juliana Maria de Araújo (UFPR); Lucas Antonio Mansano Morais (Unesp); Marina Nogueira Cardozo Muniz (USP); Nicole Serpa de Souza (UFPR); Paulo Sérgio Silva (Unicamp); Paulo Silva (Unesp); Rafaella Gobbo Reis da Silva (USP); Sábatha Yasmim Raizer (UFPR); Tiago Rodrigues Fernandes (UFPR); além da pesquisadora, tradutora e revisora de textos Ana Cecília Água de Melo.

[3] Aproveito para agradecer à Editora da FE-Unicamp, especialmente a Roberta Pozzuto e equipe.

[4] Confira a Coleção “As mulheres no jornal O Paiz” em: (1) Conversas lisbonenses e outros escritos (1884-1889) de Maria Amália Vaz de Carvalho; (2) Maria Benedita Câmara Bormann – Contos por Délia (1887-1892); (3) Júlia Lopes de Almeida (pseudônimo Ecila Worms) – A Moda (1892-1901); (4) Júlia Lopes de Almeida em O Paiz (1884 a 1905); (5) Júlia Lopes de Almeida, colaboradora regular d’O Paiz (1906 a 1912) e (6) Carmen Dolores – A Semana (1905-1910).

[5] O estudo completo está no e-book Maria Amalia Vaz de Carvalho: conversas lisbonenses & outros escritos (1884-1889), publicado em 2022 pela FE/Unicamp.

[6] Outras pesquisadoras vêm realizando estudos sobre escritoras oitocentistas, merecendo destaque os esforços de Zahidé Lupinacci Muzart, Norma Telles, Márcia Abreu e Laila Thaís Correa e Silva.

[7] Aproveito para explicar que a expressão “É preciso falar sobre as ausentes”, que aparece no título deste post e que foi escolhida para compor o título do projeto CNPq, foi inspirada na música Manifeste (Mantoulet e Gatlif), da trilha sonora do filme Exílios (2004), dirigido por Tony Gatlif. Desde 2014, venho usando esta expressão em diversos trabalhos dedicados à “história dos vencidos”, no contexto das minhas pesquisas docentes na FE-Unicamp. Ademais, essa mesma perspectiva adoto desde 1999 nos estudos sobre o poeta esquecido Fagundes Varella (1841-1875).