Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Recife (12 de dezembro, 20 horas)

Mário de Andrade atravessa uma cidade que não esconde o que perdeu. Está à procura da praia da Boa Vista, em Recife, sob a noite alumiada por casinhas. Chamam-lhe a atenção as cenas de pobreza: os mucambos à beira d’água, como luzes doentes. Não que já não estivesse habituado; não que no Rio ou em São Paulo não houvesse um sem-fim de gente vivendo na desventura… Ainda assim, Mário sugere que, nos mucambos de Recife, habitam traços singulares. Quais? Nesta crônica da tristeza social, as linhas do modernista mostram-se especialmente sensíveis.

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Recife (12 de dezembro, 20 horas)

Casa de Detenção, 1913, Recife (PE). Fotografia: Fundo Correio da Manhã

Vamos indo pela noite em busca da praia da Boa Vista, onde o coqueiro nasceu… O auto vai tungão, lerdo, auxiliando as vistas da noite. É zona de mucambo, e na agua parada, encapuçada de mangue, as casinhas balançam feito luzes de canoas abicadas na praia. São luzes paradas da janelinha de frente, da porta de frente, luzes dum amarelento improvisado, que a agua encomprida pra baixo, que nem fachos revirados. A imagem ficou ruim… Não são fachos não; é mas a agua doente chupando tudo, chupando a vida da luz, chupando o sangue das gentes habitando aquilo, como quem se aboleta no socavão da morte… pra viver. É triste, bem triste…

Foi a atração da cidade, foi essa coisa infeliz, a festança aparente da cidade grande que fez aquilo… Recife, a praça linda do nordeste abicada no entresseio do Capiberibe e Beberibe, contavam tanta coisa dela!… Tinha cada igreja, Deus! era ouro só… Com santos tão bonitos, música tão cantadeira da gente chorar… As casas eram mais altas que môrro de vertigem, com tanta moça na rua, se pegava nelas, iamos bber a monjopins pra depois dormir no amor. E os teatros, então!… Tudo facil, médico, dinheiro, tudo facil. Eles vieram então, de bem longe até, da zona do mato, os matutos, da zona do sertão, os sertanejos, vieram comboiando as familias, chegaram. Dinheiro não é facil na cidade grande não. Porêm a cidade á vista, chamando com luz, com boniteza, aventura, tôrres, o diabo! Não puderam voltar mais prá querencia. Foram se avolumando na barra da cidade, em casas que seriam pra dois mezes e ficaram anos, de barro feio, cobertas com a propria folha caida dos coqueiros, brigando por causa do terreno, com o rebento verde claro do mangue.

Hoje os mucambos são tão numerosos como os coqueiros. alastram o tamanho da cidade grande, formando na barra dela, um babado de barro e folhas secas. Babado crespo não tem dúvida, mas babado bem triste, sujo de lama, sujo de gente do mangue…É triste de se ver… Nem é pitoresco não, é triste…

Toda cidade grande possui gente que viveu assim, chamada pela aventura, acostumada na desventura. Porêm no Rio, na Pauliceia, se disfarçam morando nos cortiços invisiveis, nas casas de aparencia clara… Recife é mais sincera, conta a tristura de tantos desiludidos, com uma fôrça que me queima agora o prazer divino de rolar pela Boa-Vista, na fresca do ventarrão.

MÁRIO DE ANDRADE