Resenha | “Mulheres contra a ditadura: escrever é (também) uma forma de resistência”, por Lua da Cruz e Gabriel Miranda

O livro Mulheres contra a ditadura: escrever é (também) uma forma de resistência, de Eurídice de Figueiredo, lançado pela Editora Zouk em 2024 e finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico, é resenhado por Lua Gill da Cruz (UFRJ) e Gabriel Fernandes de Miranda (UEAP) para a BVPS. O livro mostra como os efeitos da ditadura militar no Brasil ainda ecoam no presente, propondo a escrita poética como ato de resistência. Ao dar voz aos mortos e silenciados, busca transmitir às novas gerações a memória desse período, reafirmando a literatura como instrumento político e de preservação da história.

Segundo os autores, a obra apresenta um inventário de textos que amplia o campo de pesquisa e reforça seu caráter introdutório, próximo à tradição dos readers. Combinando valor enciclopédico e função pedagógica, divulga escritos pouco lidos e transmite a memória da ditadura como resistência ao autoritarismo, tornando-se referência para estudos e ensino sobre literatura e ditadura.

Boa leitura!


Mulheres contra a ditadura: escrever é (também) uma forma de resistência

Por Lua Gill da Cruz (UFRJ) &

Gabriel Fernandes de Miranda (UEAP)

A peça Lady Tempestade, dramaturgia de Silvia Gomez apresentada em 2024 no contexto dos 60 anos do golpe militar no Brasil, parte de um arquivo pulsante: os diários da advogada pernambucana Mércia Albuquerque, dedicada à defesa dos presos políticos, torturados e perseguidos pelo regime autoritário. Mais do que uma simples reprodução documental, a dramaturgia estabelece um diálogo sensível e inventivo com essas fontes históricas, revelando segredos que exigem um tempo próprio para emergir. Uma imagem impactante da montagem é a metáfora das falésias, apresentadas como uma “espécie de livro” cuja leitura se dá pela lenta corrosão do tempo, simbolizando tanto a fragilidade quanto a persistência da memória, igualmente sujeita à erosão. Na cena final, a cenografia surpreende ao mostrar que o chão onde o público está sentado é formado por esses arquivos, desvelados de forma violenta pela atriz Andréa Beltrão diante dos espectadores. Essa descoberta simbólica evidencia a persistência subterrânea e muitas vezes oculta da história da repressão, reafirmando que inúmeros arquivos silenciados continuam a insistir em emergir – seja pela entrega dos diários de Mércia, pelo ato de levantar tapetes e abrir arquivos para confrontar o passado, ou pela própria montagem da peça, que resgata materiais pretéritos e traz à tona fantasmas que ainda habitam o presente.

Embora a referência à peça apareça modestamente em uma nota de rodapé da obra de Eurídice Figueiredo, Mulheres contra a ditadura: escrever é (também) uma forma de resistência, publicada no mesmo ano, esse gesto discreto funciona como um pequeno arquivo inserido no texto, uma “falésia” que emerge do chão da página, simbolizando a própria proposta da pesquisadora da Universidade Federal Fluminense: enfrentar um país carregado por 60 anos de histórias ainda silenciadas. Assim como a peça trabalha a memória a partir de fragmentos depositados e revelados aos poucos, o livro parte desse princípio para abarcar a multiplicidade de arquivos, testemunhos e narrativas atravessados pela violência da ditadura e pelo esforço permanente de memória.

A obra de Figueiredo incorpora o conceito fundamental de “temporalidades da memória”, formulado por Leonor Arfuch, para compreender a memória e a história como fenômenos dinâmicos, plurais e em constante transformação. Ao aplicá-lo ao campo da ditadura brasileira, a autora destaca a natureza aberta e contínua do processo de ressignificação do passado, em que o “dever de memória” se altera conforme o distanciamento temporal, as gerações e as condições políticas, sociais e literárias. Essa perspectiva permite entender que lembrar e narrar o período autoritário não é um ato fixo, mas sim uma experiência estética compartilhada, em que presente, passado e futuro se entrelaçam.

Nesse contexto, o livro se configura como um espaço privilegiado para a observação das múltiplas formas literárias, autobiográficas, testemunhais e híbridas por meio das quais mulheres protagonizam o processo de reelaboração dos traumas da repressão. Ao discutir a obra da escritora Maria Valéria Rezende, por exemplo, Figueiredo apresenta uma síntese importante do seu argumento:

não existe uma memória única, um bloco que volte por inteiro. A memória funciona, antes, como fluxo de imagens que vêm para a superfície de consciência superpostas umas às outras, às vezes de maneira desconexa, às vezes na forma de uma inquietação cuja causa se desconhece. Mesmo os eventos vividos reaparecem na memória de modo diferente porque, ao rememorar, também se inventa; imaginação e memória são irmãs siamesas (Figueiredo, 2024: 171).

Essa reflexão indica a complexidade da memória e evidencia o papel da literatura como espaço de especulação e reelaboração, fundamental para o enfrentamento do passado autoritário.

Um dos méritos centrais da obra é o diagnóstico de que a produção literária nacional sobre a ditadura permanece um campo aberto, marcado por uma renovação significativa e pela emergência de vozes femininas que ampliam e diversificam a escrita sobre o tema. Sobretudo uma geração de jovens autoras – que não vivenciaram o período direto da repressão – que se empenha em herdar, reelaborar e reinventar o trauma histórico, apontando para as transformações do imaginar e do narrar no Brasil contemporâneo. Essa renovação abre caminho para que silenciamentos prévios, particularmente sobre a experiência feminina, sejam incorporados à narrativa pública e literária.

O vasto corpus analisado é outra grande contribuição da pesquisa: composto por 94 romances e relatos que atravessam mais de cinco décadas, o conjunto inclui obras por vezes pouco conhecidas ou invisibilizadas, cuja organização temática revela um mapeamento minucioso e ampliado. Desde as primeiras páginas, o leitor é confrontado com uma lista detalhada das escritoras, suas obras e datas de publicação, sinalizando a opção consciente da autora de dar visibilidade a essa vasta produção muitas vezes pouco circulada, e produzida contemporaneamente sobretudo no período pós-2000, com especial força a partir de 2014. Ao longo do livro emerge a sugestão de conexão entre momentos institucionais de ampliação de políticas da memória e a produção literária, indicação que já aparecia no livro anterior de Figueiredo sobre essa temática, A Literatura como arquivo da ditadura brasileira (2017). Esse gesto de recuperação funciona tanto como uma catalogação acadêmica quanto ato político e metodológico, ampliando o horizonte de pesquisa e estimulando outras formas de produção cultural para compreender o período ditatorial. Entre os objetivos centrais da análise, destacam-se investigar as especificidades da militância feminina e os preconceitos enfrentados; mapear o silêncio imposto e seu rompimento na escrita das ex-militantes; identificar os impactos intergeracionais da repressão; resgatar a produção literária como manifestação coletiva e histórica do trauma; e apontar as mudanças narrativas e estéticas recentes.

O livro está estruturado em duas partes: “Memória e História” e “A ditadura pelo viés da ficção”. Na primeira das seções, Figueiredo retoma a discussão teórica sobre a memória, fazendo dialogar referências como Maurice Halbwachs e Paul Ricoeur, já conhecidas no campo das ciências sociais, com contribuições mais recentes, como o conceito de “melancolia de esquerda” de Enzo Traverso. Mas também há espaço para um trajeto histórico acerca das experiências de militância feminina no Brasil, para os relatos biográficos e cartas de sobreviventes, assim como um breve resumo da questão racial durante o período ditatorial. Nos capítulos que compõem esta seção, notamos, portanto, um trabalho mais afim do sociológico e do histórico, que serve para estabelecer um solo comum que permite o avanço na discussão em torno da produção literária.

Já na segunda seção, a pesquisadora retoma o procedimento utilizado em livros anteriores, separando os textos mapeados em blocos temáticos: “A escrita memorialística”, “A transmissão do trauma na família”, “A experiência do exílio, interações com as ditaduras do Cone Sul”, “Os espectros da guerrilha do Araguaia”, “Mortos sem sepultura”, “O luto e o impedimento do luto”, “A tortura, o estupro e a gravidez”, “Os delatores, os torturadores e o movimento de desfiliação de suas filhas” e “A invasão de terras e o genocídio indígena”. A escolha tenta abarcar a pluralidade de experiências históricas transmutadas pela escrita, indicando um pressuposto de forte conexão entre textos e vivências.

Se o gesto é o de uma cartografia ampla da produção feminina sobre a temática ditatorial, torna-se evidente que, para dar conta de uma aproximação a materiais tão diversos, é preciso buscar uma metodologia distinta em ambas as partes. Em conjunto, entretanto, está a proeminência da escolha metodológica orientada por um horizonte temático, o que acarreta também um distanciamento dos elementos formais ou genéricos. Ou seja, interessa mais a perspectiva sociológica aos conceitos e modelos herdados dos estudos literários, como as demarcações entre gêneros literários, as posições dos narradores ou estratégias de temporalidade narrativa.

Se, por um lado, a visão ampliada dos modos de rememorar o passado ditatorial é determinante no projeto do livro, ela convive com uma defesa da literatura como espaço que permitiria uma recomposição do passado, capaz de agir como “suplemento” à memória e ao arquivo das violências perpetradas entre 1964 e 1985. A tese da suplementaridade do literário parece ir de encontro à profusão de narrativas, relatos e textualidades que não obedecem diretamente aos ditames do que costumamos chamar de literatura. No curso do texto, os testemunhos de Amelinha Teles ou a biografia de militantes dos anos 1970 se apresentam em pé de igualdade com textos de forte elaboração simbólica e fundados em pactos ficcionais, como O corpo interminável (2019) ou As Meninas (1973). A série analisada parece dinamitar as diferenças entre o dentro e o fora do campo literário, ao mesmo tempo em que as discussões teóricas insistem numa produtividade específica do literário.

Ainda assim, em Figueiredo, a articulação entre autoras e temporalidades tende a promover uma conexão entre gerações e contextos diversos, revelando continuidades, rupturas e reconfigurações da memória histórica e literária. Isso se torna evidente na seção dedicada aos testemunhos e relatos autobiográficos, na qual a autora agrupa narrativas que tratam dos aspectos mais ásperos da repressão, ou seja, tortura, abuso sexual, violência de gênero, com atenção inédita às especificidades da experiência feminina. Embora as mulheres tenham “demorado para falar, escrever e publicar” e passados longos períodos recolhidas a um esquecimento, a publicação dos seus relatos trouxe à tona versões que reconstruíram coletivamente uma história antes suprimida. Ao reunir esses testemunhos, o livro ganha força ao colocar lado a lado vozes diversas que, no conjunto, compõem uma narrativa coletiva de resistência e superação, do silêncio à reinserção social pós-ditadura. Figueiredo monta, portanto, um panorama formado pelo acúmulo dessas narrativas e gerações múltiplas, apontando para uma perspectiva feminina que serve também como introdução às problemáticas mais gerais como a conexão entre literatura, memória e testemunho. O procedimento é o de recolher narrativas, resumindo suas tramas e enredos, pincelando aqui e ali alguns comentários de caráter diagnóstico. A somatória dos textos lidos, entretanto, não busca configurar um sistema. Diante de um corpus tão vasto, Figueiredo se abstém de delimitar tendências ou formas compartilhadas de simbolização do passado ditatorial. Também nos chama a atenção, nesse conjunto, a ausência estratégica de juízos de valor. A pesquisadora evita vaticinar ou hierarquizar esses textos, desligando-se da longa tradição valorativa em favor de um enquadramento que poderíamos, talvez, chamar de pós-autonomista. No texto de Figueiredo, a literatura se mistura com gêneros acadêmicos como o ensaio ou com o jornalismo. O abandono do preciosismo do literário configura um olhar que se volta para a produtividade social dos textos, cuja produção e circulação parece se dar em um mundo de dissolução do pensamento das esferas, como pensava Josefina Ludmer há mais de 15 anos.

Outro ponto relevante destacado pela obra é a observação das mudanças recentes no campo literário, especialmente no âmbito da ficção, em que surgem debates inéditos, como a inclusão dos delatores e torturadores como personagens narrativos, ampliando o olhar para a complexidade da ditadura, o que desafia simplificações e estimula uma reflexão crítica mais profunda. Também notamos a expansão das temáticas em direção aos debates raciais que têm ganhado centralidade dentro e fora dos estudos literários. Figueiredo busca colocar em cena os modos como textualidades distintas se aproximaram das experiências de dominação da população negra e de extermínio indígena durante os anos da última Ditadura Militar. Entre a figuração literária e o relato de experiência de autoras como Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento, Mulheres contra a ditadura adiciona camadas ao trabalho de mapeamento já feito em A literatura como arquivo da ditadura.

Ao final da obra, a autora dá um passo generoso ao apresentar um “inventário de obras” não aprofundadas ao longo do texto, mas resgatadas com breves resumos, ampliando o espaço para futuras pesquisas e sinalizando a riqueza e diversidade do campo. A sugestão parece ser a de dar início a um trabalho coletivo de análise e balanço das escritas de mulheres em relação ao autoritarismo brasileiro. O livro parece confirmar, então, seu propósito introdutório, como um capítulo brasileiro da tradição estadunidense dos readers, livros que prometem uma entrada em temáticas específicas da área acadêmica. Nesse sentido, mesmo desde nosso lugar como pesquisadores das relações entre literatura e ditadura, entendemos ser fundamental o valor enciclopédico do estudo de Figueiredo, que permite a divulgação e circulação de textos pouco lidos ou com escassa fortuna crítica. Dessa maneira, livro de Figueiredo se situaria num vértice entre o discurso acadêmico e uma produtividade pedagógica que, imaginamos, o transformará em leitura fundamental para o avanço do campo dos estudos de literatura e ditadura. Materializa-se, portanto, a função que Eurídice visualizava na produção literária analisada: seu estudo, como os livros mapeados, opera uma transmissão do passado ditatorial como tentativa de profilaxia contra o autoritarismo no país. O balanço é o de um texto que parece estar destinado à sala de aula, aos grupos de estudo e à introdução de novas pesquisadoras a essa área de investigação.

Mulheres contra a ditadura tampouco é um livro isolado na valiosa trajetória intelectual da autora, mas um aprofundamento e síntese de suas linhas de investigação anteriores, consolidando um projeto que articula feminismo, memória histórica e literatura sob perspectiva crítica e interdisciplinar. Obras anteriores como A literatura como arquivo da ditadura brasileira (2017), Por uma crítica feminista: leituras transversais de escritoras brasileiras (2020) e A nebulosa do (auto)biográfico: vidas vividas, vidas escritas (2022) estruturam o corpus de que a obra de 2024 é continuidade. Em todas essas publicações, destacamos a escolha metodológica pelo panorama, o que exige uma capacidade voraz de leitura e uma tentativa de mapear a produção literária a partir de óticas diversas. Beneficiando a série ao invés da individualidade dos textos, Eurídice tem montado uma trajetória que diverge dos estudos cujo traço principal é a fidelidade a uma voz autoral. Nesse sentido, seus estudos apontam para um modo de conceber o literário que ainda pensa ser possível desenvolver diagnósticos e pensar a produção textual como conjunto regido por lógicas de complementaridade e não de competitividade.

Assim, o livro se firma como contribuição incontornável para os estudos sobre a ditadura brasileira, gênero, autobiografia e memória literária. Eurídice Figueiredo conjuga feminismo, teoria literária, sociologia contemporânea e um repertório diversificado para apresentar um diagnóstico das transformações no campo memorial e literário, recuperando narrativas silenciadas e abrindo novos caminhos para academia e para o público interessado nos dilemas do autoritarismo, resistência cultural e produções femininas. Mais que ampliar o panorama da literatura da ditadura, a obra oferece ferramentas importantes para pensar múltiplas temporalidades da memória e a potência da escrita como ato político e resistência, cumprindo papel de arquivo aberto, acessível e instigante para futuras investigações e intervenções nas políticas de memória. Em suma, Mulheres contra a ditadura dialoga com as ausências e presenças do passado autoritário, ressignificando memória e resistência a partir de um campo literário em profunda transformação, especialmente pela voz e olhar femininos, que há tempos aguardavam seu devido espaço para disputar essa história.