Glossário Silviano Santiago | Alegria, por Gustavo Silveira Ribeiro

Em mais um verbete do Glossário Silviano Santiago, Gustavo Silveira Ribeiro (UFMG) mostra como a alegria atravessa a obra ensaística e literária de Silviano, funcionando menos como conceito e mais como forma-força capaz de articular pensamento crítico, corpo e criação.

Segundo o autor, essa forma-força é informada por diversas fontes, entre elas o Modernismo brasileiro, a filosofia de Nietzsche e a contracultura e as artes marginais dos anos 1970, que permitem a Silviano transformar a alegria em gesto afirmativo contra a melancolia, a normatividade e a repressão. Em seus ensaios e romances, esse impulso convoca ao riso, à paródia, à colagem e ao desejo como modos de vida que reconfiguram tanto a crítica cultural quanto a imaginação política no Brasil.

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Alegria

Por Gustavo Silveira Ribeiro (UFMG)

A alegria não é propriamente um conceito proposto por Silviano Santiago. É uma forma-força que atravessa toda a sua obra ensaística e literária, e que vem de leituras e práticas de pensamento de fontes diversas. Recordo algumas delas. Estudioso do Modernismo brasileiro, Silviano havia detectado, desde muito cedo, a potência disruptiva da obra de Oswald de Andrade e Mário de Andrade, voltadas ambas, cada uma a seu modo, para uma crítica sistemática dos fundamentos da civilização burguesa e do mundo ocidental. Tanto na poesia de Oswald, com seu apelo ao ponto de vista infantil que desloca a centralidade do presente e dos negócios, opondo-lhes a simplicidade desconcertante da linguagem e o prazer da descoberta “das coisas que eu nunca vi” (Andrade, 2017: 57) quanto no Macunaíma de Mário, que interrompe, pelo riso e pelo recurso aos mitos ameríndios e de outras culturas, o tempo do trabalho produtivo de uma cidade como São Paulo, “Ai! que preguiça!” (Andrade, 2023: 23), Silviano percebe o gesto dessacralizador (de alegria destrutiva e rebelde) que as constitui, e que nelas expressa-se como atitude crítica indefinida, situada entre a utopia e a revolta.

Em Oswald de Andrade, Silviano vai destacar ainda a antropofagia como contribuição brasileira e latino-americana para a compreensão das relações entre a cultura dos países centrais e aquela produzida por antigas colônias. A lição antropofágica, nunca é demais recordar, é antes de tudo uma lição da alegria: “A alegria é a prova dos nove” (Andrade, 2011: 73), lição centrada na devoração seletiva e na transformação ativa do outro – a cultura dos países centrais, a Europa e os Estados Unidos, sobretudo – em partes de um novo eu que não apenas copiasse o que vinha de fora e do outro, mas também não se fechasse ao que vinha do exterior, circunscrevendo, a partir de um nacionalismo estreito, a sua própria cultura a formas localistas. Tratava-se de uma digestão forte, de uma capacidade de receber e sintetizar – digestão que fizesse a metamorfose simultânea do outro e do eu, que alterasse aquilo que se devora e aquele que está a devorar. Nesse sentido, a antropofagia não é uma tarefa apenas do espírito; é sobretudo um trabalho do corpo.

Como uma espécie de eco e de resposta ao conjunto de ideias do Manifesto Antropófago, Silviano Santiago vai afirmar, no ensaio seminal “O entre-lugar do discurso latino-americano”, que a maior contribuição da América Latina para o Ocidente vem do rechaço aos conceitos de unidade e de pureza, conceitos centrais para certo pensamento político e filosófico de extração metafísica e colonial. Nas palavras de Silviano: “A América Latina institui o seu lugar no mapa da civilização ocidental graças ao movimento de desvio da norma, ativo e destruidor, que transfigura os elementos feitos e imutáveis que os europeus exportavam para o Novo Mundo” (Santiago, 2000: 16). O vocabulário escolhido pelo crítico aqui revela, para além da afinidade com a obra de Oswald, inconfundível vínculo com o pensamento de outro autor, referência decisiva para o conceito de alegria: Nietzsche. O filósofo alemão era já, sem dúvida, uma das fontes possíveis do Manifesto Antropófago. Relido, décadas depois, e em outro contexto, o pensador será peça-chave do panorama crítico-poético armado por Silviano Santiago desde o início da sua obra.

Para Nietzsche, a alegria é afirmação da força e da potência do corpo, contrapontos de uma espiritualização crescente do mundo que interiorizou, ao longo do tempo, no Ocidente, a vida do homem. O que era plenitude do corpo e de seus desejos (que o filósofo chamaria “instintos”) em outro tempo passou a ser, na cultura cristã e, mais agudamente, no período burguês e moderno da Europa, o império da razão abstrata e homogeneizadora, que tem na consciência moral da culpa e nos venenos sutis do ressentimento a sua contraparte mais evidente. A alegria, no sentido nietzschiano, é o avesso da compleição pesada e lenta da melancolia: é leve, ágil, veloz – a alegria está no movimento e no instante, na superfície e na máscara; está, em síntese, na capacidade de transformar a dor e a tragédia em gesto alegre, transfigurando, assim, o que é restrição ao prazer e ao corporal no seu avesso, uma reafirmação continuada da vida e daquilo que nela é excesso e imediatidade. Conforme as palavras do filósofo, a defesa da alegria – como afecção do corpo e horizonte para um pensamento novo – seria uma resposta à moralidade dominante da civilização, fundada sobre o “ódio ao que é humano, mais ainda ao que é animal, mais ainda ao que é matéria, esse horror aos sentidos, à razão mesma, o medo da felicidade e da beleza, o anseio de afastar-se do que seja aparência, mudança, morte, devir, desejo, anseio” (Nietzsche, 1998: 149).

Silviano Santiago retoma Nietzsche num momento em que, na Europa como um todo, e na França em particular, o pensador está sendo relido por filósofos como Gilles Deleuze, Michel Foucault e Jacques Derrida. Esses autores, com os quais Silviano está em franco diálogo nos anos 1970, chamaram para si o legado nietzschiano e trataram de o ressignificar, deslocando a apropriação que havia sido feita antes pelo pensamento autoritário da extrema direita (que via em Nietzsche a confirmação ideológica da superioridade dos povos mais fortes e o seu direito natural de subjugar os mais fracos) para um território intelectual em que o pensador se ligava à crítica do poder, à atenção crítica com os mecanismos da linguagem e ao desrecalque do corpo no pensamento ocidental. A aproximação de Silviano, na passagem das décadas de 1960 para a década de 1970, com a contracultura norte-americana e a produção de artistas experimentais e marginais brasileiros acontece no mesmo período, e está relacionada, conforme quero propor, à tarefa da alegria assumida, diretamente e indiretamente, pela obra ensaística e poético-ficcional do autor.

O momento histórico brasileiro, na passagem para os anos 1970, era particularmente duro. A ditadura civil-militar havia fechado, depois da decretação do AI-5 e do recrudescimento da repressão a toda e qualquer dissidência, todos os espaços remanescentes para o debate público. Uma parte dos artistas e intelectuais do país encontrava-se no exílio, fosse ele forçado (como o dos músicos tropicalistas, por exemplo), ou voluntário (como, por exemplo, de Hélio Oiticica). Ao clima geral de terror e sufocamento que crescia ao redor, vinha-se somar um longo e melancólico processo de avaliação da derrota levado a cabo pelas esquerdas, que nesse momento dividiam-se entre a utopia e o desencanto.

A crença narcótica na vitória inevitável da revolução levou uma parte dessa geração a lutar, de armas em punho, contra os militares, mesmo em condições bastante desfavoráveis. De outro lado, a autocrítica amarga dos grupos alijados do poder e de parcelas da intelligentsia, que viram seus projetos completamente desarticulados, levou setores da sociedade a um estado de imobilismo melancólico. Entre esses dois grupos, espremida entre forças antagônicas que convocavam ao engajamento ou à desmobilização geral, artistas de diferentes gerações (poetas e artistas concretos, escritores marginais, músicos ligados ao que ainda restava do momento tropicalista, artistas experimentais como Lygia Clark e Helio Oiticica, entre outros) produziam seus trabalhos à margem dos espaços oficiais da cultura, seja por razões pessoais, seja por novos arranjos do Mercado.

Silviano Santiago, ainda entre o Brasil e os Estados Unidos, onde lecionava, começa a interessar-se pelos trabalhos que cresciam nesses espaços fora da cena, no território underground, nos subterrâneos de uma cultura ainda bastante marcada pela dominância do elemento nacional-popular. Seus ensaios sobre Caetano (“Caetano Veloso enquanto superastro”) e Waly Salomão e Gramiro de Matos (“Os abutres”), entre outros, dedicaram-se a pensar, no calor da hora e sem o desejo de produzir sínteses definitivas, sobre as novas formas de relação entre arte e vida, que solicitavam, a partir de então, um outro empenho do corpo (fosse do artista, do público, dos participantes que eram convocados a ativar os trabalhos), num modo de afirmação da vida contra a morte, do gozo contra o ascetismo, da experiência contra o cálculo, da alegria da juventude e do desejo contra os horrores da ditadura e o mundo enrijecido do trabalho. Nas palavras do autor, esses novos trabalhos e a nova sensibilidade que eles descortinavam apresentavam-se, para o pensamento, como modos de especulação por outros mundos: “hipóteses de uma linguagem que se quer constantemente lúdica e livre, sem as peias do dicionário e da gramática; hipóteses de um esperanto nova geração onde se aglutinam textos alheios ‘(só me interessa o que não é meu’, Oswald) e slogans bombásticos; hipóteses de um desejo que se constrói sem entraves e em delírio” (Santiago, 2000: 145).

A tarefa da alegria que se esboça nesses trechos, e em toda a obra de Silviano construída a partir daí, mobilizando estratégias reflexivas e de composição que, sem abrir mão do rigor acadêmico e da pesquisa estética, não excluíam, antes convidavam ao riso, ao pastiche e à paródia, à colagem de fragmentos de textos e às intervenções intempestivas, singularizou a obra do autor na paisagem intelectual do país. Seu trabalho foi capaz de abrir, pioneiro, caminhos que seriam depois palmilhados largamente – como os estudos sobre a contracultura e sobre as políticas dos corpos e do desejo, políticas ligadas não apenas a programas ideológicos e estruturas partidárias rígidas, mas que incorporasse também as vozes e os saberes marginalizados.

Na obra de Silviano Santiago, talvez uma passagem de Em liberdade, de 1981, sirva como síntese mais do que apropriada para a afirmação alegre do corpo e da vida que, em seu pensamento, se lançaram continuamente contra a abstração normatizadora do desejo e contra a própria morte. Trata-se de uma cena do romance em que o narrador, Graciliano Ramos, relata um passeio pela praia de Botafogo pouco tempo depois de ser libertado, finalmente, da prisão. Exposto ao sol, respirando com intensidade, o escritor vê uma moça jovem que se dirige também à praia, e tem uma ereção. Inesperada, a reação do corpo faz pensar.

A manifestação súbita do desejo é expressão do corpo que sobreviveu aos dez meses de encarceramento, à privação de sono, à fome, às péssimas condições das cadeias pelas quais passou. O personagem criado por Silviano, decalcado da biografia de um escritor reconhecidamente reservado e cerebral, nesse momento vê seu corpo confirmar a vida que venceu a morte. A alegria, afecção que, para Espinosa, leva a uma potência maior de ser e de agir no mundo, nessa passagem manifesta-se de modo selvagem. Isto é, de modo natural. Do evento, e também da cachaça, prazer dos sentidos a que também se entrega, o narrador Graciliano Ramos vai dizer: “De maneira geral ela me anima, dá corpo ao meu corpo, dá força à minha força, dá imaginação à minha imaginação, dá alegria à minha tristeza, aviva clarões no meu pessimismo, dá descontrole à minha razão” (Santiago, 2013: 103). Não poderia haver, creio, melhor definição para o conceito de alegria: aquilo que restitui e magnifica o corpo, e que tantas vezes serviu como operador de leitura central na obra de Silviano Santiago.

Referências

ANDRADE, Oswald. (2011). A utopia antropofágica. São Paulo: Globo.

ANDRADE, Oswald. (2017). Poesias reunidas. São Paulo: Companhia das Letras.

ESPINOSA, Baruch. (2024). Ética. Trad. Grupo de Estudos Espinosianos. São Paulo: Edusp.

NIETZSCHE, Friedrich. (1998). A genealogia da moral. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras.

SANTIAGO, Silviano. (2013). Em liberdade. Rio de Janeiro: Rocco.

SANTIAGO, Silviano. (2000). Uma literatura nos trópicos. Rio de Janeiro: Rocco.

Sobre o autor

Gustavo Silveira Ribeiro é professor de literatura brasileira na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).


Alegría

La alegría no es propiamente un concepto propuesto por Silviano Santiago. Es una forma-fuerza que atraviesa toda su obra ensayística y literaria, y que proviene de lecturas y prácticas de pensamiento de fuentes diversas. Recuerdo algunas de ellas. Estudioso del Modernismo brasileño, Silviano había detectado, desde muy temprano, la potencia disruptiva de la obra de Oswald de Andrade y Mário de Andrade, orientadas ambas, cada una a su modo, hacia una crítica sistemática de los fundamentos de la civilización burguesa y del mundo occidental. Tanto en la poesía de Oswald, con su apelación al punto de vista infantil que desplaza la centralidad del presente y de los negocios, oponiéndoles la simplicidad desconcertante del lenguaje y el placer del descubrimiento “de las cosas que yo nunca vi” (Andrade, 2017: 57), como en el Macunaíma de Mário, que interrumpe, mediante la risa y el recurso a los mitos amerindios y de otras culturas, el tiempo del trabajo productivo de una ciudad como São Paulo, “Ai, que preguiça!” [“¡Ay! ¡qué pereza!”] (Andrade, 2023: 23), Silviano percibe el gesto des-sacralizador (de alegría destructiva y rebelde) que las constituye, y que en ellas se expresa como una actitud crítica indefinida, situada entre la utopía y la revuelta.

En Oswald de Andrade, Silviano destacará aún la antropofagia como contribución brasileña y latinoamericana a la comprensión de las relaciones entre la cultura de los países centrales y aquella producida por las antiguas colonias. La lección antropofágica, nunca está de más recordar, es ante todo una lección de alegría: “La alegría es la prueba de nueve” (Andrade, 2011: 73), lección centrada en la devoración selectiva y en la transformación activa del otro –la cultura de los países centrales, Europa y Estados Unidos, sobre todo– en partes de un nuevo yo que no solo copiase lo que venía de fuera y del otro, pero que tampoco se cerrase a lo que llegaba del exterior, circunscribiendo, desde un nacionalismo estrecho, su propia cultura a formas localistas. Se trataba de una digestión fuerte, de una capacidad de recibir y sintetizar –digestión que hiciera la metamorfosis simultánea del otro y del yo, que alterase tanto aquello que se devora como aquel que devora. En ese sentido, la antropofagia no es solo una tarea del espíritu; es sobre todo un trabajo del cuerpo.

Como una especie de eco y de respuesta al conjunto de ideas del Manifiesto Antropófago, Silviano Santiago afirmará, en el ensayo seminal “El entre-lugar del discurso latinoamericano”, que la mayor contribución de América Latina a Occidente proviene del rechazo a los conceptos de unidad y pureza, conceptos centrales para cierto pensamiento político y filosófico de extracción metafísica y colonial. En palabras de Silviano: “América Latina instituye su lugar en el mapa de la civilización occidental gracias al movimiento de desvío de la norma, activo y destructor, que transfigura los elementos hechos e inmutables que los europeos exportaban al Nuevo Mundo” (Santiago, 2000: 16). El vocabulario elegido por el crítico aquí revela, más allá de la afinidad con la obra de Oswald, un inconfundible vínculo con el pensamiento de otro autor, referencia decisiva para el concepto de alegría: Nietzsche. El filósofo alemán era ya, sin duda, una de las fuentes posibles del Manifiesto Antropófago. Releído, décadas después, y en otro contexto, el pensador será pieza clave del panorama crítico-poético armado por Silviano Santiago desde el inicio de su obra.

Para Nietzsche, la alegría es afirmación de la fuerza y de la potencia del cuerpo, contrapuntos de una espiritualización creciente del mundo que fue interiorizando, a lo largo del tiempo, en Occidente, la vida del hombre. Lo que era plenitud del cuerpo y de sus deseos (que el filósofo llamaría “instintos”) en otro tiempo pasó a ser, en la cultura cristiana y, más agudamente, en el período burgués y moderno de Europa, el imperio de la razón abstracta y homogeneizadora, que tiene en la conciencia moral de la culpa y en los venenos sutiles del resentimiento su contraparte más evidente. La alegría, en el sentido nietzscheano, es el reverso de la complexión pesada y lenta de la melancolía: es ligera, ágil, veloz; la alegría está en el movimiento y en el instante, en la superficie y en la máscara; está, en síntesis, en la capacidad de transformar el dolor y la tragedia en gesto alegre, transfigurando, así, lo que es restricción al placer y a lo corporal en su reverso, una reafirmación continuada de la vida y de aquello que en ella es exceso e inmediatez. Según las palabras del filósofo, la defensa de la alegría –como afección del cuerpo y horizonte para un pensamiento nuevo– sería una respuesta a la moralidad dominante de la civilización, fundada sobre el “odio a lo que es humano, más aún a lo que es animal, más aún a lo que es materia, ese horror a los sentidos, a la razón misma, el miedo a la felicidad y a la belleza, el ansia de alejarse de lo que sea apariencia, cambio, muerte, devenir, deseo, ansia” (Nietzsche, 1998: 149).

Silviano Santiago retoma a Nietzsche en un momento en que, en Europa en general, y en Francia en particular, el pensador está siendo releído por filósofos como Gilles Deleuze, Michel Foucault y Jacques Derrida. Estos autores, con los cuales Silviano mantiene un franco diálogo en los años 1970, reclamaron para sí el legado nietzscheano y lo resignificaron, desplazando la apropiación que había sido hecha antes por el pensamiento autoritario de la extrema derecha (que veía en Nietzsche la confirmación ideológica de la superioridad de los pueblos más fuertes y su derecho natural a subyugar a los más débiles) hacia un territorio intelectual en que el pensador se ligaba a la crítica del poder, a la atención crítica a los mecanismos del lenguaje y al des-represamiento del cuerpo en el pensamiento occidental. La aproximación de Silviano, en el pasaje de los años 1960 a los años 1970, con la contracultura norteamericana y la producción de artistas experimentales y marginales brasileños acontece en el mismo período, y está relacionada, según quiero proponer, con la tarea de la alegría asumida, directa e indirectamente, por la obra ensayística y poético-ficcional del autor.

El momento histórico brasileño, en el pasaje hacia los años 1970, era particularmente duro. La dictadura civil-militar había cerrado, después de la decretación del AI-5 y del recrudecimiento de la represión a toda y cualquier disidencia, todos los espacios remanentes para el debate público. Una parte de los artistas e intelectuales del país se encontraba en el exilio, fuese forzado (como el de los músicos tropicalistas, por ejemplo), o voluntario (como, por ejemplo, el de Hélio Oiticica). Al clima general de terror y sofocamiento que crecía alrededor, se sumaba un largo y melancólico proceso de evaluación de la derrota llevado a cabo por las izquierdas, que en ese momento se dividían entre la utopía y el desencanto.

La creencia narcótica en la victoria inevitable de la revolución llevó a una parte de esa generación a luchar, con las armas en la mano, contra los militares, incluso en condiciones bastante desfavorables. Por otro lado, la autocrítica amarga de los grupos alejados del poder y de sectores de la intelligentsia, que vieron sus proyectos completamente desarticulados, llevó a sectores de la sociedad a un estado de inmovilismo melancólico. Entre esos dos grupos, comprimidos entre fuerzas antagónicas que convocaban al compromiso o a la desmovilización general, artistas de diferentes generaciones (poetas y artistas concretos, escritores marginales, músicos ligados a lo que aún quedaba del momento tropicalista, artistas experimentales como Lygia Clark y Hélio Oiticica, entre otros) producían sus trabajos al margen de los espacios oficiales de la cultura, ya sea por razones personales, ya sea por nuevos arreglos del mercado.

Silviano Santiago, aún entre Brasil y Estados Unidos, donde enseñaba, comienza a interesarse por los trabajos que crecían en esos espacios fuera de la escena, en el territorio underground, en los subterráneos de una cultura todavía bastante marcada por la dominancia del elemento nacional-popular. Sus ensayos sobre Caetano (“Caetano Veloso en tanto superastro”) y Waly Salomão y Gramiro de Matos (“Los buitres”), entre otros, se dedicaron a pensar, en el calor del momento y sin el deseo de producir síntesis definitivas, sobre las nuevas formas de relación entre arte y vida, que solicitaban, a partir de entonces, otro empeño del cuerpo (fuese del artista, del público, de los participantes convocados a activar los trabajos), en un modo de afirmación de la vida contra la muerte, del gozo contra el ascetismo, de la experiencia contra el cálculo, de la alegría de la juventud y del deseo contra los horrores de la dictadura y el mundo endurecido del trabajo. En palabras del autor, esos nuevos trabajos y la nueva sensibilidad que ellos descorrían se presentaban, para el pensamiento, como modos de especulación por otros mundos: “hipótesis de un lenguaje que se quiere constantemente lúdico y libre, sin las ataduras del diccionario y de la gramática; hipótesis de un esperanto nueva generación donde se aglutinan textos ajenos ‘(sólo me interesa lo que no es mío’, Oswald) y eslóganes bombásticos; hipótesis de un deseo que se construye sin trabas y en delirio” (Santiago, 2000: 145).

La tarea de la alegría que se esboza en estos pasajes, y en toda la obra de Silviano construida a partir de allí, movilizando estrategias reflexivas y de composición que, sin renunciar al rigor académico y a la investigación estética, no excluían, sino más bien invitaban a la risa, al pastiche y a la parodia, al collage de fragmentos de textos y a las intervenciones intempestivas, singularizó la obra del autor en el paisaje intelectual del país. Su trabajo fue capaz de abrir, como pionero, caminos que luego serían transitados ampliamente –como los estudios sobre la contracultura y sobre las políticas de los cuerpos y del deseo, políticas ligadas no solo a programas ideológicos y estructuras partidarias rígidas, sino que incorporaban también las voces y los saberes marginados.

En la obra de Silviano Santiago, tal vez un pasaje de Em libertade, de 1981, sirva como síntesis más que apropiada para la afirmación alegre del cuerpo y de la vida que, en su pensamiento, se lanzaron continuamente contra la abstracción normativizadora del deseo y contra la propia muerte. Se trata de una escena de la novela en que el narrador, Graciliano Ramos, relata un paseo por la playa de Botafogo poco tiempo después de ser liberado, finalmente, de la prisión. Expuesto al sol, respirando con intensidad, el escritor ve a una muchacha joven que también se dirige a la playa, y tiene una erección. Inesperada, la reacción del cuerpo hace pensar.

La manifestación súbita del deseo es expresión del cuerpo que sobrevivió a los diez meses de encarcelamiento, a la privación de sueño, al hambre, a las pésimas condiciones de las cárceles por las que pasó. El personaje creado por Silviano, calcado de la biografía de un escritor reconocidamente reservado y cerebral, en ese momento ve su cuerpo confirmar la vida que venció a la muerte. La alegría, afección que, para Spinoza, lleva a una potencia mayor de ser y de actuar en el mundo, en este pasaje se manifiesta de modo salvaje. Es decir, de modo natural. Del evento, y también de la cachaça, placer de los sentidos al que también se entrega, el narrador Graciliano Ramos dirá: “En general ella me anima, da cuerpo a mi cuerpo, da fuerza a mi fuerza, da imaginación a mi imaginación, da alegría a mi tristeza, aviva destellos en mi pesimismo, da descontrol a mi razón” (Santiago, 2013: 103). No podría haber, creo, mejor definición para el concepto de alegría: aquello que restituye y magnifica el cuerpo, y que tantas veces sirvió como operador de lectura central en la obra de Silviano Santiago.

Referencias

ANDRADE, Oswald. (2011). A utopia antropofágica. São Paulo: Globo.

ANDRADE, Oswald. (2017). Poesias reunidas. São Paulo: Companhia das Letras.

ESPINOSA, Baruch. (2024). Ética. Trad. Grupo de Estudos Espinosianos. São Paulo: Edusp.

NIETZSCHE, Friedrich. (1998). A genealogia da moral. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras.

SANTIAGO, Silviano. (2013). Em liberdade. Rio de Janeiro: Rocco.

SANTIAGO, Silviano. (2000). Uma literatura nos trópicos. Rio de Janeiro: Rocco.

Sobre el autor

Gustavo Silveira Ribeiro es profesor de literatura brasileña en la Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).