Série Nordestes | Memórias de uma família sertaneja, por Onildo Correa

No dia do Nordestino, repostamos a reportagem “Memórias de uma família sertaneja”, produzida por Onildo Correa especialmente para a BVPS.

Em viagem a Serra do Ramalho, no fim de 2024, Onildo conviveu com a família do casal de idosos Alípio e Elizabete Leite, ouviu atentamente os relatos dos moradores e se debruçou sobre leituras acerca dessa região cercada pela vegetação rasteira da caatinga. A história dessa família, que migrou do árido interior de Alagoas na esperança de encontrar casa e terra para plantar no oeste baiano, marcou a retomada da Série Nordestes neste ano.

Não deixe de conferir a reportagem e acompanhar esta nova floração da Nordestes, que em breve trará muitas novidades.

Os posts da primeira floração da série podem ser conferidos no e-book Sociologia Política do Nordeste

Boa leitura!


Memórias de uma família sertaneja

Por Onildo Correa (PPGSA/UFRJ)

Parte I

Que é a vida? É o brilho de uma luciergana na noite. É o hálito de um búfalo em inverno. É a breve sombra que atravessa a erva e se perde no ocaso.

 – Truman Capote

Há uma pequena casa de tijolos numa rua de terra batida, onde outras, como ela, se alinham em estreita retidão, sombreada por juazeiros e mangueiras. Sobre suas telhas se estende o mesmo céu sertanejo; em seu arrodeio, o verde que afaga e a secura que mantém pequenas casas de tijolos à espera, num estranho descompasso de quem nasceu para abrigar, mas ainda não abriga. Nesse lugar de ausência provisória, sob o sol veemente que agora dorme, cardeais-nordestinos repousam enquanto corujas em caça abrem silenciosamente a noite estrelada.

Dois anos antes, não havia nem esta casa, nem esta rua.

Era 1973, no oeste baiano. A 800 quilômetros dali, o governo militar dava início à construção da Usina Hidroelétrica de Sobradinho, planejada para transformar as margens do rio São Francisco nas proximidades de Casa Nova, Remanso, Sento-Sé, Juazeiro, Pilão Arcado e Xique-Xique. Para muitos, era o tão esperado anúncio de uma nova realidade econômica, d’onde jorrariam em abundância água, leite e mel. Para os beraderos (aqueles que viviam à beira do rio e dele retiravam o sustento e o sentido de suas vidas), era também o prenúncio da antiga profecia de Antônio Conselheiro: “o sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão”.

Como numa cena bíblica, cerca de 4.800 famílias testemunharam à inundação de suas cidades. A água varria para fora das vistas cada vestígio de memória. Técnicos e políticos prometiam a brevidade da desordem. Garantiam tratar-se de uma travessia necessária para cumprir outra profecia conhecida pelos sertanejos sanfranciscanos: a entrega da terra prometida. Assim, em 13 de maio de 1975, foi assinado o Projeto Especial de Colonização Serra do Ramalho – último de seu tipo no estado da Bahia –, concebido para reassentar as populações ribeirinhas desalojadas e promover novas formas de sustento. Uma “retirada”, no dizer dos beraderos. Uma “colonização”, no dizer do governo.

Desse ambicioso projeto de desenvolvimento regional nasceu aquela rua estreita cheia de casas. Uma entre milhares espalhadas nas 23 agrovilas do empreendimento. Gente e esperança se enfileiravam para ocupar seus novos lares e tecer vida nova sob a sombra de antigas mangueiras. Como a família de beraderos que, amontoada numa barcaça a vapor, chegou pela primeira vez à pequena casa de tijolos — e cujos nomes infelizmente desconhecemos.

Chegaram, mas não permaneceram.

Para os beraderos sanfranciscanos, o rio era mais do que um recurso natural; era o eixo de sua percepção cultural e referência espacial. Daí que, apesar do recebimento de terras e salário-auxílio oferecidos pelo governo, retirá-los de suas margens gerou efeitos não premeditados pelas forças superiores: a destituição “de todo o conjunto de suas atividades sociais, seu calendário agrícola, de festas, que estavam organizadas em função do ritmo do rio” (Martins-Costa, 1989: 10). Faltou aos planejadores a sensibilidade para compreender que a vida humana não se limita à sobrevivência; esta é tecida também por elementos simbólicos e materiais que lhe dão sentido, sem os quais somos colocados na triste sina da desordem.

Contudo, o que para alguns não lhes atendeu o espírito – com a justiça de causa –, para outros foi visto como a chance de abandonar as dificuldades da seca irremediável. Foi assim que uma família vinda do interior árido do Alagoas encontrou naquela casa de tijolos sua morada. O que se segue é uma história real de amor, adoecimento e união que, embora profundamente particular, espelha um traço marcante das culturas sertanejas Brasil adentro: onde o eu se enlaça inevitavelmente ao outro. Todas as informações foram retiradas de relatos dos moradores, observação participante e bibliografia sobre a região, aos quais deixo meu mais terno agradecimento [1].

Serra do Ramalho, Bahia. 18 de outubro de 2024.

Asfaltaram várias ruas no ano passado. Estão felizes, os moradores. Todos os prefeitos anteriores se elegeram com essa promessa, mas só agora fizeram. E nem foi o prefeito. Foi o governo do estado que pariu essa bendita obra. A construção do mercado ao lado… bem, essa está abandonada mesmo. É capaz de desabar e ainda matar alguém.

Melhor não entrar para olhar, disseram.

Dentro da 03 foram só duas as ruas asfaltadas. Parece pouco, mas o importante pros locais é que a estrada de ligação das agrovilas ímpares ficou um tapete. Excelente mesmo. Até pouco tempo era um sufoco andar naquele amontoado de terra esburacada. Difícil até de imaginar. Carros e carroças tremiam como antigos paus-de-arara atravessando o Brasil. Quem ficasse doente tarde da noite, doente de coisa séria, sofria sem saber se “chega ou se vai”. Mas quase sempre chegavam.

Por outro lado – como tudo na vida tem seu outro lado –, o asfalto aumentou a quantidade de acidentes. Ovelhas, bois e afins, com ou sem asfalto, ainda precisam atravessar a estrada. E a meninada corre demais.

Permita-me explicar. A 03 é só uma das 23 agrovilas de Serra do Ramalho – município criado após a construção da barragem de Sobradinho e emancipado em 1989. Cada uma delas com seu número correspondente. Estas são conectadas por duas estradas paralelas: uma que liga as ímpares e outra, as pares. E ambas levam até o município de Bom Jesus da Lapa, onde alguns serra-malhanses vendem mercadorias como forma de sustento. Ou seja, não é possível sair da 05 e ir direto para 06, ou vice-versa. Entendeu? Cada eixo é um eixo. O que implica certas divisões culturais e, às vezes, algumas rixas.

As estradas são cercadas de ambos os lados por vegetação rasteira de caatinga – verde em parte do ano, seca noutro, com algumas árvores maiores se exaltando em meio à planície. Há um cheiro forte de cansanção que preenche as narinas. Já o transporte predominante é composto por motos, que desempenham papel significativo na cultura local. Um tanto de jovens trabalha desde cedo em pequenas atividades para comprá-las, geralmente usadas, e as empinam orgulhosamente pelas ruas da cidade. Também se vê carroças e cavalos, como nas imagens cristalizadas do sertão passado. Disso a aquilo, independentemente do veículo, espera-se de quem passa um cumprimento como sinal de boa educação. Andar ao lado de locais dá a singela impressão de que são vereadores, de tanto que param em prosas corriqueiras.

De clima quente quase o ano inteiro, as agrovilas são relativamente pequenas. Coisa de 1.400 habitantes, em média. Daí que todos na cidade se conhecem e a fofoca é parte cotidiana do convívio. Conversas frequentemente desembocam para assuntos como quem engravidou; quem traiu ou foi traído; as roupas de fulano ou sicrano e assim por diante. “É que falar da vida alheia dá um prazer danado”. Tem também os povoados quilombolas, como o Quilombo Pambu Araçá, Quilombo Água Fria e o Quilombo Barreiro Grande. E os povoados indígenas, como a Aldeia Fluniô e o Povo Pankaru. Mesmo antes da colonização, já havia por aqui uma série de povos originários, que não se deve esquecer. Assim, somando tudo, Serra do Ramalho tem atualmente uns 31.000 habitantes, com famílias vindas dos mais diversos estados.

Mas, como ia dizendo, nessa história toda de asfalto, quem teve sorte foi o casal Alípio e Elizabete, que mora ao lado do mercado abandonado. Uma das ruas asfaltadas foi a deles, bem defronte. Se bem que, verdade seja dita, eles quase não saem mais.

***

O velho Alípio tem setenta e oito anos. É um senhor de cabelos brancos ralos, braços e panturrilhas fortes de uma vida de trabalho na roça e uma típica barriga avantajada. Gosta de usar camisas de botão brancas ou beges, calça de alfaiataria e sandálias. Todos os dias, depois do almoço, ele se deita no sofá da sala, de cor verde-musgo.

— Tipo agora. Tá vendo? Já está lá.

Há pouco, Alípio almoçou uma bacia de frango, arroz e feijão junto com a esposa, Elizabete, de setenta e cinco, que levava a colher abarrotada até sua boca. Aí ele se ajeita assim, meio de lado, deixando as costas da mão direita repousada sobre a testa enquanto dorme. É um negócio de família isso, essa posição. De filho a bisneto, não tem quem não faça.

Tataraneto ainda não tem. Não tem porque não teve quem colocasse no mundo. A bisneta mais velha está com dezesseis, quase dezessete. Mas Elizabete diz que os jovens de hoje evitam emprenhar; nem ficar aqui querem mais, vão tudo embora pra longe. Ela é uma senhora de cabelos grisalhos muito lisos e uma presença… Deixa-me pensar… Marcante. Usa sempre vestidos coloridos que mal comportam seu busto proeminente e, assim como seu marido, sandálias. Elizabete carrega um olhar atencioso, que se mistura à sua vontade inigualável de conversar. Ela é capaz de lembrar cada detalhe de seu passado, assim como tudo o que seus vizinhos fizeram ou deixaram de fazer.

Fotografia de Camila Reis, neta de Alípio e Elizabete.

Na maior parte do tempo, contudo, eles ficam meio sozinhos em casa – ou ao menos assim se sentem –, apesar dos 11 filhos e das dezenas de netos e bisnetos espalhados pelo Brasil e no exterior. Tem gente morando em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Goiânia, Portugal e por aí vai. Isso tem a ver com o sangue migrante, dizem. Por perto tem a Val – a menina que cuida da casa – e também três filhos e alguns netos nas proximidades, que sempre aparecem. Maria Salete, a primeira filha, é quem dá banho nos dois todos os dias. Tarefa nada fácil devido à baixa mobilidade do casal. Ainda assim, é comum ver Elizabete lavando as louças, preparando refeições e se recusando ajuda para caminhar. Recusa que se deve prontamente ignorar.

Ela diz que com a idade costuma vir certa dose de solidão. Mas o celular tem ajudado com a questão das distâncias. Antes, falar com quem estava longe era difícil, podiam ficar longos períodos sem notícias dos familiares; agora, a família sempre liga para matar a saudade, garantir que eles não se sintam tão sós. É que, quando a casa cheia vira hábito – com gente correndo de um lado pro outro, algazarra, uns gritos de vez em quando – o silêncio pesa. E, como eu disse há pouco, eles quase não saem mais. Então, é o mundo que precisa vir até eles.

Olha, a idade chega pra todo ser vivente. É inevitável. Menos pra quem se mete em coisa errada ou praqueles que Deus gosta tanto que decide levar mais cedo, ensina Elizabete. Nesse instante, ela está sentada aqui na varanda enquanto olha o movimento da rua. Há um cheiro fraco de aroeira e manga vindo de algum lugar. Alípio segue dormindo com a mão repousada sobre a testa, os olhos cerrados. Ela estava contando que, tempo atrás, teve essa menina da família, morreu assim, de doença, do nada. Tinha seus quinze anos. O mundo inteirinho ficou triste. Elizabete a viu correndo no dia anterior, brincando pelos terreiros, fazendo as estripulias normais de adolescente. Aí, no dia seguinte: silêncio. De ponta a ponta só se ouvia dizer — “pobre alma”. Essa é daquelas coisas que ninguém gosta de lembrar.

Mas com a idade vem outra coisa também.

Eu ainda não disse, mas o velho Alípio está com um problema sério de saúde. Sério mesmo. Alzheimer. Não que ele tenha se esquecido de tudo, como dizem que vai acontecer, mas dá pra notar a piora diária. É triste. Tem vez que ele olha pra você, olha bem concentrado assim, desse jeito, e dá de perceber que não tem aquele brilho no olho, sabe? É como se atravessasse por dentro da gente, indiferente, sem reconhecer. Mas depois de um tempo o brilho volta e ele abre aquele sorriso bonito que tem. Aí a gente sorri de volta, claro. Mas o nosso é um sorriso desalegre.

Essa é outra coisa que ninguém gosta de lembrar.

***

Por falar em celular, agora à noite o casal recebeu uma ligação da filha que mora em São Paulo. Estão no quarto, os dois. O resto da casa de tijolos está em silêncio. Lá fora, ouvem-se algumas motos passando, e da janela, logo acima da cama, vê-se a noite escura, d’onde a luz de um poste à esquerda pisca meio sem querer. Só que essa noite tem algo de diferente, um quê difícil de explicar. Alípio parece um pouco mais triste do que de costume. Elizabete, claro, percebe essas coisas. Ela vê no cansaço de sua voz, no corpo levemente caído pra frente, na falta de ânimo como se lhe faltasse algo. Não sei. Mas falar com a filha é sempre bom, revigora.

A conversa segue sobre um pouco de tudo – coisas normais de pais e filhos. E o ânimo vai pouco a pouco preenchendo a casa quase vazia. E as cigarras cantam no terreiro como se quisessem se despedir mais cedo da primavera. E Alípio… Bem… Alípio deixa escorrer de sua boca uma ideia: “reúne os Leite tudo”. Como assim? “Reúne os Leite tudo”, repete. Não apenas aquela parte da família que costuma aparecer todo fim de ano. Não. O que Alípio está propondo, de um jeito um tanto surpreendente para a situação, é outra coisa. Ele quer todos. Cada filho, neto e bisneto possível. Os mais de 70 membros de uma só vez. Nem Elizabete acredita no que está escutando.

Acontece que em dezembro é seu aniversário.

Desde que adoeceu, Alípio mudou um pouco. Quem o conhece lembra das grandes festas que organizava. Com gente de tudo que é agrovila prestigiando seus eventos. Ele e Elizabete sentavam-se como o rei e a rainha de um grande palácio sertanejo. E todos dançavam alegres, comiam e bebiam em abundância até a madrugada dizer chega. Mas já faz um tempo que isso não acontece. Dá pra dizer que ele está irreconhecível, nesse sentido. E é compreensível. Daí a surpresa. Daí a alegria de tão enorme ideia.

Era por volta de 2016 quando Alípio teve seu primeiro sintoma. Ninguém sabia ainda do que se tratava. O velho saiu de manhã cedo pra tirar leite. Levava um típico chapéu de vaqueiro sobre a cabeça, sem o qual parecia lhe faltar algo dentro do peito. Então rumou pelas ruas de terra da agrovila, com o sol ainda frio, realizando as tarefas necessárias de mais um dia de trabalho. Contudo – e isso nada tinha de comum – Alípio não retornou na hora marcada. Ninguém tinha notícias. Um amigo que passava a cavalo, lá adiante, com a algibeira a tira colo, o encontrou em pé, próximo a um poço. “Ei, Alipe. Bom?”. Mas o senhor parecia confuso, perdido. “Indo aonde?”, insistiu. E a resposta veio meio titubeante: “não sei chegar em casa”. De primeiro açoite, essas palavras causaram riso no amigo. “Para de graça”. Mas não havia nada de cômico na ocasião. Não dessa vez. Todo mundo sabe que Alípio adora uma joça. Mas, não dessa vez. Só foram entender o acontecido uns quatro anos depois, quando a piora gradual o levou até o diagnóstico dessa doença maldita.

Sim. Maldita. O Alzheimer não apenas arranca de ti suas memórias – primeiro as mais recentes, depois aquelas tão profundamente enraizadas. Ele debilita todo o conjunto de sua vivência com o mundo. Retira suas forças, esperanças; aplaca gradativamente seu desejo pelo amanhã, até que resta apenas o brilho opaco de um sol poente, que pouco a pouco repousa… que pouco a pouco…

Olha, é difícil saber exatamente o que ele pensou durante a proposta da festa; que cenário, quais sentimentos lhe atravessavam o peito naquele momento. Mas com certeza algo lhe rebulia o estômago. Agora, já deitado de barriga pra cima ao lado de sua velha, com quem é casado há mais de sessenta anos, sente a mão dela tocar levemente seu braço nu. Alípio tem um certo peso no olhar. Talvez esteja pensando nos caminhos e nos acontecimentos que o levaram até aqui, nas lembranças fragmentadas de uma vida inteira. Talvez, só talvez, sejam memórias de lugares bonitos, cheios de gente, com os tantos animais que já criou, de seus anos no Alagoas, de seu amor por Elizabete. Gosto de acreditar que essas imagens encham seu espírito de esperança antes de mais uma noite de sonhos. Em breve, se sua ideia der certo, o resultado humano de sua história estará ali com ele, na mais absoluta comunhão.

E mais uma moto passa ligeira sobre a rua de asfalto.

Fotografias de 2014 tiradas por Camila Reis, neta de Alípio e Elizabete

Maravilha, Alagoas. Entre 1960 e 1985.

Dizem que a gente nunca esquece a primeira paixão. E quando a primeira paixão – de infância – é também o grande amor consumado de uma vida inteira?

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Parte II

Alípio e Elizabete

Maravilha, Alagoas. Entre 1960 e 1985.

Dizem que a gente nunca esquece a primeira paixão. E quando a primeira paixão – de infância – é também o grande amor consumado de uma vida inteira?

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O sol de abril marca presença, poderoso e indiferente.

Alípio e Elizabete cresceram juntos nesse interior árido de Alagoas, com nome de ironia: Maravilha. Área rural de longos descampados e montes altos, habitada por gente simples de bruteza e compaixão, como cactos que se estendem soltos pela planície avermelhada. Primos de terceiro grau, aprenderam desde muito cedo os ofícios da roça. O convívio diário nas casas e nos terreiros lhes era habitual. Teceram disso uma vida em comum. Com as mesmas árvores servindo-lhes de escada, de onde retiravam, sem pecado, os frutos do sertão.

Doralice, mãe de Elizabete, sempre teve o jovem Alípio como um filho de seu próprio ventre. Este que recentemente completou 15 anos e se faz agora homem, com contornos mais maduros em sua face, calos mais protuberantes em suas mãos e a rigidez necessária de que depende a labuta sertaneja.

O envelhecer no sertão tem ritmo próprio. Sem raridade, meninas se tornam mães logo após a puberdade; meninos se tornam responsáveis logo que seus corpos lhes dão a força necessária para vencer as durezas da vida. Nem poucas, tampouco tênues.

No entanto: “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, como já disse Euclides da Cunha.

Do crescer rápido de Alípio veio outro acontecimento importante: encheram-lhe o peito sentimentos prósperos, como os que agora cultiva pela ligeiramente mais nova Elizabete, da qual seus olhos famintos nunca cansaram de admirar. Não pela fome que vem da refeição perdida; mas do desejo de ter nela sua morada.

***

Estão apaixonados.

Alípio, agora com 19 anos, recebe notícia de que será pai.

É o primeiro fruto do seu amor por Elizabete, de nome composto: Maria, de significado soberano; e Salete, a “filha do rei”.

 Alvissareira, a criança traz esperanças.

Sabia-se lá o que destino aguardava, sob a tampa anilada, sobre o chão carcomido – terra esquecida – ao qual estavam agarrados.

***

É manhã.

A velha casa de taipa acorda em chofre com o canto do galo. Maria Salete sai cedo com seu pai à roça. Está para completar quatorze anos. A roupa tipicamente masculina e o grande chapéu marrom sobre a cabeça a protegem do sol ardido, que sobe. Seu cabelo é tão liso quanto o rio; suas mãos pequenas como singelas folhas. Alípio, com olhos cansados, a olha com orgulho e pesar. Pensa que melhor vida poderia ter se por um acaso divino caíssem do céu as oportunidades desejadas.

Mas não existe tempo para espera.

O horizonte azulado contrasta com o trabalho imperativo. Há em casa outras oito crianças para alimentar. E na planície dura os dois cavam buracos. Preenchem-nos com madeira para a produção de carvão. O fogo sobe como se a própria terra ardesse. A fumaça exala cheiro queimado que se mistura à poeira, levados pelo vento leve que sopra nos cabelos de Salete. Em famílias sertanejas, os primogênitos carregam esse dever – fardo para uns, dádiva para outros – de ser como uma segunda mãe e como um segundo pai para os mais jovens do lar. Responsabilidade que ela jamais se ausenta.

Completada a feitura do carvão, começa a segunda etapa do trabalho. Preparam o carro de boi com as sacas cheias, talvez tão pesadas quanto a mirrada menina, e seguem por alguns quilômetros para vendê-las na zona urbana de Maravilha. Na cidade de poucos habitantes, crianças quase sem roupa correm pelas calçadas da avenida larga, acompanhada por árvores de troncos finos que se enfileiram na direção da praça José Bonifácio. A praça tem seus bancos quase completamente preenchidos por senhores de chapéu sobre a cabeça, que se sentam curvados com os ombros à frente.

Este não é o único percurso costumeiramente realizado, contudo. Também a água precisa ser buscada. A fonte mais próxima fica a cinco quilômetros da casa de taipa. Buscam-na com o mesmo carro de boi, sempre que necessário. De um banho a outro, podem passar semanas. E, mesmo havendo comida à espera, acontece de lhes faltar água para o cozimento. Assim, as onze bocas, contando pais e filhos, às vezes sentem fome. Pois na Caatinga “também o recurso falta… Também o pasto seca… Também a água dos riachos afina, afina, até se transformar num fio gotejante e transparente” (Queiroz, 2016).

Nos últimos meses, porém, a situação está pior do que de costume. Em seus quatorze anos de vida, Maria Salete nunca presenciou seca tão ferrenha. Em casa, paira o medo da morte. O calor queima as narinas. Mal resta suor para escorrer da testa cansada. Os bois magros se escondem sob pequenas sombras, e os galhos retorcidos já não estão verdes como outrora. Há em casa o receio da dor.

Um tio da família, que viaja a trabalho para a Bahia, trouxe boas novas:

— “Alípio, tem um lugar pra lá adiante que tá mais verde que aqui. Ouvi dizer que o povo tá recebendo casa e terra pra plantar. Não falta água e tem gente boa pra viver.”

As notícias são auspiciosas. Mas como poderiam eles partir para um canto distante sem conhecer ninguém? Nem ao menos sabem onde fica; sequer têm certeza se lá haverá um teto para abrigá-los… E se ficassem pelo caminho, com os urubus a rodear? De um lado, a seca irremediável; do outro, as incertezas de uma viagem errante, na boleia de um caminhão, entregues nas mãos do dono do mundo.

O dilema levanta discussões dentro de casa. Maria Salete observa.

Alípio quer ir; Elizabete, não. Ela teme deixar tudo para trás. Apesar dos pesares, em Maravilha eles têm casa, terra, parentes, uma fonte de renda. Ela questiona os perigos dessa aventura. Diz que Alípio vai matá-los todos com essa ideia. Entretanto, Alípio não arreda o pé. Está convicto. Algo em seu peito diz que é preciso coragem, que é preciso confiar em Deus. Doralice é quem intervém, dizendo com firmeza que uma família deve se manter sempre unida, seja pra onde for, seja o que tiver que acontecer. Aqui não tem futuro pra vocês. Vai e não olha para trás.

Coragem encheram-lhes o peito.

Maravilha, Alagoas. Fonte: IBGE

***

A viagem se dá de pau-de-arara.

O pau-de-arara é um caminhão de carroceira semiaberta que carrega gente sonhadora ou desesperada. Mas, desta vez, não é apenas gente que nele se amontoa. Alípio e Elizabete embarcam com seus nove filhos, quatro bois, dois porcos e algumas galinhas. Todos juntos com o destino aos igualar em semelhante incerto destino. Como disse Saramago: “ser emigrante não é deixar a terra, é levar a terra consigo”.

Nessa carroceria, humanos e não humanos dependem necessariamente um dos outros para chegar ao amanhã. Estão entrelaçados por um fio fino, rumando para um lugar desconhecido. O caminhão balança. O cheiro forte misturado ao calor torna o ambiente ainda mais insuportável. Há melancolia na poeira do caminho. E também risos leves de crianças que transformam a adversidade em brincadeira. É a mente ainda pura de quem busca encontrar no mundo um ponto de luz para se agarrar. Na longa jornada falta um pouco de tudo, menos a esperança. Com exceção de Elizabete, que chora. Chora e continuaria a chorar ainda por meses, carregando o peso de ter deixado tudo para trás. Mas chorar desidrata. O que há na próxima esquina? Melhor, pensa ela, seria enfrentar a seca conhecida do que arriscar a todos nessa aventura inclemente… E o suor escorre pela testa quente até gotejar da ponta do nariz, umedecendo a madeira firme da carroceria.

Salete está quieta próxima ao boi. As galinhas estão quietas próximas umas às outras. A essa altura, resta apenas se segurar uns aos outros. Agarrar-se à confiança que Alípio tenta transparecer, desenhando em seu rosto queimado de sol um sorriso bonito. Confiança genuína? A essa pergunta, só Deus teria a resposta.

E ao chegar a Serra do Ramalho – a almejada terra prometida – não há casa destinada. Sim, saíram de Alagoas sem um teto a esperá-los. Agora estão sobre os próprios pés cansados, presos aos animais e à nova terra. O estômago ronca. Não há sono de estômago vazio. E já não há retorno. Para trás, ficou apenas a sombra inalcançável do passado. Adiante, seguem… Seguem como se cada passo fosse possivelmente o último. Seguem pelas ruas de terra batida, sombreadas por juazeiros e mangueiras, circundadas pela vegetação rasteira de caatinga a exalar cheiro forte de cansanção.

Estão na agrovila 05. Saberiam eles que existem outras vinte e duas? Para os bois há grama em abundância que os sustentam. Só que gente não come grama; gente não come esperança. E, então, como que por intervenção divina, cai do céu diante deles uma casa abandonada, em ruínas. Ela não ousará desabar, pensam. Não hoje, não amanhã. Por quanto tempo for, essa casa terá que resistir. E eles entram como se fosse deles. Entram como maribondos a tomar posse. A casa meio tombada agora é abrigo.

***

Nos meses que se seguiram, sobreviveram. Alípio e Elizabete batiam ponto no INCRA em busca de moradia digna e terra para o sustento. Os papéis foram lavrados. Tempos depois apareceu uma pequena casa de tijolos à venda na agrovila 03. Esta pertencera a uma família de beraderos que, como tantos outros, não se adaptaram; depois foi de Josuel, que decidiu retornar para Garanhuns, no interior de Pernambuco – também para ele Serra do Ramalho não servira. Mas Elizabete encantou-se pela casa. Gostou da ideia de morar na 03, um lugar que lhe parecia mais promissor do que onde estavam. E ali fincaram raízes.

A certa altura, não havia espaço para todos. Sob a sombra de um cajueiro no quintal ergueram uma tenda, que por algum tempo serviu de anexo. Nos dias limpos de céu estrelado, as noites encantavam os olhos. E pouco a pouco, de milho em milho, a vida foi se ajeitando conforme imaginaram. A casa cresceu, as crianças cresceram, e não havia mais o medo da morte ou o receio da dor. Não lhes faltava comida ou água, embora dificuldades ainda existissem – estas estão sempre à espreita para testar nossa resiliência.

Com o passar dos anos, os filhos construíram suas próprias famílias. Os Leite se tornaram enormes. Se espalharam pelo Brasil com o sertão agarrado no peito. Sempre prontos para retornar àquele pedaço de terra que um dia os acolheu.    

Serra do Ramalho, Bahia. Dezembro de 2024.

A ideia de uma grandiosa festa de aniversário animou a família. A mobilização foi praticamente imediata. Um grupo no WhatsApp foi criado. Decisões sobre qual banda contratar, como montar a decoração, quem ofereceria os gados, carneiros e porcos para a alimentação. Uma festa dessa magnitude não poderia vir de improviso. É chegado o momento de celebração. Não somente de Alípio enquanto ser vivente, mas de uma família inteira que tem nele uma referência quase sobre-humana.

Chovem mensagens. Decidem que uma camisa deve ser preparada para os familiares – uma forma simbólica de demonstrar a união entre esses tantos diferentes, reunindo-os numa mesma síntese. Assim, dá-se início às viagens.

De São Paulo, parte da família vem de carro, parando na estrada para dormir e garantir segurança no trajeto. De Brasília, semelhante cenário. O Brasil é imenso. A vegetação se transforma gradualmente com o passar dos quilômetros. Horas a fio são necessárias apenas para atravessar um estado de nossa federação. Mas a distância não é impeditiva. De Goiânia e do Rio de Janeiro outros seguem de ônibus em cansativa viajem. Carregam malas cheias, como é hábito sertanejo. E cada membro vai, pouco a pouco, arribando na terra prometida. Para esta família, Serra do Ramalho se tornou o coração do mundo inteiro.

***

Dezembro é um mês conhecido pela grande quantidade de festividades. Logo, não é apenas o aniversário de Alípio que mobiliza os corações: há outros aniversariantes e, em especial, o batizado da pequena Maria, recém-chegada ao mundo. O mais velho e a mais nova, lado a lado. Tal contraste simboliza uma espécie de círculo familiar que une gerações e reafirma os laços.

Com o regresso de tantos conhecidos, circulam também fofocas e reencontros, alguns que não aconteciam há muito tempo. Os mais jovens, alegres, trazem um ânimo especial ao dia a dia. Cada pequeno momento se torna pretexto para celebrar a vida que acontece. E nada falta. A abundância é característica notável. Fica a sensação de que, juntos, podem mais, de que nenhum obstáculo é capaz de impedir a felicidade.

Alípio e Elizabete, sempre juntos, sentam-se lado a lado nas cadeiras coloridas de plástico. A casa cheia os anima. Escutam a barulheira, observam o andar de gente, reclamam de coisa ou outra – afinal, reclamar também faz parte do cotidiano, expressão de uma postura combativa que os caracteriza. Mas ninguém leva mágoa no peito. Enquanto morde os lábios, o olhar de Alípio oscila entre a vagueza e a atenção. Ele está feliz, no entanto: “a vida sem saúde é difícil, mas, tando com o pé no chão, tá tudo bem…”, me conta com um sorriso no rosto. Seu espírito permanece tão forte quanto outrora. Apenas o cansaço e os cochilos rotineiros o retiram momentaneamente de perto dos seus.

Devido ao número elevado de pessoas reunidas, duas vacas e diversos outros animais são oferecidos para a comunhão. O alimento — sagrado para os sertanejos — é preparado por diversas mãos e compartilhado ao longo do fim de dezembro, sem distinções. Negar comida ou permitir que falte é considerado pecado sério em Serra do Ramalho. Não importa quem se aproxime, de onde venha ou o que tenha a oferecer; quando o assunto é alimentação, a comunidade sempre prevalece sobre o indivíduo.

E, não se engane, os animais são criados com muito zelo. Há um respeito terno por eles. O abate é feito dignamente, evitando o sofrimento. Um profissional especializado da região foi contratado para retirar os cortes de carne. Curiosamente, aqui não se utiliza os nomes convencionais, como Alcatra, Maminha, Picanha. Os cortes são simplesmente divididos em dois tipos: carne para assar e carne para cozer. Isso basta.

No calor das comemorações, contudo, uma triste notícia abalou a comunidade: um vizinho de Salete foi encontrado sem vida. Dizem que morreu de tanto beber – era alcoólatra. Havia uma festa marcada para aquele dia no bar do Josué. A notícia foi suficiente para o cancelamento. Disseram-me que nas agrovilas há esse respeito à vida de quem ali habita. Não se deve esbanjar felicidade quando Deus decide levar um dos seus. Naquela noite, a cidade ficou em silêncio.

Os festejos retornaram no dia seguinte.

Como em toda família grande, nem sempre a paz prevalece. A organização da festa gera alguns burburinhos. Pequenos conflitos a partir de detalhes banais. O que não arrefece o esforço coletivo. Os familiares entendem que intrigas individuais devem ser deixadas de lado em prol de um bem maior. Diante de certas situações, Marcos, neto de Alípio, assume uma posição momentânea de liderança, contribuindo diretamente para o bom transcorrer das atividades.

No cotidiano da cidade, porém, o trabalho segue seu curso. Apenas os visitantes se dedicam exclusivamente aos preparativos e às comemorações. Os moradores locais continuam suas rotinas no mercadinho, nas tarefas da roça, na produção artesanal de bolos, no projeto comunitário de agricultura, entre outras atividades. Este último reúne um coletivo de cultivos que variam desde pequenas plantações familiares até extensas áreas pertencentes a grandes latifundiários, com destaque para a produção massiva de bananas destinadas à exportação – uma das engrenagens econômicas mais significativas de Serra do Ramalho. Após cada colheita, forma-se uma longa fila de caminhões, prontos para levar as cargas ao mundo.

Quanto ao lazer, os momentos geralmente são regados a grandes quantidades de álcool, partidas de dominó, sinuca, conversas animadas e, em alguns casos, flertes discretos às escondidas. Devido ao controle social sobre o comportamento alheio, certas práticas comuns são realizadas longe dos olhos de terceiros. Manter uma boa imagem perante a comunidade é uma preocupação constante. Também ocorrem grandes eventos, como cavalgadas, vaquejadas e pegas de boi no mato, que reúnem multidões em torno de humanos e não humanos.

Reforçando o que disse antes, os bichos ocupam um lugar de destaque na sociabilidade local. São mais que fontes de sustento ou criaturas domésticas: eles estão no centro da vida, partilhando com os humanos os espaços, as lutas e os sentidos. Não há existência sem eles.

A música também desempenha papel fundamental. Cantam-se toadas tradicionais, e caixas de som em alto volume ecoam músicas típicas da região, como Kara Veia, Arreio de Ouro, Mastruz com Leite e alguns remixes contemporâneos. De jovens a idosos, todos valorizam a tradição musical sertaneja. Um dos netos da família, por exemplo, equipou seu Uno vermelho antigo com uma dessas caixas de som. Mesmo de longe, quando passa, as pessoas comentam — “Lá vem o João Henrique”.

A propósito, dias atrás eu estava conversando com Genário, dono de um dos bares da cidade. Ele é um rapaz baixo que leva sempre um sorriso alegre no rosto. Costuma vestir bermuda, regata e um relógio notável no pulso. Veio lá de São Paulo. Me dizia com convicção que não troca esse lugar por nenhum outro no mundo. “Aqui pode até faltar coisa ou outra, mas a gente tem paz e tranquilidade pra trabalhar… não precisa se matar de tanto correr, sem tempo pra nada, nem ter medo de sair na rua”. Acho que ele me falava sobre liberdade.

***

É chegada a data do aniversário de Alípio: 29 de dezembro.

A família acorda cedo para os preparativos. Mulheres organizam a decoração e os alimentos: espetinhos de carne, feijão-tropeiro, arroz, farofa, salada. A quantidade é significativa. Homens carregam objetos pesados, como mesas e cadeiras, além de montarem o palco para o artista local que virá. Também cavam um buraco no chão para enterrar a caixa d’água, que será preenchida com cerveja. Bebida não falta. E nem pode faltar: parece haver entre eles uma resistência especial à embriaguez, somada a um insaciável desejo pelo consumo. Mas nem todos bebem, há também os abstêmios. Por fim, cabe aos homens a tarefa de buscar na rua o que for necessário. Percebe-se uma naturalizada divisão de gênero no trabalho, profundamente enraizada historicamente.

Enquanto ocorre a arrumação, uma dezena de crianças brincam no quintal. A infância alegre e coletiva ainda existe por essas bandas. Jogam bola, carregam uns aos outros em carro de mão, acendem pequenas fogueiras e até jogam dominó, imitando o comportamento dos adultos. Alguns batem com as pedras na mesa em júbilo ao ganhar. Não se enganem: crianças de oito a dez anos já são capazes de vencer gente grande no jogo. E não há quem não saiba ou goste de jogar.

Pessoas vão chegando e ocupando seus lugares. Um tipo de altar sertanejo está montado no meio do terreiro para que Alípio e Elizabete possam se sentar durante as fotografias. Há diversos elementos decorativos que remetem à vida dos dois: o milho, a vaquejada, o carro de boi. Bem como fotos espalhadas pelo cenário, reforçando a homenagem. Ergue-se diante dos olhos bonita celebração a essa figura tão conhecida e amada. O forró rola solto. Gente conversa animada, observam atentamente tudo – a boa impressão é necessária. E a alegria segue até tarde da noite.

Alípio e Elizabete não se levantam muito; a mobilidade lhes é precária. Mas estão atentos e felizes. Em meio à multidão que os circunda, em certo momento, dançam com passos vagarosos ao som da música que ecoa. A mão dela toca seu braço vestido; os pés se movem lentamente de um lado para o outro, arrastando a areia do terreiro. E vejo sorrisos bonitos ao redor, como o meu, que os observa de longe, sentindo no peito a alegria de vê-los juntos. Sou apenas uma pequena parte diante de algo muito especial, sim… diante de um amor talvez inconcebível num mundo em que o romantismo se tornou ultrapassado, em que as adversidades mais separam do que unem.

Lembro-me de Doralice, que já não está entre nós. Imagino as paisagens do sertão alagoano, que há tanto tempo se tornaram apenas memórias para os dois. E vejo tanta gente reunida, tantos corpos presentes. A abundância, a gentileza, o carinho com que tratam os de fora. A ausência provisória de violência — tão inescapável nos grandes centros urbanos que conheço. Mais do que admirar, sinto que aprendo enquanto os vejo dançar. Aprendo que existem maneiras de tornar nosso mundo melhor. Aprendo que o impossível é, sim, possível… mesmo na noite mais funda do ventre escuro de um porão… mesmo na quentura de uma boleia sob o sol ardido.

A música é momentaneamente pausada. Alguns em pé, outros sentados, observam. Maria Salete leva o microfone à boca. Há uma emoção que a fragiliza. Logo ela, que sempre teve a obrigação de ser inabalável, de se manter em prontidão para todos os irmãos. Já com lágrimas nos olhos e a voz embargada, Salete chama Alípio de papai, diz o quanto ele significa para ela. Pela primeira vez, tenho a impressão de que não estou diante da Salete de sempre – aquela que leva o mundo adiante como se soprasse os ventos fortes de Iansã. Ali, com o microfone à boca, as mãos trêmulas, os olhos marejados, é a Salete criança, do sertão de Maravilha, quem fala. Não há por que se conter. Já não é preciso entregar ao mundo a certeza de sua força. A criança que não pôde ser, a infância que sacrificou, está contida naquela pequena palavra de duas sílabas: papai. Que repete, como se o mais doce mel escorresse de sua boca.

E, ao terminar de dizer o que seu coração necessita, Salete canta uma toada de vaqueiro. Sua voz é suave, a afinação precisa. Mas não é a técnica que me impressiona. A toada que emerge de seu peito vem de um lugar indizível. Leva consigo a chuva e o sol, a poeira e o carvão. Leva a profecia visionária de um viajante na boleia do destino. É o canto da natureza; de um Assum preto que nunca teve seus olhos arrancados; de uma Asa branca que, sobre o sertão verde, bate asas. Aquela toada é o próprio amor, o próprio sertão, declarando que coisa mais bela nesse mundo não existe.

Nessa festa idealizada pelo próprio Alípio, quase todos estão presentes. Apenas um filho e alguns netos não puderam comparecer, impedidos por forças maiores. Apesar do cansaço – as forças físicas já não são as mesmas de outrora –, o velho alagoano sente, em cada gesto, em cada abraço e sorriso, que a vida valeu a pena. Não há dúvida.

Olha, o sertão é feito de contrastes: há a seca implacável, mas também o verde que insiste. Na família, as desavenças passageiras cedem lugar à união em torno do casal que tornou possível tantas vidas. Alípio e Elizabete sobreviveram, acreditaram que o amanhã podia ser conquistado. Agora, nessa celebração sertaneja, dois sentimentos se entrelaçam. Há o gosto amargo de uma despedida que se avizinha, mas, acima disso, impera o sentimento de dever cumprido. Se um dia o sertão virou mar, e disso nasceu Serra do Ramalho, hoje foi o mar que veio ao sertão, nesse deslocamento dos centros para o local afetivo.

A homenagem ao Alípio transcende os limites da região e do sangue que corre nas veias de seus descendentes. É uma ode ao sertanejo resiliente, aquele que desafiou o impossível e venceu. Nem todos têm a bênção de, no ocaso da vida, contemplar em seu arrodeio tamanha vitória.

Fotografia de Vinicius Leles

O homem chega e já desfaz a natureza
Tira gente, põe represa, diz que tudo vai mudar
O São Francisco, lá pra cima da Bahia
Diz que dia, menos dia, vai subir bem devagar
E passo a passo vai cumprindo a profecia
Do beato que dizia que o sertão ia alagar

O sertão vai virar mar, dá no coração
O medo que algum dia o mar também vire sertão

Adeus, Remanso, Casa Nova, Sento-Sé
Adeus, Pilão Arcado, vem o rio te engolir
Debaixo d’água, lá se vai a vida inteira
Por cima da cachoeira, o gaiola vai subir
Vai ter barragem no salto do Sobradinho
E o povo vai-se embora com medo de se afogar.

Sobradinho, Sá e Guarabyra (1977)


Notas

[*] Para mais informações, o autor recomenda o livro Serra do Ramalho: terras de grandes riquezas, feito por moradores da região com o apoio da Prefeitura de Serra do Ramalho e da Secretaria Municipal de Educação.

[1] Agradeço ao professor e amigo André Botelho pelo incentivo à realização deste texto. E a Alípio e Elizabete pelo atencioso carinho em nossas longas conversas na varanda.

Referência

MARTINS-COSTA, Ana Luisa B. (1989). Uma retirada insólita: a representação camponesa sobre a formação do lago de Sobradinho. Dissertação de Mestrado no Museu Nacional, Rio de Janeiro.