Presente do acaso: pistas (III)

O lançamento de Presente do acaso: um ensaio biográfico de Silviano Santiago, escrito pelo jornalista João Pombo Barile, se aproxima. Inspirados pelo formato dialogado do livro, estamos publicando algumas cartas trocadas entre Silviano e intelectuais e artistas com quem conviveu em diferentes períodos. As cartas foram descobertas na meticulosa pesquisa feita por Barile para o livro.

No post de hoje, você confere a carta enviada pelo crítico e tradutor John Gledson a Silviano em novembro de 1981, acompanhada de um breve comentário de André Botelho, que a contextualiza.

São pistas que, quem sabe, se esclarecerão em Presente do Acaso, que será lançado no Rio de Janeiro no dia 4 de novembro, às 19h, na Travessa Ipanema, e em Belo Horizonte no dia 8, às 10h, na Academia Mineira de Letras.

Confira aqui mais informações sobre o livro. Para ver outras cartas clique aqui e aqui.


Carta de John Gledson endereçada a Silviano Santiago em 14 de novembro de 1981

Transcrição da carta [*]

14 de novembro de 1981

Caro Silviano,

Fiquei muito feliz ao receber o seu livro pelo correio, há uma semana, pois já tinha ouvido falar nele, e estava com grandes desejos de lê-lo. A Anna Maria Esnaty esteve no lançamento, e me contou que já vendeu bastantes exemplares lá, e o Jim Irby me disse que tinha lido uma reportagem interessante no Isto É (se não me engano). Pode crer que o livro lived up to its reputation. Costumo, ao receber livros assim, ou 1) prometer que vou lê-lo, e não escrever até tê-lo lido, caso em que não escrevo nunca, ou 2) sendo mais honesto, confessar já de princípio que não vou lê-lo, e agradecer imediatamente. No seu caso, li, e li até o fim, com admiração crescente e muito interesse – isso, no meio de um trimestre com muito movimento. Agora, quero abordar as Memórias do Cárcere, livro que tencionava ler há anos, para ver como é que se comparam os dois livros. Desde logo, o seu dá uma visão que só em raros casos (as cartas de Mário publicadas por Paulo Duarte, p. ex.) obtive, da vida intelectual dos anos 30, tão diferente da visão habitual que temos do modernismo, e, ao mesmo tempo, de problemas político-culturais que você enfoca – sobretudo, na comparação com Cláudio Manuel da Costa – com muita agudeza e claridade. É o tipo de livro, de estilo simples e argumento profundo, que dá muito para pensar. Você sem dúvida leu um livro que eu conheço “de vista e de chapéu”, mas que não li, o de Ken Maxwell sobre a Inconfidência – quero lê-lo agora para ver como é que a sua versão dos fatos e a dele se complementam. Planos – quando na verdade estou com tanto trabalho aqui, só do ensino, que não dá tempo nem para pensar. Há 2 anos + ou – escrevi um artigo sobre Angústia e O Amanuense Belmiro (e, um pouco, Brejo das Almas – a propósito, gostei da vignette de Drummond!) – que vai ser publicado aqui em Liverpool daqui a pouco. Uma das coisas que mais me deixam frustrado é a demora das coisas. Nem é só aqui em Liverpool ou na Inglaterra – o meu livro sobre Drummond ainda está “na gráfica” (segundo me informam de vez em quando quando telefono) em São Paulo. Logo que sair, mando-lhe um exemplar, é claro (do livro, e do artigo). Foi uma tentativa (em que, por sinal, creio que de alguma maneira ataco um artigo seu sobre A Bagaceira, a favor de Graciliano) de focalizar um problema que eu via na literatura dos anos 30, prólogo a um estudo que nunca poderia ter levado ao fim, por falta de conhecimento do meio, dos problemas, precisamente, que você trata em Em Liberdade. Agora, estou quase inevitavelmente com Machado. Escrevi agora outro artigo sobre Casa Velha, conto comprido e interessantíssimo, e estou no meio de uma “monografia” (assim o chamo por não saber se vai ser livro ou não) sobre Dom Casmurro. Tive que abandoná-lo por enquanto; quero terminá-lo no verão do ano que vem, e se for possível, vir ao Brasil no ano seguinte, para fazer alguma pesquisa para escrever um livro decente sobre ele em inglês, coisa que está faltando.

Lembrei-me de você em abril deste ano, quando estive com Antônio Dimas, que encontrei em sua casa, numa reunião sobre Drummond na Califórnia; como acontece sempre, as atividades extra-conferenciais me ensinaram muito mais do que as conferências em si.

Outra vez, muito obrigado por ter-se lembrado deste inglês exilado (?) no mundo des-desenvolvido de Liverpool (e a salvo dos motins, felizmente).

Um abraço,

[JG]

[*] A carta foi transcrita a partir do texto original.


Carta do professor aposentado de Estudos Brasileiros na Universidade de Liverpool, John Gledson. Datada de 14 de novembro de 1981, nela Gledson acusa o recebimento do romance Em liberdade, que acabava de ser lançado no Brasil e começava a fazer grande sucesso, e afirma que vai escrever um ensaio sobre Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos. Um dos mais importantes estudiosos da obra de Machado de Assis e autor de livros como Machado de Assis: ficção e história, Machado de Assis: impostura e realismo e Por um novo Machado de Assis, Gledson manteve ao longo dos anos vasta correspondência com Silviano. Nesta mesma carta, o crítico inglês ainda comenta com Silviano os ensaios que, na época, estava escrevendo sobre Machado.

– André Botelho