
Carlos Sandroni, referência nacional e internacional em etnomusicologia, faleceu ontem, 28 de outubro, aos 67 anos, no Rio de Janeiro. Professor, pesquisador e músico, Sandroni foi uma das vozes mais criativas dos estudos sobre música popular no Brasil. Autor de Mário contra Macunaíma e Feitiço decente, formou gerações de estudantes, unindo rigor analítico e sensibilidade musical.
Nosso sincero pesar pela perda do professor e nossos cumprimentos aos seus familiares, amigos e estudantes.
Neste post, você confere a homenagem de João Miguel Sautchuk ao amigo.
Música, doce música: Carlos Sandroni
Por João Miguel Sautchuk (UnB)
“Notícia muito triste” – uma amiga desabafou em uma mensagem ao celular no meio do 28 de outubro – perdemos Carlos Sandroni. Foi no Rio de Janeiro. Ali mesmo onde ele floresceu, numa família de artistas, musicistas, pensadores, escritoras e escritores – gente muito cara, que tratou a democracia como coisa muito cara.
A música o chamou logo cedo, sendo o violão companheiro de vida toda. É certo que isso fez pender sua formação em Ciências Sociais para a sonoridade dos temas. Sua dissertação de mestrado em Ciência Política versou sobre as ideias de Mário de Andrade, um dos mais musicais entre os pensadores da nação e estudiosos da cultura popular no Brasil. Publicada em 1988 com o título de Mário contra Macunaíma: cultura e política em Mário de Andrade, mereceu bela reedição no ano passado.
Nisso, integrou um pulsante time de jovens cientistas sociais – Maria Laura Cavalcanti, Elizabeth Travassos e Luís Rodolfo Vilhena, entre outros – que lançava um olhar renovado sobre os estudos de folclore no Brasil, corpus de pesquisas e reflexões legitimamente criticado, porém, injustificadamente rejeitado, no processo de consolidação da sociologia e da antropologia nas universidades brasileiras.
Cursou na França o doutorado em Musicologia, sem deixar de ser cientista social.
A tese foi publicada no Brasil em 2001 – Feitiço decente: transformações do samba no Rio de Janeiro, 1917-1933. Ganhou relevância logo de cara. Assim como O Mistério do Samba, de Hermano Vianna, investigou em detalhes pontos nublados até então na historiografia do samba e das relações entre cultura popular, indústria cultural e ideologias da nação. Vianna punha em foco o universo das representações na música popular e no pensamento social, enquanto Sandroni meteu-se na difícil e inédita tarefa de analisar e comparar gravações de algumas gerações de sambistas para delinear, de modo inovador, sofisticado e sereno, como ritmos e técnicas de tradições musicais que se permeavam mutuamente se relacionavam com novos ajustes sociais num país que se modernizava sem dissolver suas contradições.
Interpelando a noção de “síncope”, tão recorrente na caracterização do samba, Sandroni tomou os conceitos e as percepções locais de ritmo musical como mote para a interpretação de processos sociais. Apontou aí um caminho para a solução do dilema etnomusicológico (pelo qual se estuda os processos sociais sem abordar os sons ou se analisa as músicas ignorando suas dialéticas contextuais) e pariu uma obra maiúscula no pensamento social brasileiro.
Sandroni foi bastante feliz ao trazer essa bagagem para o campo da política cultural. Ele coordenou a pesquisa de fundamentação do registro do Samba de Roda do Recôncavo Bahiano como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil (um dos primeiros realizados pelo Iphan) e de vários outros, até o das Matrizes Tradicionais do Forró, concluído em 2021. Nessas jornadas, foi se tornando tão respeitado no meio acadêmico quanto entre os mestres da cultura popular.
O Feitiço foi leitura constante nos anos de minha formação de historiador e antropólogo – também atento à musicalidade da vida social. Na primeira década do milênio, eu seguia de longe o protagonismo de Sandroni na consolidação da etnomusicologia no Brasil e da pesquisa em música na Universidade Federal de Pernambuco e também na da Paraíba. Porém, só fui conhecê-lo mesmo, assim de ser apresentado (pelo grande Rafael Menezes Bastos) e desfiar uma prosa, em Belém, na Reunião Brasileira de Antropologia, em 2010. Ele se interessou por minha pesquisa sobre o improviso poético dos repentistas nordestinos e me convidou para um encontro que estava organizando em Recife. Foi quando me disse que eu era etnomusicólogo, mesmo sem uma escolarização musical. Eu aceitei satisfeito. Trocamos muitas figuras desde então. Colaboramos em duas pesquisas para registros de bens culturais pelo Iphan: a do repente, que eu coordenei, e a das Matrizes do Forró. Na pesquisa para o registro do repente, Sandroni reuniu uma equipe primorosa para analisar os padrões musicais dessa prática de poesia. Estava em nossos planos publicar um artigo a respeito, enfatizando o ritmo do canto no improviso dos repentistas. Ficamos nos devendo. Prometo pagar.
Ah, sim, e o violão? Sandroni compôs um bocado, desde coisas críticas e divertidas, como Desanimado (uma conversa com o Desafinado que João Gilberto estandardizou), até a beleza toda de Guardanapos de Papel (tradução para o português da canção do uruguaio Leo Masliah), gravada por sua irmã, Clara, nos anos 80 e por Milton Nascimento nos 90. Carlos interpretou essas e mais doze de suas composições no álbum Sem Regresso, de 2014, que ouvi hoje com uma emoção diferente das outras vezes.
Estive com Carlos pela derradeira vez no Recife em 2022. Era nítido que ele estava em seu ambiente, fosse numa aula na UFPE, numa apresentação de caboclinhos na Várzea, ou numa prosa sem pressa em sua morada no bairro de Casa Forte. Pudera! Muita tinta, muitos sons, muita coisa ele teceu e movimentou por ali. Muita gente ele tocou e despertou. É que depois de tanta labuta, tanta colheita, me disse ele, chamados poderosos – o coração… a precisão de estar perto dos pais, Laura e Cícero – o guiavam de volta ao Rio. No início deste ano, ele estava de transferência para a Universidade Federal do Rio de Janeiro quando a doença o surpreendeu – e a todos nós. Não foram poucas as homenagens que recebeu desde então.
Enfim, ficam bem aterradas as lembranças e lições desse mestre criativo,
Desse colega disposto e sorridente,
Desse amigo querido – muito querido.
