Resenha | “Geraes: arte barroca em Minas”, por Myriam Ávila

Myriam Ávila (UFMG) resenha hoje o livro Geraes: arte barroca em Minas, de Angelo Oswaldo de Araújo Santos, publicado em agosto pela Relicário Edições.

Reunidos pela primeira vez sob a organização de Maria G. A. de Andrade, os escritos de Angelo Oswaldo de Araújo Santos sobre a história da arte barroca mineira condensam quatro décadas de produção ensaística. A obra aborda a religiosidade popular, as influências da arte sacra e a contribuição africana na formação cultural colonial, além de refletir sobre a preservação e a permanência do barroco. Segundo Myriam Ávila, Geraes é uma obra que, com erudição e sensibilidade, amplia e renova a compreensão do barroco mineiro e da história de Minas.

Para ficar por dentro de todas as nossas postagens, você pode assinar nossa lista de e-mails, seguir nosso Instagram ou entrar no canal da BVPS no WhatsApp. Boa leitura!


Geraes

Por Myriam Ávila (UFMG)

Não é banal o fato de a palavra “barroco” despertar controvérsias renitentes em textos acadêmicos no Brasil nas últimas décadas. De forma oblíqua, a rejeição ao termo que, desde sua primeira menção na História da Arte, conheceu também controvérsias etimológicas, parece ecoar a rejeição estética à arte do século XVIII em Minas, manifestada por visitantes estrangeiros do XIX, assim como pelo grande cronista carioca do início do XX, João do Rio. A “reabilitação” das criações de Aleijadinho e Athaíde começou, de forma incisiva e decisiva, com a viagem dos modernistas “pau-brasil” às cidades históricas de Minas em 1924. Esse estado feliz de fruição do que por décadas se chamou pacificamente Barroco Mineiro passou a ser questionado na virada do milênio, por aqueles que se vangloriam de fazer o trabalho que lhes compete como pesquisadores.

Deixemos de lado o “reacionarismo antibarroco” dos meios acadêmicos, como o chamou Haroldo de Campos, para ingressar no universo de tantos intelectuais de horizonte mais amplo, entre os quais se inclui o navegante de águas profundas que é Ângelo Oswaldo de Araújo Santos. Com seu recente livro Geraes: arte barroca em Minas, abarca, amarra, desenrola, explica e complexifica a aventura da arte que floresceu nesse estado central do Brasil, que hoje vai sendo descoberto cada vez mais como um “minasmundo”. Não se tratando de um guia ou de um manual, o livro é guia e manual de uma maneira de ser que, tendo no século XVIII se concretizado em monumentos miráveis e admiráveis, infiltrou-se de tal forma atmosfera de um espaço-tempo que podemos ver o próprio autor como um dos seus representantes. Minas mereceu o olhar profundamente empático de historiadores, arquitetos, escritores e artistas que no século XX se deram conta da riqueza de memória, pensamento e vida que as cidades históricas representavam, não só para um sentimento de história e patrimônio social de um país, mas para a humanidade, com reconheceu a UNESCO, no caso de Ouro Preto. Alguns desses não se amparavam em diplomas para estudar, decifrar e fabular esse mundominas. Ângelo – vamos chamá-lo assim, com toda a intimidade de amigo – a despeito de ter um diploma institucional, passou uma vida inteira adquirindo o conhecimento inestimável sobre as terras de Minas que vemos agora transbordar em benefício do leitor. Difícil falar da experiência que é ler seu livro: cada questão, cada objeto é colocado em múltiplos níveis, com uma naturalidade e uma fluência que só o verdadeiro conhecedor pode comandar.

No périplo de Geraes, estamos em Conceição do Mato Dentro, estamos em Portugal e na Itália, estamos nos séculos XVII e XX e, também, nos séculos de entremeio. A linguagem limpa e clara, de expressão enganadoramente fácil, nos oferece por vezes formações paratáticas de beleza autônoma: “O arquipélago dos Açores era uma esquadra singrando o mar desconhecido. O achamento do Brasil foi tido como obra do acaso”. Em outro ponto, faz-se a distinção – que não se quer erudita, mas expressão de um sábio reconhecimento de um instrumental de vida – entre o cataguá e o caeté (que conhecemos hoje como nomes de cidade: Cataguases e Caeté). A história vivida confere densidade a cada informação. A sensação de sincronia é vertiginosa: Ouro Preto não está perdida nas brumas do tempo, austera, mas presente e atuante a cada momento, da inauguração da Matriz do Pilar às discussões sobre a reforma do Grande Hotel.

As narrativas de personagens que atravessam os séculos, como o Orlando de Virginia Woolf ou que vivem de perto cada momento histórico, como o pós-moderno Forrest Gump, nascem do desejo humano de transcender o limite temporal e espacial de um corpo perecível e da curiosidade de conhecer em primeira mão os contextos históricos. As construções materiais e os objetos cotidianos do passado, quando preservados, nos dão, quando os vemos de perto, a sensação de atravessar camadas de tempo que podem ser milenares, como no caso das pirâmides ou dos brinquedos das crianças egípcias expostos no British Museum. O livro de Ângelo Oswaldo, abrangendo cerca de quatro séculos, proporciona a aproximação virtual de cada passagem histórica, que aí nos aparece recheada, não de nomes e bustos cristalizados, mas de gente vivente. Aleijadinho, Guignard e Niemeyer têm todos uma dimensão propriamente humana plena de agência. O autor recorre também a personagens da literatura, a versos principalmente de modernistas, e até a letras de canções de Tavinho Moura, Fernando Brant e Márcio Borges para criar um ambiente de empatia por onde o leitor possa penetrar na história.

Entretanto, diante do belo ensaio introdutório de Silviano Santiago, outro mineiro do mundo, sinto-me, ao tentar dar ao público uma ideia da qualidade e do sabor de Geraes, na posição daquele primeiro europeu que tentou descrever o sabor da banana a seus conterrâneos leitores, chegando, com esforço, a descrevê-lo como próximo do de um queijo. De fato, o texto de Silviano é um bônus especial e cria uma interlocução de alto nível com a palavra de Ângelo Oswaldo. Passo então, para arrematar a minha apreciação do livro, a seu aspecto mais editorial. Louvo o cuidado em preparar um índice onomástico, sempre confortável e útil, o intervalamento dos dois grupos temáticos com as páginas de fundo preto (um recurso distintivo de algumas edições da Relicário), a escolha, sempre difícil, das ilustrações, a bela capa e contracapa impressas em cores. Por fim, destaco o título Geraes, em ortografia antiga, por sua beleza gráfica e também por sua polissemia. Certos chatos curadores da nossa cultura podem ativar sua implicância natural ou adquirida diante da escolha da palavra Geraes, muitas vezes vista como restrita à parte do estado de Minas dedicada aos pastos e latifúndios, aos campos de horizonte aberto, o que excluiria as cidades montanhosas de mineração. Prefiro apostar que esse título alegoriza a melhor tendência do espírito humano: desejar a amplidão, os voos e as escolhas não excludentes.