Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Natal (noite de Natal)

É noite de Natal, e Mário de Andrade experiencia esse importante feriado religioso na homônima capital. A sensação deixada, diz ele, é alegre e triste. Há dança, muita dança, e o canto que reúne um tanto de gente sob a iluminação “maleteira”. Com sua escrita, Mário nos conduz diretamente a esse ambiente e o fixa no tempo. Só nos resta aproveitar.   

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Natal (noite de Natal)

Rua Coronel José Bernardo. Fotografia: acervo João Gothardo Dantas Emerenciano

A população se deslocou prás alturas do Tirol e da Solidão, bairros vizinhos. Os bondes, os autos, as “dondocas” (onibus) vêm cheios. Gente de branco, gente de encarnado, de azul, moças bonitas, soldadinhos, no geral gente chata de pele bronzeada, cabelo liso acastanhado, boas dentaduras se rindo, pouca mulataria.

A capela de Santa Therezinha inda não possui telhas e aproveitaram a noite de Jesus pra uma quermesse branda. As luzes iluminam pouco, no geral a iluminação da cidade é maleiteira, e entre claros e sombras a festa dá uma sensação rajada muito nacional, alegre e triste. Junto das barracas do America e do A. B. C., clubes de futebol, a rapaziada faz um sarceiro gostoso, cantando cocos…

“Oh mulé, sai do sereno,

Que essa frieza faiz mal…”

Quando sinão quando a Lua macota dribla as nuvens e vem maneira se confundir com os chapeus de palha passeando. Guardado da rua, no “sitio” (chacra) do coronel Cascudo, as meninas bailam no Pastoril. São umas deliciosas de cunhatão, desacompanhadas a piano e violino, com tanta graça, tanta desenvoltura no gesto que o futuro da patria aqui está. A maior não terá 12 anos porêm dançam com um ar de “frevo”,  num mexido sensual tão inconsciente como a fatalidade. Umas defendem o cordão encarnado. Outras o azul. No meio a Diana, caçadora sem nenhuma Grecia, celebra com gostosura o nascimento de Jesus, menina linda, graça esplendida, estrelinha nos cabelos, pandeiro prateado na mão. Não tem dúvida que o espetaculo é um bocado bibliothéque rose, porêm agrada os meus passeios.

Me afasto um bocado e já estou na Solidão. Dou de cara com a Chegança dançando na porta dum… importante, de certo… O cordão está alinhadissimo, a moirama de encarnado, os cristãos, vestidos de marujos numa brancura polida relumeando. Gente pobrissima que gastou o que tinha para aparecer assim. O capitão “mar de guerra” é um embarcadiço já vivido, respeitavel.

Ninguem viu o que eu vi hoje

No peito do Mar-de-guerra:

Duas rolinhas cantando

Assim que avistaram terra…

Ninguem viu o que eu vi hoje

Num galho dum alecrim:

Duas rolinhas cantando:

Viva o Senhor do Bomfim!

A dança é longa por demais. Um esfôrço muscular que dura tres, quatro horas. Me retiro tonto de comoção quando o côro conta que quem venceu definitivamente os mouros foi o duque de Caxias. São 24 horas quasi… Vozes de coco mais pra longe… Uma banda militar na quermesse, entremeia de quadrinhas o maxixe tocado… Canto, canto e mais canto… O que não posso explicar é ter sonhado que dirigia um automovel esta noite. O sonho, que eu saiba, não abusa assim das antiteses. 

MÁRIO DE ANDRADE