
Renato Ortiz escreve sobre a beleza melancólica do efêmero. Em Os Amantes do Círculo Polar, título que faz referência ao filme de mesmo nome, dirigido por Julio Medem, acompanhamos a jornada de um casal em busca do reencontro amoroso. Com um tom alegórico que possivelmente ecoa as tantas histórias de amor do nosso tempo, Ortiz mostra como o indeterminado destino raramente se deixa controlar, mesmo diante da mais sincera e mútua vontade de realização. Mas, afinal, não reside também na própria jornada uma forma de valor?
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Os Amantes do Círculo Polar
(do filme de mesmo nome, dirigido por Julio Medem)
Por Renato Ortiz (Unicamp)
Os amantes do círculo polar circundam a Terra em direções opostas, sentido horário masculino, anti-horário feminino. Deveriam se encontrar quando a metade do globo tivesse sido percorrida, essa era a intenção, o devaneio implícito. Apenas por alguns instantes estariam separados uns dos outros. Na solidão de suas vidas complementares, um curto lapso de tempo os dispersaria antes do abraço final. Mas os jovens apaixonados negligenciaram as incertezas da vida. Em seu projeto boreal, esqueceram de sincronizar a navegação à velocidade dos ventos, ao clamor das tempestades e ao deslocamento dos astros. Sem o saber partiram para não mais se encontrar. Passaram-se anos e a cada volta afastavam-se cada vez mais do objetivo postergado. A promessa de reconciliação parecia situar-se no infinito, como se as linhas do círculo os tivessem arrastados para as paralelas do desencontro. De nada lhes serviam as juras de amor, a ausência dos corpos ardentes fustigava e entristecia. Com o tempo descobriram que o impasse era fruto de um descuido geométrico. Por milhares de horas o masculino havia percorrido a Terra no plano horizontal, norte, leste, sul, oeste, novamente, norte; girava na dimensão plana dos mapas geográficos. O feminino, inconscientemente tinha escolhido o plano vertical, no qual o zênite, a projeção do centro do círculo que intercepta a esfera celeste, e o nadir, diametralmente equidistante do centro, mas na direção oposta, jaziam distantes do plano horizontal. A órbita dos amantes continha um anacronismo espacial incompatível com os seus desejos. Tinham saído juntos do mesmo lugar, quando tiveram a ideia de se afastarem e se reencontrarem, mas talvez o masculino, com seus passos céleres, estivesse em discrepância com o feminino, com seus passos trôpegos. Pensaram numa solução para corrigir o desvio. Bastaria ajustar a trajetória de cada um deles e na passagem pelo norte ou pelo sul do plano horizontal as rotas necessariamente coincidiriam. Leste e oeste indicavam a face espinhosa da separação. Entretanto, como haviam se lançado há anos nesta desventura, restava-lhes como única opção acertar o relógio de um entendimento mútuo. A comunicação entre eles nunca tinha sido rompida, trocavam longos bilhetes de amor e afagos digitais, assim chegaram à conclusão que o melhor a fazer era o masculino desacelerar a marcha e o feminino adiantá-la. Um astrólogo os ajudou na tarefa ingrata de calcular os passos, o movimento e o deslocamento das trajetórias tinha de ser preciso, exato, ou seriam outra vez projetados para a tangente de seus infortúnios. Se tudo corresse bem, segundo a estimativa elaborada, dentro de seis meses, treze dias, sete horas e cinquenta dois minutos, por fim se afagariam e se beijariam. Com alegria e ansiedade viveram os dias de espera, duração longa, densa, viscosa. Chegado o momento, sob o frio glacial do Ártico, os dois se aproximaram, de longe cruzaram um olhar penetrante. Acreditaram por um instante que o tempo estivesse suspenso, imóveis, à distância, contemplavam um ao outro. Porém, o movimento que os impulsionava não podia ser repentinamente contido, a massa corpórea de cada um deles, com a força que a velocidade lhes imprimia, os impedia de permanecer em repouso. Puderam se acercar, tocar as pontas dos dedos, mas a inércia do deslocamento os projetou para frente. Restou a presença da fugacidade efêmera.
