
Nesta quarta-feira, dia 26 de novembro, às 18h, acontece o lançamento do livro Exílio como forma: Gonçalves Dias e o dilema brasileiro, de autoria de João Cezar de Castro Rocha. O evento será realizado na Livraria Leonardo da Vinci, localizada na Av. Rio Branco, 185, subsolo 1 – Centro (RJ) e contará com um bate-papo do autor com a professora e pesquisadora Andrea Sirihal Werkema (UERJ).
Confira abaixo a orelha do livro escrita por Emicida.
O exílio como fôrma
Em 1941, o grupo Anjos do Inferno lançava uma canção composta um ano antes por Dorival Caymmi, hoje mundialmente conhecida graças ao filme da Disney de 1944 The Three Caballeros. A letra trazia um sublime questionamento já em seu título: “Você já foi à Bahia?”. A supressão dos adjetivos reforça a importância de se ver com os próprios olhos, afinal, a Bahia tem um jeito que nenhuma terra tem.
Goethe certa vez disse “o máximo que um homem pode fazer é maravilhar-se”, aqui está o limite. O idioma original do poema trágico Fausto guarda uma expressão que tem como sinônimo a inquietação, uma espécie de motivo oculto: Hintergedanke.
O uso mais conhecido do recurso empregado por Caymmi em seu convite à sua terra natal provavelmente está em “Canção do exílio”, do maranhense a quem Machado de Assis se referiu como sendo o “mais prezado filho da poesia nacional”, Gonçalves Dias.
Gonçalves, Caymmi, Goethe (e em especial Fausto) certamente sabiam que o maravilhamento também tem seu limite oposto, o horror. E que, da mesma maneira que não há luz que não produza sombras, também não há beleza que não faça fronteira com mazela.
Um país pode ser pensado de fora, mas só pode ser sonhado de dentro.
Dorival e Gonçalves Dias saem para poder voltar, seja a partir do filme do Zé Carioca, seja a partir da Universidade de Coimbra, e trazem consigo os olhos do mundo. A conclusão, nas duas pontas da janela de tempo que os separa, eles confiam ao leitor (e ao ouvinte). Ao desenhar com o som as imagens de sua amada Bahia, Caymmi aterrissa no coração brasileiro. Gonçalves, por sua vez, é responsável pelo primeiro grande voo de uma alma do Brasil (pouco menos de um século antes de Santos Dumont), usando as palavras e as imagens guardadas por elas para compartilhar os sons de seu lugar.
Todos conhecemos de alguma forma o poema romântico “Canção do exílio”, mas tenho absoluta certeza de que, ao chegar à outra ponta deste primoroso livro do professor João Cezar de Castro Rocha, iremos nos reconhecer nele como nunca antes. Aqui o motivo oculto, que amalgama a canção escrita e a canção cantada, ganha mais e mais profundidade (e riqueza) a cada parágrafo, precisamos ir até lá para poder ver este país com suas luzes e suas sombras.
Emicida