
Chegamos ao último texto da Série Nordestes no ano! Em “Sentir e pensar o Brasil com Mário de Andrade”, André Botelho (UFRJ) destaca a empatia com que Mário de Andrade lidou com as diferenças culturais em suas viagens pelo Brasil. O texto foi publicado originalmente como um dos capítulos do livro De olho em Mário de Andrade: uma descoberta intelectual e sentimental do Brasil, uma biografia sociológica do modernista trezentos, trezentos e cinquenta.
Como temos acompanhado ao longo da viagem do turista aprendiz ao Nordeste, publicada semanalmente na BVPS, e como o próprio Botelho argumenta, mais do que o fetiche da autenticidade da cultura popular, Mário valoriza a pluralidade cultural e defende o reconhecimento da dignidade dos seus portadores sociais.
Uma das novidades do próximo ano será a publicação integral de O turista aprendiz: uma nova edição que trará a experiência dialogada que estamos construindo ao longo deste ano em torno do livro de Mário e de sua viagem ao Nordeste, relida no contexto contemporâneo. A percepção das diversidades sem descuidar das desigualdades sociais, constitui recurso potente para uma nova reaproximação ao mundo social, cultural e político complexo do que agora, e com a ajuda de Mário, podemos chamar Nordestes – no plural.
Para saber mais sobre a Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
Sentir e pensar o Brasil com Mário de Andrade
Por André Botelho (UFRJ)
Trezentos, trezentos e cinquenta. Foi movido por suas reminiscências de leitura ou sua consciência sensível ou poética que Mário de Andrade fez suas viagens pelo Brasil. Lembremos que, quando viajou para a Amazônia, em 1927, já havia pelo menos uma redação adiantada de seu Macunaíma — todo ele construído com a junção de materiais de toda sorte e escritos alheios diversos. Voltaremos adiante a essa viagem. Vamos observar agora que, tirando as viagens dos outros, a começar pela viagem do avô Leite Moraes e a dos amigos modernistas — como Tarsila do Amaral, que durante suas viagens se correspondia com nosso autor —, e as suas escapadas rápidas para o interior, notadamente Araraquara, onde tinha família e amigos, para estações de água e para a então Capital Federal, as viagens mais importantes de Mário de Andrade foram feitas às hoje cidades históricas de Minas Gerais, em duas ocasiões diferentes, 1919 e 1924, à Amazônia, em 1927, e ao Nordeste, em 1928.

Na sua primeira viagem a Minas, Mário descobre o barroco em Mariana. A segunda delas, realizada durante a Quaresma e a Semana Santa de 1924, passou para a crônica do modernismo como uma viagem de “descoberta do Brasil”. Com a caravana integrada por artistas modernistas paulistas e seus mecenas, como Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade e o filho Nonê, Paulo Prado, dona Olívia Guedes Penteado, René Thiollier e Gofredo da Silva Telles, e também pelo poeta franco-suíço Blaise Cendrars, Mário pôde percorrer a Minas Gerais da tradição, deliciando-se com as cidadezinhas, as histórias, a música, a imaginária religiosa. A descoberta fundamental, porém, foi que o primitivismo estético, então valorizado pelas vanguardas da Europa, no nosso caso encontrava-se não em lugares distantes e exóticos, mas em nossa sensibilidade. A viagem teve efeitos profundos na pintura de Tarsila do Amaral, na poesia de Oswald de Andrade e também na poesia de Mário, notadamente em Clã do jabuti. Como exemplo, vejamos “Toada do Pai-do-mato”, um dos poemas que formam “O ritmo sincopado” dedicado a Tarsila, e que mostram a recriação poética de Mário de uma lenda dos indígenas parecis na forma de uma toada, designação atribuída a uma cantiga de melodia simples e monótona:
A moça Camalalô
Foi no mato colher fruta
A manhã fresca de orvalho
Era quasi noturana.
— Ah…
Era quasi noturna…
Num galho de tarumã
Estava um homem cantando.
A moça sai do caminho
Pra escutar o canto
— Ah…
Ela escuta o canto…
Enganada pelo escuro
Camalalô fala pro homem:
Ariti, me dá uma fruta
Que eu estou com fome.
— Ah…
Estava com fome…
O homem rindo secundou:
— Zuimaalúti se engana,
Pensa que sou Ariti?
Eu sou Pai-do-Mato.
Era o Pai-do-Mato!

65 cm x 70 cm:
Coleção de Artes Visuais do Instituto de Estudos Brasileiros.
A viagem para a Amazônia, por sua vez, começou frustrante para Mário de Andrade, já que ele esperava uma reedição da caravana modernista de Minas Gerais. Somente a bordo, para sua surpresa, descobriu que viajaria sozinho com dona Olívia Guedes Penteado, dama da aristocracia cafeeira e mecenas dos modernistas paulistas, sua sobrinha e mais uma filha de Tarsila do Amaral. Além disso, para irritação de nosso autor, as situações protocolares e oficiais se repetiam de porto em porto do Brasil ao Peru, ou de estação em estação até a Bolívia, já que viajavam recomendados a todos os presidentes dos Estados (como então se chamavam os atuais governadores) por ninguém menos que o presidente da República, Washington Luiz, amigo de dona Olívia.
Tudo isso descontado, a viagem ao Norte permitiu o contato de Mário de Andrade com uma parte do Brasil então pouco conhecida no restante do país, e que havia tempos despertava sua imaginação. Foi então que começou a escrever a narrativa Balança, Trombeta e Battleship ou o descobrimento da alma, que permaneceu inédita até 1994. Somadas as muitas reminiscências de leitura, a viagem ganhou sentido intelectual no âmbito mais amplo de uma civilização tropical ou de “utopia amazônica”, como muito bem designa Telê Porto Ancona Lopez, e tomou forma em Macunaíma, O turista aprendiz e outros textos mais curtos relacionados ao tema.
Nessa utopia amazônica, certamente relacionada à visão de mundo mais ampla de Mário de Andrade e às transformações radicais pela qual sua própria sociedade paulista passava com o avanço do capitalismo industrial e a rápida substituição de padrões de temporalidade, sociabilidade, práticas e valores sociais, as antigas marcas negativas da civilização tropical sintetizada na Amazônia foram transfiguradas positivamente. É o caso do clima, como aparece nesta passagem: “Em Belém o calorão dilata os esqueletos e meu corpo ficou exatamente do tamanho da minha alma”; e também de forma mais emblemática o da preguiça, que ganha sentido contestatório diante da racionalização e da mecanização do tempo e das relações sociais e passa a ser vista como uma forma de ócio criativo.


Podemos acrescentar ainda o caso da malária. Mário de Andrade imaginava ver na prostração, depois dos acessos, certos estados fisiológicos e psíquicos capazes de acalmar a curiosidade associada ao progresso — princípio básico da civilização industrial — e produzir a indiferença valorizada como meio de contemplação. Certamente, essa reflexão inusitada sobre a doença, que Mário de Andrade chama de “filosofia da maleita”, está associada, mais uma vez, a sua visão crítica à emergente sociedade capitalista industrial de então, mas também à empatia transformadora dos símbolos do atraso tropical que acaba por restituir dignidade a seus portadores, como é visto diversas vezes nos relatos de O turista aprendiz, em contraposição, por exemplo, ao que se lê em relatos de viagens de médicos à mesma região nessa época.
Vejamos os diferentes relatos sobre a malária desses dois tipos de viajantes.
No relatório de uma viagem científica promovida pelo Instituto Oswaldo Cruz em 1910, e liderada pelo próprio Oswaldo Cruz, às localidades em que estava sendo construída a estrada de ferro Madeira-Mamoré, na Amazônia, Oswaldo Cruz observa que a malária ou impaludismo era o “mal da região” e atribuía a ele “toda a insalubridade” do lugar. Ele chama a atenção ainda para o fato de a doença estar incorporada no modo de vida da população, que sabe lidar com ela: “A região está de tal modo infectada, que sua população não tem noção de que seja o estado hígido e para ela a condição de ser enfermo constitui normalidade”. Do ponto de vista médico-científico, isso parece inaceitável, já que a moléstia seria evitável por meio de medidas profiláticas, cujo emprego compulsório, isto é, contra a vontade da população, o sanitarista chega a defender. Vejamos agora, um dos relatos de Mário de Andrade:
E desejei a maleita, mas a maleita assim, de acabar com as curiosidades do corpo e do espírito. Foi assim. Nem bem chegamos a bordo, Trombeta veio logo alvoroçada avisar que estava no bar um moço maravilhoso de lindo […] fomos ver o tal moço e era realmente de uma beleza extraordinária de rosto, meio parecido com Richard Barthelmess. Mas inteiramente devorado pela maleita, a pele dele, duma lisura absurda, era de um pardo terroso sem prazer. As meninas ficaram assanhadíssimas e, como deixavam todo mundo olhando e desejando elas, principiaram fazendo tudo para o rapaz ao menos virar o rosto e espiar. Pois ele não olhou. Todo o barulho que fazíamos nada o interessava sequer pra uma olhadela, não olhou. Pagou a bebida e saiu sem olhar […] Então desejei ser maleiteiro, assim, nada mais me interessar neste mundo em que tudo me interessa por demais…
Difícil imaginar contraste maior sobre as antigas marcas negativas da civilização tropical sintetizada na Amazônia. Não se pense, porém, que a empatia transformadora dos símbolos do atraso tropical que Mário de Andrade manifesta e que acaba por restituir dignidade a seus portadores sociais, como no caso dos acometidos pela malária, signifique que ele tenha romantizado os problemas locais ou sido insensível ao sofrimento das populações e às precárias condições sociais em que viviam. Entre os vários registros que fez dessa viagem, vale citar um trecho de uma carta de Mário de Andrade ao musicólogo e folclorista Renato Almeida, que marca bem o impacto dessa experiência sobre sua visão da sociedade brasileira e seus problemas sociais:
Enfim uma viagem sublime e bem humana. Há-de interessar mais você o que eu senti do que o que eu vi… Trago comigo mais problemas pra me aporrinhar, isso é que é. A gente na vida por um sequestro útil vai sempre abandonando certos problemas vitais pra depois e assim não se desperdiça muito. De repente vem bater mesmo na cara de você a percepção prática desses problemas e então a volta é cruel: o problema fica dependurado no nariz de você bimbalhando e adeus viola: você tem que pensar nele. E os problemas que eu trago a mais agora são todos tristes ou por outra todos se solucionam em realidades tristes que vi, patriotismos orgulhosos, ódios sem base em nenhuma realidade, ódios de ficção nacional no Peru, entusiasmos ridículos por um Brasil que não existe, divisões nacionais injustas, despeito e animosidade pelos estados que progridem, chatezas, bolivianos de silêncio, despatriados dentro duma pátria subdividida entre duas influências estrangeiras, Argentina pra sudoeste e Brasil pra leste e brasileiros do Norte vivendo um longing terrível pelo Brasil de que não fazem parte senão virtualmente e numa saudade pelo passado da borracha e ilusoriamente imaginando que esse passado como Dom Sebastião não morreu, as culturas mais idiotas e idealistas que se pode imaginar destruídas, todas à beira-rio, destruídas pelas terras caídas.
A empatia com as terras e as águas visitadas, mas, sobretudo, com sua população mais desfavorecida socioeconomicamente, também é encontrada nos relatos da viagem que Mário de Andrade fez ao Nordeste em 1928, e que intitulou de “viagem etnográfica”. Ao contrário da viagem feita no ano anterior, ao Norte, ele não reviu ou planejou a publicação em livro das notas da viagem etnográfica, embora elas tenham sido publicadas simultaneamente, conforme o seu deslocamento, no Diário Nacional, de São Paulo, numa coluna intitulada “O turista aprendiz”.
Nessa viagem, a empatia com o povo era fundamental; ela estava voltada, sobretudo, para a pesquisa e a colheita de registros artísticos populares, ou folclóricos, notadamente os musicais. Na viagem, Mário recolhe documentos musicais em abundância: são melodias de cheganças, coco, caboclinho, congos, bumba meu boi e muitos outros; e conhece o coqueiro Chico Antonio, que o impressiona a ponto de ser transformado em personagem do romance abandonado O café e de Vida do cantador (1944). Todo o material etnográfico recolhido durante a viagem daria forma a seu Na pancada do ganzá, que planejou, mas também não chegou a publicar. Vejamos um trecho que nos dá a visão ao mesmo tempo da empatia de Mário com a cultura popular e seus portadores sociais e seu método de trabalho no registro dessas manifestações:
Pra tirar o “Boi Tungão”, Chico Antonio geralmente se ajoelha. Parece que ele adivinhou o valor artístico e social sublimes dessa melodia que ele mesmo inventou e já está espalhada por toda essa zona de engenhos. Então se ajoelha pra cantá-la.
Está na minha frente e se dirige a mim:
Ai, seu dotô
Quando chegá em sua terra
Vá dizê que Chico Antonio
É danado pra embolá!
!Oh-li-li-li-ô!
Boi Tungão
Boi do Maiorá!…
(Maiorá é o diabo).
Estou divinizado por uma das composições mais formidáveis da minha vida. Chico Antonio apesar de orgulhoso:
Ai, Chico Antonio
Quando canta
Istremece
Esse lugá…
Não sabe que vale uma dúzia de Carusos. Vem da terra, canta por cantar, por uma cachaça, por coisa nenhuma e passa uma noite cantando sem parada. Já são 23 horas e desde as 19 canta. Os cocos se sucedem tirados pela voz firme dele. Às vezes o coro não consegue responder na hora o refrão curto. Chico Antonio pega o fio da embolada, passa pitos no pessoal e “vira o coco”. Com uma habilidade maravilhosa vai deformando a melodia em que está, quando a gente põe reparo é outra inteiramente, Chico Antonio virou o coco:
Quem quisé pegá u’a moça
Ponha laço no caminho;
Inda onte pequei uma
Cum zóio de passarinho,
Veja lá!…
“-Pá-pá-pá-pá
Meu rimá!…”
Empatia, aliás, é uma categoria-chave para compreender a perspectiva não apenas do viajante, mas também do intelectual e homem Mário de Andrade. Empatia forjada num complexo jogo de distanciamentos e aproximações, e não apenas deslocamentos; de estranhamentos e reconhecimentos, e não apenas de identificações. No momento, basta assinalar alguns sentidos que vão se esboçando pelas relações de empatia que ele manifesta, sobretudo, com os homens e as mulheres do povo e suas formas de sociabilidade, crenças e expressões artísticas populares que podem ajudar a problematizar certas leituras mais apressadas de suas relações intelectuais e sentimentais com o universo popular. Sim, empatia com o povo, já que os contatos que Mário se vê obrigado a manter com o mundo oficial e com as autoridades locais são, em geral, marcados por impaciência e irreverência subversivas, como sugere o modo irônico e mesmo cômico como são quase sempre relatados. Vejamos o que ele diz na chegada a Iquitos, no Peru:
Caceteações de recepção oficial, uma centena de apresentações. O presidente da província, todo de branquinho, um peruanito pequetito, chega, vai no salão, senta troca trinta e quatro palavras com dona Olívia, se levanta militarmente e parte. Então o secretário dele ou coisa que o valha, me avisa que ele espera em palácio, a retribuição da visita dentro de duas horas exatas! Como os reis em Londres ou na Itália, viva o protocolo! […] Homem! Sei que sentei na cama desanimado, me deu vontade de chorar, de chamar por mamãe… Em palácio, recepção alinhada, tudo de branco. Tive que fazer de novo o improviso que fizera pela primeira vez em Belém e repetira já várias vezes, sempre que encontrava discurso para dona Olívia pela frente.
Mas a empatia de Mário de Andrade durante suas viagens pelo “popular”, digamos assim, em primeiro lugar, não se dilui num fetiche de sua suposta “autenticidade” e de suas expressões artísticas. Como sugere, entre outros, o episódio que deixou anotado na entrada de 1º de agosto, sobre a necessidade de aperfeiçoar os objetos indígenas vendidos no mercado de Belém, já que “falsificando que a gente consegue tornar estas coisas de mais valor”; ou, na viagem ao Nordeste, as inúmeras aproximações ao universo cultural popular, especialmente o musical, para não falar da deliciosa descrição que faz do “fechamento de corpo” a que se submeteu numa macumba em Natal, na entrada datada de 28 de dezembro, na qual anota a mistura cômica mas poética de sinceridade e charlatanismo da cerimônia religiosa. Como bem marca o desfecho do relato do episódio: “Foram bonitezas e ridículos, cantos e rezas e quase duas horas imperceptíveis de sensações e divertimentos pra mim. Preço: 30 mil-réis”.

Em segundo lugar, o respeito que Mário de Andrade manifesta pelas diferenças culturais, pelas crenças e pelos costumes populares, e até mesmo a valorização de alguns deles em detrimento dos “paulistas” (da região Sudeste), também não o leva a ignorar em seus relatos a desigualdade social e a situação material de extrema penúria que presencia. Como sugere a entrada do dia 15 de junho, em que relata sua conversa com o senhor idoso e enfermo de Remate de Males, que viajava na terceira classe do navio (“só quem sabe mesmo alguma coisa é gente ignorante de terceira classe”); ou ainda numerosas passagens da viagem ao Nordeste, como a relativa à vida nos mocambos no Recife, no relato de 12 de dezembro, ou à situação de penúria material dos sertanejos, nos relatos de 21 e 22 de janeiro. Isso para não falar de vários diálogos escritos por Mário de Andrade, em que ele não se limita a transcrever entre aspas as falas das pessoas da região para diferenciá-las e hierarquizá-las em relação à sua própria fala; e também de alguns diálogos em que o autor emprega esse modo de falar de acordo com o ponto de vista preconceituoso de seu grupo social em relação às culturas locais, provavelmente o mesmo do seu leitor ideal, para expor-se ao ridículo diante da perspicácia com que seu interlocutor nativo consegue defender-se e expor a fragilidade dos argumentos de seu antagonista. Isso é sugerido exemplarmente no diálogo com o indígena em Nanay, recriado na entrada de 24 de junho de O turista aprendiz. Vale a pena citar um trecho desse longo diálogo:
— … O senhor ontem falou pra aquele moço que quase não tem boca, que era pena ver a gente, preferia ver Inca…
— […] Falei sim. Os Incas são um povo grande, de muito valor. Vocês são uma raça decaída.
Ele molhou os olhos nos meus sério:
— O que é “decaída”?
— É isso que vocês são. Os Incas possuíam palácios grandes. Possuíam anéis de ouro, tinham cidades, imperadores vestidos com roupas de plumas, pintando deuses e bichos de cor. Trabalhavam, sabiam fitar, faziam potes muito finos, muito mais bonitos que os de vocês. Tinham leis…
— O que que é “leis”?
— São ordens que os chefes mandam que a gente cumpra, e a gente é obrigado a cumprir senão toma castigo. A gente é obrigado a cumprir essas ordens porque elas fazem bem pra todos.
— Será?
— Será o quê?
— Será que elas fazem mesmo bem pra todos…
Os olhos dele estavam insuportáveis de malícia.
— Fazem sim. Se você tem casa e tem mulher, então é direito que um outro venha e tome tudo? Então o imperador baixa uma ordem que o individuo que rouba a casa e a mulher do outro, tem de ser morto: isso é que é uma lei.
— O senhor vai botar tudo isso na cantiga, é?
— De-certo.
— A gente possui lei também.
— Mas são decaídos, não fazem nada. Onde se viu passar o dia dormindo daquela forma. Por que vocês não fazem tecidos, vasos bonitos… Uma casa direita, de pedra, e não aquela maloca suja, duma escureza horrorosa…
O huitôta se agitou um bocado. Agarrou remando com muita regularidade, olhos baixos pra esconder a ironia luninosa que morava nos olhos dele. E se pôs falando com a monotonia das remadas, depois de acalmar a expressão e poder me olhar sério de novo:
— Moço, pode botar tudo isso na cantiga, que está certo pro senhor… Se o senhor me entendesse na minha fala eu contava melhor… Vossa fala, sei pouco. O senhor fala que a gente é decaída porque não possui mais palácio, está certo, porém os filhos do Inca também não possuem mais palácios não, só malocas.
Os aspectos assinalados acima das relações de empatia com o povo e o popular nas viagens ao Norte e ao Nordeste são duradouros na obra e na trajetória de Mário de Andrade, e permanentes em sua interpretação do Brasil. As viagens de Mário pelo Brasil, que são também formas de meditação sobre a sociedade, consolidam sua comunhão com a arte do povo, e seu empenho em promover o reconhecimento de sua dignidade e de seus portadores sociais. E isso até o ponto de comprometer o sentido do seu próprio ofício, como quando diante da miséria da seca sertaneja nordestina, assume:
Tenho feito e continuarei fazendo muita literatura. Aqui não. Repugna minha sinceridade de homem fazer literatura diante desta monstruosidade de grandezas que é a seca sertaneja do Nordeste. Que miséria e quanta gente sofrendo… É melhor parar. Meu coração está penando por demais…

