Resenha | Maria Werneck: relato de prisão, por Eurídice Figueiredo

Sala 4: a primeira prisão política feminina do Brasil, livro de Maria Werneck, reeditado pela casa matinas depois de quase 40 anos de sua primeira publicação, é resenhado hoje por Eurídice Figueiredo (UFF).

O livro reconstrói, a partir das memórias de Maria Moraes Werneck de Castro, o cotidiano do grupo de mulheres encarceradas na antiga Casa de Detenção do Rio de Janeiro durante o governo Vargas. Na pequena cela coletiva feminina, a chamada “sala 4”, conviviam figuras que se tornariam algumas das maiores referências na luta contra o autoritarismo no Brasil, como Olga Benário, Nise da Silveira, Eugênia Moreyra, Noêmia Mourão, Eneida de Moraes, Sabo Berger, entre tantas outras. Ao aproximar os relatos de Maria Werneck dos testemunhos das militantes presas durante outra ditadura, a de 1964, Eurídice Figueiredo ressalta a natureza sempre em disputa da memória, enxergando, no ato de rememoração e escrita dessas mulheres, uma forma própria de resistência.

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Maria Werneck: relato de prisão

Por Eurídice Figueiredo (UFF)

Publicado originalmente em 1988 pelo Centro de Estudos e Solidariedade Amílcar Cabral (CESAC), Sala 4: a primeira prisão política feminina no Brasil, de Maria Werneck (1909-1994), acaba de ser reeditado pela casa matinas, que funciona no regime print on demand (POD), ou seja, é preciso acessar o catálogo no site para comprar o livro, que só então será impresso e enviado ao interessado. A introdução é de Elvia Bezerra, que indicou o livro para publicação, fez a preparação e escreveu as notas. Elvia estava presente quando Maria Werneck entregou um exemplar para a Dra. Nise da Silveira, uma de suas companheiras de cela. O livro foi lançado em novembro de 2025, no marco dos 90 anos da Intentona Comunista (1935).

Maria Werneck, uma das fundadoras da União Feminina do Brasil (UFB), participante da Liga Antifascista (criada em 1934) e do Movimento Unitário dos Trabalhadores (MUTI), foi presa em 19 de dezembro de 1935. Em 3 de janeiro de 1936, o jornal O Globo publicou matéria que mencionava sua demissão do cargo de procuradora da Caixa Econômica Federal (CEF). Libertada em 1937, foi julgada e absolvida, sendo, posteriormente, reintegrada à CEF. Filiou-se ao Partido Comunista do Brasil (PCB) em 1945. Em 1937, às vésperas da decretação do Estado Novo, ela e o marido fugiram para a Argentina porque sabiam que uma ordem de prisão contra eles já estava assinada.

Ela ficou presa na Casa de Detenção, que, ao lado de outras dependências, posteriormente seria chamado de Complexo Penitenciário da Frei Caneca, demolido em 2010, dando lugar ao projeto habitacional do governo Minha Casa Minha Vida; numa parte preservada, foi instalado o Museu Penitenciário do Rio de Janeiro. A autora relembra que o ambiente do prédio era escuro, muito sujo e degradante; ao mostrar as celas para os presos, os delegados as chamavam de “apartamentos” com ar de deboche.

É necessário entender o contexto histórico em que se situa a prisão de Maria Werneck. De maneira muito sucinta, a chamada Era Vargas tem três fases: o Governo Provisório (1930-1934), o Governo Constitucional (1934-1937) e o Estado Novo (1937-1945). Getúlio assume o poder no bojo da Revolução de 1930, na verdade um golpe militar que depôs o presidente Washington Luís e impediu a posse de Júlio Prestes, sob a alegação de que houvera fraude. Esse golpe se justificou porque até 1930 predominava a Política do Café com Leite, na qual São Paulo e Minas Gerais se alternavam no poder. No entanto, os paulistas impuseram o nome de Júlio Prestes, o que detonou a revolta.

Getúlio, desde o início, procurou centralizar o poder e enfraquecer as oligarquias estaduais. A eliminação dos órgãos legislativos, a nível federal, estadual e municipal, a imposição de interventores e a falta de eleições provocaram o descontentamento dos estados, em especial de São Paulo, que pegou em armas contra Getúlio na chamada Revolução Constitucionalista de 1932. Apesar da derrota dos paulistas, Vargas convocou eleições para estabelecer uma Constituinte.

Em 1934 foi promulgada a Constituição, porém Vargas não se atinha às disposições constitucionais, aproveitando-se dos conflitos gerados por comunistas e integralistas para exercer um governo autoritário. Já em 1937 ele deu um golpe, com nova Constituição que suprimia as liberdades civis, promovia enorme repressão e censura à imprensa exercida pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). O pretexto para o fechamento do Congresso, o cancelamento das eleições e a anulação da Constituição foi o chamado Plano Cohen, uma falsa ameaça comunista, escrita pelo então capitão Olímpio Mourão Filho (1900-1972), o mesmo personagem, já general, que desceu com suas tropas de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro em 31 de março de 1964 para dar o golpe. A nova Constituição de 1937 extinguiu os partidos políticos e acabou com a independência dos três poderes.

O encarceramento de muitas pessoas, mais ou menos identificadas pelo regime como sendo antifascistas ou comunistas, se deu depois do levante militar, liderado pela Aliança Nacional Libertadora (ANL) e que ficou conhecido como a Intentona Comunista, em 1935. O movimento, que se deu no Rio Grande do Norte, em Pernambuco e no Rio de Janeiro, foi rapidamente reprimido. Ele teve consequências bem negativas: naquele momento, serviu de justificativa para a instauração do Estado Novo em 1937 e, nos anos subsequentes, provocou o expurgo de oficiais progressistas, reforçou o anticomunismo no seio das Forças Armadas e instalou uma ideologia de direita, que culminou no golpe de 1964. Em 1938, houve uma tentativa de golpe da Ação Integralista Brasileira, liderada por Plínio Salgado (1895-1975), reprimida rapidamente. Nos primeiros anos da Segunda Guerra (1939-1945), o governo Vargas, por seu caráter fascista, tendia a apoiar as Forças do Eixo (Alemanha, Itália, Japão), mas, por pressão dos Estados Unidos, o Brasil declarou guerra à Alemanha e se juntou às Forças Aliadas.

É nesse período conflituoso que se dá a prisão de Maria Werneck e Graciliano Ramos. A notar que ambos eram antifascistas, porém nenhum dos dois era membro do PCB quando foram detidos. Graciliano Ramos, encarcerado no Pavilhão dos Primários, vizinho da sala 4, fala em diversos momentos das mulheres no seu livro Memórias do cárcere, publicado em 1953. Ele as via no banho de sol, jogando uma bola de borracha para desenferrujar os braços. Na volta, paravam e conversavam com os homens.

Sinais de relance percebidos serviram-me para distinguir várias delas: os lábios sangrentos de Valentina, a cabeça grisalha de Elisa Berger, os olhos verdes de Eneida. Olga Prestes era branca e serena. Rosa Meireles, forte e enérgica, tinha voz rija, decidida. No rosto ardente de Maria Werneck, no corpo magro, adivinhava-se de longe intensa vibração. A figura de Nise entrava-me fundo no espírito (Ramos, 2025: 242).

Outras mulheres se referiram à prisão, mas o único livro que trata com detalhes da sala 4 é o de Maria Werneck. Segundo Elvia Bezerra, são elas: Beatriz Bandeira Ryff, que pediu asilo político à Iugoslávia em 1964, lançou o livro A resistência: anotações do exílio em Belgrado e Eneida Costa de Moraes, que publicou um livro de crônicas, Aruanda. Eneida descreve o grupo de presas na sala 4 da Casa de Detenção: “Vinte e cinco mulheres, vinte e cinco camas, vinte e cinco milhões de problemas. Havia louras, negras, mulatas, morenas, de cabelos escuros e claros, de roupas caras e trajes modestos” (Moraes apud Vianna, 2002: 30).

A criação do Partido Comunista em 1922 exerceu uma influência nos rumos do movimento operário, assim como entre os intelectuais. A militância das mulheres sofreu esse influxo, ainda que nem todas comungassem do credo marxista. Como afirma Lúcia Helena Vianna, essa década

marca um avanço significativo das mulheres no espaço público, filiadas a partidos, organizadas em frentes e associações, intervindo diretamente na ação política e construindo um feminismo distinto daquele que se havia manifestado no século anterior, geralmente através de posições e personalidades individuais (Vianna, 2002: 28).

Uma figura de destaque no posicionamento político na década de 1930, que também escreveu sobre sua militância e suas prisões, foi Patrícia Galvão, a Pagu. Filiada ao PCB, foi presa pela primeira vez em 1931, pela participação numa greve operária em Santos; ela foi novamente presa em 1935, após voltar de uma viagem pela Europa e China, ficando detida durante cinco anos na Casa de Detenção de São Paulo, mais conhecida como Carandiru, prisão que foi parcialmente demolida em 2002.

Paixão Pagu, a carta-autobiografia da autora é, ao contrário da autobiografia clássica, precoce e íntima, já que foi escrita em 1940, aos 30 anos de idade, como “relatório” (como ela o chama); é íntima porque tem o caráter de uma carta, dirigida a seu marido, Geraldo Ferraz, não destinada à publicação. Essa autobiografia só saiu em 2005, numa decisão de seus filhos, Rudá e Geraldo Ferraz Filho.

Dois fragmentos têm a data em que foram escritos, à maneira de um diário: 1o de novembro de 1940 e 12 de novembro de 1940. Um pequeno fragmento teria sido escrito anteriormente, na Casa de Detenção, portanto, antes de Pagu começar a escrever o “relatório” propriamente dito. Por vezes, afirma que não é uma autobiografia, não é tampouco um relato de viagem, apesar de contar algumas de suas viagens; ela interrompe a narrativa, deixando muitos pontos em suspenso. É, antes, um texto confessional de alguém que quer revelar a seu companheiro os principais acontecimentos de sua vida. No momento em que escrevia, estava grávida.

Se Graciliano levou 11 anos para escrever sobre o período em que ficou preso, Maria Werneck demorou 50 anos, tendo publicado o livro com quase 80 anos de idade. A autobiografia de Pagu só veio à luz 65 anos depois de escrita. Maria Werneck afirma que foi estimulada tanto por Memórias do cárcere quanto pelo livro Olga, de Fernando Morais, de 1985. Como afirmei no meu livro Mulheres contra a ditadura: escrever é (também) uma forma de resistência (2024), as antigas militantes das organizações de esquerda das décadas de 1960-1970 demoraram muito tempo para escrever. O primeiro livro que saiu foi Eu, Zuzu Angel, procuro meu filho, organizado por sua irmã, Virgínia Valli, publicado em 1986, após a morte da estilista. Em seguida, vem o de Maria Prestes, Meu companheiro: 40 anos ao lado de Luiz Carlos Prestes, de 1992, que é uma biografia do líder comunista e secundariamente uma autobiografia. Todos os outros livros de relatos testemunhais foram publicados depois do ano 2000. Como o livro de Maria Werneck, que teve tiragem pequena e rapidamente estava indisponível, grande parte do material que analisei, lançado por pequenas editoras, teve pouca repercussão e só é encontrado atualmente em sebos, o que comprova que, mesmo quando publicam, as mulheres são pouco lidas. Como observa Michelle Perrot (2019: 151), a política é uma área quase inacessível às mulheres porque é “o centro da decisão e do poder”.

Na sala 4 havia cerca de 16 companheiras (era variável porque umas saíam, outras entravam). Dentre as mulheres presas devemos lembrar o caso da Dra. Nise da Silveira, médica psiquiatra alagoana (como Graciliano Ramos), que ficou presa durante um ano e quatro meses, tendo sido libertada em junho de 1937; em 1944 foi readmitida no serviço público e lotada no Centro Psiquiátrico Nacional, onde criaria o Museu de Imagens do Inconsciente. Em Memórias do cárcere, Graciliano Ramos escreve sobre o encontro que teve com ela:

Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa, Rachel de Queiroz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia aparecido criatura mais simpática. O marido, também médico, era o meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me, num vivo constrangimento (Ramos, 2025: 230).

Graciliano Ramos fica constrangido pela situação, sente-se ridículo, de pijama, sem sapatos, imagina ter causado péssima impressão. E continua dizendo: “Nise, acanhada, tinha um sorriso doce, fitava-me os bugalhos enormes, e isto me agravava a perturbação, magnetizava-me” (Ramos, 2025: 231).

A história mais sórdida se dá com Olga Benário, esposa de Luís Carlos Prestes, uma judia alemã que fora enviada pela Internacional para ser segurança do líder comunista e acabou se casando com ele. A polícia política comandada pelo então capitão Filinto Müller[1] (1900-1973) deportou Olga para a Alemanha, quando ela estava grávida de sete meses. Maria Werneck conta que todos os presos estavam temerosos quando vieram buscar Olga, por causa dos riscos que ela corria. Para acalmá-los, os guardas inventaram uma mentira, de que estavam levando-a ao hospital, para que recebesse o devido acompanhamento médico. Convidaram Maria Werneck para acompanhá-la, porém, ao se aproximarem do hospital Gaffrée e Guinle, o carro parou e Olga foi conduzida para um camburão, não para o hospital; dali ela seria encaminhada para a deportação; Maria foi levada de volta à prisão. Outra judia alemã, Elise Ewert, tremendamente torturada, foi também deportada para a Alemanha nazista. Ambas morreram no campo de concentração. O marido de Elise (Sabo), Arthur Ewert (Harry Berger), enlouqueceu devido ao excesso de torturas. O dr. Sobral Pinto invocou a Lei de Proteção dos Animais em favor de seus clientes devido ao tratamento desumano a que eram submetidos.

Quando o livro de Graciliano foi publicado, em 1953, Eneida de Moraes o resenhou no Diário de Notícias, recomendando sua leitura, porém fazendo algumas ressalvas:

Se algum dia eu escrevesse lembranças daquela prisão, também seriam diferentes meus personagens. Falaria, por exemplo, de Rosa Meireles, cujas olheiras aumentavam dia a dia pela saudade dos filhos de quem lhe negavam qualquer notícia; em Júlia, que, apenas por ser empregada do casal Prestes, teve seus óculos grossos propositalmente arrancados e quebrados para que ela ficasse, propositalmente, na mais completa escuridão. Falaria com ternura enorme em Sabo Berger, a maior mulher que jamais conheci em toda minha vida e que G. Vargas entregou a Hitler, para matar. Sabo Berger, e em seus seios dez dedos impressos: amarrada no alto de uma escada, de tronco para baixo, dois fortes homens da Polícia Especial, durante dois meses, espremiam-lhe os seios para que ela delatasse. […] Falaria em muitos outros e naturalmente na minha queridíssima Nise da Silveira, também personagem de Graciliano (Moraes apud Zilberman, 2019: 58).

Se compararmos tanto a organização das estruturas do Estado (fechamento do Congresso, supressão de eleições livres, censura, centralização do poder) quanto o nível da repressão do governo Vargas com a ditadura militar, não há muita diferença: arbitrariedades, prisão de pessoas não envolvidas com a militância, torturas, mortes, desaparecimentos. Tanto numa ditadura quanto na outra, havia uma Lei de Segurança Nacional que visava reprimir os “comunistas”. Em 1935, o Tribunal de Segurança Nacional estava instalado na escola Alberto Barth, na rua Oswaldo Cruz, em Botafogo.

Maria Werneck (2025: 28) menciona um caso: “Julgado seu processo no Tribunal de Segurança Nacional, foi Silveira Martins Ramos absolvido por unanimidade, depois de dois anos de tortura e de prisão. Que ocorreu aos seus algozes? Contra eles não foi instaurado nem um simples processo…” Da mesma maneira, os torturadores e os assassinos da ditadura militar não foram punidos. Maria Werneck afirma que os “suicídios” acontecem desde os tempos das revoltas tenentistas e cita os casos de Conrado Niemeyer, do estadunidense Barron em 1936 e de Vladimir Herzog em 1975. A história quase se repete em 2022, quando houve nova tentativa de golpe, comandado pelo presidente derrotado na eleição, Jair Bolsonaro.

Maria Werneck conta que participou da cerimônia de tombamento do prédio do DOPS, situado na rua da Relação, esquina com a rua dos Inválidos, no governo de Leonel Brizola, que queria transformar o local em Centro da Democracia. No entanto, o tombamento definitivo do prédio só foi feito agora. O Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN) anunciou, em 26 de novembro de 2025, o tombamento do prédio que abrigou o DOPS de 1962 a 1975, onde se praticou tortura contra presos políticos. O Ministério Público Federal e o Movimento Tortura Nunca Mais querem que aí seja instalado um centro de memória e de direitos humanos.

Maria Werneck foi pioneira com seu Sala 4 ao narrar o cotidiano das prisioneiras nessa primeira prisão política feminina; outras ex-militantes da ditadura militar também trataram das prisões em que estiveram detidas. Dentre todos os locais de detenção de mulheres, é o Presídio Tiradentes, em São Paulo, que suscitou mais textos, além de um documentário, Torre das donzelas, dirigido por Susanna Lira, lançado em 2019.

 A torre das guerreiras e outras memórias (2021), de Ana Maria Ramos Estevão, é um relato testemunhal da autora, que coloca no título uma correção ao nome que era dado à ala feminina do presídio, “torre das donzelas”, apelido dado pelos presos para brincar com as companheiras que ali estavam. A autora contesta essa visão um tanto machista, considerando que elas eram guerreiras. “Cada uma que lá esteve pagou caro por sua luta. Fomos torturadas, muitas morreram. Algumas ficaram presas durante anos, outras foram exiladas, separadas de seus pais, de seus amores, de seus filhos” (Estevão, 2021: 27). O título aparece rasurado na capa, com a palavra “donzelas” riscada, substituída por “guerreiras”, ainda que o mesmo não aconteça na folha de rosto, nem na ficha catalográfica.

Ana Maria Estevão afirma que o “registro da memória ainda é um terreno em disputa, não delimitado, que deve ser escrito, e não é à toa que ainda há segmentos do Estado que se opõem à abertura dos documentos da ditadura civil-militar brasileira”. Por essa razão, sente-se no dever moral de relatar suas lembranças, concebendo sua memória como “uma pequenina cápsula do tempo ressoando” (Estevão, 2021: 25). Apesar dessa injunção de seu espírito de cidadania para que escrevesse, ela demorou muitos anos para conseguir levar a cabo seu projeto porque a dor que emergia a emudecia de escrita. “Como escrever sobre essa vivência tão dilaceradora?” (Estevão, 2021: 26). O que ela afirma pode-se aplicar tanto a Maria Werneck quanto às outras tantas que narraram suas experiências de militância, prisão, tortura e exílio.


Nota

[1] Segundo Maria Werneck, Filinto Müller participara da Coluna Prestes e fugira em situação pouco honrosa.

Referências

ESTEVÃO, Ana Maria Ramos. (2021). Torre das guerreiras e outras memórias. Prefácio de Dilma Rousseff. São Paulo: Editora 106; Fundação Rosa Luxemburgo.

FERRAZ, Geraldo Galvão (Org.). (2005). Paixão Pagu: a autobiografia precoce de Patrícia Galvão. Rio de Janeiro: Agir.

FIGUEIREDO, Eurídice. (2024). Mulheres contra a ditadura: escrever é (também) uma forma de resistência. Porto Alegre: Zouk.

FREIRE, Alípio & ALMADA, Izaías & PONCE, J. A. de Granville (org.). (1997). Tiradentes, um presídio da ditadura: memórias de presos políticos. Ilustrações de Sérgio Ferro. São Paulo: Scipione.

PERROT, Michelle. (2019). Minha história das mulheres. Tradução de Ângela M. S. Corrêa. São Paulo: Contexto.

RAMOS, Graciliano. (2025). Memórias do cárcere. Estabelecimento de texto de Ieda Lebensztayn. Posfácio de Rodrigo Jorge Neves. São Paulo: Penguin-Companhia.

VIANNA, Lúcia Helena. (2022). Mulheres revolucionárias de 30. Gênero, Niterói, v. 2, n. 2, p. 27-34. Disponível em: http:///periodicos.uff.br/revistagenero/article/vieuw/31161. Acesso em: 27 out. 2022.

WERNECK, Maria. (2025). Sala 4; a primeira prisão política feminina no Brasil. São Paulo: casa matinas.

ZILBERMAN, Regina. (2019). “Companheiras” – as mulheres nas prisões do Estado Novo: diálogo entre Graciliano Ramos e Eneida. Brasil/Brazil, [s. l.], v. 32, n. 59. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/brasilbrazil/article/view/95008/53508. Acesso em: 22 fev. 2023.