
Trazemos hoje um texto muito especial: o manuscrito de Florestan Fernandes “Perspectivas do desenvolvimento da Sociologia no Brasil”, escrito provavelmente na segunda metade da década de 1950. Nele, Florestan antecipa temas centrais de suas análises sobre a formação e o desenvolvimento da sociologia no país. Criticando a cultura “livresca” das elites e o caráter importado da disciplina, defende a integração da Sociologia à vida cultural brasileira.
O manuscrito foi encontrado no Fundo Florestan Fernandes da Coordenadoria de Obras Raras e Coleções Especiais da Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos. Introduz o texto um comentário de Diogo Valença de Azevedo Costa (UFRB), que transcreveu o manuscrito e preparou algumas notas. Esta é a primeira publicação de uma série sobre o arquivo Florestan Fernandes, sob sua curadoria, que irá ao ar em 2026.
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Apresentação
Por Diogo Valença de Azevedo Costa (UFRB)
O manuscrito “Perspectivas do desenvolvimento da sociologia no Brasil” foi encontrado no Fundo Florestan Fernandes da Coordenadoria de Obras Raras e Coleções Especiais da Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos (FFF/ColEsp/BCo/UFSCar) e pode ser consultado sob o número de localização 02.13.6950. Florestan Fernandes redigiu essas notas, muito provavelmente, na segunda metade da década de 1950, servindo-lhe de roteiro de exposição para uma aula ou palestra. O manuscrito não se encontra datado, nem há qualquer informação relativa à circunstância em que foi escrito. Em sua temática, forma e conteúdo, o manuscrito apresenta fortes semelhanças com as análises histórico-sociológicas de Florestan Fernandes sobre o desenvolvimento da sociologia no Brasil, publicadas originalmente como artigos: “Ciência e Sociedade na Evolução do Brasil” (1956), “Desenvolvimento Histórico-Social da Sociologia no Brasil” (1956) e “O Padrão de Trabalho Científico dos Sociólogos Brasileiros” (1958). Esses trabalhos foram reunidos em A etnologia e a sociologia no Brasil (Fernandes, 1958) e, depois, em A sociologia no Brasil (Fernandes, 1976). Neles, Florestan Fernandes utiliza, sob o prisma mannheimiano e da sociologia do saber de Max Scheler, a ideia de que a ciência só floresce em sociedades nas quais a cultura se democratiza com a quebra do monopólio da produção do conhecimento por uma casta intelectual. O processo de diferenciação e integração da ordem social capitalista emergente está na base das transformações histórico-estruturais que passam a exigir novos padrões institucionais de ensino, pesquisa e aplicação dos conhecimentos sociológicos na resolução dos problemas sociais da sociedade moderna.
No manuscrito, há menções críticas à cultura “livresca” das “elites” intelectuais e à transplantação da sociologia como um “produto importado”, quando praticada como imitação das correntes de pensamento europeias. Isso não significa que, para Florestan Fernandes, as ideias sociológicas estivessem aqui “fora do lugar”, mas denota seu esforço para integrar a sociologia à vida cultural brasileira. Ao mesmo tempo, aponta a obra Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, como um marco decisivo da virada da sociologia no Brasil. O presente manuscrito relativiza, assim, algumas críticas que lhe foram dirigidas, a exemplo de Wanderley Guilherme dos Santos (2017: 130): a de que restringe a história das ciências sociais no Brasil a uma visão institucionalista e a de que desconsidera a produção ensaísta como “pré-científica”.
A transcrição do manuscrito procurou ser a mais fidedigna possível. Os colchetes duplos “[[…]]” sinalizam acréscimos de informação que não constam do texto original ou explicações sobre passagens do manuscrito riscadas ou acrescentadas entre suas linhas. Cada página do manuscrito foi indicada na transcrição, respeitando a divisão silábica de Florestan Fernandes quando a palavra se inicia numa folha e termina logo na seguinte.
Perspectivas de Desenvolvimento da Sociologia no Brasil
Florestan Fernandes (s/d)








Transcrição
*Não serão examinadas as origens da sociologia no Brasil; nem as tendências de desenvolvimento intelectual da disciplina. Veja-se principalmente: Bastide, A Sociologia no Brasil [[passagem riscada e substituída por Sociology in Latin America]] (cf a bibliografia indicada); e F. Azevedo (idem); [[acréscimo de texto entre as linhas do manuscrito: “cobrindo analit.: Almir de Andrade, Formação da sociol. brasil., I, XVI-XVIII”]]; Pierson, Survey of the Literature on Brazil of Sociological Significance Published up to 1940; A. Guerreiro Ramos e E. da Silva Garcia, Notícias sobre as Pesquisas e os Estudos Sociológicos no Brasil (1940-1949); Pierson e Wagner, Pesquisa e Possibilidades de Pesquisa no Brasil, Sociologia, vol. IX, 3 e 4 (1947) e vol. X, no 1 (1948) (cf separata)1.
*O termo sociologia passa a ser empregado por autores brasileiros do século passado, pouco tempo depois de sua criação. O Brasil voltava-se para as criações europeias com avidez; lia-se muito. Autores como Comte, Spencer e Le Play tornaram-se logo conhecidos aqui. (p. 1)
Todavia: cumpre-nos indagar – as condições sociais ambientes estimularam realmente semelhantes desenvolvimentos intelectuais? Ou eles correspondiam, meramente, a preferências por assim dizer “livrescas” de uma “élite” intelectual? Diante dessas perguntas: 1) as situações sociais de vida não favoreciam a formação2 de uma técnica racional de consciência dos problemas sociais = aparecimento da sociologia como uma necessidade interna: mudança social →3 atitude crítica diante dos valores e instituições + disposição de modificá-las em sentido racional. Dominação patriarcal e tradicionalismo (em particular a influência da Igreja) restringiam às camadas mais refinadas das “elites” intelectuais semelhantes preocupações (exemplificar com Nabuco; assim mesmo: se “iludia”). 2) A utilização da sociologia: foi antes literária; fazia parte das “ideias importadas” e diante dela firmaram-se atitudes de aceitação ou de rejeição comparáveis às que se polarizavam em torno das teorias literá-(p. 2)-rias e das doutrinas filosóficas. 3) Em consequência: a sociologia surge no Brasil como um “produto importado”, sob certos aspectos de forma precoce. Os problemas agitados pelos sociólogos europeus (principalmente aqueles que se ligavam à formação das sociedades capitalistas e à dinâmica das classes sociais) não encontravam correspondência substancial na “realidade brasileira” e os intelectuais brasileiros que deram curso à palavra (e às preocupações nela contidas) não tinham formação intelectual que os capacitasse para manipular a sociologia como método, aplicando-a diretamente à interpretação dos problemas sociais brasileiros e adequando-a ao nosso sistema sociocultural. Em síntese: como processo de difusão → aspectos e condições exteriores; não envolve (p. 3) de fato processos de reintegração cultural. 4) Mas: isso não nos deve levar à afirmação oposta: que não teve nenhum sentido. O exame das ligações entre o positivismo, p. ex., e os ideais de desenvolvimento econômico político do Brasil no sentido liberal e capitalista, mostra que essas ideias eram coerentes com a ideologia burguesa em formação. Daí: a sociologia, como e enquanto forma de preocupação intelectual (e não como e enquanto tipo de saber científico) encontrou uma base de anseios e aspirações concretas aos quais correspondeu efetivamente. Contudo, os estímulos nascidos dessa conexão não foram suficientemente fortes a ponto de quebrar as influências que se opunham à constituição da sociologia como uma necessidade interna (precisava, aliás, ser muito forte, para inclusive criar os canais ou meios de formação intelectual necessários, que não existiam). (p. 4)
*à margem da sociologia, propriamente dita: surgem e se enriquecem disciplinas ou um tipo de reflexão no qual as condições de existência social e os problemas do presente se viam abordados diretamente, de uma forma coerente com a perspectiva criada pela ordem social vigente. Nesses desenvolvimentos, que não formam na verdade um back-ground para o desenvolvimento da sociologia (pois não representam as suas origens4), destacam-se: o ensaio (principalmente o jurídico e o literário), a história e o folclore; mas é o romance, por excelência, o instrumento de descrição da vida social contemporânea (Macedo, Alencar, Machado, Aluizio, Pompeia, etc.). Como bem salientou (p. 5) Pierson: os trabalhos nascidos de inspiração dessa ordem = materiais que o sociólogo sempre deve tomar em consideração, porque possuem uma significação para o estudo sociológico da sociedade brasileira.
*À medida que a “Nossa Revolução” (cf. Sergio Buarque, Raízes; trata-se da Abolição) atinge os seus fins: surgem condições mais favoráveis ao desenvolvimento da sociologia. Alguns sociólogos afirmam que a sociologia foi o correlato espiritual da Revolução burguesa. Sob certos aspectos, isso é verdade com referência ao Brasil. O processo é lento: início nos fins do século [[XIX]] e primeiros efeitos mais característicos e decisivos na revolução de 30. Nesse (p. 6) período, a preocupação de conhecer a realidade social para agir politicamente com acerto começa a tomar corpo = reflexos da mentalidade capitalista no plano do conhecimento (exp.: os problemas de assimilação dos nórdicos no Brasil Meridional, em Romero – O Brasil Social; longe das preocupações de Falcão5 ou de Nina Rodrigues, inspirados teoricamente no positivismo). As situações de mudança faziam-se acompanhar de anseios de intervenção racional na crítica do funcionamento das instituições e, de forma mais geral, no exame das condições de existência social [exp. típico: educação – os pioneiros e Fernando de Azevedo].
*Como não voltaremos a abordar temas dessa ordem: convém esclarecer o nosso pensamento sobre a (p. 7) questão das origens da sociologia. Eliminada a interpretação por um desenvolvimento intelectual gradativo (adotada por Almir de Andrade), restaria indicar qual seria o ponto característico do início do processo. Achamos que a obra de Euclides, Os Sertões6, fornecem esse ponto de referência (desde que se examine o desenvolvimento da sociologia como um processo histórico-social e não apenas do prisma da história das ideias). Caracterizar a significação de Os Sertões, nesse sentido (paradoxalmente: um ensaio que não pretendia ser, por sua natureza, sociológico; como aconteceu, aliás, com a obra de alguns autores considerados como “construtores” da sociologia moderna.
Notas
1 Essas referências bibliográficas constam numa nota de rodapé do segundo capítulo de A sociologia no Brasil (Fernandes, 1977: 26).
2 No manuscrito, a palavra “seleção” está riscada e foi substituída por “formação”.
3 Acima da seta no original manuscrito, Florestan Fernandes anota: “→(=+)”.
4 No manuscrito a palavra “origens” se encontra com um sublinhado duplo.
5 Provavelmente Aníbal Falcão (1859-1900), abolicionista influenciado pelo positivismo. Numa de suas fichas manuscritas, Florestan Fernandes comenta um dos discursos de Anibal Falcão, Fórmula da civilização brasileira, pronunciado em 1883 (localização no Fundo Florestan Fernandes: 02.04.6395).
6 Em relação a Os Sertões, afirma em A sociologia no Brasil: “Com seus defeitos e limitações, e apesar da ausência de intenção sociológica, essa obra possui o valor de verdadeiro marco. Ela divide o desenvolvimento histórico-social da sociologia no Brasil” (Fernandes, 1976: 35).
Referências
FERNANDES, Florestan. (1958). A etnologia e a sociologia no Brasil. São Paulo: Anhembi.
FERNANDES, Florestan. (1976). A sociologia no Brasil. Petrópolis: Vozes.
SANTOS, Wanderley Guilherme dos. (2017). A imaginação política brasileira: cinco ensaios de história intelectual. Rio de Janeiro: Revan.
