
Chegamos à última sexta-feira de 1928, e Mário de Andrade aproveita para “fechar o corpo” no catimbó de dona Plastina. O novo ano se avizinha. Escreve, assim, essa crônica-cerimônia, que nos conduz diretamente aos procedimentos ritualísticos do catimbó e à interpretação do próprio modernista.
Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. À tarde, não deixe de conferir novo texto de Elide Rugai Bastos (Unicamp) para a série! Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Natal (28 de dezembro, 24 horas)
Hoje, última sexta-feira do ano, apesar do dia ser par, era muito propício pra coisas de feitiçaria. Por isso aproveitei pra “fechar o corpo” no catimbó de dona Plastina, lá no fundo dum bairro pobre, sem iluminação, sem bonde, branquejado pelo areão das dunas. Agora a cerimonia acabou, os dois “Mestres” materialisados que celebraram a cerimonia, o antipatiquinho Manuel pince-nez e o mulato João cara de bom, devem de estar na praia do mar, si estiverem!… defumando os quatro pontos cardeais, fechando ao murmurio rezado da “Fôrça do Credo” as quatro covas benzidas com ólio, e atirando por fim sobre as ondas a agua que meus pés pisaram. Não tem mais maleficio nem da terra nem das aguas, nem de por baixo da terra nem dos ares que me venha atentar, estou de corpo fechado. Mestre Xaramundí desceu pela rama da jurema, limpador de “materia” (corpo) e me alimpou. Mestre Felipe Camarão, heroico, Camarão “combatedor”, “vingador”, “sanguinador” e graças a Deus! “vencedor”, e brasileirissimo, me tomou sob a proteção dele. E a bonita Nanã-Giê, curandeira, que trabalha no fundo do mar me… voronofisou pra todas as gripes e mais doencinhas da garoa paulista. E Mestre Carlos, o “flor da noite”, rei Iáiá e rei Nanã, o “que aprendeu sem se ensinar”, êsse, com seus 12 anos desmaterialisados, pernambucano filho de amazonense, êsse, safadinho e brincador, unico mestre de que é permitido rir nas sessões, Mestre Carlos é que protege pra todas as horas de todos os dias o brasileiro que vos escreve agora.
Não sei… É impossivel descrever tudo o que se passou nessa sessão disparatada, mescla de sinceridade e de charlatanismo, ridicula, dramatica, comica, religiosa, enervante, repugnante, comovente, tudo misturado. E poetica. Sou obrigado a confessar que agora, passados os ridiculos a que me sujeitei por mera curiosidade, estou tomado de lirismo, vou me deitar matutando com Nanã-Giê, marvada! ficou um momentinho só na minha frente e foi-se embora, sarará, corada, boca de amor, corpo de bronze novo… Foi-se embora bem depressa talqualmente uma mulher.
O espetaculo foi mais ou menos assim: O zungú de dona Plastina é uma casinhola de porta e janela, telha-vã, chão tijolado. Limpa. A cerimonia, cuja bulha á chegada dos espiritos ninguem não pode prever, foi no fundo da casa, bem protegida da polícia. Aliás, tenho mesmo que prevenir os leitores pra não fazerem juizo falso de Natal. Meu encontro com os dois catimbozeiros que me proporcionaram os informes e a cerimonia descritas aqui, foi um acaso. Natal não é mais catimbozeira que as outras cidades dêsse mundo.
Quando pois os 2 mestres “materiais” João e Manuel me fizeram entrar no “Estado”, a escureza era quasi completa. Me sentaram numa cadeira junto duma mesa encostada num canto. Acendidas as 2 velinhas, comecei distinguindo as coisas. Mestre João sentado á minha direita, Mestre Manuel á esquerda. Sobre a toalha branca, entre as velas, estava a Princeza, ara do rito, um simples prato fundo de pó-de-pedra. Espalhadas as “marcas” (caximbos, maracá pequenote de madeira, ólio, agua benta e cauím). E meias horrorisadas já nas sombras do outro lado da sala, tres mulheres. Mestre João, sem paletô, magas de camisa arregaçadas prá materia dos braços estarem puras, iniciou o cerimonial. Foi o momento mais dificil pra mim. A mistura de santos catolicos chamados pra abençoar os trabalhos, São José, São Benedicto, a invocação constante de Deus na pessoa de Jesuis, Santa Luzia (e mestre João fazia cruzes sobre os olhos com o maracá) invocada pra dar… “evidencia”… A benção e a purificação da Princesa e das outras “marcas”, tudo com um ar malandro de mistificação, repugnou por demais á minha consciencia convictamente catolica. A cada invocação, a cada reza seguia sempre um gesto cabalistico com o maracá e o refrão surdo gritado com ritmo pelos dois mestres: A’iiii!… Trunfei! trunfá!… Trunfa riá!…
Isso começou me divertindo, o ritmo era gostoso, e defumação principiada, me tomou uma prodigiosa vontade de rir. Os dois mestres enchiam os caximbos de fumo, é proibido fosforo, acendiam nas velas uns morrões de papel torcido, acendiam o fumo, bem, e caximbando ás avessas, sopravam fumo pelo bocal, ritualmente, de cima pra baixo. E a defumação continuou durante toda a cerimonia, tudo era defumado, até meus pés e minhas mãos, assim.
Mestre João dava mostras maleducadas duma fadiga enorme. Cochilava, bocejava, puxava mal os cantos que o outro mestre duetava com voz bem regular, alguns bonitos mesmo. Afinal inclinou a cabeça numa das mãos, ficou rezando baixinho, sentado sempre, encostado na parede. Percebi por detrás que as mulheres, sabidas, murmuravam afobado não sei o quê. Mestre Manuel, tambem afobado, defumou o outro e principiou invocando Manicoré que é o “Mestre dos mestres, o grande pagé”. Não lhes digo nada! mestre João de sopetão deu um silvo, fiii!… estremeceu duro, reto, cara inteiramente mudada, um guariba legítimo. Levei um susto!
— Deus vos salve, Mestre!
João, epileptico, uma coisa perfeita, nunca vi! duro, tremendo, com as mãos engruvinhadas rente do peito… Não respondeu.
— Deus vos salve, Mestre! Deus vos salve!
— D-eum vuss sssellv…
Custoso de entender. Outra cor de voz completamente distinta da do João verdadeiro.
— Quem sois, Mestre? Sois o grande Manicoré.
— A-gi-sssscé…
Era Agicé, irmão gemeo do grande pagé amazonico. Esteve ali uns cinco minutos, respondia tudo errado, não quis abrir a sessão, fiquei com uma bruta raiva dele.
De repente não secundou mais a nenhuma pergunta. João oscilava, oscilava, perdeu o equilibrio. Foi bater com a cabeça mas com toda a fôrça na parede, pân! Agicé tinha ido-se embora.
Foi então que depois de mais invocações veio Xaramundí e entoou o canto dele, uma das melodias bonitas que hei-de logo revelar. Xaramundí foi bom pra mim, consentiu em abrir a sessão e iniciar o meu fechamento de corpo. Foi o momento mais penoso da cerimonia. Xaramundí é “limpador” (purificador) de materia, como falei. Não conseguiu descobrir que eu estava ali por simples curiosidade, porêm depois de ter pingado cêra quente nas minhas mãos, agora êle de-pé, levantado pelo Manuel e pela “mãi de terreiro” dona Plastina, voltou a cheirar a ponta dos meus dedos. Percebeu que a minha “materia”, hélas! estava suja e principiou a purificação dela. Como mostrei na scena da macumba do “Macunaíma”, felizmente todos os sacrificios impostos pelo santo que chega, são executados… sobre o proprio corpo em que o santo entrou. Xaramundí foi estendendo o braço direito hirto e se deu a si mesmo no pobre do João uma bofetada formidavel. Fiquei horrorisado. E que materia impura a minha, puxa! as bofetadas continuaram com a mesma fôrça sempre. Na terceira, a face mulata do João estava escarlate completamente. Foi uma coisa temivel, não imaginam. Manuel contava as bofetadas, 21 contadas, implacaveis, a ultima tão forte como a primeira, sem mistificação, eu revoltado, depois condoído, perdendo a compostura de neofito, ali pertissimo examinando a minha materia se alimpar. Limpou nada! Xaramundí fez a cruz de ólio nas minhas mãos, testa e cangote se desgostou, foi-se embora. Nós distraídos, João sempre duro, que nem pau, pof! bateu com a cabeça na parede longe, escorregou por esta, pan! bateu no canto e rolou no chão. Dona Plastina me acalmava:
— Não s’encomode, doutô! é assim mesmo!
Era assim mesmo. Os tombos continuaram e os sacrificios. Os Mestres vinham e iam-se embora, não querendo fechar o meu corpo impurissimo. Acredito que o João era sincero. Manuel não, um farsante de marca maior, charlatão cabotino pararaca — os Mestres que entraram no corpo dele foram mal representados, procuravam geito pra cair depois que o primeiro vindo, Felipe Camarão que me honrou, elogiou e prometeu proteger, creio se machucou rolando sobre uns paus pra rogo empilhados. Desd’ahi Manuel caiu com mais cuidado.
Teve muito espirito a chegada de Godique, o famanado “negro indiano” no corpo do João. “Acostou-se” (entrou no corpo), e foi logo tomando a posição habitual dele. João fez uma curva no ar, poc! bateu com a cabeça no chão de com fôrça. Se apoiou nela, fez tripé com as duas mãos e levantou os pés no ar, reto, uma perpendicular de circo e principiou falando numa lingua que ninguem não entendia. Manuel ficou todo atrapalhado e fez invocação. Então Gogideque, mano gemeo de Godique, entrou no corpo dele e os dois puderam se entender lá na fala deles. Toda uma série de cerimonias ridiculas, Godique a horas tantas ficou safado com o mano que não botava direito a vela no pé dele, quasi brigaram e foi pena não brigarem. Foram-se embora e veiu afinal o complacente Mestre Carlos que já contei, e o fechamento do meu corpo se acabou por êle e pela bonita Nanã-Giê que êle chamou por não ter imperio sobre os maleficios da Aua. Foram bonitezas e ridiculos, cantos, rezas e quasi duas horas imperceptiveis de sensações e divertimento pra mim. Prêço: 30 mil réis.
MÁRIO DE ANDRADE
