
Temos hoje o retorno da Série Nordestes em 2026, que reestreia sua jornada pelas complexidades dessa multifacetada região com texto inédito da professora emérita da Unicamp, Elide Rugai Bastos.
Em Congresso Regionalista do Recife, a autora revisita um emblemático momento da vida intelectual brasileira nos anos 1920, que celebrou, no último 7 de fevereiro, seu primeiro centenário. Organizado sob a liderança de Odilon Nestor e com participação direta de Gilberto Freyre, o Congresso propôs pensar o Nordeste como conjunto histórico e cultural constitutivo de um Brasil plural, em meio às intensas disputas sobre a ideia de “cultura nacional” e ao amplo cenário de crise que marcou o período de então. Elide Rugai Bastos, assim, mergulha nos aspectos positivos, nas tensões, polêmicas e desdobramentos ocasionados por esse marco do regionalismo brasileiro.
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Boa leitura!
Congresso Regionalista do Recife
Por Elide Rugai Bastos (Unicamp)
No dia 7 de fevereiro, completaram-se 100 anos da realização do Primeiro Congresso Regionalista do Recife, organizado pelo Centro Regionalista do Nordeste, sob a presidência de Odilon Nestor, com a participação de Gilberto Freyre, então secretário-geral da entidade. Na mesma data, em artigo publicado no Diário de Pernambuco, Freyre apresentou o sentido e os objetivos do empreendimento, ao qualificar a ação regionalista – “ainda mal compreendida e superficialmente julgada”. Segundo ele, o regionalismo não se confundia nem com separatismo nem com provincianismo: tratava-se, antes, da proposição de um Brasil não dividido, capaz de reconhecer e articular suas diversidades no interior de uma cultura nacional comum.
É importante assinalar que a iniciativa de pensar os estados do Nordeste como conjunto faz parte do amplo cenário da crise que marca os anos 1920, forçando intelectuais e políticos a elaborarem diagnósticos sobre o país e a proporem novos caminhos. Ponto alto desse processo é a quebra do pacto oligárquico, o acordo café com leite entre São Paulo e Minas Gerais, cenário que traz insegurança, provoca desarranjos políticos e abre espaço para uma nova correlação de forças. Não é fácil definir uma crise, mas é certo que, num quadro em que ela ocorre, os fenômenos e/ou comportamentos considerados “normais” ou “anormais” se confundem, e torna-se necessário refletir sobre o novo sentido dessas questões. Em outros termos, aquilo que parece conexo e complementar é violentamente desarticulado. Aspectos importantes nessa situação de desequilíbrio são a busca de explicações para os acontecimentos, o repensar da conexão anteriormente naturalizada, a reflexão sobre os conflitos que essa posição provoca e as prospecções para o futuro.
Simplificando muito a explicação, nesse período há uma espécie de aceleração da história da formação da sociedade brasileira, não por se efetuarem mudanças institucionais, mas porque a sociedade confere a marca de sua presença com a emergência de novos atores político-sociais – a classe operária, as camadas médias urbanas, os militares – que se fazem representar nos movimentos sociais, políticos e culturais. Esses debates serão uma base importante para as medidas a serem tomadas pelo governo de Getúlio Vargas nos anos 1930. Embora estudado em vários de seus aspectos, o decênio de 1920 é pouco analisado na dimensão da formação social e da articulação/oposição entre os novos atores emergentes.
Com a forte presença da sociedade, novas ideias se consolidam em novos comportamentos. Expressão clara dessa articulação – novos atores, novas ideias – é a presença de várias mobilizações sociais, políticas e culturais. Há um duplo caminho: os novos atores operam na organização das proposições e estas, por sua vez, permitem a consolidação desses novos personagens. Lembro alguns desses movimentos: a afirmação do tradicionalismo católico, com a fundação do Centro Dom Vital e a publicação da revista A Ordem; o movimento modernista, entre outras manifestações, com a realização da Semana de Arte Moderna; a fundação do Partido Comunista, que organizou trabalhadores urbanos, com ênfase na participação dos gráficos; o movimento tenentista, que propunha a mudança das estruturas de poder; a mobilização de intelectuais em 1922, a propósito do centenário da independência do país, organizada por Vicente Licínio Cardoso, que acentuava a ideia de fortalecimento do Estado; e a importante e quase esquecida Ação Regionalista do Nordeste.
Em 1925, Gilberto Freyre organizou o Livro do Nordeste, comemorativo do centenário do jornal Diário de Pernambuco. O tom marcante da publicação é não somente assinalar o peso da cultura regional, mas lembrar o papel histórico desempenhado pela região na constituição do Brasil: “No Nordeste há decerto a fixar, no interesse comum a toda a tradição brasileira, a memória de um glorioso conjunto de afirmações de brio e de energia constructora. Pode-se dizer que aqui se escreveu a sangue o sobrescripto ou endereço da nacionalidade brasileira” (Freyre, 1979).
A ampliada noção de cultura, certamente derivada dos cursos de antropologia frequentados por Freyre na Universidade de Columbia, permitiu a originalidade dos temas abordados no livro, desenvolvidos por importantes autores do período. Assim, elementos históricos e cotidianos se entrelaçam: relações internacionais, perfil do Recife – cidade construída com diques e aterros –, a arquitetura, as medidas contra as secas, a combinação luso-afro da comida, o requinte das rendas, a vida social, o movimento abolicionista, o comércio, a agricultura, a pecuária, entre outros. A tradição regional e a denúncia de um equivocado avanço da modernização marcam os textos, sem esquecer que artigos de Gilberto Freyre, publicados em 1923, já abordavam o tema: “Há um prêmio a que o Brasil deve concorrer na próxima exposição internacional. É o de devastador do passado. Devastador das próprias tradições” (Freyre, 1979: 320).
Nos três escritos publicados no Livro do Nordeste [1], Gilberto Freyre analisa, lamentando, muitas das mudanças operadas entre 1825 e 1925: a paisagem, que perdera seu aspecto ingênuo e natural, substituída por fotografias de usinas e avenidas; a insensibilidade dos artistas locais quando aproximados seus trabalhos às gravuras que ilustram os livros de James Henderson ou Viagens ao Nordeste do Brasil de Henry Koster; a impessoalidade das relações de trabalho nas usinas que alteraram as pessoais existentes no engenho; mas, principalmente, a transformação da fisionomia da sociedade nordestina.
Traço complementar do livro é a presença de inúmeras propagandas publicadas no período, que ilustram o comércio, a indústria, as escolas, os bancos e os serviços profissionais, principalmente de Pernambuco. Enriquecem a publicação os desenhos de Manoel Bandeira. O Livro do Nordeste merece estudos aprofundados pela importância dos elementos que o compõem e pelo contexto histórico, político, social e cultural em que se insere.
Mas voltemos ao Primeiro Congresso Regionalista do Recife. Sem dúvida, a temática nele apresentada e discutida vai implementar diagnósticos, sugestões de várias ordens e a institucionalização de medidas que se estendem por anos posteriores. Devido à repercussão desse evento, fala-se da divulgação de um manifesto que teria sido elaborado e lido por Gilberto Freyre. Segundo informação do Diário de Pernambuco, em 9 de fevereiro de 1926, esse estudioso apresentara “seu trabalho sobre a esthetica e as tradições da cosinha nordestina. O autor, para disfarçar a aridez da leitura e ao mesmo tempo para crear ambiente sympathico ao assumpto, faz distribuir entre os congressistas cocadas pernambucanas”, além de fotografias de pratos e utensílios da “mesa afidalgada dos senhores de engenho, (…) de negras de taboleiro vendedoras de arroz doce e grude.” Em nenhum dos artigos publicados pelo jornal aparece a notícia da leitura de um manifesto.
Em março de 1951, na comemoração dos vinte e cinco anos do Primeiro Congresso Regionalista do Nordeste, no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, Freyre diz: “Durante o Congresso é que escrevi e li as palavras que ficaram conhecidas como ‘Manifesto Regionalista’, só em parte publicado no Diário de Pernambuco.” Em 1952, foi publicado e nele figura grande parte de seu trabalho sobre a cozinha nordestina e vários comentários já conhecidos dos artigos de 1923 e de seus textos no Livro do Nordeste. Consta, ainda, passagem desenvolvida de uma frase indicada pelo Diário de Pernambuco quando de sua apresentação no Congresso.
As novas gerações de moças já não sabem, entre nós, a não ser entre a gente mais modesta, fazer um doce ou guisado tradicional e regional. Já não têm gosto nem tempo para ler os velhos livros de receitas de família. Quando a verdade é que, depois dos livros de missa, são os livros de receitas de doces e guisados os que devem receber das mulheres leitura mais atenta (Freyre, 1967: 60).
Se o comentário passara incólume em 1926, em 1952 provocou indisposição… No entanto, a principal polêmica levantada sobre o Manifesto Regionalista foi sobre sua datação pelo autor, alegando-se a inexistência de indicação escrita sobre sua divulgação em 1926. Em Um Manifesto Guloso (1996), Antônio Dimas mostra e comenta, a partir de excelente pesquisa, esse debate, o que me poupa do esforço de retomá-lo.
A tentativa de resposta ao porquê da retomada desse tema vinte e cinco anos depois se impõe. Além de assinalar a importância do texto, só podemos levantar suposições sobre o sentido dessa lembrança, recordando o contexto em que foi escrito. A imagem de sociedade em movimento é usada por André Botelho para caracterizar a sociedade brasileira da década de 1950, “dadas as transformações inauditas decorrentes, sobretudo, dos processos acelerados de industrialização e urbanização que a marcaram” (Botelho, 2008: 15). Assim, o debate que marca aqueles anos é sobre a constituição da sociedade, e é importante o papel desempenhado pelos movimentos sociais e por diferentes atores nessa construção. Trata-se de um período em que a questão da modernização opunha diferentes agentes, criando-se um ambiente de tensão social e crise política que mobilizou a participação da população. Tendo vencido a eleição do ano anterior, em 1951, Getúlio Vargas inicia seu segundo governo propondo o desenvolvimento do país a partir de uma política econômica marcadamente nacionalista, priorizando a atuação das empresas estatais na exploração dos recursos fundamentais, com o Estado como ator desse controle. A fundação da Petrobrás e do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico são exemplos desse projeto.
A oposição capitaneada pela UDN operou fortemente contra esse direcionamento político-econômico. Gilberto Freyre, que fora eleito deputado constituinte por esse partido em 1946, assumiu o contraprojeto. A prioridade do proposto desenvolvimentismo assentava-se na industrialização, o que vai de encontro às teses propostas em seus livros da década de 1930. Lembro que o autor, em Casa-grande & senzala, atribuíra ao patriarcalismo agrário o papel de ordenador social e, com a leitura e publicação do Manifesto Regionalista, invocando a tradição, relembra o papel dos senhores da terra no “equilíbrio dos antagonismos”. Novos conflitos estão à vista nesse momento, com a denúncia das condições de existência do trabalhador rural, ao lado da acusação da ausência de legislação sobre seu trabalho, elementos básicos dos movimentos rurais que surgem. Em vários tons e em diferentes lugares, reivindica-se a reforma agrária, com o questionamento da concentração de terras e da presença do latifúndio improdutivo. Diante dessas questões, relembrar que “A casa-grande venceu no Brasil a Igreja, (…) o senhor de engenho ficou dominando a colônia quase sozinho. (…) A força concentrou-se nas mãos dos senhores rurais. Donos das terras. Donos dos homens, Donos das mulheres” (Freyre, 1981: LXVII).
Lembrar a oportunidade política aberta à divulgação do Manifesto Regionalista não significa desqualificar as questões que nele são levantadas, como também seu papel ao chamar atenção para a ação regional do Nordeste, que se constituiu em décadas anteriores. Nele se aponta a importância das características regionais comuns, que deveriam ser consideradas em conjunto e não fragmentadas politicamente em interesses dos diferentes estados. Também é assinalável a indicação do perfil cultural da região, relacionado às condições da natureza e à sua densidade histórica, mostrando que as regiões naturais correspondem a regiões sociais. Nesse sentido, o texto se impõe por si. No entanto, várias passagens podem sofrer restrições, tais como o elogio do mucambo, ressaltando seu “valor pelo que representa como solução econômica do problema da casa pobre” (Freyre, 1952: 38); ou a afirmação de “é raro o menino desta parte do Brasil que, mesmo sem ser rico, não chegou a ser dono de um carneirinho manso, que fosse seu cavalo” (Freyre, 1952: 69). Indicações como essas mostram que a tradição reivindicada é referida ao modo de vida senhorial, de certo modo, deixando de lado a larga pobreza da região, na qual os retirantes se constituem personagens importantes.
Gilberto Freyre define o Manifesto como parte de um movimento regionalista, tradicionalista e, a seu modo, modernista – um outro moderno. De fato, a defesa da preservação da natureza, da cozinha regional e da região são traços desse outro moderno. Trata-se de uma modernidade diferente da iluminista, em que o princípio emancipatório, com seu suposto igualitarismo, está ausente, afastando-se, nesse sentido, da proposição da formulação dos direitos reivindicados pelos trabalhadores rurais.
Nota
[1] Vida social no Nordeste – aspectos de um século de transição; A pintura no Nordeste e A cultura da cana no Nordeste.
Referências
FREYRE, Gilberto et al. (1979). Livro do Nordeste. Edição fac-similada. Recife: Secretaria da Justiça/Arquivo Público Estadual.
FREYRE, Gilberto. (1967). Manifesto Regionalista. Recife: Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais.
FREYRE, Gilberto. (1981 [1933]). Casa-grande & senzala. Formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal. Rio de Janeiro: José Olympio Editora.
FREYRE, Gilberto. (1979). Tempo de aprendiz. Artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira juventude do autor – 1918-1926. São Paulo: IBRASA; Brasília: INL.
BOTELHO, André. (2008). Uma sociedade em movimento e sua intelligentsia: apresentação. In: BOTELHO, André & BASTOS, Elide Rugai & VILLAS BÔAS, Glaucia (orgs.). O moderno em questão: a década de 1950 no Brasil. Rio de Janeiro: TopBooks, p. 15-23.
DIMAS, Antonio. (1996). Um manifesto guloso. In: FREYRE, Gilberto & QUINTAS, Fábio (orgs.). Manifesto Regionalista. 7. ed. Recife: Fundação Joaquim Nabuco/Editora Massangana, p. 23-44.
BASTOS, Elide Rugai. (2006). As criaturas de Prometeu. Gilberto Freyre e a formação da sociedade brasileira. São Paulo: Global.
DIÁRIO DE PERNAMBUCO. (1926). Artigos publicados em 9, 10, 11 e 12 de fevereiro. Recife. In: FREYRE, Gilberto & QUINTAS, Fábio (orgs.). Manifesto Regionalista. Recife: Fundação Joaquim Nabuco/Editora Massangana, p. 115-140.
