Sociológicas | Fim dos empregos?, por Adalberto Cardoso

O mundo do futuro será um mundo sem empregos? A pergunta, que ecoa nos fóruns econômicos e nas manchetes alarmistas, é o ponto de partida do novo texto de Adalberto Cardoso (IESP-UERJ) para a série Sociológicas. Nele, o autor examina as transformações em curso no capitalismo contemporâneo e recoloca em perspectiva um velho fantasma: a substituição do trabalho humano pelas máquinas. Temor antigo, que agora retorna sob a forma da inteligência artificial. Estaria o trabalho humano, afinal, prestes a se tornar obsoleto? Diante desse “diagnóstico”, Cardoso busca discernir o que nele se sustenta e o que não passa de alarmismo.

Sociológicas é um novo espaço de reflexão da BVPS Edições, voltado para discutir problemas do presente e para o processo social que este ainda oculta, a partir de uma perspectiva diferencialmente sociológica. Outros textos já publicados podem ser conhecidos aqui.

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Fim dos empregos? 

Por Adalberto Cardoso (IESP-UERJ)

O austríaco Klaus Schwab, fundador e presidente do Fórum Econômico Mundial, em polêmico livro publicado em 2016 chamado A quarta revolução industrial, sustenta que a nova revolução tecnológica provocará mais mudanças do que as revoluções industriais anteriores, em razão, nas palavras dele, de sua velocidade (tudo está acontecendo em um ritmo muito mais rápido do que antes), amplitude e profundidade (há muitas mudanças radicais ocorrendo simultaneamente), e a transformação completa de sistemas inteiros. A pergunta a fazer não é quando isso vai acontecer, mas quanto tempo vai demorar para se generalizar e quais ocupações serão afetadas. O livro traz um apêndice com uma extensa lista de ocupações que especialistas e executivos de empresas consideravam provável que desaparecessem até 2025 (opa!), e outras que teriam seu conteúdo inteiramente renovado.

Publicações como essa causaram frisson em torno da tese de que o mundo do futuro será um mundo sem empregos, ou ao menos sem empregos para todos. A inteligência artificial teria o potencial para substituir mão de obra nos mais diferentes ramos da economia. Só que desta vez, diferentemente das revoluções anteriores, como a que resultou do domínio da eletricidade e da invenção da dinamite no século XIX, e da invenção dos computadores no século passado, que tiveram por consequência a destruição de postos de trabalho menos qualificados e pesados, a revolução atual tem potencial para destruir empregos de engenheiros, arquitetos, advogados, designers e até mesmo desenvolvedores de softwares para computadores, sem falar nas máquinas que produzirão máquinas, algumas já em uso em alguns segmentos de altíssima tecnologia.

Ora, esse diagnóstico acompanhou, simplesmente, todas as grandes revoluções tecnológicas que conhecemos. Ainda no século XIX, Karl Marx lamentou que máquinas estavam tomando o lugar dos homens nas fábricas, e o fato de que os poucos que restavam se estavam tornando meros apêndices de autômatos inumanos. Mas, ao mesmo tempo, reconhecia que a máquina livrava os homens do fardo de trabalhos destruidores da humanidade em cada um de nós, por serem pesados, insalubres e incapacitantes, por exigirem penosa e repetitiva atividade física. Do mesmo modo, as grandes máquinas-ferramenta de comando numérico inventadas nos anos 1970 e depois os braços mecânicos que substituíram milhões de operários nas linhas de montagem nos anos 1980 e 1990 foram vistos, a princípio, com alarme, mas depois como um alívio para trabalhadores que, por desempenharem trabalhos repetitivos, cansativos e alienantes, se rebelavam contra a opressão das fábricas tayloristas e fordistas, produtoras de lesões por esforço repetido, acidentes e mortes no trabalho. Os governos e as empresas gastaram bilhões de dólares na requalificação da mão de obra liberada dos setores revolucionados (ou exportaram os excedentes via emigração). Usava-se, então, termos como reconversão industrial, reconversão tecnológica, reconversão produtiva, mas hoje sabemos que vivíamos, de fato, uma verdadeira e profunda revolução tecnológica.

O capitalismo tem uma propriedade interessante. O sonho do proprietário de meios de produção e geração de riquezas é não precisar empregar pessoas para produzir os bens e as riquezas que produz. Homens e mulheres pensam, têm desejos e aspirações, sentem a exploração, se opõem e se revoltam contra ela, fazem greves, sabotam máquinas… Seria melhor ter apenas máquinas produzindo os bens, e a história do capitalismo desde a primeira revolução industrial tem sido a de substituir pessoas por máquinas, visando ao mesmo tempo aumentar a produtividade – quer dizer, produzir mais ao menor custo possível – e livrar-se das pessoas, ou do trabalho vivo.

Esse sonho dos proprietários dos meios de produção, porém, não é universalizável, ao menos no capitalismo que conhecemos. Se todos os empregos existentes fossem substituídos por máquinas, ou se a maioria deles o fosse, a quem os produtores venderiam sua produção? Sabemos que entre 1/3 e metade (dependendo do setor) das trocas comerciais que ocorrem no mundo se dão entre subsidiárias das grandes multinacionais. São grandes conglomerados produtivo-financeiros comprando partes e peças de subsidiárias que as produzem em diferentes regiões do planeta, muito particularmente Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, China e Japão, que concentram a imensa maioria dessas trocas. Mas esse movimento intracorporativo só é possível porque, em algum momento, a General Motors vende os carros que produz após comprar partes e peças de suas filiais globais. O capitalismo é uma economia de mercado. O mercado é um dos lugares, ainda muito importante, da realização dos lucros. Ora, robôs não comprarão carros. Poderão dirigi-los no lugar dos motoristas particulares das pessoas abastadas, que obviamente perderão seus empregos. Já há carros que andam sozinhos, sendo eles mesmos robôs. Mas os próprios robôs não comprarão carros.

É enorme a literatura sobre o papel do consumo na construção das identidades pessoais e sociais num mundo dominado pelas aparências. Em muitos círculos, você é o que você veste, o carro que você dirige, o relógio que você usa, os óculos que você põe no rosto etc. O consumo é uma forma de comunicação na vida cotidiana, um mecanismo de classificação dos outros, e também um meio de se autoclassificar no mundo, portanto uma forma de afirmação de si nos encontros com os outros. O consumo é, enfim, o lugar do êxtase do capitalismo de mercado, é o ambiente onde as mercadorias, meros objetos inanimados, se tornam objetos quase mágicos de desejo e projeção de nossos anseios e de nossa própria personalidade. Nós, cientistas sociais, trabalhamos para trazer ao mundo conhecimento e inovação, na esperança muitas vezes vã de que isso fará o mundo melhor, e essa é nossa forma de distinção. Mas a maioria das pessoas trabalha para comprar no mercado suas marcas de distinção, para afirmar no mercado sua posição de classe. O mercado consumidor move o capitalismo de muitas maneiras.

Por isso, um mundo sem empregos, no qual a maior parte das pessoas não tenha renda para se realizar no mercado, não faz sentido para o capitalismo tal como o conhecemos. É claro que os que estão produzindo as novas tecnologias não se importam com isso, e provavelmente não sabem disso. Mas os estados nacionais, que sofrerão as consequências do desemprego tecnológico que se avizinha, na forma de tensões sociais e eventualmente convulsões, que ocorreram nas três revoluções anteriores, precisam estar atentos para impedir que o preço da riqueza dos poucos que se estão beneficiando economicamente da revolução em curso não seja a miséria da maioria. Suspeito que, em pouco tempo, teremos demandas por intervenção estatal para estimular o consumo das massas desempregadas pela inteligência artificial. O mundo dos robôs não será um mundo róseo, e a causa disso não será uma improvável revolução dos próprios robôs.