A Sociologia Digital e suas interfaces | A conectividade e seus dilemas, por Richard Miskolci

A Sociologia Digital e suas interfaces é a nova série da BVPS Edições, que iniciamos com alegria nesta retomada das atividades da BVPS em 2026.

Partindo de uma abordagem sociológica das tecnologias da informação e comunicação (TICs), a série propõe compreendê-las não como suportes que determinam automaticamente seus usos e finalidades, mas como mediações – instâncias decisivas na conformação dos sentidos que as relações sociais assumem ao longo do tempo, sem, contudo, esgotar ou fixar seus significados possíveis. Se toda mediação importa não apenas pelo que veicula, mas pelo modo como o faz, a série reúne 12 textos de autoras e autores vinculados a diferentes instituições brasileiras, compondo um panorama amplo e plural das abordagens em Sociologia Digital.

Os textos exploram tanto os novos modos de configuração das relações sociais quanto os desafios contemporâneos do próprio fazer sociológico. Entre as questões centrais que atravessam a proposta está a seguinte: a Sociologia Digital deve ser concebida como uma subárea especializada da disciplina ou como um hub em que diferentes especialidades da sociologia se encontram e se reconfiguram?

Neste primeiro post, confira a apresentação da série e o texto de abertura “A conectividade e seus dilemas”, ambos assinados pelo curador Richard Miskolci (Unifesp).

Acompanhe, nas próximas quartas-feiras, os novos textos da série.

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Apresentação

A Sociologia Digital e suas interfaces

Por Richard Miskolci (Unifesp)

A Sociologia Digital emergiu na década de 2010, em meio à crescente centralidade das tecnologias da informação e comunicação (TICs) na vida social: desde as relações pessoais, familiares e amorosas, passando pela reconfiguração das relações de trabalho, com a plataformização e a incitação a empreendedorismos, até a reconfiguração da vida pública e o aumento exponencial da exposição às mídias, fenômeno que trouxe consigo novas formas de mobilização política e a circulação de desinformação.

A Sociologia Digital pode ser compreendida como uma subárea especializada de nossa disciplina ou como um hub em que outras especialidades sociológicas se encontram em busca de fontes analíticas e métodos para lidar com uma realidade comum? 

O que seria próprio da Sociologia Digital ou do diálogo que outras áreas da disciplina criam com ela?

Questão ampla e aberta a respostas provisórias, que se concentra na delimitação de seu escopo em relação a estudos similares nas ciências sociais e também aos estudos de ciência e tecnologia. Qualquer que seja a resposta, a Sociologia precisa fazer frente ao determinismo tecnológico, que torna opacas relações sociais e de poder, ao invés de permitir reconhecê-las e analisá-las. Esses determinismos costumam ainda se expressar em concepções utópicas e distópicas do social, como algumas atualmente associadas à Inteligência Artificial.

A série A Sociologia Digital e suas Interfaces busca apresentar diálogos possíveis, em termos de continuidade ou ruptura, com as referências clássicas e contemporâneas de nossa disciplina, reunindo artigos que apresentam diferentes temas e abordagens, assim como oferecem referências para todos que encaram os desafios digitais em suas próprias investigações.


A conectividade e seus dilemas[1]

Por Richard Miskolci (Unifesp)

Emergências sanitárias funcionam como laboratórios históricos em que as ameaças à vida engendram novos arranjos sociais e institucionais. A pandemia de influenza de 1918-1920 resultou na criação ou fortalecimento de órgãos de saúde pública e na expansão da comunicação de massas; a da Covid-19, um século depois, consolidou a conectividade como forma hegemônica de sociabilidade mediada pelas tecnologias da informação e comunicação (TICs), como o uso de plataformas digitais em smartphones.

Camadas médias e altas puderam se proteger via teletrabalho e serviços online graças a trabalhadores expostos nas ruas – na logística e nos serviços essenciais – sustentando, sob maior risco de infecção e morte, o conforto relativo dos que puderam isolar-se. Essa desigualdade marcou a entrada no estágio avançado do capitalismo informacional.

O processo de plataformização da vida cotidiana teve um primeiro grande impacto quando a maioria da população passou a acessar a internet por meio do celular, o que afetou diretamente a política em 2016, ano em que ocorreram o impeachment de Dilma Rousseff no Brasil, a aprovação do Brexit no Reino Unido e a primeira eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. Um segundo impacto ocorreu na pandemia da Covid-19, quando teorias conspiratórias, notícias falsas e, de forma geral, a desinformação ganhou centralidade no Brasil ao ponto de o jornalismo diagnosticar uma “era da pós-verdade” que analistas sociais abordam como “crise epistêmica” (Benkler, 2021).

Em vez de entender a desinformação como algo a ser corrigido por “checagens”, interessa-me situá-la sociologicamente como sintoma de transformações mais amplas nos laços sociais, na esfera pública e na disputa de autoridade. Ao contrário de abordagens que enfatizam os aspectos tecnológicos – controle algorítmico, vigilância de dados, filtros-bolha –, sublinharei as formas de sociabilidade mediadas e a reconfiguração do espaço público, ambos baseados no que defino como conectividade: relações dependentes de interações online, conduzidas por plataformas e aplicativos de trocas de mensagens. Inspiram essa abordagem tanto estudos sociológicos clássicos sobre a transição para a sociedade de massas moldada pelas mídias (Riesman et al., 1950) quanto análises contemporâneas sobre sua digitalização (Illouz, 2016).

Para nativos digitais, “sociedade” tornou-se sinônimo de estar conectado por meio de plataformas no celular. Desinformação, nesse contexto, não se limita à circulação de conteúdos falsos, expressa, antes, mais uma disputa pela autoridade epistêmica: quem fala em nome do que seria verdadeiro e confiável. Na pesquisa social, em vez de identificar conteúdos para avaliá-los factualmente, torna-se central compreender como relações preferenciais com grupos de interesse passam a corroer a confiança em instituições e profissionais.

Das massas ao público

Para iluminar o presente, vale o retorno aos debates que emergiram no pós-Primeira Guerra Mundial e após a pandemia de influenza. A queda de impérios e a ascensão de repúblicas intensificaram o protagonismo das “massas”, vistas por elites como ignorantes e suscetíveis a boatos e teorias conspiratórias. Em 1921, Marc Bloch analisou notícias falsas de guerra não para desmenti-las, mas para entender os contextos sociais que as tornavam plausíveis, argumentando que elas revelam uma “psicologia coletiva”.

Em cenários de temor quanto ao futuro, especialmente entre classes populares que se sentiam enganadas por decisões tomadas “no alto”, a distinção entre verdadeiro e falso perdera centralidade. É nesse quadro que Bloch afirma que: “A notícia falsa é o espelho em que a consciência coletiva contempla seu próprio rosto” (Bloch, 1998: 191). Disso emerge uma inflexão analítica importante: em vez de se fixar na veracidade de enunciados, trata-se de atentar para quem consome essas notícias e que lugar ocupam nas hierarquias sociais.

Em contextos democráticos, a “consciência coletiva” mencionada por Bloch pode ser aproximada do que muitos posteriormente chamariam de opinião pública, cuja capacidade de participar de modo informado dos debates coletivos foi objeto de posições divergentes nos Estados Unidos, especialmente na década de 1920.

De um lado, desenvolveu-se uma vertente de “engenharia do consenso”, tendo Edward L. Bernays como figura central. Atuando para o governo norte-americano na Primeira Guerra para angariar apoio à entrada no conflito, Bernays elaborou técnicas de conquista da opinião pública que inicialmente denominou de propaganda e, mais tarde, de relações públicas. A partir da inspiração em autores como Le Bon, Ortega y Gasset e em leituras sobre as massas como a de seu tio, Sigmund Freud, Bernays (1928) seguiu uma visão elitista de que o sufrágio universal e a escolarização teriam apenas aumentado o temor burguês de um “povo” pronto a se tornar rei, exigindo formas sofisticadas de construção da opinião pública sob o controle de elites.

De outro lado, Walter Lippmann e John Dewey ofereceram visões potencialmente mais democráticas sobre público e opinião pública. Em Public Opinion (1922), Lippmann chamou atenção para o controle estatal da informação na guerra e enfatizou a centralidade do acesso à informação para a democracia, mas em The Phantom Public (1925) relativizou o papel do público ao mostrar como empreendedores políticos “emprestam” opiniões às massas. Daí a imagem de um público fantasma, incapaz de orientar de forma responsável a vida política sem a mediação de especialistas.
Dewey, em The Public and its Problems (1927), deslocou a questão: o público não é um dado, mas um coletivo que se forma quando consequências de ações e decisões passam a afetar muitos. Seu conceito se ancora numa visão relacional: laços sociais, formas de associação e experiências compartilhadas são condições para que problemas se tornem públicos e, portanto, politizáveis. O público existe em contextos situados, na medida em que instituições respondem a grupos de afetados. Dewey distinguiu opinião – que via como mero hábito, tradição, muitas vezes inimiga do debate aberto – de público como estado político, frequentemente mediado por especialistas, mas não substituível por eles.

Consciente da possibilidade de manipulação por demagogos que falam em nome do “povo”, Dewey recusou a solução de Lippmann de um governo de especialistas, ressaltando que quem “usa o sapato” sabe onde ele aperta, ainda que o sapateiro seja o melhor para consertá-lo. É nessa tensão entre experiência comum e saber especializado que se define a democracia como forma de vida associativa: é o processo de consulta, discussão e educação recíproca que possibilita o reconhecimento de interesses comuns.

Conectividade, esfera pública e desinformação

As reflexões de Bloch, Lippmann e Dewey antecipam problemas que a conectividade contemporânea apenas radicalizou. A emergência de uma ecologia midiática centrada em plataformas digitais reconfigura o espaço público, ampliando o acesso, mas ao custo de torná-lo mais conflituoso, fragmentado e refratário a consensos. A internet inicial ainda evocava ideais de “praça pública digital” e as nascentes redes sociais eram vistas como substitutos online de centros comunitários, mas desde a massificação de plataformas de redes sociais baseadas em celulares, esse imaginário tem cedido lugar à percepção crítica de que são espaços estruturados por lógicas de mercado, relações públicas e empreendedorismo.

O diagnóstico de Jürgen Habermas (1999) sobre a transformação estrutural da esfera pública, baseada na imprensa escrita e na sociabilidade dos cafés, continua pertinente, ainda que esse espaço intermediário entre Estado e sociedade tenha sido atravessado por assimetrias de classe, gênero e raça, além da mediação de grandes veículos de comunicação. Com a digitalização, parte da literatura inicialmente celebrou a possibilidade de uma “esfera pública online”, não hierárquica e mais aberta, capaz de ampliar a participação e pluralizar vozes. Desde meados da década de 2010, tal otimismo vem sendo substituído por análises que sublinham novas formas de controle, manipulação e silenciamento.

Funcionalidades como o bloqueio e práticas como o “cancelamento” estruturam comportamentos autoritários, podendo restringir o debate em vez de expandi-lo. A ampliação do número de vozes não se traduz automaticamente em democratização, pois nem todas as vozes têm o mesmo peso e os mecanismos de visibilidade privilegiam volume, intensidade emocional e engajamento, não qualidade argumentativa. Ao mesmo tempo, diluem-se fronteiras entre informação e propaganda, opinião e conhecimento: a validação do que antes se chamava “notícia” desloca-se do vínculo com o fato para o enquadramento político e para o interesse de quem o divulga.

A reorganização comunicacional potencializa uma crise de confiança em sistemas peritos – ciência, justiça, imprensa profissional – que alguns autores denominam “crise epistêmica”. Yochai Benkler (2021) destaca o abalo na credibilidade da mídia tradicional, enquanto outros mostram como o novo ecossistema facilita ataques sistemáticos a qualquer instituição que dispute a definição legítima da realidade. A desinformação, assim, não é apenas desvio informacional, mas estratégia político-comunicacional em contextos de disputa por autoridade.

A pandemia da Covid-19 explicitou o conflito entre saberes epidemiológicos, clínicos e experienciais. No Brasil, por exemplo, discursos favoráveis ao “Kit-Covid” e ao uso de remédios ineficazes ancoraram-se em médicos clínicos e autoridades políticas, competindo com especialistas em saúde pública. A adesão a tratamentos sem eficácia resultou não de “negacionismo científico”, mas da necessidade de continuar circulando para trabalhar e sobreviver, confiando na orientação de médicos de referência e desconfiando da imprensa e das elites culturais. A imprensa profissional, ao enquadrar essa dinâmica exclusivamente como “onda popular de negacionismo”, reforçou clivagens de classe, desconsiderou as racionalidades práticas e minorou o papel dos interesses comerciais no campo da saúde.

No plano da experiência cotidiana, cresce a confiança em fontes “próximas” – parentes, amigos, influenciadores com quem se sente afinidade – em detrimento de instituições. As redes digitais reforçam laços de bonding, isto é, conexões entre semelhantes, em vez de pontes (bridging) entre diferentes, algo já diagnosticado por Robert Putnam (2000) antes mesmo da digitalização das relações sociais. O resultado é uma sociabilidade segmentada em grupos de afinidade que tendem ao fechamento, ao reforço de vieses de confirmação e à recusa do dissenso. Em contextos assim, notícias falsas e conteúdos polarizadores encontram terreno fértil por confirmarem identidades e visões previamente constituídas.

Dilemas da conectividade

A conectividade via celular intensificou a exposição permanente a fluxos informacionais, expondo sujeitos continuamente a interesses econômicos, políticos e mercadológicos. A experiência online organiza percepções de mundo e pertencimentos, favorecendo a formação de segmentos identitários que competem por reconhecimento, visibilidade e recursos. A disputa do espaço público torna-se menos sobre problemas comuns e mais uma batalha entre “nós” e “eles”, na qual o adversário é frequentemente percebido como ameaça a ser silenciada ou destruída (Balieiro, 2026).
Nessas condições, as redes sociais tendem a abrigar contrapúblicos que se isolam para garantir homogeneidade interna, expulsando dissidências. A pluralidade de públicos não equivale a pluralismo democrático, podendo favorecer, ao contrário, segmentos tendentes à radicalização afetiva e à hostilidade à divergência. Esse cenário ajuda a explicar por que a conectividade aparenta ampliar a participação popular, mas, ao privilegiar a polarização, o escândalo e a performance, em detrimento da escuta, da argumentação e da construção de confiança, termina por dificultar a formação de um público capaz de reconhecer problemas compartilhados e negociar soluções.

Para a Sociologia, a questão é: que tipos de laços e formas associativas são necessários para que um público se constitua em vez de se fragmentar em grupos em guerra permanente? A experiência da conectividade mostra que a simples ampliação de acesso não garante a emergência de um público reflexivo. Ao contrário, sem instituições e práticas capazes de mediar conflitos, educar para o dissenso e produzir compromissos mínimos, a abertura pode intensificar conflitos ao ponto de ameaçar instituições e a própria democracia.

A pandemia funcionou como catalisador desses dilemas. De um lado, acelerou a quase universalização do acesso à internet e trouxe para o espaço público online segmentos que pouco consumiam notícias ou participavam de debates políticos. De outro, expôs as limitações de uma esfera pública técnico-midiatizada organizada por interesses econômicos e lógicas midiáticas. A responsabilidade ética de uns pelos outros – fundamento da saúde pública e da própria ideia de bem comum – foi subordinada a interesses de mercado.

A conectividade individualizada do smartphone instala cada sujeito diante de um fluxo personalizado que o conecta intensamente a alguns e o separa de muitos outros. É nesse espelho que se refletem hoje miríades de rostos, grupos e interesses, muitas vezes incapazes de se reconhecer mutuamente como parte de uma coletividade. A relação histórica entre público e democracia, sempre controversa, encontra na era da conectividade uma nova encruzilhada.


Nota

[1] Este artigo sintetiza a Aula Magna em Sociologia Digital de mesmo título disponível online em https://www.youtube.com/live/ptdf7VruL4I?si=eO8kQrTwXjgbaj1D

Referências

BALIEIRO, Fernando de Figueiredo. (2026). Enquadramentos em disputa na era digital. In: Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social.

BENKLER, Yochai. (2021). A political economy of the origins of asymmetric propaganda in American media. In: BENNETT, W. L. & LIVINGSTON, S. The disinformation age: politics, technology, and disruptive communication in the United States. Cambridge/New York: Cambridge University Press.

BERNAYS, Edward L. (1928). Propaganda. New York: Horace Liveright.

BLOCH, Marc. (1998). Reflexões de um historiador sobre as notícias falsas da guerra. In: História e historiadores. São Paulo: Editora Teorema, p. 177–198.

DEWEY, John. (2016). The public and its problems: an essay in political inquiry. Athens: Swallow Press.

HABERMAS, Jürgen. (1999). The structural transformation of the public sphere: an inquiry into a category of bourgeois society. Cambridge: The MIT Press.

ILLOUZ, Eva. (2016). No coração pulsante da cultura – entrevista com Eva Illouz. Contemporânea – Revista de Sociologia da UFSCar, v. 16, n. 2.

LIPPMANN, Walter. (2015). Public opinion. Jersey City: Start Publishing.

LIPPMANN, Walter. (1925). The phantom public. New York: Harcourt, Brace and Company.

PUTNAM, Robert. (2000). Bowling alone: the collapse and revival of American community. New York: Simon & Schuster.

RIESMAN, David & GLAZER, Nathan & DENNEY, Reuel. (1967). The lonely crowd: a study of changing American character. New Haven/London: Yale University Press.

Sobre o autor

Richard Miskolci é Professor Titular de Sociologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), pesquisador do CNPq e coordenador do Digilab – Núcleo de Pesquisa Social (https://digilab.unifesp.br). Fundador do GT Sociologia Digital da SBS, é presidente do WG 10 Digital Sociology da ISA. Dedica-se atualmente à pesquisa sobre desinformação e disputas comunicacionais sobre a ciência.