Ocupação Mulheres 2026 | Coluna Primeiros Escritos | Uma história de mães, mulheres e filhas, por Paula Lorén Soler

Na nova rodada de postagens da Ocupação Mulheres, publicamos na Coluna Primeiros Escritos texto de Paula Lorén Soler, doutoranda em Filosofia na Universidad Nacional de Córdoba. A autora analisa as “marés feministas” na Argentina e no Chile a partir dos “pañuelazos” pela legalização do aborto e das performances do coletivo LASTESIS. Ao recuperar a genealogia de símbolos e repertórios de protesto, mostra como essas intervenções performáticas transformaram dor e luto em ação coletiva, reconfigurando o espaço público e o movimento feminista. Assim, as “marés” são apresentadas não apenas como conquistas pontuais, mas como acontecimentos que redefinem o horizonte político e legam novas possibilidades às gerações futuras.

Para saber mais sobre a quarta edição da Ocupação Mulheres, clique aqui. Outros textos já publicados podem ser conferidos aqui. Aproveitamos também para lembrar que a Coluna Primeiros Escritos segue aberta para contribuições de estudantes de pós-graduação.

Boa leitura e continue acompanhando nossa intensa programação no final de semana!


Uma história de mães, mulheres e filhas

Por Paula Lorén Soler (Universidade Nacional de Córdoba)


Em 1986, Françoise Collin, em um breve texto publicado na Les Cahiers du GRIF sob o título “Un héritage sans testament”, refletia sobre o conceito de “transmissão” e seu papel na construção de uma relação entre diferentes gerações de mulheres. Ao longo de suas páginas, dedicava-se a mostrar por que a transmissão, diferentemente da história, não é um movimento de sentido único, mas uma operação bilateral na qual cabe às novas determinar se desejam a herança e o que lhes interessa dentro dela; e às antigas “cabe escutar a demanda, desviar sua linguagem para outra linguagem, em uma troca na qual cada uma, ao mesmo tempo em que se mantém no que é e honra sua própria história, dirige-se à outra e a escuta” (Collin, 1986: 82).

A história dos movimentos feministas – que articulam um modo específico de produção histórica, mais próximo da ideia de transmissão de que falava Collin – pode ser narrada por meio do desenrolar de uma série canonicamente aceita de fatos cronológicos, mas também pode ser contada a partir do curso de seus símbolos, de seus repertórios de protesto, de seus modos de atuação no espaço público, de como as mulheres se apropriaram dessa porção do mundo onde ninguém as esperava. Seja qual for a opção escolhida, percorreremos um caminho de avanços e recuos, de memórias entrecortadas por irrupções, conquistas, esperas e ressurgimentos, mas também de uma imaginação “radical, obstinada e luminosa que permitiu às mulheres transbordar continuamente as estreitas margens do possível” (Trabucco Zeran, 2018: 159). As ações levadas adiante por uma nova onda feminista que se expandiu em nível mundial – Ni Una Menos, greves feministas, MeToo, entre outros – e que encontrou na América Latina um cenário de especial revitalização, converteram esses movimentos em algo capaz de reunir força suficiente para redesenhar o mapa político de nosso tempo.

Hoje e aqui, dedicaremos algumas palavras ao que, na última década, passamos a chamar de “marés feministas”, com seus distintos matizes e modulações, na Argentina e no Chile, a partir de duas intervenções performáticas concretas, transitando, por meio delas, para a frente, para trás e para os lados por esse caminho não retilíneo de “heranças sem testamento”, fracassos, conquistas e – como gostava de dizer Hannah Arendt (1995) – acontecimentos que iluminam seu próprio passado.

Para isso, demos apenas alguns passos rumo ao passado recente. Em 19 de fevereiro de 2018, duas semanas antes de que fosse apresentado pela sétima vez à Câmara dos Deputados da Nação Argentina o projeto de Lei de Interrupção Voluntária da Gravidez, milhares de pessoas cercaram o edifício do Congresso, em Buenos Aires, enquanto erguiam ao ar os lenços verdes que a Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito (doravante, a Campanha) adotou como símbolo distintivo desde seu nascimento, em 2005. Assim ocorreu o primeiro pañuelazo, inaugurando um processo de ocupação massiva do espaço público em torno da demanda pela legalização do aborto – processo que posteriormente seria conhecido como “maré verde” – e que constituiu uma ruptura significativa nas modalidades de participação popular em apoio a essa reivindicação histórica do movimento feminista. Os pañuelazos culminaram nas vigílias dos dias 13 de junho e 8 de agosto de 2018, com centenas de milhares de pessoas diante do Congresso e do Senado nacionais, enquanto em ambas as Casas se discutia a aprovação da Lei.

Quase dois anos depois, em 20 de novembro de 2019, no contexto dos protestos do estallido social chileno, o coletivo artístico LASTESIS encena a performance participativa intitulada Un violador en tu camino na cidade de Valparaíso, que se repete cinco dias depois em Santiago, coincidindo com o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, e em 5 de dezembro de forma multitudinária diante do Estádio Nacional. A partir daí, a coreografia dessa performance, que aborda a violência sexual como problema político e sistêmico, denunciando a participação e a cumplicidade dos poderes institucionais e dos aparelhos do Estado, inicia um percurso internacional e massivo, repetindo-se e adaptando-se em distintos países da América Latina, Europa e Estados Unidos, como parte de um repertório de protestos e estratégias de visibilização que os movimentos feministas colocaram em prática em diferentes contextos e cenários.

Essas duas formas de manifestação se desdobraram no espaço público mobilizando toda uma arquitetura de imagens, símbolos e cores que se mostraram cruciais para a visibilização de suas demandas, para a construção de identidade, para o reconhecimento público e para o entrelaçamento com a memória coletiva de protesto social em ambos os países (Vacarezza, 2020).

E, embora essas formas de irrupção dos feminismos na arena pública tenham inaugurado modalidades inovadoras de ação política, é possível afirmar também que, tanto na Argentina quanto no Chile, as “marés” conseguiram mobilizar forças históricas provenientes do passado para recombiná-las com outras mais atuais (Vacarezza, 2025), inscrevendo-se em genealogias de temporalidades descontínuas. Mas, para compreendê-lo melhor, voltemos a fazer história recente, desta vez dando alguns passos adicionais para trás.

A adoção do lenço verde como símbolo ocorreu no XVIII Encontro Nacional de Mulheres, realizado na cidade de Rosário, em 2003.[1]A cor – escolhida por não estar previamente associada a nenhuma ideologia política em particular – serviu não apenas para gerar adesão à causa da legalização do aborto, mas também passou a desempenhar um papel importante na conformação de um sentido de comunidade entre todas as pessoas que a portavam.

Antes de que a “maré verde” tomasse as ruas na Argentina e as ações da Campanha alcançassem caráter massivo, esta última – seguindo a trilha das heranças – tomou emprestada uma estratégia de aparição no espaço público desenvolvida pelas Madres e Abuelas de Plaza de Mayo, quando, em maio de 2017, estas convocaram uma marcha em protesto contra a decisão da Corte Suprema popularmente conhecida como “2×1”, que implicava a redução das penas de condenados por crimes contra a humanidade cometidos durante a última ditadura cívico-militar. Naquela ocasião, as Mães pediram aos manifestantes que portassem lenços brancos ao redor do pescoço para, ao final da marcha, erguê-los ao ar em forma de protesto. Recordemos como, apenas nove meses depois dessa marcha – poética coincidência –, em fevereiro de 2018, a Campanha realiza seu primeiro pañuelazo e, a partir de então, a forma como os lenços haviam sido utilizados muda drasticamente quando passam a ser vistos amarrados em bolsas e mochilas, atados aos torsos nus durante as marchas, cobrindo o rosto ou prendendo o cabelo. Dentro e fora dos espaços específicos de protesto, esses retalhos de tecido começaram a funcionar como demonstração pública de adesão à causa da legalização do aborto e transformaram os discursos sociais em torno da prática e do estigma que até então recaía sobre ela.

No caso chileno, uma profusa tradição de mulheres que colocaram em jogo formas criativas de protesto abraçava aquelas que agora, sob capuzes coloridos, perucas, olhos vendados ou vestidas de luto ao ritmo da percussão, cantavam que “a culpa não era nossa”, mas de todo um sistema patriarcal que nos odeia e nos mata com a cumplicidade dos aparelhos do Estado. Durante os tempos de escuridão do regime pinochetista nascia o coletivo Mujeres por la Vida – conformado no início da década de 1980 por artistas, intelectuais e militantes políticas de procedências ideológicas extremamente diversas – com suas intervenções performáticas públicas, denominadas pelo próprio coletivo como “ações-relâmpago”, nas quais, de maneira pacífica e servindo-se muitas vezes do humor e da sátira, desempenharam um papel importante na resistência cultural contra a ditadura. O trabalho de Mujeres por la Vida constituiu um antecedente fundamental das práticas feministas performáticas no Chile e na América Latina. E, se falamos de práticas performáticas, resistência política e mulheres no Chile, não poderíamos deixar de mencionar La Cueca Sola, uma reinterpretação da dança nacional na qual as mulheres dançam sozinhas portando no peito o retrato do familiar desaparecido pela ditadura, manifestando a dor pela perda do ente querido. Apresentada pela primeira vez em 1978 pela Agrupación de Familiares de Detenidos Desaparecidos, ganhou grande visibilidade ao longo da década de 1980. Décadas depois, as encenações de Un violador en tu camino – como havia ocorrido com as interpretações de La Cueca Sola – tiveram grande impacto nacional e internacional. Ambas as ações, em distintas temporalidades, reconfiguraram as formas de protesto, denúncia e luto, transformando a dor em um afeto profundamente político (Fernández Osandon, 2024).

Quando as “marés feministas” na Argentina e no Chile irromperam no espaço público, ainda que transitassem pelas trilhas abertas por aquelas que vieram antes com suas formas de se fazer visíveis onde ninguém as esperava – os lenços das Madres e Abuelas de Plaza de Mayo e suas rondas das quintas-feiras, os Encontros Nacionais de Mulheres, as intervenções “relâmpago” de Mujeres por la Vida, ou as comoventes aparições de La Cueca Sola – passaram a constituir-se como espaços de encontro inéditos, experiências com uma outra-semelhante, com quem, no entanto, não se compartilhavam necessariamente filiações partidárias, culturais, nem mesmo geográficas ou etárias prévias àquele momento de aparição nas praças e ruas. Essas comunidades que nascem na própria ação do estar-juntas mostraram-se herdeiras e pioneiras ao mesmo tempo.

A ocupação das ruas pela “maré verde” durante 2018 e as encenações de Un violador en tu camino constituíram ações que buscavam romper com um continuum de violências sistêmicas contra as vidas e os corpos das mulheres, naturalizadas com a mesma força com que a vida impulsiona todos os processos automáticos. Sua aparição supôs a irrupção do não previsto que veio impugnar, com a palavra e o ato na praça pública, uma gramática da vergonha e do medo que nomeia essas violências como fatos isolados da esfera privada; e aquilo que era compreendido como problema individual passou a converter-se em problema político. Essas interrupções do inesperado foram se tecendo em uma trama de conversas e encontros inéditos que nos ensinaram que, embora a privacidade também se construa publicamente, essa transformação do privado não pode ocorrer pela via de indivíduos isolados, mas no marco de uma cena mediada pelo coletivo (Warner, 2013).

Assim, em virtude desses desdobramentos feministas, aquelas que deveriam chorar suas dores no recolhimento do espaço privado – onde não existiam em sentido político – emergiram contra as avassaladoras leis estatísticas para descobrir o poder de estar juntas, de serem vistas e de aparecer em e com a palavra, em e com o corpo. Foi necessário – como afirmam LASTESIS – habitar, ainda que por um breve lapso, espaços de enunciação historicamente masculinizados, negados a outras subjetividades, onde ouvir nossas vozes, nossas demandas, nossas denúncias e nossas ideias, para saber “que não éramos apenas nós, que não estávamos equivocadas, que não estávamos sozinhas” (Lastesis, 2021: 79).

A característica distintiva desse tipo de performances políticas – tal como entendemos os pañuelazos e as múltiplas encenações de Un violador en tu camino – é que produziram transformações nas participantes que deixaram marcas para além do momento de irrupção na praça pública. Essas formas de ação, constitutivamente frágeis e expostas à erosão no contato com a rua, demonstraram ao longo do tempo sua capacidade de deixar marcas (Vacarezza, 2025), ao mesmo tempo em que se constituíram como espaços nos quais quem participava começou a experimentar aquilo pelo que lutava.

Os desdobramentos performáticos desses novos feminismos, com seus símbolos e coreografias, transformaram-se, além disso, em uma espécie de ícones transnacionais, exemplos de uma compreensão da política que rompe com a retórica neoliberal do esforço individual e da autossuperação baseada nos corpos individuais, entendendo o valor do agir conjunto e à luz pública como base da ação política e da construção de um mundo em que ainda valha a pena viver.

Transbordando aquilo que qualquer aparato de governo, por meio de decretos, leis ou outros instrumentos das agendas técnicas da política administrativa, poderia processar, esses desdobramentos performáticos, por um lado, alteraram a distribuição da espacialidade marcada pela hegemonia masculina ao “invadir o público com demandas que interpelam a democracia a tornar-se mais igualitária” (Richard, 2018: 118) e, por outro, evidenciaram como um espaço político que não se deixa interpelar por estratégias criativas nos modos de aparição dos atores permanece constantemente constrangido pelo puramente operativo, recorrendo, para superá-lo, a práticas imaginativas a fim de ampliar e voltar a tecer as costuras de nosso mundo (Birulés, 2018).

Para além de vitórias e derrotas, de avanços e recuos, talvez o substancial das “marés” – o motivo pelo qual hoje as recordamos neste breve percurso – seja sua capacidade de erguer-se como acontecimentos de validade exemplar, não porque o que ali e então ocorreu possa ser simplesmente replicado, mas porque essas experiências, que durante um breve período foram plena realidade, tornam-se decisivas também para épocas em que uma experiência íntegra do político é negada. Nesse sentido, as “marés” abriram a possibilidade de deixar algo a partir do qual aquelas que vierem depois – as revoluções das filhas do amanhã – possam continuar construindo futuros vivíveis e desejáveis.

Nota

[1] É notório que a presença do lenço no espaço público como símbolo da cultura política argentina finca suas raízes décadas atrás, associado às Madres e Abuelas de Plaza de Mayo, quando, a partir de 1977, antes mesmo de assumirem um nome coletivo, começaram a se reconhecer umas às outras por aquele triângulo branco amarrado na cabeça. Desde então, o lenço branco permanece no imaginário coletivo como símbolo de luta por justiça, democracia e direitos humanos. Exigindo o aparecimento com vida de seus filhos sequestrados pela ditadura militar, as Mães protestavam cobrindo a cabeça com uma fralda de pano, ressignificando e politizando sua íntima conexão com eles. Essa capacidade de impacto político e emocional do símbolo foi fundamental para a Campanha no momento de escolher o lenço como emblema, pois ele permitia também estabelecer vínculos com toda uma tradição de manifestações lideradas por mulheres.

Referências

ARENDT, Hannah. (1995). De la historia a la acción. Madrid: Alianza.

BIRULÉS, Fina. (2018). Entreactos. Buenos Aires: Katz.

COLLIN, Françoiase. (1986). Un héritage sans testament. Cahiers du GRIF, n. 34, p. 81–92.

FERNÁNDEZ OSSANDÓN, Rosario. (2024). Pensar los nudos de las memorias y violencias en Chile. Escenas de la Cueca Sola. Pescadora de Perlas. Revista de estudios arendtianos, v. 3, n. 3, p. 79–98.

LASTESIS. (2021). Quemar el miedo. Barcelona: Planeta.

RICHARD, Nelly. (2018). La insurgencia feminista de mayo 2018. In: ZERÁN, F. (ed.). Mayo feminista. La rebelión contra el patriarcado. Santiago: LOM.

TRABUCCO ZERÁN, Alia. (2018). Imaginar. In: ZERÁN, Feride. (ed.). Mayo feminista. La rebelión contra el patriarcado. Santiago: LOM.

VACAREZZA, Nayla. (2020). La mano que vota. Visualidad y afectos en un símbolo transnacional del movimiento por el derecho al aborto en el Cono Sur. Sexualidad, Salud y Sociedad – Revista Latinoamericana, n. 35, p. 35–57.

VACAREZZA, Nayla. (2025). Las pasiones alegres del feminismo. Buenos Aires: Siglo XXI Editores.

WARNER, Michael. (2013). Público, públicos, contrapúblicos. México: Fondo de Cultura Económica.

Sobre a autora

Paula Lorén Soler é doutoranda em Filosofia na Universidade Nacional de Córdoba, com bolsa interna do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (CONICET), da Argentina. Sua pesquisa concentra-se em uma leitura das manifestações das marés feministas na Argentina e no Chile ao longo da última década, a partir do marco teórico fornecido pelo pensamento de Hannah Arendt.


En la nueva ronda de publicaciones de la Ocupación Mujeres, publicamos en la Columna Primeros Escritos un texto de Paula Lorén Soler, doctoranda en Filosofía en la Universidad Nacional de Córdoba. La autora analiza las “mareas feministas” en Argentina y Chile a partir de los “pañuelazos” por la legalización del aborto y de las performances del colectivo LASTESIS. Al recuperar la genealogía de símbolos y repertorios de protesta, muestra cómo estas intervenciones performáticas transformaron el dolor y el duelo en acción colectiva, reconfigurando el espacio público y el movimiento feminista. Así, las “mareas” son presentadas no solo como conquistas puntuales, sino como acontecimientos que redefinen el horizonte político y legan nuevas posibilidades a las generaciones futuras.

Para saber más sobre la cuarta edición de la Ocupación Mujeres, haga clic aquí. Otros textos ya publicados pueden consultarse aquí. Aprovechamos también para recordar que la Columna Primeros Escritos sigue abierta a contribuciones de estudiantes de posgrado.

¡Buena lectura y sigan acompañando nuestra intensa programación durante el fin de semana!

Una historia de madres, mujeres e hijas

Por Paula Lorén Soler (Universidade Nacional de Córdoba)

En 1986 Françoise Collin, en un breve texto publicado en Les Cahiers du GRIF bajo el título “Un héritage sans testament”, reflexionaba acerca del concepto de “transmisión” y su papel a la hora de construir una relación entre distintas generaciones de mujeres. A lo largo de sus páginas se entregaba a la tarea de mostrar por qué la transmisión, a diferencia de la historia, no es un movimiento de sentido único, sino que se trata de una operación bilateral en la que les corresponde a las nuevas determinar si desean la herencia y qué les interesa dentro de ella, y a las antiguas “les corresponde escuchar la petición, desviar su lenguaje hacia otro lenguaje, en un intercambio en el cual cada una, a la vez que se mantiene en lo que es y hace honor a su propia historia, se dirige a la otra y la escucha.” (Collin,1986: 82).

La historia de los movimientos feministas –que articulan un modo específico de producción histórica, más cercano a la idea de transmisión de la que hablaba Collin– puede narrarse a través del acontecer de una serie canónicamente aceptada de hechos cronológicos, pero podría también contarse a través del decurso de sus símbolos, de sus repertorios de protesta, de sus modos de despliegue en el espacio público, de cómo las mujeres se apropiaron de esa porción del mundo donde nadie las esperaba. Sea cual fuere la opción que elijamos nos veremos recorriendo un camino de despliegues y repliegues, de memorias entrecortadas por irrupciones, avances, esperas y resurgimientos, pero también de una imaginación “radical, porfiada y luminosa que ha permitido a las mujeres desbordar continuamente los estrechos márgenes de lo posible” (Trabucco Zeran, 2018: 159). Las acciones llevadas a cabo por una nueva ola feminista que se extendió a nivel mundial –Ni Una Menos, huelgas feministas, MeToo entre otros– y que encontró en América Latina un escenario de especial revitalización, convirtieron a estos movimientos en algo que pudo alcanzar fuerza suficiente para redibujar el mapa político de nuestro tiempo.

Hoy y aquí, dedicaremos unas palabras a lo que en la última década acordamos en llamar “mareas feministas”, con sus distintos colores y modulaciones, en Argentina y Chile desde dos intervenciones performáticas concretas, transitando a partir de ellas hacia adelante, hacia atrás y hacia los costados por ese camino no rectilíneo de “herencias sin testamento”, fracasos, logros, y –como le gustaba decir a Hannah Arendt (1995)– de acontecimientos que iluminan su propio pasado. 

Para ello, demos apenas un par de pasos hacia el pasado reciente. El 19 de febrero de 2018, dos semanas antes de que se presentara por séptima vez ante la Cámara de Diputados de la Nación Argentina el proyecto de Ley de Interrupción Voluntaria del Embarazo, miles de personas rodearon el edificio del Congreso en Buenos Aires mientras desplegaban al aire los pañuelos verdes que la Campaña Nacional por el Derecho al Aborto Legal, Seguro y Gratuito (en adelante, la Campaña), tomó como símbolo distintivo desde su nacimiento en 2005. Así fue cómo tuvo lugar el primer pañuelazo, inaugurando un proceso de ocupación masiva del espacio público en torno a la demanda de legalización del aborto –proceso que posteriormente sería conocido como “marea verde” – el cual constituyó un quiebre significativo en las modalidades de participación popular en el apoyo a esta reivindicación histórica del movimiento feminista. Los pañuelazos culminaron en las vigilias de los días 13 de junio y 8 de agosto de 2018 con cientos de miles de personas frente al Congreso y el Senado nacionales, mientras en sendos recintos se discutía la sanción de la Ley. Casi dos años después, el 20 de noviembre de 2019, en el marco de las protestas del estallido social chileno, el colectivo artístico LASTESIS pone en escena la performance participativa titulada Un violador en tu camino en la ciudad de Valparaíso, la cual se replica cinco días después en Santiago, coincidiendo con el Día Internacional de la Eliminación de la Violencia contra las Mujeres, y el 5 de diciembre de manera multitudinaria frente al Estadio Nacional. A partir de aquí la coreografía de esta performance que aborda la cuestión de la violencia sexual como problema político y sistémico, denunciando la participación y la complicidad de los poderes institucionales y aparatos del Estado, inicia un recorrido internacional y masivo, repitiendo y adaptándose en distintos países de Latinoamérica, Europa y Estados Unidos, como parte de un repertorio de protestas y visibilización que los movimientos feministas pusieron en marcha en distintos contextos y escenarios.

Estas dos formas de manifestación se desplegaron en el espacio público poniendo en juego toda una arquitectura de imágenes, símbolos y colores que resultaron cruciales para la visibilización de sus demandas, la construcción de identidad, reconocimiento público y entramado con la memoria colectiva de protesta social en ambos países (Vacarezza, 2020).

Y si bien estas formas de irrupción de los feminismos en la arena pública inauguran formas de acción política novedosas, es posible afirmar también que tanto en Argentina como en Chile las “mareas” consiguieron movilizar fuerzas históricas que provenían del pasado para recombinarlas con otras más actuales (Vacarezza, 2025), inscribiéndose en genealogías de temporalidades discontinuas. Pero para entenderlo mejor volvamos a hacer historia reciente, esta vez unos pocos pasos más hacia atrás.

La adopción del pañuelo verde como símbolo[2] tuvo lugar en el XVIII Encuentro Nacional de Mujeres celebrado en la ciudad de Rosario en el año 2003. El color –elegido por no estar asociado previamente con ninguna ideología política en particular– sirvió, no únicamente para generar una adhesión a la causa de la legalización del aborto, sino que también comenzó a jugar un importante papel a la hora de conformar un sentido de comunidad entre todas aquellas personas que lo portaban.

Antes de que la “marea verde”tomara las calles en Argentina y las acciones de la Campaña alcanzaran carácter masivo, esta última –siguiendo la senda de las herencias– tomó prestada una estrategia de aparición en el espacio público desarrollada por las Madres y Abuelas de plaza de Mayo, cuando en mayo del 2017 estas llaman a marchar en protesta por el fallo de la Corte Suprema popularmente conocido como “2×1”, el cual implicaba la reducción de las penas a condenados por crímenes de lesa humanidad cometidos durante la última dictadura cívico-militar. En aquella ocasión las Madres pidieron a los manifestantes portar pañuelos blancos alrededor de sus cuellos para, al final de la marcha, desplegarlos al aire en forma de protesta. Recordemos como apenas nueve meses después de esta marcha –poética coincidencia– en febrero de 2018, la Campaña realiza su primer pañuelazo y a partir de entonces la forma en la que los pañuelos habían sido utilizados cambia drásticamente cuando estos comienzan a verse anudados en bolsos y mochilas, atados en los torsos desnudos durante las marchas, cubriendo la cara, o sujetando el pelo. Dentro y fuera de los espacios específicos de protesta, esos retazos de tela comenzaron a funcionar como una muestra pública de adhesión a la causa por la legalización del aborto y transformaron los discursos sociales en torno a la práctica y el estigma que hasta entonces pesaba sobre ella.

En el caso chileno, una profusa tradición de mujeres que pusieron en juego formas creativas de protesta abrazaba a las que ahora bajo capuchas coloridas, pelucas, ojos vendados, o vestidas de luto al ritmo de la percusión, cantaban que “la culpa no era nuestra”, sino de todo un sistema patriarcal que nos odia y nos mata con la complicidad de los aparatos estatales. Durante los tiempos de oscuridad del régimen pinochetista nacía el colectivo Mujeres por la Vida –conformado a principios de la década de 1980 por artistas, intelectuales, y militantes políticas de procedencias ideológicas sumamente diversas– con sus intervenciones performativas públicas, denominadas por el propio colectivo como “acciones relámpago”, en las que de manera pacífica y sirviéndose en muchas ocasiones del humor y la sátira, jugaron un importante papel en la resistencia cultural contra la dictadura. El trabajo de Mujeres por la Vida supuso un antecedente clave de las prácticas feministas performáticas en Chile y América Latina. Y si de prácticas performáticas, resistencia política y mujeres en Chile hablamos, no podríamos dejar de mencionar La Cueca Sola, una reinterpretación de la danza nacional en la que las mujeres bailan solas portando en el pecho el retrato del familiar desaparecido por la dictadura, manifestando el dolor por la pérdida del ser querido. Presentada por primera vez en 1978 por parte de la Agrupación de Familiares de Detenidos Desaparecidos, cobró gran visibilidad a lo largo de la década de 1980. Décadas después, las puestas en escena de Un violador en tu camino –como hubiera sucedido con las interpretaciones de La Cueca Sola– tuvieron un gran impacto a nivel nacional e internacional. Ambas acciones, en distintas temporalidades, removieron las formas de protesta, denuncia y duelo, transformando el dolor en un afecto profundamente político (Fernández Osandon, 2024).

Cuando las “mareas feministas” en Argentina y Chile irrumpieron en el espacio público, si bien transitaban sobre las sendas abiertas por las que vinieron antes con sus formas de hacerse visibles donde nadie las esperaba –los pañuelos de las Madres y Abuelas de Plaza de Mayo y sus rondas de los jueves, los Encuentros Nacionales de Mujeres, las intervenciones “relámpago” de Mujeres por la Vida, o las sentidas apariciones de La Cueca Sola– comienzan a constituirse espacios de encuentro inéditos, experiencias con una otra-semejante, con quien sin embargo no se compartían necesariamente adscripciones ni partidarias, ni culturales, ni siquiera geográficas o etarias previas a ese momento de la aparición en las plazas y en las calles. Estas comunidades que nacen en la propia acción del estar-juntas se mostraron como herederas y pioneras al mismo tiempo.

La toma de las calles por parte de la “marea verde”durante 2018 y las puestas en escena de Un violador en tu camino constituyeron acciones que buscaban romper con un continuum de violencias sistémicas contra las vidas y los cuerpos de las mujeres, naturalizadas con la misma fuerza con la que la vida empuja todos los procesos automáticos. Su aparición supone la irrupción de lo no previsto que viene a impugnar, con la palabra y el acto en la plaza pública, una gramática de la vergüenza y el miedo que nombra estas violencias como hechos aislados de la esfera privada, y lo que era comprendido como un problema individual, pasa a convertirse en un problema político. Estas interrupciones de lo inesperado se fueron tramando en un tejido de conversaciones y de encuentros inéditos que nos enseñaron que, si bien la privacidad también se construye públicamente, dicha transformación de lo privado no puede darse de la mano de individuos aislados, sino en el marco de una escena mediada por lo colectivo (Warner, 2013). Así en virtud de estos despliegues feministas, quienes debían llorar sus dolores en la reclusión del espacio privado, donde no existían en un sentido político, emergieron contra las abrumadoras leyes estadísticas para descubrir el poder de estar juntas, de ser vistas y de aparecer en y con la palabra, en y con el cuerpo. Fue necesario –como afirman LASTESIS– habitar, aunque fuera por un breve lapso, espacios de enunciación históricamente masculinizados, negados a otras subjetividades, donde escuchar nuestras voces, nuestras demandas, nuestras denuncias, y nuestras ideas, para saber “que no éramos solo nosotras, que no estábamos equivocadas, que no estábamos solas” (Lastesis, 2021: 79).

La característica distintiva de este tipo de performances políticas –tal y como entendemos los pañuelazos y las múltiples puestas en escena de Un violador en tu camino– es que produjeron transformaciones en las participantes que dejaron huella más allá del momento de irrupción en la plaza pública. Estas formas de acción constitutivamente frágiles y expuestas a la erosión en contacto con la calle demostraron a lo largo del tiempo su capacidad para dejar huella (Vacarezza, 2025), a la vez que se erigieron en espacios en los que quienes participaban comenzaron a experimentar aquello por lo que luchaban.

Los despliegues performáticos de estos nuevos feminismos con sus símbolos y sus coreografías se transformaron, además, en una suerte de iconos transnacionales, ejemplos de una comprensión de la política que rompe con la retórica neoliberal del esfuerzo individual y la autosuperación basada en los cuerpos individuales, entendiendo el valor del actuar conjunto y a la luz pública como base de la acción política y de la construcción de un mundo en el que aún merezca la pena vivir.

Desbordando lo que cualquier aparato de gobierno mediante decretos, leyes u otros instrumentos de las agendas técnicas de la política administrativa hubiera podido procesar, estos despliegues performáticos, por una parte trastocaron el reparto de la espacialidad signado por la hegemonía masculina, al “invadir lo público con demandas que emplazan a la democracia a volverse más igualitaria” (Richard, 2018: 118), y por otra, pusieron de manifiesto cómo un espacio político que no se deje interpelar por estrategias creativas en los modos de aparición de los actores, se ve constantemente constreñido por lo puramente operativo, recurriendo para lograrlo a prácticas imaginativas con el fin de ensanchar y volver a tejer las costuras de nuestro mundo (Birulés, 2018).

Más allá de victorias y derrotas, de despliegues y repliegues, quizá lo sustantivo de las “mareas” –el motivo por el que hoy las recordamos en este breve recorrido– sea su capacidad de alzarse como acontecimientos de validez ejemplar, no porque aquello que allí y entonces ocurrió pueda replicarse, sino porque esas experiencias, que durante un breve período fueron plena realidad, resultan determinantes también para épocas en las que una experiencia íntegra de lo político es negada. En ese sentido, las “mareas” abrieron la posibilidad de dejar algo a partir de lo cual quienes vengan después –las revoluciones de las hijas del mañana– puedan seguir construyendo futuros vivibles y deseables.

Nota

[2] Es notorio que la presencia del pañuelo en el espacio público como símbolo de la cultura política argentina hunde sus raíces décadas atrás, asociado con Madres y Abuelas de Plaza de Mayo, cuando a partir de 1977, antes incluso de asumir un nombre colectivo, comienzan a reconocerse unas a otras por ese triángulo blanco anudado en la cabeza. Desde entonces el pañuelo blanco permanece en el imaginario colectivo como símbolo de lucha por la justicia, la democracia y los derechos humanos. Exigiendo la aparición con vida de sus hijos secuestrados por la dictadura militar, las Madres protestaban cubriendo su cabeza con un pañal de tela, resignificando y politizando su íntima conexión con ellos. Esta capacidad de impacto político y emocional del símbolo fue clave para la Campaña a la hora de elegir el pañuelo como emblema, pues este permitía además establecer lazos con toda una tradición de manifestaciones lideradas por mujeres.

Referencias

ARENDT, Hannah. (1995). De la historia a la acción. Madrid: Alianza.

BIRULÉS, Fina. (2018). Entreactos. Buenos Aires: Katz.

COLLIN, Françoiase. (1986). Un héritage sans testament. Cahiers du GRIF, n. 34, p. 81–92.

FERNÁNDEZ OSSANDÓN, Rosario. (2024). Pensar los nudos de las memorias y violencias en Chile. Escenas de la Cueca Sola. Pescadora de Perlas. Revista de estudios arendtianos, v. 3, n. 3, p. 79–98.

LASTESIS. (2021). Quemar el miedo. Barcelona: Planeta.

RICHARD, Nelly. (2018). La insurgencia feminista de mayo 2018. In: ZERÁN, F. (ed.). Mayo feminista. La rebelión contra el patriarcado. Santiago: LOM.

TRABUCCO ZERÁN, Alia. (2018). Imaginar. In: ZERÁN, Feride. (ed.). Mayo feminista. La rebelión contra el patriarcado. Santiago: LOM.

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Sobre la autora

Paula Lorén Soler es doctoranda en Filosofía en la Universidad Nacional de Córdoba con una beca interna del Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (CONICET) de Argentina. Su investigación se centra en una lectura de las manifestaciones de las mareas feministas en Argentina y Chile durante la última década a partir del marco teórico que le suministra el pensamiento de Hannah Arendt.