
Na nova rodada de postagens da Ocupação Mulheres, Flora Partenio (UNSAM) aborda as transformações do mundo do trabalho em plataformas digitais a partir da economia feminista, destacando como o enfraquecimento dos vínculos laborais, a gestão algorítmica e as narrativas do “empreendedorismo” aprofundam desigualdades de gênero no contexto latino-americano. Diante de reformas regressivas na América Latina, a autora reafirma a importância da organização coletiva e de uma agenda feminista de regulação e direitos.
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Transformações no mundo do trabalho em plataformas: um olhar a partir da economia feminista
Por Flora Partenio (UNSAM)
A expansão de distintas modalidades de trabalho mediadas pela tecnologia e pela economia de plataformas colocou novos desafios para a garantia de direitos trabalhistas e de proteção social. O contexto da crise sanitária atravessada durante a pandemia da Covid-19 fortaleceu o setor das empresas de plataformas e o lugar estratégico das grandes corporações tecnológicas na disputa global. Dados e patentes figuram entre os bens mais valiosos que, juntamente com o controle do tempo, essas plataformas mantêm sob seu domínio. Tais desafios se intensificaram com o desenvolvimento massivo de sistemas de inteligência artificial (IA). Contudo, essas transformações não incidiram apenas sobre o mundo do trabalho: reconfiguraram também dimensões financeiras, comunicacionais, políticas e ecológicas.
Há tempos pesquisadorxs e ativistas vêm advertindo sobre os riscos da deslaboralização do trabalho nas plataformas digitais – tendência crescente caracterizada pela ruptura ou modificação substancial do contrato de trabalho tradicional, pela configuração de trabalhos transfronteiriços e transregionais (Cravo, 2025), por arranjos contratuais complexos, pela individualização das relações laborais, pela ênfase no trabalho dito “independente” ou “por conta própria” e pelo desconhecimento ou contorno das legislações trabalhistas. As narrativas que exaltam a “economia colaborativa” ou o “espírito empreendedor” tornaram o cenário ainda mais complexo, minando as demandas por regulação fiscal das empresas e enfraquecendo as reivindicações por melhores condições de trabalho e proteção social para xs trabalhadorxs que dependem desses setores como fonte de renda.
Coloca-se, então, a questão de como construir uma leitura dessas transformações aceleradas do capitalismo contemporâneo, atentando especialmente para as encruzilhadas e contradições do mundo do trabalho latino-americano.[1] De que modo se renovam os debates sobre informalidade laboral e sobre as fronteiras entre produção econômica e reprodução social? A partir de quais ferramentas fornecidas pelas economias feministas podemos contornar o tecno-otimismo, compreender em profundidade tais transformações e delinear uma agenda que recupere aprendizados e fortaleça as estratégias elaboradas pelxs trabalhadorxs?
Ao observar o ecossistema digital a partir da economia política feminista, constata-se que o efeito do lobby exercido pelas empresas de plataformas digitais tem se manifestado de maneira bastante distinta no Norte e no Sul Globais – e de forma especialmente severa – sobre mulheres, pessoas LGBT+, migrantes e populações racializadas.
Apesar do otimismo inicial, a plataformização não gerou oportunidades de trabalho capazes de enfrentar as limitações historicamente impostas à participação efetiva das mulheres na economia. Ao contrário, reforçou a discriminação, a segregação ocupacional por gênero, as diferenças salariais entre homens e mulheres, a discriminação contra pessoas LGBT+ e o risco de assédio e violência no trabalho. Estudos realizados em diferentes contextos demonstram de modo inequívoco que desigualdades interseccionais preexistentes – baseadas em gênero, raça/etnia, classe e condição migratória – são reproduzidas nos arranjos de trabalho em plataformas sob demanda (Fairwork, 2023; Ganapathy et al., 2025). Mesmo nas novas modalidades de trabalho online em plataformas baseadas na web (crowdwork, freelance), trabalhadoras – sobretudo dos países do Sul Global – denunciam discriminação por gênero e nacionalidade, que se traduz na exclusão de oportunidades de trabalho, além de uma crescente brecha salarial de gênero e entre trabalhadorxs do Sul e do Norte.
No campo dos serviços e vendas via web, observa-se também um setor que cresceu desde a pandemia: pessoas sem formação profissional formal que comercializam bens e serviços por meio das possibilidades oferecidas pelos ambientes virtuais. Trata-se tanto de produtos de fabricação própria (podendo ou não ser artesanais) quanto de revenda online por meio de mecanismos de exposição como Facebook, Instagram e outras redes sociais. É relevante notar que uma parcela significativa é composta por mulheres – majoritariamente chefes de lares monoparentais – que se reconheçam ou não como “comerciantes”, mas que utilizam a internet como vitrine capaz de promover seus produtos e ampliar vendas. As estruturas que sustentam essas vendas online são precárias: os circuitos de atendimento ao usuário-consumidor, despacho e entrega apoiam-se em etapas mais artesanais, muitas vezes sustentadas por alianças entre mulheres da mesma família ou do bairro. Para muitas delas, essa foi a única alternativa durante a pandemia para manter seus lares diante da queda ou perda de rendimentos oriundos de trabalhos informais (Scasserra & Partenio, 2021), e estudos recentes indicam que essas estratégias persistem no contexto posterior. Com a expansão das plataformas de comércio eletrônico, diversas funções articulam-se no mesmo ecossistema digital: vender, receber pagamentos e endividar-se passam a ocorrer em um único clique.
As ambiguidades quanto à situação laboral de pessoas que utilizam plataformas baseadas em localização (transporte, delivery, serviços domiciliares, microtarefas locais) também acentuam a precariedade de gênero. Esse quadro agrava-se diante do desenho de ambientes virtuais de trabalho que permanecem cegos ao gênero e que se articulam com desigualdades preexistentes no acesso à educação, às finanças, à conectividade e às competências digitais. Outro ponto-chave do trabalho em plataformas baseadas em localização refere-se à necessidade de as mulheres articularem suas jornadas com a disponibilidade de serviços públicos de cuidado, uma vez que frequentemente é incompatível coordenar a atividade laboral em turnos vespertinos e noturnos – como ocorre no setor de entregas e transporte de passageiros –, exigindo arranjos de cuidado instáveis, apoiados em redes familiares ou no setor privado.
O caso das plataformas digitais que operam na intermediação de serviços de cuidado e/ou de tarefas domésticas remuneradas apresenta-se como um dos setores em que essas múltiplas desigualdades se expressam com maior nitidez. Sua expansão sob o formato de aplicativos que oferecem serviços de cuidado para crianças, pessoas idosas e pessoas com deficiência ganhou terreno durante a pandemia em distintas cidades da América Latina, ainda que sua existência possa ser rastreada após a crise financeira de 2008-2009 no Norte Global. Desde o início, sua composição foi marcada pela feminização.
A expansão dos ecossistemas digitais transformou algumas dessas plataformas, que passaram a operar tanto na intermediação laboral quanto na oferta de serviços financeiros voltados às mulheres. As dinâmicas de endividamento cresceram, gerando espirais de obrigações entre o trabalho realizado e o pagamento de créditos contraídos junto à própria plataforma. Na tentativa de preservar uma boa reputação no aplicativo (App), trabalhadoras relatavam que buscavam ampliar sua carga horária para quitar o valor devido: “vivo trabalhando para pagar o crédito que fiz”. Essa extensão da jornada não é um dado menor, sobretudo considerando que uma proporção significativa combina o trabalho em plataformas com outros “bicos” e atividades informais para complementar a renda. Essa situação não está distante daquela enfrentada por motoristas e entregadores, que recorrem aos sistemas de crédito das próprias plataformas para adquirir automóveis ou motocicletas parceladas.
Para as trabalhadoras que atuam nessas plataformas, a avaliação como “boa cuidadora” é substituída por mecanismos de gestão algorítmica que qualificam de forma unidirecional o trabalho realizado. Por meio desses dispositivos, evita-se a avaliação inversa sobre o desempenho dxs empregadorxs, inclusive nos casos de assédio e violência laboral delimitados pela Convenção 190 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Em um setor como o emprego doméstico, historicamente marcado pela desproteção, o registro por meio dessas plataformas pode operar como promessa de formalização. Entretanto, nem todas exigem vínculo formal, e em muitos casos o pagamento bancarizado não se traduz no reconhecimento de uma relação de emprego. A fragilidade dos marcos jurídicos – sobretudo em países do Sul Global – constitui um aspecto central explorado pelas empresas de plataforma. Um dos desafios, nesse contexto, é a construção de regulações protetivas que impeçam que as negociações fiquem restritas ao âmbito privado e às determinações unilaterais das empresas.
No que se refere à possibilidade de planejar a jornada de trabalho e a vida familiar, a opinião consultiva da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que se pronunciou em agosto de 2025 sobre o direito ao cuidado, representa um passo fundamental para revitalizar iniciativas que garantam o cuidado como trabalho e como direito – assim como os debates em curso no âmbito da discussão de uma norma internacional da OIT para o setor de plataformas. Contudo, o avanço de programas de austeridade, o desfinanciamento de serviços públicos e os retrocessos em sistemas integrais de cuidado e políticas de igualdade de gênero tornam o cenário regional ainda mais adverso para xs trabalhadorxs em geral e, particularmente, para mulheres e pessoas LGBT+.
A persistência da organização coletiva
A expansão dessas modalidades laborais desprotegidas coloca em risco duas dimensões sensíveis para as organizações sindicais: por um lado, a capacidade coletiva de negociação frente aos empregadores; por outro, a garantia de níveis mínimos de proteção para modalidades atípicas e para os chamados “falsos autônomos”.[2] A sindicalização enfrenta obstáculos tanto nas modalidades de microtarefas e trabalho remoto quanto nas plataformas baseadas em localização, especialmente quando se trata de construir solidariedades entre pessoas que trabalham isoladamente em seus lares, conectadas por softwares de gestão ou redes sociais. As empresas de plataforma têm mobilizado múltiplas estratégias para desincentivar a organização coletiva – sobretudo em espaços liderados por mulheres – recorrendo à desinformação, à vigilância digital e à disseminação do medo.[3] Ademais, por meio dessas modalidades laborais, intensificaram-se formas de violência de gênero mediadas pela tecnologia.
Nosso interesse em explorar os efeitos do modelo de negócios dessas plataformas remonta a diálogos mantidos, antes da pandemia, com ativistas de direitos digitais e sindicatos. Junto com Sofía Scasserra, interrogávamo-nos sobre os desafios e estratégias de articulação da agenda feminista nos sindicatos diante da crescente incorporação de mulheres em postos mediados por tecnologias que permitem reconfigurar tarefas e responsabilidades no espaço doméstico ou reforçar os trabalhos de cuidado via plataformas. De certo modo, retomávamos o que Ursula Huws (2019) denominava “o incômodo do trabalho doméstico”, agora atravessado por novas formas de digitalização e mercantilização que mantêm inalterada a divisão sexual do trabalho.
Questionávamos, então, os riscos que o trabalho remoto e a prestação de serviços via web colocavam para a organização e representação das mulheres nas estruturas sindicais (Partenio & Scasserra, 2019). Ao mesmo tempo, enfatizávamos a importância de uma agenda feminista que debatesse os bens comuns de dados, sua proteção e governança – dados que produzimos cotidianamente de forma individual e coletiva (Scasserra & Partenio, 2021). Mobilizadas pelo 8M de 2020, afirmávamos que “todo trabalho que gera dados deve estar vinculado a direitos digitais”. Durante a pandemia, os espaços de articulação entre feminismo e sindicalismo incorporaram debates sobre o direito à conexão, o controle do tempo e a crise dos cuidados.
As paradoxais condições do trabalho em plataformas tornaram-se particularmente evidentes: entregadorxs foram considerados “essenciais”, mas seus salários e condições laborais não foram priorizados. Ainda assim, a pandemia abriu debates sobre a regulação do teletrabalho e sobre regimes especiais de proteção para o trabalho em plataformas. Em alguns setores, organizaram-se paralisações, greves e “apagões”; mulheres persistiram, organizaram-se e lideraram muitas dessas ações. Em certos casos, tais mobilizações resultaram em avanços normativos; em outros, a agenda favorável axs trabalhadorxs foi bloqueada. A Argentina foi palco de ambos os movimentos: lei do teletrabalho, sim; regulação das plataformas, não.
Que outras perguntas se perderam no caminho? Que debates foram encerrados no período pós-pandêmico? Este balanço não pretende enumerar preocupações nem reiterar fórmulas do passado. À medida que avançamos rumo ao 8M de 2026, interrogamo-nos: como resituar essas proclamas e paradoxos quando o campo político se inclinou tão fortemente? Enquanto alguns países da região debatem a redução da jornada de trabalho e a regulação das plataformas digitais, em outros a situação é marcadamente regressiva. Casos como os de México e Brasil evidenciam processos de reconhecimento da relação laboral subordinada entre plataformas e trabalhadorxs. Já a Argentina atravessa uma reforma acelerada, impulsionada pelo governo de Javier Milei, que amplia a jornada de trabalho, fragiliza o sistema de seguridade social, restringe o direito de greve, classifica como “independentes” xs trabalhadorxs de plataformas e desorganiza a organização social do cuidado.
Quais são as margens de ação em um cenário regional que se polarizou aceleradamente desde a pandemia, com o avanço de reformas trabalhistas promovidas por governos ultradireitistas e ultraconservadores? Como articular diálogos sobre condições de trabalho a partir de posições distintas enquanto trabalhadoras? Que alianças ainda impensadas precisamos construir? Como recuperar o que foi perdido – em um projeto de lei arquivado, em um debate silenciado, em um direito esvaziado? Como recolocar em pauta a discussão sobre o uso do tempo?
Talvez parte das respostas resida em persistir na organização coletiva.
Notas
[1] Retomando a expressão do livro de Lourdes Benería e Martha Roldán, Las encrucijadas de clase y género. Trabajo a domicilio, subcontratación y dinámica de la unidad doméstica en la ciudad de México, publicado em 1992.
[2] Ver o documento elaborado pelas trabalhadoras de plataformas na América Latina com 5 chaves para um Convênio Internacional sobre Plataformas Digitais com enfoque de gênero, México, 2023.
[3] Informe Unidas. Red de mujeres por el trabajo Justo, Oxfam México/ProDESC, 2025.
Referências
CRAVO, T. (2025). Encuesta sobre trabajadores en plataformas digitales basadas en la web. Nuevos datos para la región de América Latina y el Caribe. Lima: OIT.
GANAPATHY, Anuradha & CHAMI, Nandini & AGARWAL, Sonakshi. (2025). The Unbearable Lightness of Being a Gig Worker. Analyzing value creation in platformized labor relations in India through the prism of social reproduction theory. Bangalore: IT for Change, jan.
HUWS, Ursula. (2019). The Hassle of Housework: digitalisation and the commodification of domestic labour. Feminist Review, v. 123, n. 1, p. 8-23.
IT FOR CHANGE & FRIEDRICH-EBERT-STIFTUNG. (2025). Pathways to Gender Equality in the Platform Economy: a policy agenda for Beijing+30 and beyond. Bangalore.
FAIRWORK. (2023). Gender and Platform Work: beyond techno solutionism. Oxford, United Kingdom; Berlin, Germany.
PARTENIO, Flora. & SCASSERRA, Sofia. (2019). Feminismos y sindicalismos frente a las nuevas tecnologías: estrategias, articulaciones y desafíos. Buenos Aires (mimeo).
SCASSERRA, Sofia. & PARTENIO, Flora. (2021). Precarización del trabajo y estrategias de trabajadoras en plataformas digitales: trabajo desde el hogar, organización sindical y disputa por derechos en el contexto de la pandemia del Covid-19. Sociologias, v. 23, n. 57.
Sobre a autora
Flora Partenio é Doutora pela Universidade de Buenos Aires em Ciências Sociais. É professora e pesquisadora no Centro de Estudos da Sociedade Digital da Escola Interdisciplinar de Altos Estudos Sociais da Universidade Nacional de San Martín. Integra a rede DAWN e a AAIHMEG.
En la nueva ronda de publicaciones de la Ocupación Mujeres, Flora Partenio (UNSAM) analiza las transformaciones del mundo del trabajo en plataformas digitales desde la economía feminista, destacando cómo el debilitamiento de los vínculos laborales, la gestión algorítmica y las narrativas del “emprendedurismo” profundizan las desigualdades de género en el contexto latinoamericano. Frente a reformas regresivas en América Latina, la autora reafirma la importancia de la organización colectiva y de una agenda feminista de regulación y derechos.
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Transformaciones en el mundo del trabajo de plataformas: una mirada desde la economía feminista
Por Flora Partenio (UNSAM)
La expansión de distintas modalidades de trabajo mediadas por la tecnología y la economía de plataforma ha planteado nuevos desafíos para garantizar derechos laborales y protección social. El contexto de la crisis sanitaria atravesada durante la pandemia de Covid-19 fortaleció el sector de empresas de plataformas y el lugar estratégico de las grandes corporaciones tecnológicas en la disputa global. Datos, y patentes, son algunos de los bienes más preciados que, junto con el control del tiempo, estas plataformas mantienen bajo su dominio. Estos desafíos se incrementaron con el desarrollo masivo de sistemas de inteligencia artificial (IA). Pero esto no sólo transformó el mundo del trabajo, también reconfiguró otras dimensiones como las financieras, comunicacionales, políticas y ecológicas.
Desde hace tiempo, investigadores y activistas han advertido sobre los riesgos de la deslaboralización del trabajo en las plataformas digitales, una tendencia creciente que se caracteriza por la ruptura o modificación total del contrato laboral tradicional, la configuración del trabajo transfronterizo y transregional (Cravo, 2025), los arreglos contractuales complejos, la individualización de las relaciones laborales, el énfasis en el trabajo denominado “independiente” o “por cuenta propia” y el desconocimiento de las leyes laborales. Las narrativas que alaban la “economía colaborativa” o el “espíritu emprendedor” han complicado aún más el escenario, socavando las demandas de regulaciones fiscales para las empresas, así como la posibilidad de demandar por mejores condiciones laborales y protecciones sociales para lxs trabajadorxs que dependen de estos sectores para obtener ingresos.
Ahora bien, cómo construimos una lectura de estas transformaciones veloces del capitalismo contemporáneo, atendiendo con particular interés las encrucijadas y contradicciones del mundo del trabajo latinoamericano.[4] ¿De qué modo se renuevan los debates por la informalidad laboral y las fronteras entre la producción económica y la reproducción social? Desde qué herramientas provistas por las economías feministas podemos sortear el tecno-optimismo, comprender de manera profunda dichas transformaciones y delinear una hoja de ruta que recupere los aprendizajes y contribuya con las estrategias que elaboran lxs trabajadorxs.
Al mirar el ecosistema digital desde la economía política feminista, se ha podido constatar que el efecto del lobby impuesto por las empresas de plataformas digitales se ha manifestado de forma muy diferente en el Norte y en el Sur Global –y de forma bastante severa– para las mujeres, las personas LGBT+, migrantes y las poblaciones racializadas.
A pesar del optimismo inicial, la plataformización no ha generado oportunidades de trabajo que aborden las limitaciones tradicionales a la participación efectiva de las mujeres en la economía. Por el contrario, han reforzado la discriminación, la segregación ocupacional por razón de género, las diferencias salariales entre varones y mujeres, la discriminación a personas LGBT+ y el riesgo de acoso y violencia laboral. Los estudios realizados en distintas latitudes demuestran inequívocamente que las desigualdades interseccionales existentes basadas en el género, la raza/etnia, la clase y la condición migrante se reproducen en los acuerdos de trabajo en plataformas bajo demanda (Fairwork, 2023; Ganapathy et al., 2025). Incluso en las nuevas modalidades de trabajo en línea de las plataformas basadas en la web (crowdwork, freelance) las trabajadoras, especialmente de los países del Sur global, denuncian la discriminación por motivos de género y nacionalidad, que se traduce en la exclusión de las oportunidades de trabajo, además de una brecha salarial de género cada vez mayor, y entre lxs trabajadorxs del Sur y del Norte.
Dentro de los servicios y ventas vía web también se encuentra un sector que ha crecido desde la pandemia, se trata de personas sin formación profesional que venden bienes y servicios a través de las posibilidades que les ofrecen los entornos virtuales. Se trata de productos de fabricación propia (puede o no ser artesanal) y de reventa online a través de motores de exposición como Facebook e Instagram y redes sociales. Es interesante mencionar que un porcentaje importante está representado por mujeres –en su mayoría de hogares monoparentales–, que puede reconocerse como “comerciantes” o no, pero todas utilizan internet como una vidriera a la calle capaz de promocionar sus productos a fin de lograr más exposición y nivel de ventas. Los andamiajes que sostienen estas ventas online son precarios, los circuitos de respuesta con el usuario-consumidor, el despacho y entrega se sostienen a través de fases más artesanales, y muchas veces es asumido por alianzas de mujeres de la misma familia o del barrio. Para muchas de ellas, esta ha sido la única salida en el marco de la pandemia para sostener sus hogares frente a la caída o pérdida de ingresos de trabajos informales (Scasserra & Partenio, 2021) y los recientes muestran que se sostienen en el contexto posterior. Con la expansión de las plataformas de comercio electrónico, una serie de funciones se enlazan en el mismo ecosistema digital: vender, cobrar y endeudarse se hace en un solo click.
Las ambigüedades sobre la situación laboral de las personas que usan plataformas basadas en la ubicación (transporte, delivery, servicios al hogar, microtareas locales) también exacerban la precariedad de género. A su vez, este panorama se ha agravado por el diseño de entornos de trabajo virtuales que permanecen ciegos al género y que se combinan con las brechas de género preexistentes en los logros educativos, las finanzas, el acceso a la conectividad y las habilidades digitales. Otro de los puntos clave del trabajo de plataformas basadas en la ubicación, es que las mujeres se ven obligadas a combinar las franjas horarias donde pueden disponer de servicios públicos de cuidados, ya que tiende a ser incompatible la coordinación con jornadas laborales en turnos tarde-noche (reparto, transporte de pasajeros), o bien deben sostener arreglos de cuidados más inestables con redes familiares y en el sector privado.
El caso de las plataformas digitales que operan en la intermediación de servicios de cuidado y/o de tareas domésticas remuneradas, se presenta como uno de los sectores donde se expresan estas múltiples desigualdades. Su expansión bajo el formato de aplicaciones que brindan servicios de cuidado para niñxs, personas mayores y personas con discapacidad, ha ganado terreno durante la pandemia en distintas ciudades de Latinoamérica, aunque su existencia pueda rastrearse luego de la crisis financiera del 2008-2009 en el Norte. Desde su inicio, la composición estuvo caracterizada por la feminización.
La expansión de los ecosistemas digitales ha transformado algunas de estas plataformas, operando tanto en la intermediación laboral como en la oferta de servicios financieros para las mujeres. Las dinámicas de endeudamiento han crecido, generando espirales de obligaciones entre el trabajo y el pago de créditos para la misma plataforma. Tratando de preservar la buena reputación en la aplicación (App), las trabajadoras comentaban que trataban de trabajar más horas para devolver la suma adeudada: “vivo trabajando para pagar el crédito que saqué”. Esta extensión de la jornada no es un dato menor, considerando que una proporción importante combina el trabajo en las plataformas con otros “rebusques” y “changas” del sector informal para generar ingresos. Esta situación no se encuentra distante de la que atraviesan choferes y repartidores, que deben recurrir al sistema de créditos de las plataformas para acceder a un automóvil o motocicleta en cuotas.
Para las trabajadoras que se desempeñan en estas plataformas, la evaluación como “buena cuidadora” es sustituida por la gestión algorítmica que califican de manera unidireccional el trabajo realizado. A partir de estos mecanismos se evita la evaluación inversa sobre el desempeño de lxs empleadorxs, incluso en los casos de acoso y violencia laboral delimitados por el Convenio 190 de la Organización Internacional del Trabajo (OIT). En un sector como el empleo de hogar, caracterizado por la desprotección laboral, la registración a través de estas plataformas puede operar como una promesa. No todas las plataformas exigen la formalización laboral y en muchos casos el pago de manera bancarizada no se traduce en el reconocimiento de un vínculo laboral. La debilidad de los marcos jurídicos –principalmente en países del Sur-global– es un aspecto clave que aprovechan las empresas de plataforma. En este caso, uno de los desafíos es la necesidad de contar con regulaciones protectoras donde las negociaciones no queden libradas al terreno privado y a las determinaciones de las empresas de plataformas.
En relación con la posibilidad de planificar la jornada laboral y la vida familiar, la opinión consultiva de la Corte Interamericana de Derechos Humanos, que se pronunció en agosto de 2025 sobre el derecho al cuidado, es un paso fundamental para revitalizar las iniciativas que garanticen el cuidado como trabajo y como derecho. Al igual que los debates que se vienen dando en el marco de la discusión de una norma internacional de la OIT para el sector de plataformas. Sin embargo, la situación que atraviesa la región con el avance de programas de austeridad y desinversión de servicios públicos, e incluso el retroceso en materia de sistemas integrales de cuidado o el desbaratamiento de políticas de igualdad de género, complica el tablero para lxs trabajadorxs en general y para las mujeres y colectivos de personas LGBT+ en particular.
La persistencia de la organización colectiva
La expansión de estas modalidades laborales sin protección pone en riesgo dos cuestiones sensibles para las organizaciones sindicales: por un lado, la capacidad colectiva de negociación frente a los empleadores. Por otro, la garantía de niveles básicos de protección laboral para todas estas modalidades atípicas y para los casos de los llamados “falsos autónomos”.[5] La sindicalización se dificulta tanto en las modalidades de microtareas y trabajo remoto como en las enmarcadas en plataformas basadas en la ubicación, cuando se trata de tejer solidaridades y construir demandas con quienes trabajan desde su casa, conectadas a través de software de gestión o de una red social. Las empresas de plataforma vienen utilizando todo tipo de tácticas para desincentivar la organización colectiva, sobre todo en espacios liderados por mujeres, donde se apela a la desinformación, la vigilancia digital y la generación de miedo.[6] Incluso, a través de estas modalidades laborales, se han intensificado las formas de violencia de género mediadas por la tecnología.
Nuestro interés por explorar los efectos del modelo de negocios de estas plataformas se remonta a una serie de diálogos con activistas por los derechos digitales y sindicatos, que tuvimos antes de la pandemia. Junto a Sofía Scasserra nos preguntábamos por los desafíos y estrategias de articulación de la agenda feminista en los sindicatos frente a la incorporación creciente de las trabajadoras en puestos de trabajo mediados por tecnologías que permiten re-situar las tareas y responsabilidades laborales en los hogares o bien reforzar los trabajos de cuidados vía plataformas. De alguna manera, volvíamos a revisar lo que Ursula Huws (2019) llamaba “el fastidio del trabajo doméstico” a través de las nuevas formas de digitalización y mercantilización que dejaban inalterable la división sexual del trabajo.
En ese entonces, nos preguntamos por los riesgos que significaba el empleo remoto y la provisión de servicios vía web para la organización y representación de las mujeres en las estructuras sindicales (Partenio & Scasserra, 2019). Asimismo, recuperábamos la importancia de una agenda feminista que debata sobre los bienes comunes de datos, la protección y potestad de los datos que generamos a diario de manera individual o colectiva (Scasserra & Partenio, 2021). Movilizadas por el 8M de 2020, coincidimos en proclamar que “todo trabajo que genere datos debe estar vinculado a derechos digitales”. Durante la pandemia los espacios donde se articularon feminismo y sindicalismo incluyeron debates sobre el derecho a la conexión, el control del tiempo y la crisis de cuidados. Las paradojas del trabajo en plataformas se hicieron especialmente evidentes porque las trabajadoras y los trabajadores de delivery fueron considerados “esenciales”, pero sus salarios y condiciones laborales no fueron prioritarios. A pesar de eso, el contexto de la pandemia permitió abrir debates para regular el teletrabajo y un régimen especial de protección al trabajo de plataformas. En ciertos sectores de plataformas se organizaron paros, huelgas y apagones; las mujeres persistieron, se organizaron y lideraron muchas de esas acciones. En algunos casos, estos problemas tomaron dominio público y se transformaron en avances normativos, en otros la discusión a favor de lxs trabajadores se clausuró. Argentina fue uno de los países donde se manifestaron ambos movimientos: Ley de teletrabajo sí, regulación de plataformas no. ¿Qué otras preguntas perdimos en el camino? ¿qué debates se clausuraron en la postpandemia?
Este recuento no busca enumerar preocupaciones ni fórmulas del pasado. Mientras caminamos al 8M de 2026 nos preguntamos ¿cómo volvemos a resituar estas proclamas y paradojas cuando la cancha se ha inclinado tanto? Mientras algunos países de la región debaten y legislan a favor de la reducción de la jornada laboral y la regulación de las plataformas digitales, en otros la situación es fuertemente regresiva. Casos como los de México y Brasil, permiten visualizar procesos de discusión sobre el reconocimiento efectivo de una relación laboral subordinada entre plataformas y trabajadorxs. Argentina, por el contrario, atraviesa un debate exprés de una reforma impuesta por el gobierno de Milei que extiende la jornada laboral, destruye el sistema de seguridad social, prohíbe el derecho a huelga, determina como “independientes” a quienes están en las plataformas y desordena la organización social del cuidado.
¿Cuáles son los márgenes de acción en un escenario regional, que se polarizó de manera acelerada desde la pandemia, con la avanzada de reformas laborales en manos de gobiernos de ultraderecha y ultraconservadores? ¿Cómo podemos articular nuestros diálogos sobre las condiciones laborales, considerando estas diferencias y nuestros distintos puntos de vista como trabajadoras? ¿Qué alianzas aún impensadas es preciso construir? ¿Cómo recuperamos las cosas que perdimos en el fuego, en un proyecto de ley encajonado, en un debate olvidado? ¿Cómo recobramos la discusión por el uso del tiempo?
Tal vez, parte de las respuestas sean persistir en la organización colectiva.
Notas
[4] Retomando la expresión del libro de Lourdes Benería y Martha Roldán Las encrucijadas de clase y género. Trabajo a domicilio, subcontratación y dinámica de la unidad doméstica en la ciudad de México, publicado en 1992.
[5] Ver Documento elaborado por las trabajadoras de plataformas en Latinoamérica con 5 claves para un Convenio Internacional en Plataformas Digitales con enfoque de género, México, 2023.
[6] Informe Unidas. Red de mujeres por el trabajo Justo, Oxfam México/ProDESC, 2025.
Referencias
CRAVO, T. (2025). Encuesta sobre trabajadores en plataformas digitales basadas en la web. Nuevos datos para la región de América Latina y el Caribe. Lima: OIT.
GANAPATHY, Anuradha & CHAMI, Nandini & AGARWAL, Sonakshi. (2025). The Unbearable Lightness of Being a Gig Worker. Analyzing value creation in platformized labor relations in India through the prism of social reproduction theory. Bangalore: IT for Change, jan.
HUWS, Ursula. (2019). The Hassle of Housework: digitalisation and the commodification of domestic labour. Feminist Review, v. 123, n. 1, p. 8-23.
IT FOR CHANGE & FRIEDRICH-EBERT-STIFTUNG. (2025). Pathways to Gender Equality in the Platform Economy: a policy agenda for Beijing+30 and beyond. Bangalore.
FAIRWORK. (2023). Gender and Platform Work: beyond techno solutionism. Oxford, United Kingdom; Berlin, Germany.
PARTENIO, Flora. & SCASSERRA, Sofia. (2019). Feminismos y sindicalismos frente a las nuevas tecnologías: estrategias, articulaciones y desafíos. Buenos Aires (mimeo).
SCASSERRA, Sofia. & PARTENIO, Flora. (2021). Precarización del trabajo y estrategias de trabajadoras en plataformas digitales: trabajo desde el hogar, organización sindical y disputa por derechos en el contexto de la pandemia del Covid-19. Sociologias, v. 23, n. 57.
Sobre la autora
Flora Partenio es Doctora por la Universidad de Buenos Aires con mención en Ciencias Sociales. Profesora e investigadora en el Centro de Estudios de la Sociedad Digital de la Escuela Interdisciplinaria de Altos Estudios Sociales de la Universidad Nacional de San Martín. Integra la red DAWN y la AAIHMEG.
