
Nos aproximando do 8M, damos início à quarta edição da Ocupação Mulheres da BVPS. A edição deste ano, com curadoria de Claudia Bacci (IEALC-UBA) e Caroline Tresoldi (PPGSA/UFRJ), tem como eixo central os debates e as experiências de mulheres e feministas na América Latina.
Na primeira rodada de postagens do dia, trazemos ensaio de Nayla Luz Vacarezza (IEALC-UBA), que analisa a ofensiva conservadora contra o lenço verde na Argentina sob o governo de Javier Milei. A partir de um episódio recente em que o símbolo da Campanha pelo Direito ao Aborto foi exibido como “prova” de terrorismo, a autora investiga o que essa criminalização revela sobre a força política acumulada pela chamada “Maré Verde”. Em diálogo com seu livro Las pasiones alegres del feminismo, Vacarezza argumenta que o lenço verde constitui um verdadeiro arquivo vivo de lutas que articulam aborto, direitos humanos e democracia. Erguê-lo hoje, em meio a cortes de direitos e estigmatizações, é reafirmar uma aposta coletiva na memória, no cuidado e na ampliação das liberdades.
Não perca, na parte da tarde, textos inéditos escritos por pesquisadoras e ativistas de diferentes gerações e instituições latino-americanas. Para saber mais sobre a proposta desta edição, cujos textos estão sendo publicados em português e espanhol, clique aqui. Boa leitura!
Paixões alegres para tempos sombrios
Por Nayla Luz Vacarezza (IEALC-UBA e Conicet)
Em 15 de fevereiro de 2026, a Ministra da Segurança da Argentina divulgou nas redes sociais um vídeo anunciando a detenção de um manifestante acusado de incidentes violentos durante um protesto contra a regressiva reforma trabalhista promovida pelo Executivo. Emulando um thriller policial de ação, com música punk e guitarras distorcidas, o vídeo intercala imagens da Ministra narrando os acontecimentos, da manifestação em frente ao Congresso Nacional e da prisão. Ao final, pode-se ver uma imagem dos objetos apreendidos durante a operação: um galão de combustível, frascos de fluido para isqueiros e de álcool, luvas de trabalho para altas temperaturas e uma calça de uso profissional. A composição se completa com um objeto revelador: um lenço verde da Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito, exibido como mais um elemento incriminatório no âmbito da operação policial contra um “terrorista”.
Neste ano, o 8 de março na Argentina ocorre em um contexto de crescente conflitividade social. Desde que o ultradireitista Javier Milei assumiu a presidência, o ajuste brutal e o desmonte de políticas públicas combinam-se com reformas que restringem direitos trabalhistas e sociais, além de uma repressão cada vez mais dura às manifestações. A imagem de um lenço verde exibido ao lado de galões de combustível como prova criminal não pode passar despercebida: que forças políticas esse símbolo condensa e por que o poder de turno necessita denegri-lo dessa maneira?
O lenço verde como evidência
No vídeo que propagandeia a detenção do manifestante, o lenço verde é apresentado como parte da prova de um ato de violência política que buscaria “semear o caos e desestabilizar a ordem institucional”. Entretanto, associar o lenço verde à violência e tentar produzir pânicos morais em torno dele não é novidade, nem fenômeno restrito à Argentina. Desde que assumiu o poder, Javier Milei tem utilizado uma linguagem incendiária e deliberadamente provocativa ao referir-se ao aborto. Caracterizou aqueles que apoiam sua legalidade como “assassinos dos lenços verdes” e qualificou o aborto como “homicídio agravado pelo vínculo” (Página 12, 2024). Pouco tempo depois, no World Economic Forum, em Davos, atacou o que denominou “agenda sangrenta do aborto”.
Esses são apenas dois exemplos de uma política sistemática de demonização dos feminismos no marco de uma ofensiva mais ampla contra o que as direitas conservadoras transnacionais denominam “ideologia de gênero”. Já em 2019, uma senadora mexicana utilizou a expressão “trapo verde” no Parlamento para desqualificar um símbolo que, segundo afirmou, para ela “significa a morte” (Felitti & Ramírez Morales, 2020). Desde então, pessoas e grupos conservadores passaram a empregar a mesma expressão para menosprezar o emblema.
Exibir o lenço verde como evidência de terrorismo constitui mais um degrau nessa operação. Mas também poderíamos interpretar essa necessidade imperiosa de denegrir, menosprezar e criminalizar um símbolo político como indício de outra coisa. O que essa necessidade de apresentá-lo como arma nos diz sobre sua potência política? O gesto desmedido pode ser lido como reconhecimento de um poder que talvez não se possa admitir abertamente. À sua maneira, portanto, a operação termina por tornar visível aquilo que procura negar.
Longe de ser um símbolo “terrorista” ou antidemocrático, o lenço verde é um arquivo vivo de lutas que articularam o direito ao aborto aos direitos humanos e à democracia. E é precisamente isso que analiso em meu livro Las pasiones alegres del feminismo (Siglo Veintiuno, 2025).
Um arquivo vivo de luta democrática
O lenço verde toma sua forma triangular do lenço branco das Madres de Plaza de Mayo, que reivindicaram o aparecimento com vida de seus filhos e filhas desaparecidos/as durante a última ditadura na Argentina. A Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito adotou-o como emblema em 2005, embora o lenço já circulasse havia alguns anos por iniciativa das Católicas pelo Direito de Decidir. Optou-se por retomar esse símbolo utilizando uma cor que se encontrava “vaga” na cultura política argentina. Com esse gesto, recuperou-se o legado das lutas das mulheres por democracia e direitos humanos. Ao mesmo tempo, ampliou-se essa agenda para incluir o direito ao aborto como questão de saúde pública, de justiça social e também como uma dívida pendente da democracia.
No mesmo sentido, o pañuelazo – ação de protesto que consiste em erguer os lenços ao mesmo tempo – recupera uma forma de manifestação criada pelas Madres de Plaza de Mayo para repudiar a redução de pena concedida a um detido por crimes contra a humanidade. Por isso, cada vez que um lenço verde é atado ao corpo ou levantado no ar em um protesto, ativa uma sensibilidade democrática e antiautoritária profundamente enraizada na cultura política argentina.
Antes de que o aborto fosse finalmente legalizado em 2021, a Campanha havia apresentado seu projeto de lei oito vezes ao Congresso da Nação. O próprio projeto constituiu um exemplo de exercício democrático e de cidadania: uma iniciativa da sociedade civil que foi sendo modificada e enriquecida ao longo dos anos em fóruns federais, com a participação de centenas de organizações feministas, sociais e políticas de todo o país. A Marea Verde que acompanhou o debate parlamentar de 2018 foi, ademais, um exercício exemplar de democracia participativa e deliberação pública. A presença massiva e pacífica nas ruas acompanhou um processo inédito de participação da sociedade civil no debate legislativo.
Essa imbricação entre aborto e democracia não é casual nem exclusiva da Argentina. Como analiso em conjunto com Barbara Sutton em Abortion and Democracy (Routledge, 2021), na Argentina, no Chile e no Uruguai as lutas pela legalização do aborto estiveram profundamente enraizadas nos processos de democratização posteriores às ditaduras. Os movimentos não reivindicaram o aborto como questão de liberdade ou privacidade individual – marco que predominou, por exemplo, nos Estados Unidos –, mas o compreenderam como parte de uma luta mais ampla por radicalizar a democracia, expandir a cidadania e garantir os direitos humanos em sua integralidade, incluindo o acesso universal à saúde e à educação.
Uma luta que não se confina
Após a posse de Javier Milei na presidência, em 2023, o lema “Sem direitos não há Liberdade” constituiu uma resposta direta da Campanha ao nome de seu partido, La Libertad Avanza. A consigna expressava uma convicção central do movimento: a liberdade de decidir sobre o próprio corpo e a sexualidade não se exerce no vazio. Requer outros direitos – como o acesso à educação, à saúde e a uma vida digna – para tornar-se uma realidade efetiva.
Por isso, a Campanha não apenas defendeu a Lei de Acesso à Interrupção Voluntária da Gravidez e exigiu seu cumprimento efetivo, mas também rejeitou o desmantelamento das políticas de gênero e das infraestruturas estatais associadas aos direitos sexuais e reprodutivos. Os lenços verdes apareceram em mobilizações contra a chamada “lei ônibus”, que pretendia desregulamentar a economia e privatizar empresas estatais; contra o protocolo antiprotesto; por pensões dignas; e em defesa da universidade e da saúde públicas.
No entanto, revogar uma lei não é a única forma de desativá-la. Também é possível esvaziá-la por outras vias – por exemplo, mediante cortes orçamentários, desabastecimento de insumos, desmonte dos programas que a sustentam e a retirada de recursos das equipes profissionais responsáveis por garantir sua implementação.
“À clandestinidade não voltamos mais”
No início de 2025, a Campanha denunciou o desfinanciamento do programa de saúde sexual e reprodutiva e o desabastecimento de insumos para o acesso ao aborto legal e a métodos contraceptivos. Sua consigna foi direta: “Sem orçamento, voltamos ao aborto clandestino”. E ressoava com outra consigna lançada pelas Socorristas en Red: “O direito ao aborto é lei. À clandestinidade não voltamos mais”. Ambas as palavras de ordem ativam uma memória do dano associado à clandestinidade (Sutton, 2017). A consigna das Socorristas, ademais, conecta-se com o “Nunca Más”, frase emblemática da transição democrática na Argentina e do compromisso coletivo de não permitir que se repitam as atrocidades cometidas pelo terrorismo de Estado. Trata-se de uma disputa atravessada pela memória, que distingue com clareza o passado que se quer deixar para trás de um presente de direitos que não serão cedidos com docilidade.
Nesse contexto, as Socorristas também propõem “Cuidar a lei”: uma visão política na qual a lei não é um texto inerte, mas um agente vivo e frágil, que emerge da luta coletiva e deve ser sustentado coletivamente (Chousal Lizama & Happ, 2025). A lei se defende e se faz valer ao exigir do Estado o cumprimento de suas obrigações, mas também no trabalho cotidiano de acompanhar abortos com medicamentos, difundir informações e tecer redes comunitárias que garantam o acesso efetivo. O que essas organizações fazem é, nos termos de Deirdre Duffy, Cordelia Freeman e Sandra Rodríguez Castañeda (2023), construir infraestruturas de cuidado ali onde o Estado se retira e descuida.
8 de março: a alegria obstinada das lutas como aposta política
Chamam-no de trapo. Exibem-no como prova de terrorismo. Associam-no à morte, ao sangue, ao assassinato e até ao genocídio. E, no entanto, o lenço verde segue sendo erguido. Continua sendo atado ao corpo e agitado no ar. Esse gesto obstinado condensa uma experiência coletiva de transformação que mudou a lei e também transformou o que era possível dizer, sentir e imaginar sobre o aborto.
Las pasiones alegres del feminismo traça justamente essa dimensão da transformação social que não se reflete apenas nos marcos legais. Mostra o trabalho paciente de décadas que conseguiu romper o silêncio, o medo, a vergonha e a clandestinidade, trazendo outras vozes e outras histórias para o debate público, criando símbolos poderosos, ocupando as ruas com alegria, cantando em uníssono, dançando, realizando performances, tocando tambores, encenando teatro de rua, produzindo memes e muito mais. O movimento deu nome a essa transformação: a despenalização social do aborto (Gutiérrez, 2023). Trata-se de uma mudança que não se esgota em uma lei nem se revoga por decreto, mas que também precisa ser cuidada frente à estigmatização, ao discurso incendiário e aos pânicos morais que buscam corroer as conquistas. Exibir um lenço verde entre galões de combustível faz parte dessa operação. Contudo, aquilo que esse símbolo condensa não cabe em um boletim policial nem em uma operação de imprensa.
Diante da resignação, do derrotismo e da desesperança que por vezes inundam o campo progressista, os feminismos persistem em construir respostas coletivas e corporificadas que vão além do meramente defensivo. Não se trata de um otimismo ingênuo, mas de uma aposta em outra forma de fazer política: com memória, com corpo, com imaginação, com humor e com cuidado – abrindo possibilidades onde parecia não haver nenhuma.
Referências
CHOUSAL LIZAMA, Paloma & HAPP, Lea. (2025). Políticas afectivas en la era digital: emociones contrapuestas como potencia feminista a dos años de la legalización del aborto. Descentrada, v. 9, n. 2, e269.
DUFFY, Deirdre N. & FREEMAN, Cordelia & RODRÍGUEZ CASTAÑEDA, Sandra. (2023). Beyond the State: abortion care activism in Peru. Signs: Journal of Women in Culture and Society, v. 48, n. 3, p. 609-634.
FELITTI, Karina & RAMÍREZ MORALES, Rosario. (2020). Pañuelos verdes por el aborto legal: historia, significados y circulaciones en Argentina y México. Encartes, v. 3, n. 5, p. 111-145.
GUTIÉRREZ, María Alicia. (2023). Politics of Recognition: the National Campaign for the Right to Legal, Safe, and Free Abortion in Argentina. South Atlantic Quarterly, v. 122, n. 2, p. 386-396.
PÁGINA 12. (2024). A Milei le preguntaron por los superávits gemelos y respondió que “el aborto es un homicidio agravado”, 6 mar. Disponível em: https://www.pagina12.com.ar/718408-a-milei-le-preguntaron-por-los-superavits-gemelos-y-respondi/. Acesso em: 2 mar. 2026.
SUTTON, Barbara. (2017). Zonas de clandestinidad y “nuda vida”: mujeres, cuerpo y aborto. Estudos Feministas, v. 25, n. 2, p. 889-902.
SUTTON, Barbara & VACAREZZA, Nayla Luz (eds.). (2021). Abortion and Democracy: contentious body politics in Argentina, Chile, and Uruguay. Nueva York: Routledge.
VACAREZZA, Nayla Luz. (2025). Las pasiones alegres del feminismo. O cómo agitar la imaginación política contemporánea. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores.
WORLD ECONOMIC FORUM. (2025). Davos 2025: Special Address by Javier Milei, President of Argentina, 18 jan. Disponível em: https://www.weforum.org/. Acesso em: 2 mar. 2026.
Sobre a autora
Nayla Luz Vacarezza é pesquisadora e docente universitária feminista, dedicando-se ao estudo da política do aborto, dos movimentos sociais feministas e das interseções entre arte e ativismo na América Latina. É autora de Las pasiones alegres del feminismo (Siglo Veintiuno, 2025) e coorganizadora, junto com Barbara Sutton, de Abortion and Democracy. Contentious Body Politics in Argentina, Chile and Uruguay (Routledge, 2021).

Acercándonos al 8M, damos inicio a la cuarta edición de la Ocupación Mujeres de la BVPS. La edición de este año, curada por Claudia Bacci (IEALC-UBA) y Caroline Tresoldi (PPGSA/UFRJ), tiene como eje central los debates y las experiencias de mujeres y feministas en América Latina.
En la primera ronda de publicaciones del día, presentamos un ensayo de Nayla Luz Vacarezza (IEALC-UBA), que analiza la ofensiva conservadora contra el pañuelo verde en Argentina bajo el gobierno de Javier Milei. A partir de un episodio reciente en el que el símbolo de la Campaña por el Derecho al Aborto fue exhibido como “prueba” de terrorismo, la autora investiga qué revela esta criminalización sobre la fuerza política acumulada por la llamada “Marea Verde”. En diálogo con su libro Las pasiones alegres del feminismo, Vacarezza sostiene que el pañuelo verde constituye un verdadero archivo vivo de luchas que articulan aborto, derechos humanos y democracia. Alzarlo hoy, en medio de recortes de derechos y estigmatizaciones, es reafirmar una apuesta colectiva por la memoria, el cuidado y la ampliación de las libertades.
No se pierdan, por la tarde, textos inéditos escritos por investigadoras y activistas de distintas generaciones e instituciones latinoamericanas. Para saber más sobre la propuesta de esta edición, haga clic aquí. Otros textos de la Ocupación pueden consultarse aquí. ¡Buena lectura!
Pasiones alegres para tiempos sombríos
Por Nayla Vacarezza (IEALC-UBA y CONICET)
El 15 de febrero de 2026, la Ministra de Seguridad de Argentina difundió en redes sociales un video anunciando la detención de un manifestante acusado de incidentes violentos durante una protesta contra la regresiva reforma laboral impulsada por el Ejecutivo. Emulando un thriller de acción policial con música punk y guitarras distorsionadas, el video intercala imágenes de la Ministra narrando los sucesos, de la protesta frente al Congreso Nacional y de la detención. Hacia el final del video se puede ver una imagen de los objetos secuestrados durante el operativo: un bidón de combustible, frascos de fluido para encendedores y alcohol, guantes de trabajo para altas temperaturas y un pantalón de fajina. La composición se completa con un objeto revelador: un pañuelo verde de la Campaña Nacional por el Derecho al Aborto Legal, Seguro y Gratuito, exhibido como un elemento incriminatorio más en el marco del operativo policial contra un “terrorista”.
Este año, el 8 de marzo en Argentina se celebra en un contexto de conflictividad social creciente. Desde que el ultraderechista Javier Milei asumió la presidencia, el ajuste brutal y el desmantelamiento de políticas públicas se combinan con reformas que recortan derechos tanto laborales como sociales y con una represión cada vez más dura de la protesta. La imagen de un pañuelo verde exhibido junto a bidones de combustible como evidencia criminal no puede pasar inadvertida: ¿qué fuerzas políticas condensa ese símbolo y por qué el poder de turno necesita denigrarlo de esta manera?
El pañuelo verde como evidencia
En el video que propagandiza la detención del manifestante, el pañuelo verde se exhibe como parte de la evidencia de un acto de violencia política que busca “sembrar caos y desestabilizar el orden institucional”. Pero asociar el pañuelo verde con la violencia y tratar de generar pánicos morales a su alrededor no es una novedad ni un fenómeno que se limita a Argentina. Desde que asumió el poder, Javier Milei ha utilizado un lenguaje incendiario y deliberadamente provocador para referirse al aborto. Caracterizó a quienes apoyan la legalidad como “asesinos de los pañuelos verdes” y calificó al aborto como un “asesinato agravado por el vínculo” (Página 12, 2024). Poco tiempo después, en el Foro Económico de Davos, atacó lo que llamó la “agenda sangrienta del aborto” (World Economic Forum 2025). Estos son solo dos ejemplos de una política sistemática de demonización de los feminismos en el marco de una ofensiva más amplia contra lo que las derechas conservadoras transnacionales llaman “ideología de género”. Ya en 2019, una senadora mexicana usó el mote de “trapo verde” en el Parlamento para descalificar un símbolo que, aseguró, para ella “significa la muerte” (Felitti & Ramírez Morales, 2020). Y desde entonces, personas y grupos conservadores han usado la misma expresión para menospreciar el emblema.
Exhibir el pañuelo verde como evidencia de terrorismo es un escalón más en esa operación. Pero también podríamos interpretar esa necesidad imperiosa de denigrar, menospreciar y criminalizar un símbolo político como evidencia de otra cosa. ¿Qué nos dice sobre la potencia política del pañuelo verde esa necesidad de exhibirlo como un arma? El gesto desmedido puede interpretarse como el reconocimiento de un poder que quizás no se pueda admitir abiertamente. A su manera, entonces, la operación termina por hacer evidente lo que busca negar.
Lejos de ser un símbolo “terrorista” o antidemocrático, el pañuelo verde es un archivo vivo de luchas que vincularon el derecho al aborto con los derechos humanos y la democracia. Y eso es precisamente lo que analizo en mi libro Las pasiones alegres del feminismo (Siglo Veintiuno, 2025).

Un archivo vivo de lucha democrática
El pañuelo verde toma su forma triangular del pañuelo blanco de las Madres de Plaza de Mayo, que reclamaron por la aparición con vida de sus hijos e hijas desaparecidos/as durante la última dictadura en Argentina. La Campaña Nacional por el Derecho al Aborto Legal, Seguro y Gratuito lo adoptó como emblema en 2005, aunque el pañuelo ya circulaba desde hacía unos años por iniciativa de Católicas por el Derecho a Decidir. Eligieron retomar ese símbolo utilizando un color que estaba vacante en la cultura política argentina. Y, con ese gesto, recuperaron el legado de luchas de las mujeres por la democracia y los derechos humanos. Al mismo tiempo, ampliaron esa agenda para incluir el derecho al aborto como una cuestión de salud pública, de justicia social y también como una deuda pendiente de la democracia. En el mismo sentido, el pañuelazo –la acción de protesta que consiste en levantar los pañuelos en el aire al mismo tiempo– recupera una forma de protesta creada por las Madres de Plaza de Mayo para repudiar la reducción de sentencia a un detenido por crímenes de lesa humanidad. Por eso, cada vez que un pañuelo verde se anuda al cuerpo o se levanta en el aire en una protesta, activa una sensibilidad democrática y antiautoritaria profundamente enraizada en la cultura política argentina.
Antes de que finalmente se legalizara el aborto en 2021, la Campaña había presentado su proyecto de ley ocho veces ante el Congreso de la Nación. El proyecto mismo fue un ejemplo de ejercicio de democracia y ciudadanía: una iniciativa de la sociedad civil que fue modificándose y enriqueciéndose a lo largo de los años en foros federales, y con la participación de cientos de organizaciones feministas, sociales y políticas de todo el país. La Marea Verde que acompañó el debate parlamentario de 2018 fue, además, un ejercicio ejemplar de democracia participativa y deliberación pública. La presencia masiva y pacífica en las calles acompañó un proceso inédito de participación de la sociedad civil en el debate parlamentario.
Esta imbricación entre aborto y democracia no es casual ni exclusiva de Argentina. Como analizo junto con Barbara Sutton en Abortion and Democracy (Routledge, 2021), en Argentina, Chile y Uruguay las luchas por la legalización del aborto estuvieron profundamente enraizadas en los procesos de democratización posteriores a las dictaduras. Los movimientos no reclamaron el aborto como una cuestión de libertad o privacidad individual –el marco que predominó, por ejemplo, en Estados Unidos–. Lo entendieron, en cambio, como parte de una lucha más amplia por radicalizar la democracia, expandir la ciudadanía y garantizar los derechos humanos en su integralidad, incluyendo el acceso universal a la salud y la educación.
Una lucha que no se confina
Luego de que Javier Milei asumiera la presidencia en 2023, la consigna “Sin derechos no hay Libertad” fue una respuesta directa de la Campaña al nombre de su partido, La Libertad Avanza. Y expresó una convicción central del movimiento: la libertad de decidir sobre el propio cuerpo y la sexualidad no se ejerce en el vacío. Requiere de otros derechos como el acceso a la educación, a la salud, y a una vida digna para ser una realidad efectiva. Por eso la Campaña no solo defendió la Ley de Acceso a la Interrupción Voluntaria del Embarazo y demandó su efectivo cumplimiento. También rechazó el desmantelamiento de las políticas de género y de las infraestructuras estatales asociadas a los derechos sexuales y reproductivos. Y los pañuelos verdes aparecieron en movilizaciones contra la ley ómnibus que buscaba desregular la economía y privatizar empresas del Estado, contra el protocolo anti-protesta, por pensiones dignas, en defensa de la universidad pública y de la salud pública.
Sin embargo, derogar una ley no es la única forma de desactivarla. También se la puede erosionar de otras formas. Por ejemplo, recortando el presupuesto, desabasteciendo insumos, desmantelando los programas que la sostienen y dejando sin recursos a los equipos profesionales que garantizan su cumplimiento.
“A la clandestinidad no volvemos más”
A comienzos de 2025, la Campaña denunció el desfinanciamiento del programa de salud sexual y reproductiva y el desabastecimiento de insumos para acceder al aborto legal y a métodos anticonceptivos. Su consigna fue directa: “Sin presupuesto volvemos al aborto clandestino”. Y resonaba con otra consigna lanzada por Socorristas en Red: “El derecho a abortar es ley. A la clandestinidad no volvemos más”. Ambas consignas activan una memoria del daño asociado con la clandestinidad (Sutton 2017). La consigna de Socorristas, además, conecta con el “Nunca Más”, la frase emblemática de la transición democrática en Argentina y del compromiso colectivo de no permitir que se repitan las atrocidades cometidas por el terrorismo de Estado. Se trata de una disputa con memoria, que distingue con claridad el pasado que se quiere dejar atrás de un presente con derechos que no se van a ceder con mansedumbre.
En ese contexto, Socorristas también propone “Cuidar la ley”: una visión política donde la ley no es un texto inerte sino un agente vivo y frágil que surge de la lucha colectiva y debe sostenerse colectivamente (Chousal Lizama & Happ, 2025). La ley se defiende y se hace valer reclamando al Estado que cumpla con sus obligaciones, pero también en la tarea cotidiana de acompañar abortos con medicamentos, difundir información y tejer redes comunitarias que garanticen el acceso efectivo. Lo que hacen estas organizaciones es, en los términos de Deirdre Duffy, Cordelia Freeman y Sandra Rodríguez Castañeda (2023), construir infraestructuras de cuidado allí donde el Estado se retira y descuida.
8 de marzo: La alegría obstinada de las luchas como apuesta política
Lo llaman trapo. Lo exhiben como prueba de terrorismo. Lo asocian con la muerte, la sangre, el asesinato e incluso con el genocidio. Y sin embargo, el pañuelo verde se sigue levantando. Se sigue anudando al cuerpo y se sigue agitando en el aire. Ese gesto obstinado condensa una experiencia colectiva de transformación que cambió la ley y también cambió lo que era posible decir, sentir e imaginar sobre el aborto.
Las pasiones alegres del feminismo traza justamente esa dimensión de la transformación social que no se refleja solo en los marcos legales. Muestra el trabajo paciente de décadas que logró quebrar el silencio, el miedo, la vergüenza y la clandestinidad trayendo otras voces y otras historias a la discusión pública, creando símbolos poderosos, ocupando gozosamente las calles, cantando al unísono, bailando o haciendo performances, tocadas de tambores, teatro callejero, memes y mucho más. El movimiento le puso nombre a esa transformación: la despenalización social del aborto (Gutiérrez, 2023). Se trata de un cambio que no se agota en una ley ni se deroga con un decreto, pero que también hay que cuidar de la estigmatización, del discurso incendiario y de los pánicos morales que buscan erosionar lo ganado. Exhibir un pañuelo verde entre bidones de combustible es parte de esa operación. Pero lo que condensa ese símbolo no cabe en un parte policial ni en una operación de prensa.
Frente a la resignación, el derrotismo y la desesperanza que a veces inundan el campo progresista, los feminismos persisten en construir respuestas colectivas y acuerpadas que exceden lo meramente defensivo. No es un optimismo ingenuo. Es una apuesta por otra forma de hacer política: con memoria, con cuerpo, con imaginación, con humor, con cuidado, abriendo posibilidades donde parecía no haberlas.
Referencias
CHOUSAL LIZAMA, Paloma & HAPP, Lea. (2025). Políticas afectivas en la era digital: emociones contrapuestas como potencia feminista a dos años de la legalización del aborto. Descentrada, v. 9, n. 2, e269.
DUFFY, Deirdre N. & FREEMAN, Cordelia & RODRÍGUEZ CASTAÑEDA, Sandra. (2023). Beyond the State: abortion care activism in Peru. Signs: Journal of Women in Culture and Society, v. 48, n. 3, p. 609-634.
FELITTI, Karina & RAMÍREZ MORALES, Rosario. (2020). Pañuelos verdes por el aborto legal: historia, significados y circulaciones en Argentina y México. Encartes, v. 3, n. 5, p. 111-145.
GUTIÉRREZ, María Alicia. (2023). Politics of Recognition: the National Campaign for the Right to Legal, Safe, and Free Abortion in Argentina. South Atlantic Quarterly, v. 122, n. 2, p. 386-396.
PÁGINA 12. (2024). A Milei le preguntaron por los superávits gemelos y respondió que “el aborto es un homicidio agravado”, 6 mar. Disponível em: https://www.pagina12.com.ar/718408-a-milei-le-preguntaron-por-los-superavits-gemelos-y-respondi/. Acesso em: 2 mar. 2026.
SUTTON, Barbara. (2017). Zonas de clandestinidad y “nuda vida”: mujeres, cuerpo y aborto. Estudos Feministas, v. 25, n. 2, p. 889-902.
SUTTON, Barbara & VACAREZZA, Nayla Luz (eds.). (2021). Abortion and Democracy: contentious body politics in Argentina, Chile, and Uruguay. Nueva York: Routledge.
VACAREZZA, Nayla Luz. (2025). Las pasiones alegres del feminismo. O cómo agitar la imaginación política contemporánea. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores.
WORLD ECONOMIC FORUM. (2025). Davos 2025: Special Address by Javier Milei, President of Argentina, 18 jan. Disponível em: https://www.weforum.org/. Acesso em: 2 mar. 2026.
Sobre la autora
Nayla Luz Vacarezza es una investigadora y docente universitaria feminista que pesquisa la política del aborto, los movimientos sociales feministas y las intersecciones entre el arte y el activismo en América Latina. Es autora de Las pasiones alegres del feminismo (Siglo Veintiuno, 2025) y coeditora, junto con Barbara Sutton, de Abortion and Democracy. Contentious Body Politics in Argentina, Chile and Uruguay (Routledge, 2021).
