
Dando continuidade à série A Sociologia Digital e suas Interfaces, publicamos o segundo post, assinado por Fernando Balieiro (UFCat).
No contexto atual de polarização política e excesso de informação, as acusações de fake news revelam disputas mais amplas em torno da definição da realidade. Essas controvérsias evidenciam o papel central dos enquadramentos como construções simbólicas e comunicacionais, produzidas por diferentes atores em um ecossistema midiático marcado pela sociedade em rede, pela midiatização e pela plataformização da comunicação. Nesse cenário, para o autor, a Sociologia Digital destaca-se como um campo fundamental para compreender as transformações dos conflitos políticos e comunicacionais contemporâneos.
A Sociologia Digital e suas Interfaces é uma série da BVPS Edições, com curadoria de Richard Miskolci. A série vai ao ar semanalmente, sempre às quartas-feiras. Para conferir o primeiro post, clique aqui.
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Enquadramentos em disputa na era digital
Por Fernando de Figueiredo Balieiro (UFCat)
Cada lado da política, esquerda ou direita, hoje sustenta que o polo antagônico produz fake news (Miskolci, 2025). A acusação mútua revela mais do que o desejo de descredibilizar o adversário político. Ela é resultado de um novo contexto técnico-midiático, marcado por polêmicas em torno da realidade que nos cerca. Retomamos algumas delas que, certamente, estarão na memória do leitor, envolvendo questões políticas que dividiram a sociedade brasileira nas eleições de 2018.
Nas referidas eleições presidenciais, circulou em diversos meios digitais uma imagem de uma mamadeira erótica que supostamente Fernando Haddad teria distribuído quando prefeito de São Paulo. Enquanto isso, Jair Bolsonaro mostrava um livro francês em entrevista televisiva como a “prova” de material didático que teria sido empregado para “induzir crianças à homossexualidade”. Seus opositores na sociedade civil o consideravam um reprovável candidato homofóbico e misógino, contrário a políticas de diversidade, expressando seu repúdio nas manifestações de rua projetadas online com a hashtag #elenão. Imagens de manifestantes destes e de outros protestos foram usadas pelos partidários de Bolsonaro em sua campanha eleitoral para descredibilizar a esquerda, considerada, sob viés tradicional, como imoral.
Divergências políticas e ideológicas fazem parte da história, mas nos deparamos com um desafio que se manifesta de forma particular no presente: como precisar o que é real e verdadeiro em um contexto de profusão informativa e divisão social? Quais são os interesses mobilizados nas tantas definições da realidade por diversos atores sociais? Como analisar o aspecto controverso e disputável da própria definição da realidade, evitando recair na dicotomia “fato” ou “fake”, tal como apregoa o slogan de certa emissora comercial? Como olhar de forma analítica para a questão, recusando reiterar o diagnóstico militante que atribui ao espectro oposto da política o problema de nossa ordem comunicacional?
A perspectiva analítica dos enquadramentos parece hoje fornecer luz aos conflitos comunicacionais e midiáticos que se apresentam no âmago da sociedade civil. O sociólogo canadense Erving Goffman denominou de enquadramento os “‘princípios’ que organizam a experiência cognitiva do ‘indivíduo’ em situações de interação pelo fato de que ‘governam’ tanto os eventos sociais quanto ‘nosso envolvimento subjetivo neles’” (Frehse, 2024: 159). O enquadramento, para ele, se refere a algo central na organização e estruturação da interação social. Em sua visão, a percepção subjetiva e a negociação intersubjetiva em torno “do que está acontecendo” têm um caráter determinante no decorrer da experiência social.
Os pressupostos goffmanianos estão na base de estudos de comunicação e de movimentos sociais que fizeram uso do conceito de enquadramento, criando um campo investigativo a partir dos anos 1980. A análise do enquadramento volta-se, então, a compreender a forma como elites impõem determinadas visões sobre a realidade, como ela é disputada por movimentos sociais organizados e, sobretudo, como é mediada pelos meios de comunicação de massa e pela imprensa profissional. O conceito de enquadramento passa a ter um papel importante na análise dos conflitos políticos, destacando o caráter processual no qual os atores envolvidos manifestam seus valores e interesses e, sobretudo, sua capacidade de impor ou negociar a realidade em disputa.
Se o campo de estudos sobre o enquadramento se desenvolveu, a partir de insights sociológicos, na fronteira entre o campo da comunicação e o da sociologia dos movimentos sociais, seu desenvolvimento hoje depende de uma interlocução criativa e renovadora com a Sociologia Digital. A disputa de enquadramentos hoje se realiza em um denso ambiente midiático (Couldry & Hepp, 2020), em um ecossistema comunicacional marcado pela ampliação de emissores que se comunicam por tecnologias digitais em um contexto de conectividade permanente (Castells, 2015; Lupton, 2015). A disputa sobre a realidade se torna uma questão mais complexa e dinâmica, ancorada na lógica comercial de plataformas digitais, mediada por uma nova infraestrutura sociotécnica e por uma cultura midiática inerente a ela (Miskolci, 2021).
A construção do enquadramento entre atores sociais e as mídias
Na linha dos estudos de sociologia da mídia e da comunicação, Tuchman (1978) considera as notícias “uma janela para o mundo”. A autora se apropria das ideias de Goffman na busca de compreender as dinâmicas institucionais na construção dos quadros noticiosos. Em sua análise dos procedimentos internos ao jornalismo, para a autora, a construção do enquadramento depende de considerar o jornalismo, junto com o universo profissional e empresarial da televisão, como “instituições sociais, com deontologias profissionais, rotinas produtivas, modelos de negócios e regras de distribuição e de acúmulo de prestígio e distinção” (Gomes, 2024: 65).
Rens Vliegenthart e Liesbet van Zoonen (2011) abordam como essa corrente inicial dos estudos comunicacionais sobre o enquadramento se divide entre a perspectiva do frame building (a construção dos quadros noticiosos), que busca compreender as dimensões institucionais do jornalismo e as dinâmicas das redações na construção de tais quadros, e a perspectiva do frame effects (os efeitos dos quadros noticiosos), interessada em entender os quadros noticiosos e sua ressonância na conversação e na opinião pública.
A conceituação de enquadramento midiático se difundiu a partir da influência de Robert Entman, que define: “enquadrar é selecionar alguns aspectos de uma realidade percebida e fazê-los mais salientes em um texto comunicativo, de forma a promover uma definição particular do problema, uma interpretação causal, uma avaliação moral e/ou uma recomendação de tratamento para o item descrito” (Entman, 1993: 52, tradução nossa). O autor ressalta que a presença de enquadramentos em um texto não garante sua influência na audiência, pois o processamento das ideias depende de categorias, scripts e estereótipos com aderência social. A análise de enquadramento, portanto, deve medir a saliência de elementos no texto e sua relação com os esquemas interpretativos da audiência. Sua teoria está baseada em um contexto no qual os meios de comunicação de massa são a base das esferas públicas nacionais.
Nos estudos de movimentos sociais, a ênfase recai sobre o trabalho interpretativo que os movimentos empregam nas situações e ações em que estão envolvidos: “os atores dos movimentos são vistos como agentes significantes, ativamente envolvidos na produção e manutenção do significado para os participantes, antagonistas e espectadores ou observadores” (Benford & Snow, 2000: 613, tradução nossa). Os enquadramentos se relacionam com aspectos ideológicos e culturais em disputa em uma dada sociedade, amplificando-os, modificando-os ou contestando-os.
Enquanto o enfoque anterior investiga os procedimentos rotinizados do jornalismo para a construção de quadros noticiosos e seus efeitos na sociedade, o enfoque dos estudos de movimentos sociais se volta para as disputas de enquadramento entre atores comumente marcados por recursos materiais e simbólicos desiguais (Vliegenthart & Zoonen, 2011: 105). Tais aspectos são sociologicamente relevantes, dado que se consideram elementos materiais, institucionais e societários na construção e negociação de enquadramentos envolvidos na mobilização social.
A importância das mídias não é, entretanto, desconsiderada do ponto de vista sociológico dos estudos de movimentos sociais. Ainda que se centre no engajamento dos seus organizadores na definição de enquadramentos, sua construção é dependente de como as mídias transmitem as mensagens que os movimentos tentam moldar e influenciar (Tarrow, 2009: 41). A própria criação dos movimentos sociais modernos se valeu do surgimento da imprensa comercial, responsável pela possibilidade de segmentos sociais se pensarem como uma coletividade com interesses próprios, além de partilhar formas de repertórios de confronto (Tarrow, 2009, p. 66).
Os estudos de enquadramento, portanto, demarcam o caráter simbólico e comunicacional dos conflitos políticos contemporâneos, salientando a importância da análise das relações mediadas nas disputas políticas e atentando às disputas entre grupos de interesse, seus recursos e sua capacidade de impor sua definição da realidade. Em um mundo crescentemente digitalizado e midiatizado, o diálogo com a Sociologia Digital abre novos campos de investigação sobre as disputas de enquadramento e suas reconfigurações.
A Sociologia Digital e as atuais disputas de enquadramentos
Dentre as mudanças em curso, destacam-se três elementos que têm significativa influência na construção hodierna dos enquadramentos: a emergência de uma sociedade em rede, a midiatização profunda e a plataformização da comunicação. Tais aspectos se aprofundaram entre a primeira e a segunda década do século XXI e foram consolidados no auge da pandemia de coronavírus (2020-2023). A Sociologia Digital se tornou o campo privilegiado para compreender tais mudanças e suas implicações.
Na era digital, os enquadramentos são afetados pela mudança na dinâmica dos fluxos comunicacionais, já que as relações sociais passam a ser criadas, desenvolvidas e aprofundadas por meio do uso de equipamentos para comunicação em rede (Castells, 1999). Nossa ecologia midiática se tornou mais densa e variada (Couldry, 2020). Sua característica central é o sobrefluxo de mensagens midiáticas, fazendo com que a análise da influência midiática seja sempre complexa e difícil de realizar.
Saímos de um contexto de comunicação de massas para outro de autocomunicação de massas (Castells, 2015), em que se passou de um paradigma de “um-para-muitos” para outro marcado por remetentes e destinatários híbridos. Nele, “[…] todo ponto no espaço é conectado por meio de comunicação mediada para cada outro ponto, e essa conexão é sempre potencialmente bidirecional” (Couldry, 2009: 52-53). Em um contexto de “multiplicidade de mídias” e de “muitas camadas sobrepostas da comunicação” (Couldry & Hepp, 2020: 53), os indivíduos potencialmente se informam e discutem sobre a realidade em diversos grupos e a partir de diversas fontes, compartilhando também suas próprias avaliações com próximos ou desconhecidos.
Além do compartilhamento de mensagens, um novo aparato tecnológico permite a profusão de imagens e narrativas que são matéria-prima para disputas políticas. A presença material de câmeras digitais em dispositivos móveis e a facilidade de propagar seus produtos fazem parte da disputa de enquadramentos no presente. Tal contexto tornou recorrente o formato de vídeo-denúncia de ativistas digitais para mobilizar sua audiência (Gomes, 2024: 83). Grupos de interesse e/ou movimentos sociais são hoje capazes de produzir seus próprios vídeos e competir com os enquadramentos das mídias convencionais. A produção audiovisual, a expertise técnica e os recursos materiais para difundi-las se tornam hoje parte da batalha de enquadramentos.
A comunicação, na era digital, passa a se dar preponderantemente por meio das plataformas de redes sociais. A lógica comunicacional passa então pelo modelo de negócios das plataformas, que se caracterizam pela comoditização, dataficação e personalização (Van Dijck & Poell; Wall, 2018). Grupos de interesse capazes de dominar tal lógica, com equipes e softwares que lhes permitem conhecer e distribuir conteúdos estratégicos para nichos específicos, tomam vantagem sobre seus concorrentes e/ou adversários.
O Digital News Report, do Reuters Institute for the Study of Journalism, demonstra como tendências da última década o declínio do consumo de jornalismo impresso, aumento da busca pela informação por meio de plataformas de rede social e, por fim, o recente crescimento da importância dos aplicativos de mensagens e o aumento de busca por informação de caráter audiovisual[1]. O modelo de negócios do jornalismo passou a ter que atender às demandas de visibilidade nas plataformas de redes sociais, perdendo seus patrocinadores habituais e buscando rentabilidade por meios digitais (Poell & Nieborg & Duffy, 2022: 52). A construção do enquadramento noticioso passa por mudanças institucionais importantes: a demanda por imediaticidade e a competição no seio da economia da atenção das plataformas intensificaram sobremaneira a aceleração da atividade que prevê investigação e apuração acurada na elaboração da notícia.
Neste cenário, as notícias se tornam uma dentre inúmeras “janelas para o mundo”. A plataformização rompeu o monopólio jornalístico na criação de enquadramentos midiáticos. O formato comunicacional das plataformas permite a edição e comunicação com qualquer destinatário, diminuindo o papel de mediação jornalística e capacitando “todos os potenciais usuários a serem autores independentes e com igualdade de direitos” (Habermas, 2023: 59). Nem todos, entretanto, têm a mesma influência.
A sociabilidade baseada em plataformas de redes sociais constituiu novas formas de capital social, como a influência, a visibilidade e a credibilidade digitais (Gomes, 2024: 66). O influenciador digital aparece como uma nova personagem. Seu reconhecimento depende de sua posição na rede, bem como do acompanhamento das métricas de engajamento de um público fragmentado que interage com uma infinidade de emissores (Ortiz, 2022). Devotados a seus nichos, os influenciadores se beneficiam do processamento algorítmico personalizado para encontrar seu público-alvo. Os conteúdos midiáticos produzidos para nichos específicos contrastam com a tendência integrativa prévia do modelo das esferas públicas nacionais, instituídas pela imprensa, rádio e televisão (Habermas, 2023).
Vivemos hoje em um mundo no qual as relações sociais são cada vez mais intensamente mediadas pelas tecnologias digitais. As disputas de enquadramento se tornam um aspecto central nos conflitos sociais hodiernos, exigindo atenção à configuração das relações sociais em um novo ecossistema midiático. A profusão de conteúdo midiático, seus diversos fluxos, sua plataformização e a conformação dos nichos de influência são alguns dos aspectos que ocupam espaço privilegiado de pesquisa no campo da Sociologia Digital.
Nota
[1] Para uma compreensão mais detalhada das mudanças, conferir os relatórios de pesquisa no site https://www.digitalnewsreport.org/.
Referências
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Sobre o autor
Fernando de Figueiredo Balieiro é professor de Sociologia da Universidade Federal de Catalão (UFCat) e dos Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais de Uberlândia (UFU) e de Santa Maria (UFSM). Pesquisador do CNPq, coordenador do Mediação: Grupo de Pesquisa em Sociologia Digital e coordenador do Comitê de Sociologia Digital da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS).
