
A Série Nordestes tem o prazer de publicar a tradução inédita, realizada por Mariana Barreto (UFC), do relatório da primeira missão da Unesco efetuada por Jean Duvignaud na Universidade Federal do Ceará. A tradução vem acompanhada de uma apresentação imperdível assinada pela própria tradutora, intitulada Jean Duvignaud, um expert da Unesco na institucionalização da sociologia no Ceará.
Segundo Andréa Borges Leão (UFC), que trabalhou com Mariana Barreto em uma pesquisa conjunta, o documento é de suma importância no que se refere a montagem de engrenagens institucionais necessárias à constituição de uma área específica do conhecimento no Nordeste brasileiro. O relatório aponta para caminhos de reflexão, como o estudo sobre as “contingências genealógicas dos indicadores nacionais”, que não podem mais perder de vista as trocas, apropriações e empréstimos entre as histórias regionais.
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Boa leitura!
Jean Duvignaud, um expert da Unesco na institucionalização da sociologia no Ceará1
Por Mariana Barreto (UFC)
As efetivas relações de Jean Duvignaud com a Universidade do Ceará (1954/55) tiveram início em julho de 1968, por intermédio do recém-instituído Departamento de Ciências Sociais e Filosofia (1966). O Departamento constituiu-se, em certa medida, como extensão reconfigurada do Serviço de Antropologia (1957), seção da Universidade responsável pela oferta de cursos “preparatórios de antropologia” voltados ao “desenvolvimento de uma antropologia no Nordeste brasileiro” (Vieira, 2018: 34)
A estadia de Jean Duvignaud nesse período integrou as missões locais da Unesco destinadas à consolidação de cursos de ciências sociais em países economicamente frágeis, cujos efeitos e desdobramentos sobre a formação de docentes e discentes do Departamento estenderam-se ao longo das décadas de 1970 e 1980. Essencialmente voltado ao ensino, embora com docentes engajados em pesquisas regionalmente amplas e estruturadas, solicitou-se à Unesco o envio de um expert capaz de avaliar as condições de ensino e práticas de pesquisa em Ciências Sociais – notadamente em sociologia -, bem como propor estratégias de aperfeiçoamento dos trabalhos desenvolvidos no âmbito do Instituto de Antropologia (1958), sucessor do efêmero Serviço de Antropologia.
Nesse contexto, o geógrafo e historiador carioca de formação, à época chefe de departamento, Luiz Fernando Raposo Fontenelle (1929-2008)2, na Universidade desde 1962, quando, a convite do reitor Prof. Antônio Martins Filho (1904-2002), assumiu a direção do Instituto de Antropologia, formalizou o projeto encaminhado à Unesco. Sob sua direção, o Instituto ganhou nova racionalidade institucional, metodológica e epistemológica, distanciando-se de sua perspectiva de origem, vinculada ao Instituto Histórico do Ceará. Seu currículo incluía experiências como auxiliar técnico no Museu Nacional, onde atuou como assistente de pesquisa de Carl Withers, além de um curso de especialização em pesquisa pela Universidade da Califórnia. Em campo, havia realizado estudos no Ceará antes da década de 1960, para o Serviço Social Rural, órgão vinculado naquele momento ao Ministério da Agricultura, conhecendo de forma aprofundada a região da Serra da Ibiapaba, no noroeste do Ceará, fronteira com o estado do Piauí.
Solicitação atendida, chegou a Fortaleza para dois meses de trabalho o relativamente jovem, porém experiente, consultor Prof. Jean Duvignaud. O relatório final de sua missão – cuja tradução é inédita – não apenas apresenta a estrutura do hoje Departamento de Ciências Sociais da UFC, como também documenta seu processo de organização ao longo da trajetória produtiva de toda uma geração de docentes e discentes formada sob os efeitos de seu trabalho inaugural. De maneira geral, o documento evoca um projeto de estruturação gradual das ciências sociais brasileiras, marcado pela perspectiva do desenvolvimento regional, dominante, de modo especial, nas reflexões sobre o Nordeste e suas condições de respostas aos desafios postos pelo acelerado e assimétrico processo de modernização do país.
Para a efetiva autonomia das ciências sociais em Fortaleza, o etnólogo e antropólogo francês sugere, ao então Departamento de Ciências Sociais e Filosofia, além do ensino, o fortalecimento da pesquisa sociológica – sem desconsiderar as experiências avançadas nos trabalhos de campo realizados pelo Instituto de Antropologia -, com sólidas bases teórica e metodológica, como fundamento imprescindível à formação especializada. Produzindo assim, estudos e diagnósticos coesos, articulados, e potencialmente competitivos, sobre a diversidade de “problemas sociais” situados intra e extra-regionalmente. Não por acaso, a questão da qualificação docente e discente aparece de maneira particularmente clara em várias passagens do relatório de Duvignaud.
Dentre as ações por ele recomendadas, cuja centralidade recai sobre o ensino, no processo de profissionalização dos cientistas sociais no Ceará, destacam-se: apoio à criação de acervos bibliográficos e documentais, aquisição de equipamentos, incentivos à continuidade das formações pós-graduadas dos docentes efetivos, bem como à formação integral de novos docentes na área das ciências sociais, habilitando-os a compor equipes diversificadas de pesquisadores e a capacitar profissionais especializados. Dessa forma, uma vez fortalecido o ensino em ciências sociais e ampliado seu repertório de pesquisas, o Instituto de Antropologia daria lugar ao “Instituto de Pesquisas Sociais para o Desenvolvimento do Norte e Nordeste do Brasil”.
Assim, o Departamento teria condições de assumir plenamente sua função integradora (e interdisciplinar) dentro da Universidade. Em outras palavras, pelas “pesquisas sociais”, se institucionalizaria o trabalho de ensino e pesquisa, que o Instituto de Antropologia já realizava junto a outros departamentos, dentro e fora da Universidade, dando conta da articulação, diríamos hoje “em rede”, dos problemas da desigualdade, enfrentados pelo Ceará, Amazonas, Pará, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte e Paraíba.
A perspectiva objetivada pelo incentivo e promoção aos “reagrupamentos” entre tradições regionais, e mesmo nacionais, não se restringia a uma formulação individual de Jean Duvignaud, tampouco ao Ceará. É certo que, de sua parte, houve uma defesa do “trabalho coletivo para a existência da sociologia”; sua ideia de que “a sociologia resulta de responsabilidades coletivas”3, está presente em boa parte dos esforços de mediação que realizou em diversos países, em contextos mais ou menos favoráveis, como no insólito ambiente institucional encontrado no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Montevidéu, em 1962. Tratava-se de uma forma de trabalho fortemente encorajada pela Unesco. Alvo inclusive de críticas contundentes, como a acusação de ser portadora dos piores riscos de etnocentrismos nacionais, na medida em que, ao promover as aproximações, tenderia a comparar e homogeneizar tradições nacionais distintas4.
O relatório final da missão de Duvignaud, as experiências como viajante pela Unesco no âmbito de suas missões de expertise5, identificando “tendências predominantes” e “singularidades inquietantes” (Ianni, 2000) em processos de modernização de realidades distintas, desafia a crítica direcionada à “sociologia Unesco”. Seu parecer sobre o Ceará pode ser lido como esboço para um estudo acerca das contingências genealógicas dos indicadores nacionais, sem perder de vista as dimensões regionais. Se as justaposições conceituais, levadas a efeito por atos de comparação que desconsideram a heterogeneidade das formações das categorias “nacionais”, são problemáticas, a categoria “desenvolvimento”, por exemplo, que tende a aproximar as regiões, percorridas em suas travessias, pode ser tomada como elemento constitutivo dos princípios de diferenciação estrutural que marcaram a formação das ciências sociais nesses espaços. O que nos constrange a refletir sobre como tradições regionais se aproximam e se repelem dentro de uma mesma tradição nacional, e como se relacionam num campo internacional de formações nacionais.
Notas
1 O material aqui utilizado integra o Dossiê Jean Duvignaud, do acervo da Biblioteca da Unesco (Paris), consultado em janeiro de 2025, com financiamento da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP/Edital Universal Nº 06/2023).
2 Casa de Osvaldo Cruz. Luiz Fernando Raposo Fontenelle. Base Arch. Disponível em: https://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/luiz-fernando-raposo-fontenelle. Consultado em: 07/10/2025.
3 DUVIGNAUD, J. Rapport de fin de mission de Jean A. Duvignaud, expert de l’Unesco auprès l’Institut de Sciences Sociales de l’Université de Montevideo, juillet-octobre 1962 in DUVIGNAUD, J.A. Reports Section Uruguay. Reports from field experts. URU/SS/2. CPX/Rep.3/499. Paris: Unesco Archives.
4 A crítica caracteriza esta forma de fazer sociologia como um padrão específico, a “sociologia Unesco”, um tipo de sociologia “humanista, que compara tradições nacionais como se fossem dados homogêneos e neutros, em nome de um internacionalismo bem-intencionado”. BOURDIEU, P. Les spécificités des histoires nationales. Pour une histoire comparée des différences pertinentes entre les nations in BOURDIEU, P. Impérialismes – Circulation Internationale des idées et luttes pour l’universel. Col. Microcosmes. Paris: Raisons d’Agir, 2023, p. 126.
5 Antes de sua passagem pelo Ceará, Duvignaud atuou no Ministério da Educação Nacional da França; foi mestre de conferências no Centro de Estudos em Ciências Sociais da Universidade de Tunis; professor, pesquisador e diretor da seção de sociologia da Faculdade de Letras da Universidade de Tours; e expert da Unesco junto à Universidade de São Paulo (1959), ao Centro Latino-Americano de Pesquisas em Ciências Sociais no Rio de Janeiro (1961), ao Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Montevidéu (1962) e ao Centro de Pesquisas Sociológicas de Buenos Aires, da Universidade de Buenos Aires (1962). DUVIGNAUD, J. A. Curriculum Vitae. Unesco forms 250 in DUVIGNAUD, J.A. Mission Brésil, Jean Duvignaud. PER/REC.2/903, BRX/REP.3/57. Paris: Unesco Archives.
Brasil. Desenvolvimento do ensino e pesquisa em ciências sociais na Universidade do Ceará, Fortaleza. 20 de Julho de 1968 – 20 de Setembro de 1968, por Jean Duvignaud1.
Sumário
- Relatório sobre a missão efetuada junto à Universidade do Ceará.
- Nota sobre o Instituto de antropologia e o Departamento de ciências sociais de Fortaleza (Ceará).
- Demanda de ajuda formulada pelo Sr. Fontenelle, diretor do Departamento.
- Projeto para um Instituto de pesquisas sociais para o desenvolvimento das regiões norte nordeste[2] do Brasil.
Relatório da missão relativa ao Departamento de Ciências Sociais da Universidade de Fortaleza (Ceará)
Após ter entrado em contato com os organismos da Unesco, no Rio, e recolhido informações junto às autoridades universitárias brasileiras sobre o Ceará, fui à Fortaleza para um período de dois meses.
Nossa pesquisa sobre os problemas científicos e administrativos colocados pela elaboração de um programa moderno adaptado às necessidades locais tomou duas formas: entrevistas com os membros do Departamento e do Instituto de antropologia ou pessoas diretamente envolvidas com a pesquisa social, visitas aos campos de pesquisas em vias de conclusão e, em termos mais amplos, em todo o estado do Ceará. O Sr. Professor Raposo Fontenelle, diretor do Departamento, dispôs de todos os meios para ajudar neste trabalho de investigação.
1. Estado da pesquisa
(a) A equipe
A equipe do Instituto de antropologia (o mais antigo instituto de estudos aplicados da Universidade) reune há quatro anos, sob a direção do Sr. Fontenelle, pesquisadores de horizontes diferentes. De imediato, dizemos que a homogeneidade e a eficácia desta equipe nos causou uma impressão muito favorável. Acrescentamos que as 11 pessoas se consagram permanente e exclusivamente à sociologia.
Uma inspiração comum mantem esta equipe desde sua formação: evitar a multiplicação de pesquisadores parcialmente formados, evitar pesquisa superficiais e dispendiosas, reunir um pequeno grupo de especialistas de alto nível para promover pesquisas limitadas mas aprofundadas.
(b) As pesquisas
Sem mencionar o trabalho, em vias de publicação, do Sr. Fontenelle sobre uma vasta zona pecuária, contamos quatro pesquisas relativas aos sistemas políticos do Ceará (em colaboração com Sr. Paulsen, da Universidade de Wisconsin), duas sobre comunidades pesqueiras do litoral e uma sobre um bairro suburbano de Fortaleza. Nos foi permitido avaliar “em campo” a boa qualidade científica destas pesquisas. Elas devem ser publicadas a partir de 1969 pela Universidade1.
2. O Programa Geral das Pesquisas.
Após termos examinado cada uma destas pesquisas e percorrido diversas regiões geográficas e econômicas do estado do Ceará, discutimos o programa de pesquisas previsto pelo Instituto.
Ele parece responder a três condições essenciais: é equilibrado e integra as pesquisas atuais, levando em conta os limitados meios que dispõem os pesquisadores, tem caráter progressivo e, sobretudo, porque realiza uma divisão racional das regiões econômicas do Ceará, ele está articulado a um plano de desenvolvimento.
3. Ensino.
Há um ano o Departamento de Ciências Sociais foi criado e sua direção confiada ao Sr. Fontenelle. É desejável que pesquisa e ensino estejam ligados. É igualmente excelente que o Sr. Fontenelle estimule a formação anual de cerca de vinte estudantes, que serão ao fim de três anos integrados diretamente à pesquisa onde poderão, eventualmente, seguir uma carreira científica.
Mas, no momento, a equipe do Instituto e do Departamento não pôde concluir este trabalho: outros departamentos da Universidade solicitam cursos de sociologia, a pesquisa tem suas exigências imperativas. A maior parte dos assistentes deseja concluir seus estudos superiores (Estados Unidos, França, Grã-Bretanha). Enfim, o material que dispõe a Universidade é irrisório: nenhuma biblioteca digna deste nome, nenhum instrumento de trabalho científico.
Sugerimos ao Sr. Fontenelle proceder a uma formação direta, prática e teórica a uma só vez, em campo, no âmbito das equipes que ele deseja constituir. Insistimos igualmente sobre a importância de cursos teóricos que acentuem a competência dos pesquisadores.
4. Situação do Departamento na Universidade e o País.
Mensuramos a integração do Instituto e do Departamento na Universidade ao longo de conferências e discussões com estudantes, bem como na ocasião de um seminário interdisciplinar com economistas e matemáticos (dois departamentos muito desenvolvidos no Ceará). Aqui também, as perspectivas de colaboração são favoráveis.
De forma mais ampla, nos foi dado constatar que as autoridades universitárias do Ceará, e aquelas de estados vizinhos, desejam que uma ajuda substancial possa ser destinada às regiões do norte nordeste no momento em que o Brasil inicia um imenso trabalho de desenvolvimento. O dinamismo da equipe de Fortaleza se estende para além dos limites do Ceará e estabeleceu contatos científicos com pesquisadores isolados do Maranhão e do Rio Grande do Norte.
Nesta perspectiva mais vasta, e mais ampliada, poderíamos imaginar uma reestruturação dos esforços coletivos e talvez um programa de pesquisa que diga respeito aos problemas do desenvolvimento do norte nordeste. Esta vocação é comum a todos os membros do Instituto e do Departamento.
5. Proposições.
O Instituto e o Departamento não têm recursos. Não dispõem de nenhum material. A maior parte das pesquisas foi empreendida com recursos dos próprios pesquisadores. Contudo, o trabalho que fazem aqui é sério, cientificamente de boa qualidade e, sobretudo, existe uma equipe dinâmica e dedicada, cuja atuação exclusiva na Universidade já cristalizou uma consciência favorável ao desenvolvimento. Faço os mais vivos votos para que possamos oferecer uma ajuda efetiva a este organismo.
No âmbito do programa da Unesco, me permito sugerir que a eventual ajuda aportada ao Instituto e ao Departamento cronologicamente assim se realize:
1. Bolsas (4), a fim de permitir ao Departamento enfrentar os problemas de formação.
2. Acervo de livros e periódicos científicos.
Enfim, em 1970:
3. Um expert em sociologia do desenvolvimento econômico e social.
No entanto, seria injusto parar esta ajuda aqui. O Departamento e o Instituto constituem atualmente o único núcleo dinâmico de pesquisa em ciências sociais do Nordeste, um dos únicos lugares no Brasil onde se pratica pesquisas diretas “em campo” e por um prolongado período. Outros pesquisadores de estados vizinhos (onde as universidades não são tão desenvolvidas quanto a do Ceará) desejam colaborar com a equipe de Fortaleza em um vasto programa de sociologia do desenvolvimento aplicada a esta importante região do Brasil. Podemos prever diversos agrupamentos. Sugerimos que isso consistiria em reunir os esforços de pesquisa em um órgão científico consagrado aos problemas específicos do Nordeste.
O Instituto de Antropologia e o Departamento de Sociologia da Universidade de Fortaleza (Ceará)
O Instituto de Antropologia é o primeiro instituto de estudos aplicados da Universidade do Ceará. Em uma primeira fase de seu desenvolvimento, ele reuniu pesquisadores em disciplinas diversas (juristas, literatos etc.) que, há cinco anos, se estruturam e assimilam a prática da pesquisa social sob a direção do Sr. Professor Fontenelle.
No momento de criação do Departamento de ciências sociais da Universidade do Ceará e sua direção igualmente confiada ao Prof. Fontenelle, ensino e pesquisa foram reunidos no mesmo organismo, o que constitui uma situação indiscutivelmente favorável. Assinalamos desde já que os pesquisadores do Instituto assumem igualmente tarefas de ensino no Departamento, assim como em outras seções na Universidade que manifestaram interesse pelas ciências sociais: geografia, filosofia, arquitetura e medicina.
No atual estágio de desenvolvimento da Universidade do Ceará – que é, de longe a mais importante das universidades do norte nordeste brasileiro – o Instituto com sua equipe homogênea constitui o único organismo de documentação e de pesquisa social fora dos centros já tradicionais ou especializados em antropologia clássica, como aquele de Recife-Pernambuco. Isso é ainda mais notável considerando que, na maior parte dos casos, a formação científica e o acesso à informação se encontram concentrados exclusivamente no sul do país.
Pessoal
Uma série de entrevistas organizadas com os membros do Instituto, nos forneceu meios para examinar as atuais possibilidades deste estabelecimento no âmbito da pesquisa. Atualmente, a disponibilidade de pessoal do Instituto se decompõe assim:
Pesquisa e professores: Pesquisa: 3
Ensino e Pesquisa: 8 (7 professores e 1 auxiliar); Ensino: 7
Estagiário de pesquisa: 4
Além disso, o Instituto dispõe de um edifício que lhe empresta a Universidade, um automóvel, um motorista e um pequeno grupo de secretários. Ressaltamos igualmente que os membros do Instituto não dispõem de nenhuma outra fonte que não seu salário regular da Universidade, quer se consagrem exclusivamente à pesquisa ou ao ensino. As 11 pessoas responsáveis pela pesquisa e pelo ensino estão instaladas permanentemente nas dependências do Instituto ou permanecem no campo de pesquisa. A origem social destes pesquisadores é notável, trata-se em todos os casos de pessoas que se reuniram voluntariamente, movidas por uma vocação comum pela sociologia e antropologia social aplicada aos problemas do desenvolvimento. Algo raro para deixar de ser assinalado.
A pesquisa e sua vocação.
Nos pareceu interessante que os membros do Instituto estimam que a função presente do organismo, ao qual eles consagram seu tempo, não consiste tanto em multiplicar os semiespecialistas ou empreender sondagens rápidas e superficiais, mas concentrar esforços coletivos para constituir uma equipe de alto nível e de grande rendimento, a fim de realizar com êxito pesquisas específicas, mas aprofundadas, relativas ao desenvolvimento econômico e social do Nordeste. A mudança cultural provocada na Universidade e a cidade de Fortaleza, pela simples existência deste Instituto, é, em si mesmo, um evento importante, capaz de cristalizar a opinião em torno dos problemas do desenvolvimento e de suscitar novas vocações.
Quando de duas conferências consagradas aos técnicos de pesquisa em ciências sociais, pudemos mensurar o interesse dos estudantes e dos professores de diferentes disciplinas pelos projetos do Instituto, e isso em um período particularmente delicado. A importância do debate que seguiu estas conferências e o nível da discussão são provas suplementares da integração do Instituto na Universidade e da seriedade com a qual o Sr. Fontenelle e sua equipe encaram as questões científicas.
Uma reunião interdisciplinar nos permitiu igualmente mensurar a capacidade de colaboração científica do Instituto e de constatar que uma cooperação já está em curso de realização com economistas, geógrafos e matemáticos (o Departamento de matemática da Universidade de Fortaleza é provavelmente o mais avançado do Brasil).
É necessário acrescentar que, durante a fase de criação, o Instituto de pesquisas recebeu grande auxílio do Sr. Reitor Martins Filho, antigo reitor e fundador da Universidade do Ceará, hoje reitor adjunto e responsável por altas funções que lhe permitem aportar aos pesquisadores uma ajuda que acentua ainda o prestígio nacional que goza este destacado profissional da universidade brasileira.
O princípio que conduziu estas pesquisas foi aquele das pesquisas em profundidade permitindo fazer aparecer fenômenos de estratificação social passíveis de análise. Foi o método definido pelo Sr. Prof. Fontenelle para seu estudo sobre a região pecuária da Ibiapaba no oeste do Ceará, a qual constitui a primeira das grandes pesquisas do Instituto e que está em vias de publicação. Esta definição do trabalho sociológico não resulta dos frágeis meios dos quais dispõe o centro de pesquisas mas do firme propósito de obter resultados científicos válidos.
Atualmente, além do trabalho do Sr. Fontenelle, quatro outras pesquisas estão sendo concluídas:
Pesquisa sobre as atitudes e sistemas políticos do Ceará, dirigida pelo Sr. Paulo Elpidio de Menezes e Sr. Paulsen, professor da Universidade de Wisconsin, cujo material foi reunido e está sendo tratado neste momento;
pesquisa sobre uma comunidade de pescadores da costa sul (Canoa Quebrada), dirigida pelo Sr. Hélio Guedes de Campos Barros; nós estivemos em campo e constatamos com qual competência etnológica, o coordenador do projeto e sua equipe abordaram o estudo desta comunidade e de seu sistema econômico. Os dados da pesquisa foram totalmente compilados;
pesquisa sobre uma comunidade de pescadores da região norte (Almofala), cujas técnicas e sistema econômico são diferentes do primeiro; pesquisa dirigida pelo Sr. Luiz Gonzaga Mendes Chaves, cujos primeiros resultados, já quantitativamente significativos, estudamos;
pesquisa sobre um bairro do subúrbio de Fortaleza, agrupando 5.000 pessoas vindas do “sertão” em um conjunto habitacional de tipo “favela” (Lagamar). Pesquisa dirigida pelo Sr. João Pompeu de Sousa Brasil, que se instalou no lugar, em uma casa, com sua equipe, e que estudou as atitudes dos trabalhadores deslocados e sua capacidade de adaptação urbana.
Estas pesquisas estão muito avançadas. Elas devem ser publicadas pela Universidade ao longo dos dois próximos anos. É necessário aí acrescentar os projetos do Sr. Paulo Elpidio de Menezes Neto sobre o problema das comunicações de massa e das atitudes diante da mudança social no interior do estado do Ceará, e do Sr. Geraldo Markan, sobre os modelos culturais e mentais dos camponeses vindos do “sertão”.
Programa de pesquisa.
O Sr. Prof. Fontenelle e seus colaboradores estão atentos na coordenação e organização das pesquisas durante a fase de implantação do Instituto, ou seja, no decorrer dos próximos anos.
Ao longo das reuniões de trabalho, discutimos este projeto de pesquisa que, em seu estado atual, nos parece responder a três exigências essenciais: levar em conta as possibilidades reais do Instituto e da Faculdade, corresponder às diversas regiões ou situações econômicas e sociais do estado do Ceará, estar em relação direta com os problemas atuais colocados pelo desenvolvimento regional. Podemos evocar estes dois últimos aspectos com mais facilidade, pois o Instituto nos permitiu conhecer diretamente, por frequentes deslocamentos via estradas, os pontos de referência destas pesquisas projetadas: região do Crato-Juazeiro e vale do Jaguaribe, região costeira, Crato, região de atividade pecuária, “sertão”. Com base nessas observações diretas, discutimos este projeto de trabalho, ao qual nos pareceu necessário concordar integralmente:
1. A região costeira de pesca: costa norte, costa sul;
2. A região de atividade pecuária (Quixadá-Quixeramobim, Nordeste, Alto Aracati);
3. A região de atividades extrativistas;
4. A região de produção de algodão;
5. A região montanhosa de pequena propriedade agrícola;
6. A região de agricultura intensiva do Cariri;
7. A região metropolitana de Fortaleza;
8. A região das cidades ditas “polos de desenvolvimento”;
9. As regiões “mistas”.
Constatamos que as rubricas 1 (a e b), 5 e 7 já estão “cobertas” por algumas pesquisas iniciadas pelo Instituto e que os dois projetos definidos acima se integram a estas definições.
Ensino
Há um ano, data da criação do Departamento de ciências sociais da Universidade, os membros do Instituto precisam lidar com tarefas de ensino. Sem dúvida, o desejo expresso pelo Sr. Fontenelle e seus colaboradores é de formar sobretudo um pequeno número de pesquisadores competentes (20 por ano) que se integrem imediatamente à pesquisa. É, no entanto, certo que neste plano, o Instituto e o Departamento se encontrem em uma situação difícil pela qual seus membros não são de forma alguma responsáveis.
Qualquer que seja a competência do Sr. Prof. Fontenelle, professor catedrático de sociologia e autor de excelentes pesquisas, é impossível a este último assumir todas as disciplinas ao mesmo tempo que a direção científica e administrativa dos dois organismos de Estado. Qualquer que seja a boa vontade de seus colaboradores, é impossível responder à demanda que implica ao mesmo tempo estas disciplinas especializadas e as exigências formuladas por outros departamentos da Universidade.
Acrescentamos que o Instituto não dispõe de nenhum fundo ou material. A biblioteca da seção “sociologia”, da Faculdade de Filosofia, é totalmente insuficiente e obsoleta. Ela não permite em nenhuma situação dar aos estudantes material científico conveniente. As únicas obras importantes pertencem aos próprios pesquisadores que, aliás, demonstram uma boa cultura sociológica e econômica.
Portanto, seria de uma importância decisiva para o Instituto e Departamento que professores-assistentes, que assumiram há dois ou três anos tarefas de pesquisa, pudessem dispor de bolsas para concluir sua formações superiores (teses ou P.I.D) e isso de modo que a instituição de Fortaleza não sofra suas ausências.
É por isso que transmitimos, e apoiamos fortemente, as proposições de bolsas junto ao Departamento de ciências sociais da Unesco, permitindo aos Sr. Guedes de Campos Barros, Bezerra de Menezes, Pompeu de Sousa Brasil, Geraldo Markan e Gonzaga Mendes Chaves concluirem seus doutorados ou equivalentes nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha ou na França. A fase de expansão do Instituto depende da rapidez com a qual este núcleo dinâmico de pesquisadores concluirá sua formação superior e permitirá ao Sr. Fontenelle estruturar racionalmente as atividades de ensino.
Para estes últimos, com efeito, está prevista a criação de pequenos grupos de cinco estudantes reunidos em torno de um professor e adquirindo, tanto no campo de pesquisas quanto na discussão científica de seminários, uma formação elementar; uma integração equilibrada e progressiva à pesquisa, deverá permitir, ao longo de três anos, uma formação científica equilibrada.
O Instituto não pensa que seja necessário chamar imediatamente um expert da Unesco antes que se constitua completamente a infraestrutura científica que permitirá a este ensinar de maneira eficaz; sugere-se que no início de 1970 seja possível lhe enviar, por um período de um ano, um expert em sociologia do desenvolvimento.
Parece que esta fórmula seja a única capaz de manter a homogeneidade da equipe do Instituto e sua eficácia durante este período de expansão, tanto na Universidade quanto no Ceará. O interesse pela ajuda da Unesco seria ainda maior, pois permitiria uma experiência única no Brasil, combinando pesquisa experimental “em campo” e estudo científico do desenvolvimento, em uma região onde este desenvolvimento é uma urgência absoluta.
Por uma pesquisa consagrada ao desenvolvimento do norte nordeste.
O dinamismo do Instituto nos pareceu tanto mais fortemente porque, sem dúvida, não existe no Brasil outro centro deste gênero, que, praticamente, sem meio e sem ajuda, pode empreender (frequentemente às custas dos próprios pesquisadores) pesquisas tão aprofundadas. A ajuda internacional e federal se concentra evidentemente na região urbana desenvolvida do Sul e não alcança, por assim dizer, jamais o norte nordeste do país, onde as exigências são, portanto, mais fortes e que constitui, neste momento, uma das regiões mais “sub-analisadas” do continente. Na maioria dos casos, as pesquisas ou as sondagens que são empreendidas são feitas por organismos econômicos cujo pessoal não é, de forma alguma, especializado e cujos resultados não são jamais publicados, mesmo supondo que estas pesquisas sejam conduzidas até o fim.
Nos foi dado constatar que o dinamismo dos membros do Instituto de Fortaleza poderia ter consequências científicas positivas em toda a região que se estende de Natal à Amazônia onde o governo federal brasileiro empreende neste momento imensos esforços de desenvolvimento. Por que a equipe de sociólogos de Fortaleza é homogênea e dinâmica, porque é a única equipe universitária especializada desta região norte nordeste e porque alguns dos pesquisadores que já se encontram trabalhando em órgãos do Estado, como a Sudene, não é impossível pensar que encontraríamos aí um espaço para um centro de pesquisas mais vasto e capaz de dedicar-se aos numerosos problemas provocados pelo desenvolvimento desta região.
A prova disso nos foi dada pelos encontros que o Prof. Fontenelle nos proporcionou tanto com as autoridades universitárias do Ceará quanto com as autoridades universitárias do estado do Maranhão, vizinho do Ceará. Juntamos a esta nota e ao nosso relatório as cartas escritas por estas autoridades, as quais nos encarregaram de transmiti-las. Sugerimos uma reestruturação da ajuda internacional para as regiões subdesenvolvidas do norte nordeste em razão da capacidade de centros de pesquisas como aquele de Fortaleza tornar-se um polo de estudos sociológicos especializados.
Nós, bem entendido, não tomamos posição sobre este problema que concerne exclusivamente ao Brasil; apenas nos contentamos em chamar a atenção das autoridades competentes sobre esta importante questão. É certo que a existência de um centro de pesquisas cientificamente estabelecido na mais importante das universidades do Nordeste constitui um fato novo.
Se evocamos a possibilidade de um desenvolvimento planejado do centro de pesquisas de Fortaleza, chegamos a esta ideia várias vezes expressa em todas as conversas que tivemos com autoridades econômicas e administrativas desta região: aquela da criação de um Instituto de pesquisas sociais para o desenvolvimento do norte e do nordeste do Brasil.
Reunindo os esforços dos especialistas científicos do Ceará àqueles do Maranhão, Pará, Rio Grande do Norte, Piauí, Paraíba e Amazonas, tal órgão poderia ajudar o desenvolvimento regional, favorecer uma tomada de consciência comum e preparar os dados de um análise aprofundada deste conjunto coerente onde o Brasil inicia atualmente um combate decisivo. Evidentemente, não se trata de substituir as entidades existentes e que têm sua razão de ser, mas de combinar as pesquisas existentes com as exigências da região norte nordeste desfavorecida tanto no plano da ajuda científica quanto no plano dos investimentos.
Sem demonstrar uma ambição exagerada e estimando que o desenvolvimento e a expansão do Instituto de Fortaleza sejam contínuos durante os dois próximos anos, seria perfeitamente possível considerar a constituição progressiva de um centro regional de pesquisas reunindo em torno de um núcleo dinâmico já existente os esforços de outros Estados e de outras universidades.
Em um período de três anos (como indicamos no Projeto anexo) seria possível prever um ciclo de estudos sociológicos especializados, a constituição de um repertório de pesquisas empreendidas em diversos organismos privados e públicos, as universidades ou os centros de pesquisas aplicadas, um conjunto de pesquisas coordenadas entre eles; seria possível passar em seguida a pesquisas mais completas, a publicação dos resultados e à preparação de uma análise fundamentada e global dos problemas do desenvolvimento do norte nordeste. Empreendimento de longo fôlego, desejado por todos aqueles que acreditam que possa se transformar a imensa região da qual Fortaleza constitui atualmente o primeiro núcleo científico constituído.
A qualidade da equipe agrupada em torno do Sr. Professor Fontenelle, a decisão destes pesquisadores de empreender pesquisas articuladas e aprofundadas, os resultados adquiridos, o interesse de outras seções da Universidade do Ceará e de outras universidades do norte nordeste pelo estudo sociológico do desenvolvimento, a imensidão do domínio assim aberto ao estudo sociológico, requerem provavelmente considerar as proposições das quais transmitimos aqui os elementos principais. Nos parece que o Instituto de antropologia social e o Departamento de ciências sociais da Universidade de Fortaleza (Ceará) podem constituir a matriz de um projeto mais vasto. A vocação inter-regional deste centro de pesquisas nos parece evidente na medida em que uma ajuda eficaz pode lhe ser aportada.
Jean Duvignaud
Consultor da Unesco, professor de sociologia na Faculdade de Letras de Tours, diretor da seção de sociologia da Universidade.
Anexo I
Sr. Diretor
Departamento de Ciências Sociais
Unesco – Paris
Senhor Diretor
Ao fim da missão efetuada pelo Professor Jean Duvignaud junto ao Instituto sob minha direção, venho respeitosamente requerer a ajuda da Unesco no âmbito do programa de participação.
Considerando a situação e atuais necessidades do Instituto, tais quais o Sr. Duvignaud expôs em seu relatório, esta ajuda poderia ser escalonada em dois anos, a partir de 1968.
1. 1969
Créditos para compra de livros de ciências sociais e material indispensável (mimeógrafo, material para microfilmes, máquina de calcular).
Concessão de bolsas da Unesco, a fim de permitir a aplicação do programa de expansão do Instituto em pesquisa e ensino, em benefício dos professores assistentes (ver nota anexa).
2. 1970
Envio de um expert durante o período de um ano para o ensino de sociologia do desenvolvimento econômico.
Obtenção de uma bolsa anual, renovável, para permitir a formação regular dos professores e pesquisadores.
Agradeço-lhe, Sr. Diretor, a atenção dada a esta demanda de ajuda, que deve permitir ao nosso Instituto cumprir plenamente sua missão.
Com meus sinceros sentimentos.
Prof. Luiz Fernando Raposo Fontenelle,
Professor de sociologia, diretor do Instituto e do Departamento de sociologia da Universidade do Ceará.
Setembro de 1968.
Proposições de bolsas.
No âmbito do “programa de Participação”, o Instituto de Antropologia do Ceará solicita cinco bolsas de estudos. Aqui estão aqueles que poderiam ser os beneficiários:
Sr. Helio Guedes de Campos Barros, atualmente professor-assistente, que deseja concluir uma tese de doutorado em uma faculdade francesa (Orléans-Tours).
Sr. Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes, atualmente professor assistente, que deseja concluir uma tese de doutorado na Faculdade de Letras de Paris.
Sr. João Pompeu de Sousa Brasil, atualmente pesquisador auxiliar do Instituto, que deseja preparar um doutorado ou seu equivalente na London School of Economics ou na Universidade da Califórnia.
Sr. Luiz de Gonzaga Mendes Chaves, atualmente professor assistente, que deseja concluir uma tese de doutorado junto a uma faculdade francesa (Tours-Orléans).
Sr. Geraldo Markan Ferreira Gomes, atualmente professor assistente, que deseja concluir sua tese de doutorado.
Nota:
Permito-me insistir, particularmente, para a obtenção destas bolsas como interesse do Instituto e pelo seu futuro no nordeste brasileiro, que jamais teve, até aqui, se beneficiado das vantagens reservadas às universidades do sul do país.
Jean Duvignaud
Anexo II
Projeto para um Instituto de pesquisas sociais para o desenvolvimento do nordeste e do norte do Brasil.
(Texto submetido pelo consultor ao Diretor do Instituto e ao Reitor da Universidade).
Parece que o desenvolvimento da região nordeste e norte do Brasil convoca à criação de um organismo de pesquisas científicas e universitárias especializado, que reuna esforços das faculdades e centros de estudos regionais, e que responda às seguintes condições:
Fixar a pesquisa sociológica brasileira no próprio Brasil, permitindo a formação de pesquisadores de alta qualificação ali mesmo;
Contribuir para o desenvolvimento econômico regional, permitindo àqueles responsáveis intervir em campo, para além da inevitável abstração dos projetos;
Favorecer uma tomada de consciência em favor do desenvolvimento, coordenado e contínuo, e suscitar as vocações em um corpo de pesquisadores suscetíveis de prestar seus serviços a organismos nacionais ou internacionais;
Estabelecer relações de intercâmbio sem subordinação, com as universidades estrangeiras, as fundações públicas ou privadas, para a realização de um estudo conjunto de vasta amplitude sobre as mudanças sociais e econômicas a fim de promover a retirada das regiões tropicais e equatoriais do subdesenvolvimento que muitas vezes não é senão uma forma de sub-análise.
Tal organismo ligado aos centros promotores do desenvolvimento deveria comportar os seguintes elementos. Estes, agrupados por ano, poderiam constituir a infraestrutura do Instituto de pesquisas sociais para o desenvolvimento do nordeste e do norte do Brasil.
I
1. Um ciclo de formação teórica de alto nível – ecologia, morfologia, geografia, história, economia.
2. Um ciclo de formação prática em pesquisa de campo: questionários, técnica de trabalho em grupo, observação, estatísticas, utilização de instrumentos audiovisuais, etc.
3. Constituição de um repertório de pesquisas empreendidas, iniciadas, iniciadas e concluídas, em vias de serem finalizadas nas universidades, institutos, fundações, órgãos federais (ou locais) públicos, privados e estrangeiros; um tal repertório poderia ser publicado no primeiro ano.
Esta primeira fase de constituição do Instituto poderia ser inteiramente assumida com a ajuda da Unesco, a fim de assegurar a independência completa do organismo.
II
Sobre estes elementos instituídos no primeiro ano, viriam se superpor no ano seguinte:
1. Um repertório do trabalho de pesquisa segundo o mapa estabelecido pelo Comitê científico do Instituto e instalação de pesquisadores no campo com seu material.
2. Seminários interdisciplinares ampliados com representantes dos organismos de desenvolvimento para analisar os resultados obtidos e elaborar as sínteses dos mesmos.
3. Transformação do levantamento em “banco de pesquisa” no nordeste e norte do Brasil fundamentando-se no conhecimento de um arquivista científico.
Esta segunda fase de constituição do Instituto poderia ser assumida conjuntamente pela Unesco e universidades interessadas.
III
No terceiro ano, a estes elementos fixos (onde para cada um seria atribuído um responsável perante o Comitê científico) se superporiam os seguintes:
1. Formação superior de especialistas em sociologia do desenvolvimento capazes de ser integrados aos organismos nacionais e de intervir com eles em grupos interessados em uma autoridade decisória reconhecida.
2. Publicação fundamentada dos resultados obtidos e divulgação destes resultados junto às autoridades e à opinião públicas.
3. Constituição de um comitê restrito à pesquisa que, a partir deste período, poderia, em razão do pessoal formado, planejar “avançar por etapas” junto aos organismos diversos sem perder o controle da pesquisa em si e reservando-lhe a propriedade dos resultados.
À Unesco e às universidades poderiam ser associados, nesta fase de criação do Instituto, organismos públicos e privados.
A este organismo progressivo, pode-se eventualmente acrescentar a criação de uma sociedade para o desenvolvimento do norte nordeste que agruparia de uma maneira informal professores do ensino primário, clérigos, médicos, engenheiros e, de modo geral, toda pessoa suscetível de endereçar de um ponto qualquer do país breves notas de informações sobre diversos setores estudados; estas seriam mimeografadas regularmente em um boletim da sociedade para ajudar na conscientização coletiva sobre o desenvolvimento e dar uma base pública aos trabalhos do Instituto.
O Instituto seria dirigido por um comitê científico diretor comportando uma maioria de especialistas em ciências sociais, do nordeste e norte brasileiro, e de pesquisadores e cientistas brasileiros ou estrangeiros. O atual Instituto de Antropologia da Universidade do Ceará de Fortaleza poderia ser o núcleo deste grupo.
Notas do relatório
1 [trad. Mariana Barreto]. Traduzido a partir do original: DUVIGNAUD, Jean. Développement de l’enseignement et de la recherche en sciences sociales à l’université du Ceara, Fortaleza. 20 juillet 1968 – 20 septembre 1968. Nº de série: 895/BMS. RD/SS, Paris: UNESCO, novembre 1968, 16 p. Disponível aqui. Uma versão em francês deste relatório está publicada na Revista de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará, vol. 1, Nº 1, 1970, p. 38-56. Disponível em: https://periodicos.ufc.br/revcienso/article/view/2960.
2 Para as regiões, optamos por preservar a forma originalmente escrita pelo autor. Além disso, como as atuais divisões regionais do país começaram a vigorar a partir de 1970, as mantivemos em letras minúsculas [N.T].
Referências
IANNI, Octavio. (2000). Enigmas da modernidade-mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
VIEIRA, S. (2018). Caminhos das Ciências Sociais na UFC. 2ª Edição. Fortaleza: Edições UFC, Memorial UFC e Imprensa Universitária UFC.
