Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Redinha (30 de dezembro) 


Mário de Andrade oferece uma uma belíssima crônica sobre a Praia da Redinha. Ou, melhor dizendo, uma crônica sobre o feliz gozo de um dia natalense. Música, comida, dança – muita dança – e ventania atravessam os sentidos. É notável o seu encantamento. E como ele próprio escreve, o Redinha-Clube é um guaiamum escuro com as pernas luminosas sobre a areia.

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. À tarde, não deixe de conferir novo texto de Mariana Barreto para a série. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Redinha (30 de dezembro) 

Hoje estou gosando a vida na Redinha, praia de banho natalense mas da outra banda do Potengy. Os botes de vela, “Iracema”, “Alagoas”, quinze outros, vão e vêm, trazendo levando gente. Meu amigo Baroncio Guerra, sertanejo de nascença, natalense de carnaval carioca, tipo acabado da alegria, dirige a felicidade com uma pericia incomparavel. Segurança de redea, como a dele nunca vi. 

A “parede” caju’ e cachaça abriu a festa. Em seguida: banho de mar. A copacabanisação de Natal é um fato. Mais graça, mais naturalidade, mais esporte que as praias de Santos, que morenas! Depois as redes e mangueiras nos esperavam pra “quebrar o ôlho”. Tirei um corte ventado na sombra dum terraço, milhor que receber carta. A fome nos acordou ali pelas 12 e meia pro almôço. Vatapá, cavala em môlho de coco; doces de comer pouco, deliciosos, duma insistencia assucarada prodigiosamente hospitaleira; melão nordestino, uma dessas coisas que fariam a Europa de Eduardo das Neves se curvar mais uma feita.  

Chega um chôro. Clarineta, violões, ganzá numa serie deliciosa de sambas, maxixes, varsas de origem pura, eu na rede, tempo passando sem dizer nada. Modinhas de Ferreira Itajubá e Anta de Sousa… A boca-da-noite abriu sem a gente sentir. O chôro foi lá em baixo se instalar no Redinha-Clube, casarão enato no meio da praia, prás meninas dançarem. Estamos por ali gosando a ventania. Se acende as luzes. O Redinha-Clube é um guaiamum escuro com as pernas luminosas sobre a areia.  

Pântam – parapântam – pântam – pântam – tchique – tchique… Eh… Lá no alto: 

— Êh viradô!… 

— A barca do má!… 

— Êh viradô!… 

— A barca gira 

No virá do má… 

— Êh viradô!… 

O acompanhamento é de ganzá e muganguê. Dançam o “coco” no terreiro preparado junto ao terraço de Baroncio Guerra. Na casa a mesa está posta pra quem quizer cear. Crême de camarão, casquinhos de carangueijo, o chouriço daqui que é um doce, a canjica daqui inteiramente diversa da sulista. 

— Vai, vai, vai, ôh mulé, 

     Num vá se perdê, ôh mulé!… 

— Agora que tô amarrado, ôh mulé, 

     Num vá me aparecê, ôh mulé!… 

Os dançarinos fazem coisas de sarapantar. Se agacham feito russos bamboleiam em passos de charleston, sem erudição de outras gentes. No povo nordestino até o passo basico do charleston era usual antes da dança iânque aparecer. 

— Ôh Yayá, ôh Yayá, 

     Ôh Yayá das Alagoa!… 

Um sonzinho de rebeca se aprochima 

— Deu a força da levada 

     Que me encheu toda a canoa!… 

Coco para. Os dançarinos se retiram cedendo campo. A rebeca está clara e enfim visivel mexendinho num “baiano” (dança) monotono mas admiravel. Por detrás dela dois paus seguram uma chita encarnada, especie de pano-de-boca escondendo as figuras do Boi. Desde quatorze horas essa gente vem de São Gonçalo pra dançar o Boi aqui. 

Meu sinhô dono da casa, 

Que eu venho da madrugada, 

Si não me abrir’s essa porta 

Não sôis feliz, não sois nada!… 

São 21 horas e a lua foi pontual. Velejou numa nuvem rapida e apareceu. 

MÁRIO DE ANDRADE