
É o último dia do ano, e Mário de Andrade reitera a influência de Catolicismo nos catimbós de Natal. Aqui, o modernista transcreve duas rezas que denotam essa presença: uma oração para qualquer hora do dia e outra para guia da vida. E, para complementar, nos presenteia com uma oração a Tupã e um canto de Nanã-Giê, mestra protetora das mulheres, que trabalha no fundo do mar.
Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Natal (31 de dezembro)
Já transcrevi a fabulosa oração “Fôrça do Credo”, falando na influência de Catolicismo existida nos catimbós daqui. Eis mais duas rezas manifestando a mesma influência:
Oração (pra qualquer hora do dia):
‘Meu Jesuis meu bom Sinhô, meu Jesuis meu Redentô, assim como perdoasses a Maria Madalena ao pé da cruiz, assim Sinhô dai-me fôrça e luiz para retirar os espiritos zombeteiros, viciosos, malfeitores e fazei chegar a mim na minha casa os bôes espiritos. Assim seja.”
Dou as frases dos meus consultados na dicção deles. É perceptivel o sequestro de brasileirismo oral. Procuravam “falar certo”, o que era uma pena. Por meu lado me guardei de imita-los a pronunciar como costumavam porquê isso os botaria de sobreaviso inda mais. Só mesmo nas orações cantadas consegui maior franqueza.
Eis a Oração pra guia da vida:
“Meu Jesuis e meu Sinhô, guiai os meus passos na Vossa divina Misericordia! Assim eu coloco em mim um Crucifixo e ando na paiz do Sinhô, fóra dos meus inimigos, com o poder da Virgem Maria, com a sua santa luiz na minha guia. Prometo a Jesuis da Sagrada Cruiz não me separar nem deixar de trazer os meus inimigos e malfeitores corporais e espirituais prêsos e amarrados debaixo de meu pé esquerdo, para fazerem o que eu com estas santas palavras mandar e acreditarem no santo poder de Jesuis.”
Oração a Tupã:
“Oh Tupã, que sublime, santo pagé! que no mundo mostras o mestre quem é, ôh leva! atendes, ôh Tupã, a sua fama Ereré! ôh leva! atendes, ôh Tupã! mostra o Guaracé quem é!…
Foi na serra do Ereré que os seres… “materialisados” se retiraram durante o diluvio, conta a lenda amerindia. Guaracé é o Sol. E de fato o Sol é cultuado nos catimbós daqui. O Reino do Sol é um dos mundos superiores, adonde só descem mestres bons. É nele que mora o espirito Ciro, que jamais não baixa na Terra, fica sempre trepado num raio de Sol.
Pra acabar dou o canto de Nanã-Giê, mestra que trabalha no fundo do mar e protetora das mulheres. É curandeira. Identificavel com uma das Mãis-d’Agua:
Nanã-giê, ôh Nanã-giá!
Nanã brecô já vem do má!
Nanã mi conhece, minina do má!
Valei-me Nanã, pra nois milhorá!…
O que será esse “brecô”, puxa!… Brecar?…
MÁRIO DE ANDRADE
