BVPS Edições | Autorais Laura de Mello e Souza

No sétimo texto da série Autorais Laura de Mello e Souza, “Perfis brasileiros: Cláudio Manuel da Costa”, reproduzimos quatro capítulos originalmente publicados no livro Cláudio Manuel da Costa: o letrado dividido.

Nele, a historiadora traça o perfil biográfico do poeta Cláudio Manuel da Costa, ao mesmo tempo em que reconstrói um rico panorama das Minas Gerais do século XVIII. Ao percorrer as relações políticas entre os “homens bons” e a Coroa, as tensões da vida privada e as estratégias de ascensão social de um indivíduo de trajetória intensamente pública, bem como a formação de uma sociabilidade letrada na colônia, duas qualidades do trabalho de Souza ganham destaque na leitura: a capacidade de compor um retrato do homem e de sua época que ultrapassa os limites do local, e mesmo do nacional, para alcançar uma abordagem global da História; e o uso da imaginação na elaboração da narrativa historiográfica, não se deixando constranger com os limites do documento.

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Perfis brasileiros: Cláudio Manuel da Costa

Por Laura de Mello e Souza (USP)

Viagem dilatada e aspérrima

Até 1764, Cláudio Manuel da Costa havia cruzado as terras do interior da América portuguesa por duas ocasiões: primeiro, quando, menino ainda, desceu as serras da Mantiqueira e do Mar para ir viver com os jesuítas do Rio de Janeiro; anos depois, já homem, quando voltou de Coimbra munido do diploma de bacharel e hesitando se virava padre ou advogava. De qualquer modo, seu destino ia se traçando nos núcleos urbanos, eram citadinas as suas vocações, como era basicamente citadino o perfil do letrado de então. A contingência o fizera também fazendeiro e minerador, o pai morto e ele tendo de tomar as rédeas dos negócios da família. Naquela época e lugar, o urbano se misturava com o rural, a vila ia se tornando roça ou mato quase imperceptivelmente. Mas uma coisa era essa convivência meio promíscua entre a borda das vilas e a borda dos matos; as cavalgadas por estradinhas ermas durante três, quatro horas. Outra era se aventurar no coração dos matos, atravessar o sertão sem fim que avançava, dizia-se, até o mar, ou se internava continente adentro até o Peru.

Por isso foi tão extraordinário o que se passou com Cláudio entre agosto e dezembro de 1764, quando, na qualidade de secretário de governo de Luís Diogo Lobo da Silva, teve de acompanhar o governador por quase três meses, numa longa viagem que percorreu parte considerável do território mineiro. Imerso, como já se encontrava, na estratégia de obter mercês, obcecado com o seu virtual hábito de Cristo, deve ter ponderado que o sacrifício valeria a pena, contando pontos em seu favor. Além disso, na viagem ia também seu querido amigo José Gomes de Araújo, procurador da Fazenda, o “sábio e reto ministro” que figura no “Romance” escrito pelo poeta em seu louvor, e personagem ainda de outros poemas, sempre sob o criptônimo de “Arúncio”.

Assim como Cláudio, Lobo da Silva ainda não tinha se arriscado pelo sertão, a não ser na subida das serras, vindo do Rio para tomar posse na matriz do Pilar em Vila Rica. Arúncio, ao contrário, tinha alguma experiência com a travessia dos matos fechados. Se é verdade o que diz o “Romance” – como então era denominado certo tipo de poema narrativo –, já pisara “das Minas as montanhas toscas” e, “sem temer as distâncias e os perigos”, seguira até os matos do Paracatu “por ásperos sertões, empresa heroica”. Naquela época, Paracatu era um fim de mundo, zona mineradora das mais recentes, apenas dotada de administração e justiça em meados da década de 1740. Arúncio, portanto, deve ter sido um bom conselheiro na viagem, que também contava, obviamente, com guias e homens mateiros bem experientes.

Era grande, então, o medo de se afastar das vilas e entrar pelo mato. Medo amplificado por relatos apavorantes e, sobretudo, pelo desconhecido, representado pelos espaços imensos, numa região vasta e ainda pouco percorrida pelos homens do governo e mesmo pelos colonizadores. Desconhecido constituído ainda dos tipos de gente que vagavam longe da lei e do mando: ciganos, vadios, criminosos em fuga, índios arredios à catequese e ao contato, negros aquilombados.

Índio e negro nem se sabia ao certo se eram homens como os outros, dizia-se então.

Para se ter uma ideia, ainda em 1775, na altura em que Cláudio terminava seu poema “Vila Rica”, marcadíssimo pela viagem de 1764, um relato sertanista sobre a região do rio Doce caracterizava o botocudo como vivendo só do corso e da rapina, e tendo por caça preferida “as criaturas racionais”, que, “contra o direito natural das gentes”, eles procuravam matar para as comer. “O botocudo”, continuava o documento, “observa inteiramente três diabólicos sistemas, que são: ou matar, ou morrer, ou fugir; e de nenhuma sorte entregar-se”. Eram “monstros”, “feras selvagens” que, originários das cabeceiras do rio Jequitinhonha, “e pancada do mar”, vinham avançando sobre as regiões ocupadas por sitiantes e vassalos laboriosos e, na época em que Lobo da Silva e sua comitiva iniciavam o giro pelo sertão, haviam chegado às imediações dos rios Sacramento, Matipão e Casca e atingido o ribeirão de Santa Rita, onde caíram sobre as povoações, destruindo tudo quanto viam.

Já os negros eram o esteio da vida econômica e, ao mesmo tempo, o maior dos inimigos, uma vez que estavam por toda parte e que não havia como não estar. Arranchavam-se pelas imediações dos arraiais e das vilas, descendo sobre elas de noite para roubar e fazer desordens, mas também para vender os mantimentos que plantavam, os diamantes que surrupiavam do garimpo, galinhas e porcos que criavam nos seus “quilombos”. E quilombos, havia-os por toda parte em Minas, de todos os tipos e tamanhos, grandes e fortificados, como o Quilombo Grande e o do Ambrósio, pequenos, insignificantes, como as palhoças situadas ali onde terminava uma vila e começava a zona indistinta entre o casario e o mato.

Quando Cláudio voltou de Coimbra ainda se falava muito das expedições espetaculares organizadas contra os quilombos na segunda metade da década de 1740, no tempo de Gomes Freire e de José Antônio Freire, os governadores que, no início da década de 1760, dariam ao poeta-advogado os seus primeiros cargos na administração. Armaram-se naquela época verdadeiros exércitos, com canhões, carregamentos de munição e víveres, muitas centenas de soldados. O saldo foi de destruição e morte: as orelhas dos negros eram cortadas e enfiadas, aos milhares, em fieiras, que os capitães exibiam como troféu de guerra.

Verdade ou mentira, era o que corria, fustigando a imaginação mais ou menos apavorada dos que tinham de se aventurar mato adentro: medo, portanto, de gente, de bicho – havia tantos, onças, cobras enormes, mosquitos que transmitiam febres incuráveis –, e de gente que parecia bicho.

A expedição tinha o objetivo de conter os extravios de ouro e tentar definir a situação, bastante conflituosa, dos limites entre São Paulo e Minas, confusos e fluidos na região próxima ao rio Grande. Além disso, era uma forma de fazer que o governo, em corpo e em alma, envolvendo tanto a pessoa do governador como a simbologia que cercava o mando – as insígnias, a recitação em voz alta das ordens e determinações reais, os despachos e papéis escritos no local –, chegasse aos lugares mais distantes e isolados. Com o giro – como se chamou, com frequência, a viagem –, o governo ia se enraizando pelo sertão, os seus agentes dormindo em barracas quando faltava pouso mais cômodo, os ajudantes levando ferramentas para abrir uma picada quando o mato obstruía o avanço. O provedor José Gomes de Araújo carregava um cofre com 10 mil cruzados para a nova intendência de São Pedro de Alcântara e Almas. A Igreja ia representada nos vigários, pelo menos dois deles, nomeados para as paróquias de Jacuí e Cabo Verde.

A viagem, que Cláudio qualificou de “dilatada e aspérrima”, percorreu umas quatrocentas léguas, ou seja, 2.640 quilômetros. Saindo de Vila Rica no final de agosto, a comitiva se dirigiu a São João del Rei, onde o ouvidor da comarca do Rio das Mortes se integrou a ela. A 5 de setembro, seguindo pela conhecida picada de Goiás, começou a subir rumo ao centro da capitania, passando por Oliveira, Tamanduá, Formiga e pelos vários rios que engrossam a margem direita do Grande, cortando montanhas e matos fechados e infletindo em direção a oeste. Chegou bem próximo das regiões que, na década anterior, tinham assistido aos enfrentamentos com índios caiapós e quilombolas, estes ainda vivendo por ali na época da viagem. Foi então se aproximando do rio Grande, na barra do Sapucaí, e cruzou o caudal para ganhar os sertões do Jacuí, onde Luís Diogo centralizou as atividades de governo no arraial de São Pedro das Almas. Dali, rumo ao sul, a expedição atingiu Cabo Verde a 7 de outubro, após algumas paradas pelos arraiais e muito trabalho para reabrir uma velha trilha. A seguir, cortando o rio Pardo, acompanhou a falda da Mantiqueira até Ouro Fino. Quando os homens entraram no vale do Sapucaí, as chuvas já começavam a engrossar. No final do mês, alcançaram Baependi e as picadas do Caminho Velho para as Minas, parando no registro de Capivari e tendo que fazer uma digressão e enfrentar a garganta do Embaú para chegarem, subindo a Mantiqueira, a Itajubá, já a 7 de novembro. Só no dia 25 entrariam em São João del Rei, e só a 3 de dezembro Cláudio estaria de volta a Vila Rica.

Mais de um especialista considera que a razão principal da viagem foram os arraiais mineradores do Jacuí, “espremidos entre os montes endentados à margem esquerda do rio Grande”, e onde a mineração progredia em escala havia muito não vista na capitania. Reeditavam-se, ali, as características do primeiro povoamento das Minas, os paulistas despencando de Jundiaí pela picada do Cabo Verde e os mineiros acorrendo de Tamanduá. Na ausência de fiscalização mais efetiva, o ouro era desviado para o Desemboque, “terra de ninguém”, como escreveu Sérgio Alcides, “entre São Paulo, Minas e Goiás”. Uma das atribuições da expedição foi trocar o ouro em pó que ali corria por barras quintadas. Outra, não menos significativa, foi intimidar os poderosos locais e quebrar o controle privado daquilo que devia ser público: sempre seguindo Sérgio Alcides, a tomada de posse de Jacuí seria “o ato político mais importante do giro de Luís Diogo”.

Cláudio participou diretamente dessa empreitada de interiorização do mando em zonas tão turbulentas quanto o haviam sido as dos primeiros tempos da capitania. Ali em São Pedro de Alcântara, redigiu, a pedido do governador, uma instrução minuciosa destinada a regular o patrulhamento cotidiano e o controle sobre o ouro. Chegado a São João del Rei, já no fim da viagem, lavrou o assento que descrevia o giro e relatava as medidas tomadas. Alegou depois ter feito toda a viagem às suas expensas, sem ajuda de custo, servindo-se de cavalos comprados ao longo do trajeto, passando as provisões dos ofícios que o governador ia criando e as cartas de sesmarias, destinadas a prender os colonos na terra, sem nada ganhar como remuneração pelo trabalho.

Em 1767, já fora do governo, empenhado na luta para obter o cargo de procurador da Fazenda e o hábito de cavaleiro da Ordem de Cristo, Cláudio viveu no sertão outra experiência decisiva. José Gomes da Silva, seu amigo íntimo, andava em diligências pelo interior, uma delas referente à liquidação de dívidas do contratador capitão Manuel Ribeiro dos Santos, vencendo cerca de quinze léguas – correspondentes a 99 quilômetros por dia. Caiu doente, talvez de febres, e teve de se hospedar em casa do vigário do arraial de Congonhas do Sabará, decidindo fazer testamento. Cláudio foi chamado às pressas, bem como o médico de “Arúncio”, dr. Tomás de Aquino Belo Freitas, chegando a tempo de testemunhar, a 21 de março, o ato de aprovação do testamento e, a 2 de abril, enterrar o amigo na igreja local.

Durante a semana em que permaneceu junto ao leito do amigo moribundo, talvez Cláudio tenha começado a conceber a bela “Écloga V”, escrita em sua memória e publicada no ano seguinte no Reino como parte das Obras. Poema marcado por vários “impossíveis”, usados, conforme tradição literária que remonta à Antiguidade clássica, para expressar sentimentos tão fortes que parecem tornar absurdo tudo quanto faz parte do mundo natural – e sigo, aqui, a análise aguda do historiador Sérgio Buarque de Holanda. Cláudio, que na écloga é o pastor Frondoso, confessa ser mais fácil o trigo nascer no céu e as estrelas brotarem da terra do que esquecer o amigo morto: o primeiro entre os pastores daquele monte, o que dava as “justas leis no campo e no terreiro”. As ninfas do rio Tejo – junto ao qual nasceu – e as do Mondego – que banha Coimbra, a cidade onde se educou – surgem reivindicando o direito de enterrá-lo, mas os pastores decidem que seu corpo repousará junto ao rio das Velhas:

O fado, que conhece inda o mais fundo,

Quer que guarde seu corpo a turva areia

De outro Rio, mais triste e mais profundo.

O rio das Velhas não tinha ninfas, e assim as três velhas que lhe deram o nome, encontradas pelos primeiros desbravadores daquelas terras, são metamorfoseadas por Cláudio nas três parcas. Atrelado à tradição clássica, o sertão das Minas adquire a dignidade necessária para receber o corpo de Arúncio, o mais justo e estimado dos pastores. Um belíssimo soneto acompanha a écloga, invocando a constância e a vaidade, polos, como disse Sérgio Buarque de Holanda, da paisagem espiritual do Barroco:

Nada pode escapar do golpe avaro,

Alcino meu: que a Parca endurecida

Corta igualmente os fios de uma vida

Ao pastor pobre, ao cortesão preclaro.

Cresça embora esse tronco altivo e raro,

Ostentação fazendo mais luzida;

Viva embora entre humilde, entre abatida,

Essa planta, a que o nome em vão declaro.

Tudo há de achar o fim: bem que a vaidade

Em uma e outra glória faça estudo,

Nada escapa à fatal voracidade.

Eu, que chego a pensá-lo, fico mudo,

E só tiro por certo esta verdade:

Que, se Arúncio acabou, acaba tudo.

De volta a Vila Rica, Cláudio entrou na última fase de preparação dos poemas que vinha juntando, conforme depoimento seu, desde os tempos de Coimbra, limando-os, ou seja, voltando pacientemente aos versos, refazendo-os, melhorando-os até que atingissem o polimento ideal. Como as Obras foram publicadas em 1768, o poema sobre a morte de Gomes de Araújo deve ter sido dos últimos terminados antes de mandar o conjunto para o Reino.

Muito da poesia de Cláudio exibe a presença da paisagem mineira, ora mais evidente, ora mais camuflada, sendo necessário perscrutar, através dos regatos, faias e demais citações de corte europeu, para vislumbrar, lá no fundo, os penhascos que fizeram o berço onde nasceu, como expresso num de seus sonetos mais célebres. O impacto do sertão, contudo, provocou mudança radical no espírito do poeta: a possibilidade de metamorfosear a natureza local em matéria poética digna deve ter irrompido como um raio no seu espírito, talvez durante a viagem dilatada e aspérrima, talvez à beira do leito de Arúncio moribundo. Daí em diante, Cláudio passaria a oscilar com frequência cada vez maior entre as imagens mais convencionais da natureza europeia, ditadas pelos cânones, e as que dançavam na sua imaginação, vindas dos matos, montes, rios grossos e dos descampados que tinha percorrido com a comitiva de Lobo da Silva.

Em dezembro de 1768, quando saudou em versos o novo governador, conde de Valadares, o dilema entre o rústico e o civilizado apareceria em várias passagens desse conjunto poético, que constituiu uma espécie de academia efêmera, “O parnaso obsequioso”:

Enfim tudo é delícia

Na opulenta região das áureas Minas:

E tu, ó bom Menezes,

Desses troncos incultos, dos penhascos

Mais hórridos, mais feios,

Dos queimados Tapuias

Fazes pulir a bárbara rudeza,

Fazes domar a natural fereza.

A partir daí, Cláudio abandonou a lima e se entregou à febre, à obsessão de dar forma final a um épico que relatasse os primeiros tempos das Minas, tumultuados e arredios ao controle da justiça e do Estado, como os arraiais que ele vira no sertão do Jacuí. Um poema que falasse do choque entre barbárie – os índios comedores de carne humana, os negros fugidos, os animais semimonstruosos, como a sucuriú que aparece no canto III do “Vila Rica” – e civilização, esta representada pelos agentes reais que distribuíam o prêmio e o castigo, dando o tom e a norma a serem seguidos, sempre buscando a prudência antes de usar a força, como dito no canto VII:

Estamos, disse, em uns países novos,

Onde a polícia não tem inda entrado;

Pode o rigor deixar desconcertado

O bom prelúdio desta grande empresa.

Convém que antes que os meios da aspereza

Se tente todo o esforço da brandura.

Governantes que, no poema, Cláudio enumeraria, dando-lhes a feição dos heróis civilizadores ao mesmo tempo que atribuía o sucesso de suas obras ao apoio que obtiveram de outros homens heroicos, os paulistas afeitos à vida do mato:

Logo uns homens se veem, que vão rompendo

Com intrépida força o mato horrendo,

Nus os braços e os pés, mal socorridos

Do necessário à vida: estão metidos

Por entre as feras, e o gentio adusto;

Cada um de si só, perdido o susto,

Se embosca ao centro dos sertões, se entranha

Já pelo serro, já pela montanha;

Uma e outra distância gira em roda,

E deixa descoberta a extensão toda.

O “Vila Rica” consumiria a força criativa do poeta nos cinco anos seguintes, e talvez até um pouco mais. Por volta de 1774, tudo indica que estava terminado: exorcizou a experiência do sertão, o medo da natureza bruta e inesperada, tão diferente da paisagem plácida dos pastores arcádicos. Uns dizem que ficou inacabado, pois os versos irregulares e muitas vezes feios não combinam com o cultor obsessivo da forma que aparece nas Obras, sobretudo nos sonetos, perfeitíssimos. Outros acreditam que o poeta o terminou sim, mas não gostou dele, tomou-lhe nojo, daí engavetá-lo, praticamente pronto para a impressão, com dedicatórias e prólogo, conforme observou Sérgio Alcides.

Se vale o que escreveu o grande poeta italiano Vittorio Alfieri, para quem a lima era tédio, e a criação era febre, o “Vila Rica”, parece-me, sempre se mostrou irredutível à lima porque nasceu febre e nunca conseguiu digerir bem o jorro criativo nascido do choque entre realidades conflitantes. Brotou da perplexidade de um homem teimosamente afeito à civilização e, ao mesmo tempo, capaz de perceber que a barbárie – ou o que ele entendia por tal – era mais do que a sua antítese: era sua alma gêmea. Talvez Cláudio nunca tenha se identificado com o poema, certamente um dos que mais o obsedaram ao longo da vida, e que, sem dúvida, nasceu da sua complexa experiência com o mundo do sertão.

Se o seu gênio, segundo desabafou no “Prólogo” às Obras, o tornava propenso ao sublime, eram quem sabe os versos no “estilo simples” os mais valorizados pelo poeta que ele se empenhava em ser. Talvez não se desse bem com febres e emoções fortes, preferindo o refúgio mais contido da melancolia.

Letrado de aldeia

Cláudio Manuel da Costa nasceu e viveu engolfado no conflito entre dois mundos, o do Reino e o das Colônias, o da civilização e o da barbárie. Se lhe coubesse optar, contudo, é bem provável que escolhesse o espaço mais bem delineado das cidades, perto da Corte ou de tudo quanto a representava à distância. Se fosse possível apaziguar de uma vez por todas a sua alma conturbada, o porto seguro seria o mundo da cultura, e não o da natureza.

Para um homem como ele, em processo de ascensão social, dotado de grau universitário e talento criador, nascido num império marítimo sob o governo de um monarca absoluto, só restava ser letrado. O mundo preferencial dos letrados de então foi a Corte: dependiam do poder, daí o exaltarem sempre; viviam, quando bacharéis em Cânones ou Leis, das demandas jurídicas, tendo de acorrer aos auditórios e frequentar as autoridades que exerciam a justiça – desembargadores, ouvidores, procuradores –, sem falar dos clientes abastados que também gravitavam em torno da administração e seus meandros – contratadores de impostos, comerciantes, autoridades ligadas à hierarquia eclesiástica. Todas essas pessoas e atividades tinham a cidade por palco. Foi nas cidades, igualmente, que floresceu e se propagou o espírito ilustrado: não houve, como afirmou mais de um especialista, Luzes no campo.

Talvez Cláudio tivesse gostado de permanecer no Velho Mundo, como outros dois grandes poetas luso-brasileiros de seu tempo, frei José de Santa Rita Durão, sete anos mais velho que ele, e Basílio da Gama, doze anos mais moço, que se dividiu entre o Velho e o Novo Mundo, morando na Itália, mas volta e meia passando uns tempos no Brasil. Mais que sua vontade, foi o destino que o trouxe de volta às margens do “pátrio ribeirão”: a morte do pai, o desamparo da mãe e dos irmãos pequenos, o temperamento mais doce e mais tímido, que suportava mal as chacotas da Corte a respeito das possessões ultramarinas bem como sobre a inferioridade de seus habitantes, frequentemente associados a brutos que viviam nas

…toscas matas,

onde se chamam senhoras

as pretas e as mulatas

conforme se lê em pasquins da época, correntes em Lisboa.

Cláudio tinha vinte anos quando publicou, em Coimbra, os primeiros poemas. Mais tarde, foi o primeiro entre os poetas residentes em Minas a ter os versos impressos no Reino ainda em vida, em 1768. Muitos outros versos, como o épico “Vila Rica”, correram manuscritos entre os amigos e até além das fronteiras da capitania, viajando através da rede de homens de letras formada pelas academias que se iam fundando no Rio e na Bahia.

Assim como conquistou admiradores entre poetas de nome, a exemplo de Bocage, que nele reconhecia um dos grandes sonetistas da língua, o mais comum é que fosse visto como um letrado de aldeia. Alcipe, ou Lília, pseudônimos da marquesa de Alorna, poetisa portuguesa de certa qualidade, escreveu em 25 de fevereiro de 1771 a sua amiga Tirse, na vida real condessa de Vimieiro, que Cláudio lhe parecia “um pobre rapsodista que […] bebeu e vomitou algumas passagens de Metastasio e do Guarino”, aproveitando para, de quebra, referir-se a Basílio da Gama como “um José não sei de quê”, autor de um lastimoso poema no qual “o herói era o Gomes Freire”. Três dias depois, Tirse/Vimieiro respondeu no mesmo tom, muito elucidativo dos sentimentos que os reinóis nutriam pelos habitantes das conquistas – “cafres”, como eram frequentemente chamados: “Do brasileiro, em que me falas, nada conheço, posto que já tive na mão as suas obras apenas algumas cançonetas; e como a impressão é má e eu tenho a vista débil, não forcejei, o que não sucederia se gostasse”.

As Obras de Cláudio não mereciam, em Lisboa, que se gastasse a vista com elas. Em Vila Rica e em toda a capitania de Minas, contudo, o poeta foi ganhando fama e prestígio, chefe de orquestra da plêiade dos bardos locais, como o qualificou Sérgio Buarque de Holanda. Sem falar dos vários versejadores menores, dois poetas de maior vulto se aproximariam dele nos anos seguintes, e nele veriam de fato um mestre: Alvarenga Peixoto, em 1776, e Tomás Antônio Gonzaga, em 1782, havendo a suposição de que antes, em 1768, Basílio da Gama, então no Brasil, pudesse também ter se encontrado com ele em Minas, numa viagem eventual aos parentes que moravam por lá.

A boa acolhida dos versos de Cláudio entre os naturais da terra e o desprezo que encontraram em Portugal deve ter muito a ver com o tom adquirido pela Ilustração de um e do outro lado do Atlântico. Cláudio Manuel da Costa, José Basílio da Gama, Inácio José de Alvarenga Peixoto, Tomás Antônio Gonzaga eram todos pombalinos e cortejaram, em várias ocasiões, o rei d. José I e seu ministro, Sebastião José de Carvalho e Melo. A marquesa de Alorna era filha, neta e sobrinha de duas das famílias nobres mais atingidas pela perseguição de Pombal: os Távora e os Almeida da Casa de Assumar. Seus avós haviam sido supliciados em praça pública ao fim de um processo tristemente célebre; o pai, d. João de Almeida, estava preso nos cárceres da Junqueira ainda no ano em que ela escrevia à amiga, e a própria Alcipe vivia confinada no convento de Chelas. Pombal era odiado por boa parte da nobreza do Reino, mas no Brasil era visto como um reformador que oferecia aos luso-brasileiros esperanças de maior participação na vida política do Império, aumentando-lhes a estima e a honra, bem como as perspectivas de progresso – palavra que ia entrando com força no vocabulário ilustrado.

Até 1768, Cláudio escreveu e reescreveu exaustivamente os versos que fazem parte do volume das Obras. Entre as reuniões da Câmara, a papelada da secretaria de governo, as viagens sertão adentro, o nascimento dos filhos, as embrulhadas em Pitangui, a ida e vinda aos auditórios e à casa dos clientes ricos, as procissões religiosas, as cavalhadas, limava os versos compostos ao longo de duas décadas e que, com perdão da marquesa, hoje brilham bem mais no firmamento da língua portuguesa que os dela.

Muitos dos amigos de então leram os versos, que corriam manuscritos ou se recitavam em serões, e opinaram sobre eles, passando a admirá-los e a copiá-los: a marca de Cláudio é muito forte tanto em Gonzaga quanto em Alvarenga Peixoto, poeta mais débil e menos original. A poesia criou e cimentou nas Minas um tipo de sociabilidade citadina muito especial, que andou junto com a troca de livros, de ideias e a participação em atividades culturais como a música e o teatro.

As bibliotecas no período colonial são acanhadíssimas quando comparadas às então existentes na Europa, mas mesmo assim havia em Minas algumas das melhores livrarias – como eram então chamadas – de que se tem notícia na América portuguesa, com muitas centenas de livros, as mais avantajadas chegando perto de mil. Em Mariana, destacou-se, mais para o final do século, a de José Pereira Ribeiro, proprietário de muitos títulos sobre direito mas também leitor assíduo de ciências — tinha as obras de Lineu, por exemplo –, dos clássicos em geral, da literatura mais ligeira como o Gil Blas de Santillana –, e dono de um exemplar do Caramuru, de frei Santa Rita: o dr. Ribeiro era poeta e conhecido como “o Anacreonte das Minas”, apesar de nenhum de seus versos ter chegado até nós. Gostava ainda muito de História, assunto que figurava com destaque entre os seus livros, em meio aos quais contava a Dedução cronológica e analítica, escrito antijesuítico atribuído a José Seabra da Silva e que, dizia-se, fora “apimentado” pelo próprio Pombal: outro indício sugestivo do pombalismo dos letrados mineiros na segunda metade do século XVIII.

A mais impressionante livraria das Minas foi, contudo, a do cônego Luís Vieira da Silva, que morava em Mariana, sede do bispado, mas volta e meia andava na casa dos amigos em Vila Rica, onde pregava com grande sucesso em ocasiões especiais, como aconteceu em 1771, na nova Igreja de São Francisco de Assis. O cônego tinha 270 obras, correspondendo a cerca de oitocentos volumes em latim, português, inglês, francês, italiano e espanhol. Além de dezenas de tratados dos doutores da Igreja, de dicionários, de obras científicas, dos clássicos greco-romanos, dos expoentes do Renascimento português como João de Barros, Diogo do Couto, Sá de Miranda, contavam-se obras profanas decisivas para a formação do espírito ilustrado, como as de Raynal, Condillac, Lafittau, Montesquieu, Voltaire, a Enciclopédia de Diderot e D’Alembert, a Lógica do abade Antonio Genovesi, livros do padre Benito Feijó, de Hume, de Robertson, de Bielfeld… Como Luís Vieira da Silva nunca saiu das Minas, comprava os livros de comerciantes, alguns dos quais eram livreiros quase como os de hoje, outros os tinham em suas lojas misturados com os gêneros secos e molhados. A História filosófica e política de Raynal, é quase certo que a recebeu de presente do dr. José Pereira Ribeiro, assim como uma Coleção das leis constitutivas das colônias inglesas confederadas sob o nome de Estados Unidos da América Setentrional (1778), emprestando-os depois a amigos de seu círculo. Tiradentes foi um dos que absorveram o impacto desses escritos anticoloniais: Raynal preconizava que as possessões sujeitadas a metrópoles europeias sacudiriam o jugo mais cedo ou mais tarde, e a leitura da legislação e informações referentes às antigas colônias norte-americanas atiçava, pelo exemplo, os sentimentos de animosidade contra Portugal.

O comércio de livros era às vezes clandestino, pois muitas das obras, sendo proibidas, precisavam de licença. O empréstimo também burlava as proibições: o dono de um livro poderia ter obtido licença, junto aos órgãos competentes como a Real Mesa Censória – para lê-lo, mas o empréstimo permitia que ele chegasse às mãos de outras pessoas, desprovidas de autorização. Sendo assim, muita gente que não aparece nos documentos como proprietária de bibliotecas era dada à leitura frequente: o meio urbano ajudava a circulação.

Diferentemente do cônego Luís Vieira, e como o dr. José Ribeiro, Cláudio Manuel da Costa tinha estudado em Coimbra e frequentado as lojas onde se vendiam livros na Corte. Sua biblioteca era muito boa para a época e o lugar, e do acervo referente a Leis e Cânones já se falou. Os títulos que aparecem no sequestro de seus bens, feito quando do infortúnio em 1789, estão muitas vezes irreconhecíveis, estropiados pelo assento de escribas que não tinham familiaridade com o mundo da cultura mais sofisticada, e nunca haviam ouvido falar daqueles nomes. Até onde é possível identificar, sobra surpresa ao constatar que as leituras literárias cotidianas do poeta ficavam muito aquém da sua vastíssima cultura. Com certa margem de erro, reconhecem-se naquele conjunto as obras de Francisco de Quevedo – as mais numerosas entre as literárias –, as de Camões, de Safo, de Anacreonte, as Flores de poetas ilustres, espécie de antologia publicada em 1605 por Pedro de Espinosa, e a Ulisseia de Gabriel Pereira de Castro, autor que era um misto de jurista e poeta, mas que, nessa obra, trata da fundação de Lisboa por Ulisses. A Ulisseia, ou Lisboa edificada, publicado em 1636, era um poema heroico em oitava rima, e, na temática, pode ter inspirado Cláudio na composição do seu “Vila Rica”. Parece significativo o fato de predominarem obras quinhentistas e seiscentistas entre os livros que tinha à mão no dia a dia, entre os quais Baltasar Gracián: Sérgio Buarque de Holanda mostrou como era forte o peso dessa literatura renascentista e barroca no estilo do poeta.

Na sua obsessão de rever e polir os versos, Cláudio se valia de tratados de oratória e de poética, como o Cannochiale aristotelico de Emmanuele Tesauro, dos mais importantes no século XVII, e de uma profusão de dicionários: tinha o latino, de Ambrósio Calepino, muito usado entre os homens de letras desde o século XVI; a Prosódia, de Bento Pereira, que os jesuítas haviam preparado especialmente para o uso em Portugal; um dicionário novo, da língua espanhola e francesa; o alfabeto ou abecedário de Langes. Instrumentos de auxílio na leitura e na escrita: dominava o latim, o francês, o espanhol, cogita-se se lia inglês, alguns dizem que traduziu A riqueza das nações, de Adam Smith, mas não há comprovação. Que escrevia com perfeição em italiano, atestam-no as dezenas de poemas deixados por ele nessa língua.

Tinha ainda o dicionário de Luís Moréri, em dez tomos, provavelmente a edição saída em 1759, comprada quando já estava em Minas. Moréri era uma espécie de enciclopédia antiquada já na época de Pierre Bayle, que a considerava repleta de erros: também nesse aspecto o poeta era um passadista, e entre a obra de Diderot e D’Alembert, que seu amigo cônego possuía, e a de Moréri, ele ficava com a última.

E havia os dicionários de História, que aparecem sem identificação do autor, bem como uma Geografia histórica; a Monarquia portuguesa; a História mexicana, de Antonio de Solis e Rivadeneira. Havia, por fim, várias obras religiosas: a Mística Cidade de Deus, da Madre Maria de Jesus, escrita entre 1655 e 1660, um best-seller ainda no tempo de Cláudio; uma Meditação de Jesus Cristo; uma História de santo Antão incompleta; de santo Inácio de Loiola tinha um livro manuscrito – estes eram então muito comuns, ainda mais em lugar sem imprensa, como o Brasil; dois livros de horas, um “com a coroa de Jerusalém”, outro “com suas chapinhas de prata”.

Ovídio, Lucano, Virgílio, Petrarca, Garcilaso, Gongora, Sá de Miranda, Metastasio, Guarini e tantos outros autores que a crítica identificou por trás dos versos de Cláudio, alguns quase na forma de cópia – daí Alcipe dizer que “vomitava” versos alheios –, não constavam do rol da sua biblioteca particular. Lera-os em Coimbra, lia-os emprestados dos amigos em Minas ou, possuindo-os, eles escaparam da pena do escriba, que não os incluiu no sequestro, deixando o historiador de hoje na incerteza.

Sua obra, entretanto, não dá margem a dúvidas: lia compulsivamente, de tudo, e a cultura abrangente aparece no vasto leque de interesses que manifestou. Além de poeta, reconhecido ainda em vida, foi cartógrafo, tradutor, historiador, dramaturgo e, dizem alguns, compositor musical.

As óperas haviam entrado em Portugal durante o reinado de d. João V e, sobretudo, graças à influência da rainha, Mariana de Áustria, que em sua corte de origem estava habituada a elas. Eram de três tipos: a de Corte, a séria – como a de Metastasio – e as peças de teatro acompanhadas de música e também chamadas de ópera, sendo antes dramas líricos que algo semelhante ao gênero consagrado por obras como A flauta mágica de Mozart. Quando d. José subiu ao trono, o interesse pela ópera aumentou muito, sensibilizando mais profundamente a nobreza. À beira do Tejo construiu-se um teatro especial para esses espetáculos, mas veio o terremoto de 1755 e o pôs no chão. Só se retomaram as óperas no carnaval de 1763, em Salvaterra, no Palácio da Ajuda — ainda em obras — e no de Queluz.

Por isso é admirável que em 1769 se erguesse em Vila Rica, na rua de Santa Quitéria, uma casa de ópera, tida como das mais antigas da América do Sul. Seu construtor foi o coronel João de Sousa Lisboa, contratador dos reais quintos e das entradas. A iniciativa contou com o apoio do governador recém-chegado, José Luís de Meneses, conde de Valadares, e a simpatia de Cláudio Manuel da Costa, que então, se não era de fato secretário de governo, atuava praticamente como se fosse.

A ópera de Vila Rica foi inaugurada em 6 de junho de 1770, aniversário de d. José. A 17 de outubro de 1772, o nome de Cláudio está numa lista de contribuintes ou assinantes que apoiavam a gestão de Lisboa – afastado por uns tempos – junto à casa da ópera, ao lado do de outros homens importantes, como o desembargador Teixeira Coelho e o capitão-mor José Álvares Maciel. Para alguns, o próprio poeta teria naquela altura escrito uma “ópera”, São Bernardo, para a qual era preciso arranjar música, o que o coronel Lisboa tentou junto à notável escola musical de São João del Rei: até morrer, em 1778, foi o animador daquela atividade, vangloriando-se de ter introduzido no palco de Vila Rica atrizes, em vez dos travestis habitualmente destinados aos papéis femininos.

Além do São Bernardo, que deveria estrear durante a quaresma de 1777, tudo indica que Cláudio traduziu a ópera Demofoonte em Trácia, de Metastasio, havendo até a suspeita, mais fantasiosa, de que compôs música para ambas. Pode ser que a procura de um músico para o São Bernardo tenha sido infrutífera e ele tenha, de fato, criado a melodia – revelando dotes a que a maior parte dos estudiosos nunca se referiu. Já para o Demofoonte, parece pouco cabível: encenada pela primeira vez em Viena, em 1733, a ópera tinha música do célebre Antonio Caldara; posteriormente, mais de cinquenta compositores europeus compuseram para o libreto, entre os quais Davi Pérez, que Cláudio ouvira durante os anos em Portugal.

De qualquer forma, havia ambiente culto em Vila Rica, e Cláudio transitava nele, indo da rima à solfa, das reuniões literárias em torno da recitação de poemas aos espetáculos públicos, nos quais manifestações então muito em voga, como a ópera, eram oferecidas à comunidade da vila interiorana.

Ser letrado na aldeia não o livrava, contudo, dos tormentos internos. Em 1768, no “Prólogo” a suas Obras, desabafou que as boas influências recebidas em Coimbra – “alguns influxos, que devi às águas do Mondego” – estavam destinadas a sucumbir, uma vez retornado às Minas: “aqui entre a grossaria dos seus gênios, que menos pudera eu fazer que entregar-me ao ócio, e sepultar-me na ignorância!”. Vila Rica não era a Arcádia, “onde o som das águas inspirava a harmonia dos versos”: mais do que incitar à criação, a corrente “turva e feia” dos seus ribeiros lembrava, a cada momento, a “ambiciosa fadiga de minerar a terra, que lhes tem pervertido as cores”.

Sempre nas Obras, a dedicatória a Sebastião José de Carvalho e Melo, que acompanha a “Écloga III”, retorna ao tema: “Saio dos montes; vivo na incultura; comunico a rusticidade: não é muito que tudo o que concebo seja dissonância, e seja barbarismo tudo o que pronuncio”.

Há, por certo, uma parte de premeditada retórica nessas frases: justificar-se, provavelmente, ante os poetas da Corte, dados a desprezar os letrados de aldeia. Mas há também, e em grau maior, o desconsolo emocionado do poeta talentoso, que se sentia prisioneiro de suas circunstâncias. Cláudio não alardeou, como Gonzaga o faria, que seu coração era maior que o mundo. Mas deixou ver, em vários versos, que acreditava no poder transformador da civilização – no sentido que lhe dava o século XVIII – independente do lugar onde se manifestasse:

Polir na guerra o bárbaro Gentio,

Que as leis quase ignorou da natureza,

Romper de altos penhascos a rudeza,

Desentranhar o monte, abrir o rio.

Nisso, e a despeito das leituras mais arcaizantes e dos versos de contorno frequentemente barroco, Cláudio Manuel da Costa foi, na sua aldeia, um letrado da Ilustração.

Ser e parecer

A casa de Cláudio, pesadona, tinha por vizinhos, do lado esquerdo, as casas de José Veríssimo da Fonseca, que era escrivão da Ouvidoria da comarca de Vila Rica e, do lado direito, a capela de Nossa Senhora das Dores. Na parte superior da fachada de dois andares, cinco grandes janelas se abriam para a rua, muito íngreme. Os muros de pedra delimitavam um quintal com laranjeiras e limoeiros, as árvores de espinho, como se dizia na linguagem da época.

Ficava na esquina da rua São Francisco com a do Gibu, atualmente Carlos Tomás, não longe da matriz de Conceição de Antônio Dias, que na década de 1770 já tinha a feição que ostenta hoje. Era nessa igreja, erguida por iniciativa da Irmandade do Santíssimo Sacramento, guarnecida de riquíssima talha dourada, que Cláudio devia assistir missa aos domingos e confessar-se quando a consciência pesava ou o preceito exigia, católico fervoroso que parece ter sido.

Quando o prenderam e lhe sequestraram os bens, em 1789, era um homem muito abastado para os parâmetros da época e da região. Seu estilo de vida, os objetos que tinha, as propriedades indicam um nível de vida em tudo superior ao dos pais. O tempo também era outro, de maior polimento e consumo: João Gonçalves da Costa e Teresa Ribeiro de Alvarenga pertenciam à primeira geração de mineradores, quando a vida material era pobre e marcada pela escassez. Além disso, partiram do zero e optaram por educar bem os filhos, o que lhes deve ter saído bem caro.

Para todos os efeitos, Cláudio Manuel da Costa vivia só. A ligação com Francisca Arcângela era sabida, mas não publicada ostensivamente: ela e os filhos dos dois – e foram cinco, nascidos entre 1759 e 1773 – moravam num amplo sobrado na rua São José, deviam estar sempre na casa da rua do Gibu ou na da fazenda do Fundão, mas não como habitantes delas. Cláudio não fez pelos filhos o que seus pais haviam feito por ele e os irmãos: a sua era uma família fora da norma e dos padrões. Nas Minas de então, havia muitas assim, mas ele era um homem importante, branco e ligado à alta administração do Império. Figurões como ele tinham amantes, inclusive entre as moças bem situadas socialmente, a exemplo do desembargador Teixeira Coelho, que viveu com uma filha de Saião e com Antônia do Gualaxo. Cláudio se afeiçoou a uma negra pobre e não teve a energia nem a coragem do desembargador João Fernandes de Oliveira, filho de seu padrinho, que, milionário e poderoso, assumiu publicamente tanto Chica da Silva quanto a filharada que nasceu da união. Talvez porque o arraial do Tijuco, onde moravam, fosse excêntrico em todos os sentidos: longe da zona aurífera, isolado administrativamente por responder, quase sem intermediação, ao poder central estabelecido em Lisboa, não tendo por perto o governador e a pequena corte que gravitava em torno dele.

Mesmo assim, e apesar dos constrangimentos, Cláudio fez alguma coisa pela prole mestiça. Em 1779, quando a primogênita Maria Antônia Clara se casou com Manuel José da Silva, o poeta a dotou com a metade da fazenda do Fundão, que comprou do espólio paterno por 700$000 réis, dando-lhe ainda alguns escravos e trastes para a casa. Não pôde cuidar tão bem dos demais: já estava morto quando Francisca Arcângela, em 1808, doou ao único filho, o pintor Feliciano Manuel da Costa, a metade do sobrado da rua São José, onde ela vivia com a alguns netos, filhos, presumivelmente, das outras moças – Francisca, Ana e Fabiana –, que nunca chegaram a se casar.

No casarão da ladeira do Gibu, Cláudio se tratava conforme as exigências de sua posição e riqueza. Como acontecia em sua vida afetiva, os objetos que tinha sugerem duas imagens: a do ser, mais voltada para dentro, e a do parecer, desenhada a partir do que devia apresentar em público.

Os móveis não causam impressão: três camas, uma só mesa grande, outra redonda, mais duas cobertas de chita, duas cômodas com gavetas, tudo contrastando com a profusão de cadeiras – umas simples, com encosto de pau, outras mais sofisticadas, com assento de damasco – e mochos, que era como então se nomeavam os bancos redondos ou quadrados. Mais confortável apenas uma poltrona, e talvez o preguiceiro. Para a intimidade, uma rede branca, à qual se atirava para ler com os óculos e o lenço azul para o tabaco, duas estantes para acomodar os livros, a papeleira onde limava os sonetos, dava vazão à febre que gerou o “Vila Rica”, celebrava os governadores com versos de elogio.

O enxoval também é simples: pouca roupa de cama e mesa, uma toalha mais fina, de bretanha de Hamburgo, enfeitada de rendas, e as demais – que eram três – ou de algodão, ou já bem estragadas. Havia um colchão melhor, de lã, que devia ser o seu, e uns poucos travesseiros. Duas cortinas de serafina com babados azuis. Três cobertores e duas colchas, uma velha, a outra de algodão, feita em São Paulo.

Na casa de Cláudio, moía-se café e se tecia algodão, havendo um tear para esse fim, “de madeira branca, com um pouco de algodão já tecido e outro por tecer”. O poeta recebia com frequência: não apenas pelo número de cadeiras, mas pela quantidade de louça existente na casa, tanto a da terra, mais rústica, quanto a de Macau e da Índia: pratos grandes e pequenos, travessas de todos os tamanhos, xícaras, terrinas, vários bules, sopeiras. Surpreendentemente, os copos e talheres eram poucos – colheres e facas com cabo de prata, mas não garfos, que, apesar de serem raros e revelar sofisticação, já integravam o conjunto de utensílios domésticos de alguns, como o do contratador Queiroga.

Talvez o que mais oferecesse às visitas fosse chá, café e chocolate. Não eram muitos os que tinham, como ele, uma chocolateira de cobre: o hábito se difundira na Europa sobretudo entre as pessoas mais bem situadas socialmente, e ostentá-lo em Vila Rica acrescentava distinção. Nessas ocasiões, devia contar com a ajuda das escravas ou até de um ou outro pajem, já que entre os bens sequestrados há dois trajes completos para pajens: casacas escuras forradas de amarelo, véstias e calções amarelos, camisas de linho. Se os viajantes estrangeiros registraram muitas vezes a presença desses serviçais domésticos em trajes sumários ou descuidados, Cláudio discrepava do tom geral: fosse para o serviço interno à casa, fosse para os recados, queria-os vestidos à europeia.

Nas paredes não havia quadros, existentes em muitas das casas da época, de paisagens e cenas europeias como os de Queiroga, de santos e cenas religiosas, como descritos em tantas outras moradas. Cláudio guardava duas imagens de santos dentro de redomas de vidro, que ficavam em cima de algum móvel ou dentro talvez de um oratório, ou ainda quem sabe ao pé da cama: as paredes, ele reservava para uma de suas paixões, os mapas. Tinha quatro, com molduras de madeira torneada, e estavam ali fazia tempo, pois foram referidos como sendo “muito usados”. Vindos da Europa com ele, que, poucos anos depois de chegado, fizera a carta topográfica de Vila Rica e seu termo, e naquela época ainda estudava e praticava a cartografia. Ou, o que seria curiosíssimo, feitos por ele mesmo, desenhados já em Minas, representando os cursos d’água vadeados durante a viagem dilatada e aspérrima, as serras escaladas em lombo de mula, as picadas abertas na ponta do facão… De qualquer forma, dizem os especialistas, não era comum ter mapas em casa, na parede. Talvez o fosse entre os homens cultos das cidades europeias, mas não o era ali em Minas. Cláudio, tão passadista nas leituras e nas rimas, andava, no gosto pela cartografia, conforme o ritmo do seu tempo.

Personagem complexa e contraditória: se os homens mais jovens já iam largando em casa as cabeleiras, Cláudio possuía duas, para usar quando saía por conta de suas demandas, nos auditórios, ou em visita aos clientes mais graúdos. As cabeleiras ficavam guardadas em bolsas, e uma delas era ainda bem nova, sugerindo que o poeta não pretendia deixar de usá-las tão cedo. Prezava a tradição e o costume, e quando a situação exigia – a morte de um amigo ou as solenidades fúnebres em torno das pessoas reais, as exéquias de monarcas e príncipes, realizadas nas principais vilas e cidades do Império –, Cláudio calçava seus sapatos com fivelas de luto. No dia a dia, já que as ruas de Vila Rica eram íngremes e calçadas com o pé de moleque, usava botas.

Quanto à indumentária, era dono de um guarda-roupa abarrotado. Mais uma vez se impõe a comparação com as roupas deixadas pelos pais, algumas muito finas, com galões e bordados em ouro e prata, mas em número pequeno. O advogado gostava de aparecer bem-arrumado, pois não há outra explicação para as treze camisas de bretanha com babados, a profusão de calções e véstias, de trajes completos, casacas, sobretudos, capotes – devia ser friorento, tinha quatro – nas mais diferentes cores, feitios e tecidos: carmesins, caseados a ouro; em cambraia verde, com chuva de prata; em veludo cor de cereja; de droguete castor; de chita abrilhantada; de cetim cor-de-rosa, com ramas de ouro e matizes: de seda roxa; de pano preto. Joia, quase nenhuma, e de pouco valor: uma fivela de ouro, dois pares de fivelas de metal amarelo para as ligas, dois pares de abotoaduras com pedras encarnadas. E o broche com pedras brancas mais a medalhinha cozida numa fita encarnada do hábito de Cristo, que valiam pouco, mas significavam muito.

Nas ocasiões especiais, paramentava-se com um dos hábitos, o grande, de cruz comprida, ou o da casaca de belbute amarelo, bordado de pedras brancas. Devia ter também a túnica especial das irmandades às quais pertencia – a do Santíssimo, a de São Francisco de Assis, a de São Miguel e Almas do Purgatório, talvez a de Nossa Senhora do Monte do Carmo –, mas elas não aparecem no sequestro, que só cita o balandrau de seda roxo da Irmandade do Senhor dos Passos.

Na intimidade, com Francisca e os filhos, ou só com seus versos e seus processos, Cláudio tomava rapé embrulhado num chambre de chita velho, os pés enfiados em meias de linho roto, os óculos e os dois candeeiros de arame a ajudar-lhe a vista cansada.

Renascido, ultramarino, obsequioso e satírico

Casa assobradada, disputas por cargos, secretaria de governo, sessões da Câmara, dos auditórios, vila e sertão, tudo perdia importância e ficava pequeno quando a imaginação enveredava pelo domínio das ninfas, dos pastores, da mitologia clássica, dos grandes mestres – Virgílio, Ovídio, Horácio, Petrarca – que o tinham alimentado desde os tempos do colégio jesuíta do Rio. Então, tanto fazia estar na rede, na cadeira rasa de secretário ou sob o pálio, em alguma cerimônia pública, junto com os irmãos do Santíssimo ou os vereadores do Senado: as letras e as musas o arrastavam para longe, o Tejo, Coimbra, Roma. No século XVIII, mesmo quando a terra de origem era distante, rude e inculta, o mundo vasto era a pátria do letrado.

E o letrado que era Cláudio vivia na tensão entre o seu mundo particular, perseguindo a beleza das formas puras por meio da reescrita permanente, e a necessidade de fazer parte das redes de convívio intelectual que, com mais intensidade desde o Renascimento, envolviam a Europa culta.

Em Coimbra, bem mocinho, se acostumara com as reuniões literárias dos agostinianos e dos estudantes como ele. Ali, na Academia Litúrgica dos monges agostinhos, começou a prezar a sociabilidade acadêmica, espaço próprio para trocar ideias, versos, aceitar emendas e sugestões. Exercitou os talentos de elogiador, aprendeu a cortejar os poderosos por meio da rima e das figuras de linguagem. De volta ao Ribeirão do Carmo ou já fixado em Vila Rica, por certo suspirou com saudade dos companheiros acadêmicos.

Só pode ter sido com grande alegria que, no último dia de outubro de 1759, recebeu as cartas expedidas mais de quatro meses antes da cidade do Salvador, nas quais o secretário e dois censores da recém-criada Academia Brasílica dos Renascidos o convidavam para integrá-la, na qualidade de sócio supranumerário, já que morava em outra região. Desde maio, vinham ocorrendo reuniões, primeiro na casa de José Mascarenhas Pacheco Pereira de Melo, para a 6 de junho, de modo mais formal, realizar-se uma cerimônia de inauguração na Igreja dos Carmelitas Descalços e decretar-se o início das atividades acadêmicas.

Designado diretor dos Renascidos, Mascarenhas era um homem importante, fazia parte de academias espanholas e tinha sido encarregado pelo ministro Carvalho e Melo de viabilizar os aldeamentos indígenas na Bahia, bem como de zelar pela aplicação local do ato que expulsava os jesuítas do Império português. Cláudio o conhecera em Coimbra, mas talvez as relações datassem de antes: João Pacheco Pereira de Vasconcelos, o pai do acadêmico, havia sido ouvidor em Ouro Preto no ano de 1724, quando as famílias de ambos podem ter convivido, os laços antigos se recompondo no Reino. Certo e seguro é que Cláudio dedicava a Mascarenhas grande admiração, que aliás pôs por escrito numa das quatro cartas que escreveu no dia 3 de novembro, agradecendo aos censores João Borges de Barros e João Ferreira de Bettencourt e Sá, aos sócios em geral e ao secretário Antônio Gomes Ferrão Castelo Branco. Aceitava o convite, jurava obedecer aos estatutos, defender a verdade da Imaculada Conceição de Maria – essa invocação da Virgem era a padroeira das academias portuguesas e luso-brasileiras – e enviava uma pequena biografia que até hoje constitui um dos documentos mais importantes para conhecer sua vida.

Quanto à opinião que lhe haviam solicitado sobre os modos de se dividir a História – esta era a matéria por excelência da Academia –, bem como quanto aos documentos existentes em Minas e úteis para o conhecimento da história da América portuguesa, Cláudio pedia mais tempo para se manifestar. Mesmo adoentado – “apesar de minhas moléstias, que seguindo a ordem da natureza e do país, não deixam de ser grandes e continuadas” –, apressara-se em responder porque não queria deixar sombra de dúvida sobre seu empenho em integrar aquela comunidade suprarregional; mas alertava que, daí em diante, as eventuais demoras das respostas às cartas não deveriam ser creditadas à displicência – já que se sentia honradíssimo –, mas às dificuldades de comunicação, sobretudo no período das chuvas, entre Minas e a Bahia.

A Academia funcionou por pouco tempo: Mascarenhas foi preso no final de 1759, suspeito de conspirar com espanhóis e franceses. Os acadêmicos se indignaram. Procuraram não interromper totalmente as atividades, e elas foram se arrastando até pelo menos meados de 1761. Depois, o que restava do aspecto mais institucional esboroou, apesar de alguns dos antigos membros, nas décadas seguintes, continuarem estampando no frontispício das obras que publicaram a designação de “Acadêmicos Renascidos”.

O que permaneceu, sem dúvida, foi a rede de sociabilidade letrada então estabelecida e as preocupações que um dia haviam norteado os acadêmicos. Eles aprenderam a driblar as distâncias, a encontrar modos de se comunicar por meio das frotas que iam arribando nos portos, dos comboios de comerciantes que cortavam o vasto interior da América portuguesa, dos correios esporádicos que começavam, então, a agir de modo mais sistemático. Continuaram trocando cartas, documentos, informações: da Bahia, Rodrigo da Costa e Almeida enviava dados genealógicos sobre os descendentes de Filipe Cavalcanti que ali se tinham estabelecido para Antônio José Vitoriano Borges da Fonseca, sócio supranumerário do Recife. Cláudio Manuel da Costa se valeu de documentos levantados em arquivos de São Paulo por frei Gaspar da Madre de Deus, renascido como ele, e ainda dos coligidos na Torre do Tombo por outro supranumerário paulista, Pedro Taques de Almeida Paes Leme.

Além disso, parece datar daquele final da década de 1750 o empenho de Cláudio em reunir na secretaria de governo os documentos para escrever uma história de Minas Gerais, tarefa que lhe foi designada quando ingressou na Academia dos Renascidos. Cerca de quinze anos depois, essas fontes sustentariam a narrativa do Fundamento histórico ao poema Vila Rica, marco da historiografia mineira e da construção da memória regional.

Não existem informações sobre nenhuma atividade acadêmica de Cláudio durante os primeiros anos da década de 1760, mas é lícito cogitar que, à distância, ele sonhava com a criação de uma colônia ultramarina da Arcádia Romana. Essa agremiação havia sido fundada em 1690, reunindo poetas em torno da rainha Cristina da Suécia e inspirando o surgimento, por toda a península italiana, de núcleos secundários, as colônias, dirigidas por um chefe local, ou vice-custódio, sujeito, por sua vez – ao menos nominalmente – ao custódio geral de Roma. Defendia a adoção de um estilo literário mais simples, racional, distinto da moda dominante ao longo do século XVII e marcada pela preeminência dos escritores espanhóis. Assim sendo, o arcadismo – que celebrava a vida no campo, em meio a pastores que cuidavam de rebanhos e tinham por cenário uma paisagem domesticada – foi um antiespanholismo e, ao mesmo tempo, um combate ao “mau gosto”, depois identificado ao barroco.

D. João V se valeu do ouro que chegava das Minas para, em 1721, cortejar os árcades de Roma e oferecer uma sede aos “pastores” poetas: foi recebido como um dos seus, com o nome de Arete Melleo, e doou, em 1725, um terreno sobre o monte Janículo, desde então sede da Arcádia Romana. Nos anos seguintes, a academia recebeu vários figurões da Corte portuguesa, entre eles André de Melo e Castro, conde das Galveias e governador de Minas no tempo em que Cláudio começava a desenhar as primeiras letras do alfabeto, entre 1732 e 1735.

Mas os “pastores” portugueses desejavam uma agremiação própria, e em 1756 criou-se em Lisboa a Arcádia Lusitana, um de seus principais membros, ao lado do fundador Corrêa Garção, sendo Antônio Dinis da Cruz e Silva. Mesmo tendo convivido com este em Coimbra, Cláudio não se esforçou para integrar a academia do Reino. Por outro lado, tudo indica que se empenhou nos contatos com a Arcádia Romana.

Ali, entre 1760 e 1766, um outro mineiro, José Basílio da Gama, havia se tornado membro da academia, com o nome de Termindo Sipílio. Apesar de não haver comprovação empírica, muitos críticos concordam que Basílio foi um defensor, junto aos romanos, da criação da colônia ultramarina de Minas Gerais. Comprovado é que, a partir de 1764, Joaquim Inácio de Seixas Brandão – outro habitante de Minas – ostentava um diploma de árcade romano e o nome de Driásio Erimanteu.

Contando com a intervenção de Basílio da Gama e Seixas Brandão em Roma, Cláudio Manuel da Costa procurou criar, em meados de 1768, a Arcádia Ultramarina em Minas Gerais. Basílio da Gama, que andara naquele ano pelo Brasil e havia embarcado de volta ao Reino em 30 de junho, pode ter ido pessoalmente a Vila Rica para cuidar da diligência e estabelecer os detalhes do ato fundador.

A comemoração de aniversários, casamentos e outras efemérides dava oportunidade a celebrações, e muitas das academias ditas “efêmeras” surgiram assim, ao sabor das circunstâncias. Cláudio Manuel da Costa aproveitou a chegada do novo governador de Minas, José Laís de Meneses Abranches Castelo Branco e Noronha, conde de Valadares, para lançar as bases da Arcádia Ultramarina. Primeiro, em 4 de setembro de 1768, organizou no palácio um recital de poesias para celebrar sua posse, verificada cerca de dois meses antes: foi nesse momento, tudo indica, que Cláudio ofereceu a Valadares o cargo honorífico de custódio sob o nome de Pastor Daliso, intitulando-se por sua vez vice-custódio. Logo depois, a 5 de dezembro, Cláudio dedicou ao conde, que completava 26 anos, o “O parnaso obsequioso”, drama composto à maneira daquele que era o inspirador máximo dos árcades: Pietro Metastasio. No belo manuscrito com que, na ocasião, presenteou Valadares, Cláudio assinou como Glauceste Satúrnio, o nome árcade que o celebrizaria, e com o qual se autodesignou vice-custódio.

Conforme observado pela crítica, esse mundo de frivolidade aparente possibilitava ritos de iniciação e incorporação cultural: no “Uraguay”, Basílio da Gama transformou o pastor em índio, e Cláudio, na “Fábula do ribeirão do Carmo”, leu a natureza local pelo prisma da mitologia clássica.

Nos poemas oferecidos a Valadares naquele segundo semestre de 1768, Cláudio Manuel da Costa lançou mão do tópico da Idade do Ouro, antiquíssimo, para sugerir a necessidade de transformar a ordem das coisas, ou melhor, de fazer que ela voltasse, transfigurada, a ser o que era nos bons tempos de antes. Numa ode, o poeta representou a capitania de Minas como nau desgovernada, passível de ser posta no rumo certo pela mão firme do bom governo – no caso, o que se iniciava. Numa écloga, atribuiu aos pastores a compreensão de que os tempos de carência e de grosseria estavam destinados a terminar porque, do Oriente, avançava um clarão regenerador:

Tudo parece novo já no monte,

De nova gala as árvores vestidas,

Risonha a flor, risonha a clara fonte!

Mas ainda havia, considerou o poeta, um longo caminho pela frente. Encerrando o ato acadêmico, Cláudio Manuel da Costa lamentou, numa passagem muito citada, a desproporção entre o anseio de cultuar as musas e a limitação imposta pelo meio rústico:

Uns gênios educados em um tão bárbaro país, em um país acostumado mais a ouvir os rugidos das feras que a harmonia das Musas, como poderiam produzir cadências que fossem dignas de chegar a uns ouvidos que se criaram entre a delicadeza, ao concerto?

Sem as musas não havia História, perdia-se a rememoração dos feitos; para poetas do sertão, não restava alternativa senão ir tangendo acanhadamente a lira possível. Cláudio suplicava ao conde que relevasse “a desconcertada harmonia” das musas locais, aceitasse o elogio de que eram capazes bem como a designação de custódio daquela Arcádia rude e acanhada. Com o tempo, homens como ele e iniciativas como aquela acabariam polindo e civilizando o meio inculto.

Se havia a aspiração legítima e sincera de forjar uma sociabilidade letrada nas Minas e ali sedimentar a voga nova que ia pela Europa, o empenho de Cláudio em criar a Arcádia Ultramarina e cortejar o jovem governador tinha também objetivos mais imediatos e comezinhos. Queria de volta o emprego de secretário que Luís Diogo Lobo da Silva lhe havia tirado. Se o conseguiu, as evidências não permitem afirmar, existindo alguns indícios de que tornou a responder pela secretaria, e outros a sugerir que tal não ocorreu. Como se viu, Valadares fez corpo mole quando o poeta-bacharel quis ser procurador vitalício da fazenda, mas, meses antes, em 9 de abril de 1769, o designara juiz das demarcações de sesmarias. Em maio, ele voltava às atividades da Câmara, eleito fiscal para o trimestre de agosto, setembro e outubro. O conde ainda governava Minas quando Cláudio recebeu o hábito de Cristo, passou a participar intensamente das atividades da nova Casa da Ópera e a advogar as causas da Ordem Terceira de São Francisco. Quando Valadares deixou o cargo ao sucessor, Cláudio estava no ato, mais para se despedir que para saudar o novo governante, Antônio Carlos Furtado de Mendonça, um desastre completo, logo removido para operações militares em Santa Catarina.

O episódio da Arcádia Ultramarina e de “O parnaso obsequioso” marcaram na produção de Cláudio o início de um ciclo de poesias encomiásticas que se estenderia até meados da década, quando trocou o elogio dos poderosos pela crítica ácida a eles, se é verdade que foi sua, como muitos afirmam, uma das penas que, entre 1784 e o início de 1789, compuseram o notável poema satírico conhecido como “Cartas chilenas”. No ciclo das poesias de elogio, compreendido entre 1768 e 1784, as reuniões literárias em ambiente privado, muitas vezes nas salas do palácio do governador, haviam feito as vezes de sessão acadêmica.

Nos anos anteriores, Cláudio escrevera alguns importantes poemas encomiásticos, como os dirigidos a Pombal e a Gomes Freire de Andrade. Depois do “Parnaso”, ofereceu-os, sistematicamente, aos governadores locais. Para d. Antônio de Noronha, governador entre 1775 e 1780, escreveu um bonito “Canto heroico”, no qual a capitania de Minas lamentava a partida do governador, chamado em socorro do Rio de Janeiro ante a ameaça de invasão espanhola (que nunca aconteceu, daí que d. Antônio também nunca partiu). Escreveu ainda um soneto pouco expressivo e uma bonita “Fala”, destinada a comemorar o avanço da colonização em zonas fronteiriças e na qual o índio, grato por ser incorporado ao âmbito da vida civilizada, louvava o zelo do bom governante e o comparava a Pedro, o Grande, tsar da Rússia.

Menos bonita e menos conhecida, a parte mais curiosa dessa produção encomiástica é o grupo de treze éclogas, odes e sonetos dedicados a dona Maria José de Eça e Bourbon, mulher de d. Rodrigo José de Meneses, que chegou às Minas com ele e três filhos — um nascido na travessia marítima — no início de 1780, ali se demorando até o final de 1783. Em Vila Rica, o casal, que era muito jovem, aumentou a prole com mais duas meninas e um menino.

D. Rodrigo foi o primeiro governador de Minas a trazer consigo a família. A presença da mulher, sobretudo, deu à vida do palácio um certo colorido de corte, mesmo se de aldeia. Dona Maria José fazia as honras domésticas, recebendo os poetas locais, que ali recitaram versos de elogio à família. Foi por ocasião do nascimento de José Tomás, o caçula da prole, que Alvarenga Peixoto compôs o “Canto genetlíaco”, um de seus melhores trabalhos.

Esses encômios domésticos e afetivos celebravam as virtudes familiares e, por meio delas, indiretamente, a pessoa do governador. Nos poemas de Cláudio, retrata-se um tempo de calma e tranquilidade, sem lobos a rondar, o rebanho pastando solto e o pastor dormindo com a porta aberta porque uma “ilustre Maioral” – dona Maria José – havia chegado do Reino e transportara consigo a idade de ouro, pondo fim à época de dificuldades que se havia abatido sobre a região.

O mal, que aos nossos gados agoirava,

De sorte fugiu já, que não tememos

O contágio da peste e a fera brava.

Não foi apenas por ter trazido a família a Minas que essa afetivização da poesia encomiástica ocorreu sob o governo de d. Rodrigo. Nunca, como então, as relações entre o governo e as elites locais haviam sido tão próximas, esboçando-se inclusive a possibilidade de um projeto comum para a capitania, abatida pela diminuição dos rendimentos auríferos. Sociabilidade literária e convergência de interesses político-econômicos eram duas faces da mesma moeda.

Em 1784, contudo, encerrou-se o tempo da harmonia. Desmanchando arranjos antigos e promovendo homens de extração mais modesta, Luís da Cunha Meneses, o novo governador, descontentou muitos dentre a elite local, inclusive o grupo dos poetas árcades. As “academias” informais, que tinham encontrado abrigo no palácio do governo, se viram constrangidas a migrar para o espaço privado das casas. Deve ter sido nelas que remanescentes das tertúlias do tempo de dona Maria José e d. Rodrigo esboçaram as “Cartas chilenas”, poema satírico que recorria à linguagem mais popular e criticava com violência tanto Cunha Meneses – ali chamado de “Fanfarrão Minésio” – como seus apaniguados, que aparecem sob nomes fictícios, às vezes corruptelas dos nomes reais.

A grande figura por trás das “Cartas chilenas” é a de Tomás Antônio Gonzaga, hoje considerado o seu verdadeiro autor. Ninguém duvida, contudo, que outros letrados também contribuíram nas “Cartas”, em reuniões animadas, rindo-se do governador e dos novos poderosos, sugerindo versos e polindo os já escritos. O ambiente no qual o poema satírico surgiu não esteve muito longe, portanto, daquele no qual vicejaram as academias: elas de certa forma prepararam a sociabilidade crítica subjacente à realização das “Cartas”.

Cláudio Manuel da Costa, o principal “letrado da aldeia”, parece ter desempenhado papel decisivo em todo o processo. Chegando aos sessenta anos, dono de notável formação humanística, autor de versos publicados no Reino, tinha grande ascendência sobre os letrados mais jovens, como Alvarenga Peixoto, que beirava os 47 anos, e Gonzaga, que ia completar 45. Depois de polir sua obra lírica, exercitar-se nos encômios completar e arriscar um malsucedido poema épico, pode ter sido consultor permanente da sátira, emendando-lhe muitos dos versos e escrevendo a “Epístola a Critilo”, que antecede as “Cartas”.

Velho e sem saúde, o poeta-bacharel tinha mudado bastante: sempre afável no trato social, sempre melancólico quando às voltas com os processos e as composições, mas cada vez mais reticente quanto às certezas da juventude, fosse no estilo rebuscado – que ia abandonando, ou queria abandonar –, fosse na fidelidade irrestrita ao rei e a sua capacidade de controlar as conquistas ultramarinas.

Por isso, escreveu na “Epístola” que a sátira de Critilo – nome sob o qual se ocultava Gonzaga – seria lembrada toda vez que a “humanidade, enfim desagravada” das injúrias sofridas, soltasse os ferros “tintos do fresco, gotejado sangue”. E os monarcas, inspirados naquelas “Cartas”, consultariam sábios antes de escolher governadores

…que a remotos climas

determinam mandar, deles fiando

a importante porção do seu governo…

Quando não adotassem tal critério, podiam pôr em risco a segurança do Reino e acabar vendo as possessões longínquas dirigidas por monstros, já que a linhagem não era mais garantia de mérito, e dos heráldicos leões e águias de outrora iam, cada vez mais, nascendo pombas e cordeiros. Os versos de Critilo, concluía Cláudio na “Epístola”, funcionariam como um espelho a refletir as cores e a imagem dos ímpios chefes, que nele se veriam arguidos

pela face brilhante da virtude,

Que, nos defeitos de um, castiga a tantos.

No percurso intelectual de Cláudio, as academias e os poemas de elogio haviam desempenhado um papel importantíssimo. Foram bem mais que mero exercício bajulatório e subserviente, abrindo espaço para que, muitas vezes de modo meio oculto e cifrado, o poeta imaginasse o triunfo da civilização sobre a barbárie, o dever do bom governo em promover o benefício dos povos. Quando louvava gente de governo, como Valadares, d. Antônio ou dona Maria José, destacava-lhes as virtudes capazes de promover a superação do momento difícil atravessado pela capitania de Minas, corrigindo a decadência do ouro por meio de medidas reformadoras e ilustradas.

Entre o tempo de Coimbra, quando escrevia poemas de louvor aos figurões da Ordem de Santo Agostinho e este de Minas, no qual celebrava – ou atacava – governadores em serviço na América portuguesa, abrira-se um oceano. Pode ser que Cláudio Manuel da Costa nunca tenha percebido com clareza que, após tê-lo cruzado num sentido, jamais conseguiria fazê-lo no sentido inverso. Já se iam trinta anos, o rapazinho que ele fora um dia havia ficado para trás, a vida junto ao pátrio ribeirão o tinha transfigurado: a ele e a sua poesia.

O poeta ia acertando o passo com os mais jovens, mas, com frequência cada vez maior, desconfiava que talvez fosse tarde demais.