Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Natal (3 de janeiro) 


Mário de Andrade escreve mais um texto sobre os catimbós norte-rio-grandenses. A repetição temática, como ele próprio diz, é intencional: faz parte do seu projeto de dar a conhecer o Brasil aos brasileiros. Nesta crônica religiosa, o modernista descreve santos, mestres, reinos espirituais, e valoriza a complexidade das religiões de matriz afro-indigena.

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Natal (3 de janeiro) 

Não sei si estas informações sobre os catimbós norte-rio-grandenses interessarão a todos os leitores não, porêm me parece que estou dando uma contribuição importante pro nosso folclore. Por isso continuo ainda um bocado. Vou dar hoje esclarecimentos sobre alguns santos. 

Os santos param em reinos espirituais que ficam alguns na propria terra — que nem o reino do Rio Verde onde moram as meninas da Sáia Verde, cinco irmãs virgens, bemfeitoras. Outros reinos são ainda o de Vajucá, o da Ondina, o da Cidade Santa, o do Vento, o de Umbá, das Florestas Virgens, o da Cova de Salomão e finalmente o reino de Juremal. 

Neste ultimo é que mora a Rainha da Jurema, tanto bem como malfeitora, amiga de banhos perfumados e especialista em “atrasos” (caiporismo). Feiticeiro danado é ainda o Principe da Jurema, do mesmo reino tambem. 

A união sexual é naturalmente muito cuidada pelo catimbó. São numerosissimos os mestres especialistas nela. Assim por exemplo mestra Flor, espirito “feme” casamenteirissimo que só trabalha com flores. Quem quer uma sorte dela, entrega pro pai-de-santo, uma rosa, dália, cravo, assim. Mestra Flor se “acosta” logo, benze a rosa que o implorante fará chegar ás mãos da pessoa desejada. Si esta cheira a flor, “tá rendida”. 

Tanto mestra Flor como mestre Floral param no reino do Bom Floral, cidade santa nupcialissima. Mestre Floral tambem é casamenteiro e chega a unir dois amantes em sessão. Pra invoca-lo todos na sessão brincam, alegres cantando uma linha (reza cantada) magnifica, por signal que duma tristura muito meiga. Floral chega, une em cruz as mãos e os pés direitos dos 2 nubentes e derrama sobre as cruzes a agua “fluidada” (benzida) por êle. Depois “liga” os dois corpos: faz os noivos se abraçarem apertado pra “fundir” os dois corações num só. Abençoa. Estão casados, dispensando padre e lei. Não ha exemplo de casal desligado depois de unido por Floral, o que prova a precisão imediata da alta sociedade paulista importar êsse Mestre nordestino. Floral gosta muito de flores, quer sempre Ajucá (a mesa das sessões) cobertinha de flores, coisa facil pra nós com os mil milhões de rosas paulistanas.  

No reino de Juremal reside ainda mestra Faustina muito religiosa e catolica. Mestra Faustina trabalha preferentemente com petalas da rosa Amelia. A gravidas a invocam porquê mestra Faustina é parteira das milhores. Aliás trata com proficiencia todos os incomodos de mulher. 

Santa irritante é mestra Angelica tambem muito sexual. Casa gente, porêm prega o amor livre — pois é especialista em apartar casais. Quando uma mulher quer um homem casado invoca a santa. Mestra Angelica aparta o homem da espôsa e o atira nos braços da desejadeira.  

MÁRIO DE ANDRADE