Crônicas de um brasilianista do Sul | Coluna de Mario Cámara

Temos a alegria de anunciar a mais nova coluna da BVPS, Crônicas de um brasilianista do Sul, assinada por Mario Cámara (UBA)! Argentino de nascimento e brasilianista de formação, o professor de Literatura Brasileira da Universidade de Buenos Aires e autor de livros como A máquina performática (2015), El archivo como gesto. Tres recorridos en torno a la modernidade brasileña (2024) e Roberto Jacoby, uma arte ao alcance da mão (2025), propõe misturar um pouco de Argentina e Brasil em pequenas crônicas mensais sobre livros, filmes, exposições e reflexões diversas – em veredas que se bifurcam. Ou, melhor dizendo, propõe compartilhar um pouco de um Brasil hermano, vizinho não longe daqui, traduzido desde as margens e o Sul. Termos de comparação serão relativamente incontornáveis. Assim, neste texto de apresentação, temos um vislumbre do que nos espera nos próximos meses. Boa leitura e não deixe de acompanhar, sempre às sextas-feiras pela manhã.

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Apresentação

Por Mario Cámara (UBA)

Na primeira vez que viajei ao Brasil, ainda morava na cidade de Mar del Plata e tinha 18 anos. Viajei com um grupo de amigos, primeiro de trem, de Mar del Plata a Buenos Aires, depois de ônibus, de Buenos Aires ao Rio de Janeiro, de lá, novamente de ônibus, a Cabo Frio e, finalmente, mais uma vez de ônibus, a São Pedro D’Aldeia. Uma semana após minha chegada, a cidade alagou. Choveu durante horas e nos evacuaram para uma escola enorme. Lá cozinhei arroz para vinte pessoas. Não imaginava que um dia daria aulas de literatura brasileira na Universidad de Buenos Aires (UBA).

Muitos anos depois, enquanto fazia meu doutorado sobre alguns poetas, escritores e artistas do Brasil dos anos sessenta e setenta, viajei a São Paulo. Não me impressionou a dura poesia concreta de suas esquinas, mas deparar-me com uma megalópole ultramoderna e com uma oferta cultural infinita. Como parte do meu projeto de pesquisa, naqueles dias, pude conversar com Arnaldo Antunes, Alice Ruiz, João Bandeira e Augusto de Campos, e tive uma experiência que não deixaria de se repetir em minhas viagens seguintes: todos me presenteavam com livros.

Uma única vez estive no carnaval do Rio de Janeiro. Fui ao sambódromo com meu amigo Luiz Dado Amaral, que naquele momento namorava uma atriz de novelas da Rede Globo. Lembro que chegamos de carro em meio a multidões que iam se abrindo quando a viam — a ela, que não vou nomear para preservar sua privacidade. Uma vez lá dentro, nos acomodaram num camarote bem perto da pista. Acostumado a ver o carnaval pela televisão, as escolas me pareciam gigantescas. O camarote tinha um bar com coxinhas, sushi de primeira qualidade e todo tipo de bebidas, do champanhe ao uísque. Pensei que teria de pagar pelo que consumisse, mas logo me indicaram que era o camarote do prefeito e que tudo era de graça.

Há mais de vinte anos que me relaciono com a literatura e a cultura brasileiras. Tornar-me brasilianista me obrigou a aprender português, e aprender português me permitiu traduzir. Foi algo natural. Em 2005, convidado por Florencia Garramuño e Gonzalo Aguilar, organizei e publiquei a primeira grande antologia de Paulo Leminski em espanhol, Leminskiana. Depois, quase de imediato, traduzi Glauco Mattoso. Desde então, traduzi Clarice Lispector, Luiz Ruffato, Ana Paula Maia, Silviano Santiago, Marília Garcia, Mônica de Aquino, Franklin Alves Dassie, Veronica Stigger, Felipe Charbel e Davi Kopenawa, entre outros. No entanto, não me considero um tradutor profissional — sou um amador que de vez em quando traduz.

Já perdi a conta das vezes que viajei ao Brasil, em geral a São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis. Vinte? Trinta? Quarenta? Acho que tenho tantos amigos no Brasil quanto em Buenos Aires.

A vitória de Bolsonaro, no entanto, colocou em crise minha formação brasilianista e, como resultado dessa crise, escrevi O arquivo como gesto, onde procuro ler certas zonas da modernidade brasileira à contraluz. Ali defino que o Brasil viveu um século longo, que começou em 1920 e culminou em 2016 com o golpe contra Dilma Rousseff. Ali situo a ruptura da hegemonia cultural do modernismo. A liberdade de Lula e depois seu novo triunfo nas presidenciais me fazem pensar que o Brasil, mesmo com suas desigualdades e com sua extrema direita, ainda é um modelo possível de mundo neste momento distópico e pós-democrático que atravessamos. Brasil pode colocar Bolsonaro no poder, mas também pode tirá-lo.

O que é o Brasil para um brasilianista argentino? Em primeiro lugar, um objeto de desejo e, logo em seguida, um termo de comparação relativamente incontornável. O Brasil como contraponto da Argentina, o Brasil como o que a Argentina não é, o Brasil sendo melhor/pior que a Argentina — enfim, as comparações poderiam continuar, tornar-se mais específicas, do tipo Borges ou Machado, Ana Cristina ou Alejandra Pizarnik, Clarice ou Sara Gallardo. Um brasilianista também vai se tornando uma espécie de representante do Brasil em seu próprio país, um cônsul honorário que traduz, edita, lê e dá aulas sobre a cultura, a literatura e as artes brasileiras. Um brasilianista, por fim, é também uma figura deslocalizada em relação ao complexo sistema cultural brasileiro, com suas tradições, suas rivalidades e seus debates — é um periférico ao quadrado que, com certa irreverência, mistura saberes e tradições, capaz de citar num mesmo parágrafo Silviano Santiago e Antonio Candido sem se envergonhar, capaz de navegar entre Campinas e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Este brasilianista que vos escreve trará notícias uma vez por mês na BVPS sobre algumas novidades brasileiras que chegam ao sul – livros, filmes, exposições e reflexões diversas – e também sobre nosso Brasil, o que fica aqui na Argentina. Na minha próxima coluna falarei do Abaporu de Tarsila. Como certamente sabem, ele se encontra no Museu de Arte Latino-Americana (MALBA), mas o que talvez não saibam é que o Abaporu, no MALBA, já teve quatro roteiros curatoriais e cada um deles o leu de maneira diferente. Até a próxima!

Mario Cámara é Doutor em Letras, Professor Adjunto de Literatura Brasileira na Universidade de Buenos Aires, Professor Titular de Teoria e Análise Literária na Universidade das Artes e Pesquisador Principal no Conselho Nacional de Pesquisas Científicas. Seu último livro é Roberto Jacoby. Uma arte ao alcance da mão (2025).