Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Natal (4 de janeiro)  


Mário de Andrade relata a eleição de dona Alzira Soriano para a prefeitura de Lajes, no interior do Rio Grande do Norte. O caso, inédito na cidade, é celebrado com banquetes e discursos. O modernista, entretanto, não deixa de notar também certa ironia, como o concurso de beleza que encerra a noite de posse e que teve como segunda colocada justamente a filha da nova prefeita.

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Natal (4 de janeiro) 

O prato do dia é a eleição duma mulher para prefeita do municipio de Lages, dona Alzira Soriano.  

Este municipio é novo e está progredindo com rapidez graças ao gado e ao algodão. Por 93, a atual e moderna cidade de Lages era um pouso de duas casas, pertencentes a Chico Pedro, inda vivo e com o nome razoavelmente eternizado numa das praças de Lages. 

O atual presidente do Rio Grande do Norte na sua plataforma presidencial inculcava a necessidade de se igualarem os direitos dos dois sexos dentro do Estado. Nesse sentido foi apresentado então pelo hoje chefe de policia, então deputado, Adaucto Camara, um projecto de que foi relator, Antonio Bento de Araujo Lima, firmando os direitos de voto e elegibilidade da mulher. O então presidente, dr. José Augusto sancionou a lei que vigorando desde o ano passado já permitiu o comparecimento de 17 donas ás urnas que levaram José Augusto á senatoria federal. 

Mas o resultado mais victorioso da lei até agora foi mesmo a elevação de dona Alzira Soriano a prefeita de Lages. É uma senhora de inteligencia viva, boa aparencia, viuva inda moça, não possuindo 40 anos.  

A posse dela foi cheia de festas, uma hora-literaria e baile oferecidos pelas senhoras da cidade, um banquete oferecido pelos homens e a posse com seus discursos.  

De tudo isso destaco duas manifestações que me parecem as mais importantes: o discurso de posse de dona Alzira Soriano e um concurso de beleza. 

O discurso é um documento notavel que gostei muito. Não se trata de nenhuma peça oratoria sublime não. Pelo contrário: se percebe em toda a falação, que a prefeita recusou sistematicamente a qualquer eloquencia e qualquer flor-de-retorica. Foi simples. Foi duma simplicidade admiravel, anti-masculina pela ausencia de brilho e anti-feminina pela ausencia de flores. E o que falou, falou com energia e clarividencia. Assuntem só êste pedaço, inconcebível pra politica paulista: 

… “quero apenas (…) registrar o que não farei no exercicio de meu mandato, de preferencia a alinhar projectos, que talvez não pudesse realizar. Não me prevalecerei do cargo para fazer favores a amigos e ainda menos para negar justiça a adversarios. Não abusarei dele para obter proventos, seja qual for a natureza deles. Etc.”. 

Sei bem que por enquanto essas afirmativas são… promessas mas dona Alzira Soriano as disse numa página tão simples que acredito nela.  

Mas… na noite da posse teve o baile de que falei. A horas tantas organizaram um concurso de beleza em que teve o 2.º lugar a sta. Sonia Soriano, filha da prefeita. Deus me livre de negar boniteza a essa moça que não conheço. É até provavelmente linda pois filha de dona Alzira, que dizem senhora bonita e mesmo requestada. Mas essa eleição lembra logo os enfeites de altar para que os santos se agradem da gente… uma pena… Ou antes uma curiosidade: Em que estado estarão as promessas no coração de mãe de dona Alzira?… 

MÁRIO DE ANDRADE