BVPS Edições | Autorais Laura de Mello e Souza

Encerramos hoje a série Autorais Laura de Mello e Souza com o ensaio “Intérpretes do Brasil – Texto introdutório a Alcântara Machado, Vida e morte do bandeirante”, publicado na coleção “Intérpretes do Brasil”, organizada por Silviano Santiago em 2000.

O texto ressalta o caráter inovador do livro Vida e morte do bandeirante na historiografia brasileira, em virtude de sua capacidade de relativizar os mitos que cercavam a suposta riqueza da sociedade paulista colonial. Segundo a autora, ao deslocar o foco dos grandes feitos e dos grandes nomes para o cotidiano e a vida material, Alcântara Machado transforma a experiência até então secundária de grupos sociais em objeto central da análise histórica, valendo-se de fontes documentais que só seriam incorporadas à historiografia europeia décadas mais tarde. Tanto o tema quanto o enfoque escolhido expressam uma sensibilidade histórica profundamente moderna e original, instituindo a obra de Alcântara Machado, na interpretação de Souza, como marco inaugural da historiografia brasileira contemporânea.

E não perca, na próxima segunda-feira, o conteúdo bônus dessa Autorais: uma entrevista inédita de Laura de Mello e Souza ao curador da série, José Newton Meneses.

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Intérpretes do Brasil – Texto introdutório a Alcântara Machado, Vida e morte do bandeirante

Por Laura de Mello e Souza (USP)

Quando Vida e morte do bandeirante veio a público, em 1929, o Modernismo já ocorrera havia quase uma década mas a historiografia paulista continuava presa a modelos e concepções convencionais. Nos anos anteriores – mais precisamente em 1924 e em 1926 –, Alfredo Ellis Jr. publicara O bandeirismo paulista e o recuo do meridiano: pesquisas nos documentos seiscentistas e Raça de gigantes – trabalhos fantasiosos, destituídos de metodologia histórica mais consistente, imersos na tradição exaltatória dos memorialistas do século XVIII. Só nos anos 30 é que se firmariam análises realmente inovadoras, seja no campo do marxismo, seja no campo da interpretação sociocultural: Evolução política do Brasil é de 1932, e de 1936 Raízes do Brasil. Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Holanda seguiriam até a década de 1970 como os dois grandes historiadores paulistas, influenciando gerações – não só no campo da História, mas no das Letras e das Ciências Sociais. Durante os anos de repressão, foram dois paradigmas de resistência e lucidez, desempenhando no sentido mais pleno o papel de intelectuais radicais.

As obras que estes dois autores publicaram na década de 1930 são interpretações do Brasil. Nas décadas seguintes, Sérgio Buarque de Holanda se voltaria para a história mais miúda de sua região, sem nunca perder de vista os nexos que a ligavam à história nacional. Por meio da pesquisa sistemática com fontes documentais e da análise detida de São Paulo, deixaria o ensaísmo e se tornaria, em definitivo, historiador. São desta fase duas obras que, na época, chamaram pouca atenção: Monções, publicada em 1945, e Caminhos e fronteiras, de 1957 – ambas voltadas para a reflexão sobre as condições materiais da existência dos paulistas nos séculos XVII e XVIII.

O pequeno impacto destes trabalhos, que contam entre os mais belos da historiografia brasileira, talvez se deva ao fato das análises generalizantes dominarem nossas ciências humanas até os anos 80. Foi então que, muitas vezes pela mão de autores estrangeiros, as novas gerações de historiadores começaram a se deter sobre o particular, sobre o detalhe, procurando mostrar o significado de fenômenos aparentemente sem importância. A análise dos processos lentos e dos aspectos rituais da sociedade ganharam destaque: modos de pensar e de sentir, crenças, comportamentos cotidianos deixaram de ser vistos como curiosidades e passaram a ter ressaltado o seu poder explicativo (Levi, 1992: 133-161; Burke, 1991; Le Goff, 1990).

Não são outros o foco e o assunto de Vida e morte do bandeirante: os sentimentos, as crenças, o dia a dia de homens rústicos, apreendidos no seu aspecto coletivo e nunca exaltados como indivíduos. “Reduzir o estudo do passado à biografia dos homens ilustres e à narrativa dos feitos retumbantes seria absurdo tão desmedido como circunscrever a geografia ao estudo das montanhas”, diz o autor logo nas primeiras páginas. O objetivo essencial da história só pode ser atingido quando o historiador não descura do “esforço permanente dos humildes”, da “silenciosa colaboração dos anônimos”, das “ideias e sentimentos das multidões” (Machado, 1930: 5-6)[1].

Não é outro, igualmente, o método: os pequenos atos que se repetem, a porção menos nobre da vida, as particularidades podem ser indícios reveladores que conduzem à compreensão das estruturas mais profundas e dos largos processos históricos. Por fim, a linguagem simples, direta e elegante realça a modernidade da concepção e do método.

Fomos nós, historiadores dos anos 80 e 90, que inventamos Vida e morte do bandeirante, ou foi esta obra que nos inventou? Sua atualidade e seu caráter inovador intrigam, ainda mais quando se pensa na figura de José de Alcântara Machado de Oliveira, intelectual à moda antiga: bacharel formado na escola do Largo de São Francisco, da qual foi professor e diretor; vereador, deputado estadual e por fim federal; membro de academias; figura em tudo afinada com a oligarquia de seu estado.

Mais do que à elite econômica, pertencia à elite social e intelectual da província: nascido em Piracicaba a 19 de outubro de 1875, era filho de Brasílio Machado, neto do Brigadeiro J. J. Machado de Oliveira e, em 1901, seria pai de Antônio de Alcântara Machado, um dos maiores talentos do modernismo, a quem uma crise de apendicite interrompeu a carreira promissora de escritor – o quarto, em quatro gerações. Em 1931, assumiu na Academia Paulista de Letras a cadeira de número 1: cadeira criada por seu pai e dedicada à memória de seu avô[2].

Vida e morte do bandeirante trouxe-lhe prestígio nacional e levou-o à Academia Brasileira de Letras, onde lhe coube a cadeira até então ocupada por Silva Ramos, a quem celebrou em seu discurso de posse. Na parte final, faz declaração de fé paulista que se tornaria célebre, sublinhando que o forte sentimento regional era a sua maneira de ser brasileiro, a sua “diversidade aparente” que se sobrepunha à “parecença íntima” (Machado, 1937: 43).

Paulista sou, há quatrocentos anos. Prendem-me no chão de Piratininga todas as fibras do coração, todos os imperativos raciais. A mesa em que trabalho, a tribuna que ocupo nas escolas, nos tribunais, nas assembleias políticas deitam raízes, como o leito de Ulisses, nas camadas mais profundas do solo, em que dormem para sempre os mortos de que venho. A fala provinciana, que me embalou no berço, descansada e cantada, espero ouvi-la ao despedir-me do mundo, nas orações de agonia. Só em minha terra, de minha terra, para minha terra tenho vivido; e, incapaz de servi-la quanto devo, prezo-me de amá-la quanto posso. (Machado, 1937: 41).

Dos paulistas, saudava a tenacidade, a ação – “vocação histórica” –, o sentimento de independência e de liberdade. Proferida dois anos após a Revolução Constitucionalista, é no contexto do “brio ferido” que essa passagem deve ser situada: “… São Paulo continuava de pé, fiel ao Brasil, mas não curvado, pois vitoriosas se tornavam as ideias pelas quais se batera” (Soares, 1955: 37).

O discurso cunhou expressão hoje consagrada – “paulista de quatrocentos anos” –, reveladora do sentimento de preeminência que a elite de São Paulo vinha desenvolvendo com intensidade crescente, orgulhosa, por um lado, do rápido desenvolvimento econômico da região e, por outro, ameaçada ante o influxo da imigração estrangeira. Cinco anos antes, a dedicatória do livro que o alçou à Academia dizia algo semelhante:

Para minha mulher
meus filhos
minha nora
meus netos
paulistas como eu
e os meus antepassados
desde Antônio de Oliveira
chegado a S. Vicente em 1532.

O apego aos valores tradicionais não empanou a obra de Alcântara Machado, antes servindo-lhe de estímulo e alimento. O intuito não é louvar as elites, às quais pertence, mas compreender a história de São Paulo para melhor compreender a história do Brasil – e, nisto, reside sua feição inequívoca de historiador. Muito pouco, em Vida e morte do bandeirante, a aproxima de obras suas contemporâneas, como a já citada O bandeirismo paulista e o recuo do meridiano: não ressalta o “bandeirismo monumental”, mas o cotidiano, “carregado de sustos e incertezas”; não vê a história paulista como “rosário contínuo de epopeias maravilhosas”, destacando, ao contrário, os aspectos mais prosaicos da vida no sertão; sua São Paulo não é opulenta, mas pobre e acanhada, pois as referências sobre o cotidiano, que colhe nos documentos, destroem pragmaticamente as mistificações ideológicas inauguradas pelos linhagistas[3]. De Antônio Raposo Tavares, sempre louvado pela historiografia paulista de cunho encomiástico, sublinha a mesquinhez de atitudes quando, como outros capitães do sertão, vê-se alçado à condição de inventariante circunstancial e, ao contrário daqueles, reclama a paga do seu trabalho: “Da pobreza que fica por morte de Pascoal Neto, o heroico devastador das missões retira um par de meias” (Machado, 1937: 268). As contradições e as fraquezas cotidianas relativizam o mito do herói. Nada mais revelador, às vezes, do que o detalhe.

Contudo, a modernidade do autor se faz, vez por outra, acompanhar de concepções mais tradicionais e de preconceitos então comuns, presentes tanto em autores que o antecederam e influenciaram, como Oliveira Viana, quanto nos que o seguiram de perto, como Gilberto Freyre. Suas afirmações sobre a família envelheceram, ultrapassadas em muito pela pesquisa recente: a família colonial não é mais vista como “um corpo estável e homogêneo”, havendo vários arranjos possíveis, conforme atestam fontes cada vez mais manuseadas: as devassas episcopais, os processos de divórcio, os esponsais. (Samara, 1990; Figueiredo, 1997; Goldsmith, 1998). O destaque dado à ilegitimidade a partir da metade do capítulo “A família” ilustra, por outro lado, que, nele, a sensibilidade histórica caminhava mais rápido do que a razão, possibilitando-lhe o registro mas encontrando-o ainda despreparado para a análise. Ao lado da família legítima, que valoriza e qualifica como “organização defensiva” (Machado, 1930: 146), Alcântara Machado destaca uma outra, contaminadora: a ilegítima (p. 154). Da mesma forma que Oliveira Viana, reconhece nela significado social: foi responsável pela formação do “clã do fazendeiro”, volumoso e mestiço, importante mesmo se composto de elementos inferiores (p. 162).

O namoro com as teorias racistas é outro ponto frágil da obra, responsável por traços que envelheceram. O colono branco é superior ao índio e ao africano, e sua participação na mestiçagem a enobrece (Machado, 1930: 159). Mesmo quando percebe que a mestiçagem é tanto étnica quanto cultural, aproximando-se de concepções contemporâneas (Gruzinski, 1999) – “[E]m suas crenças o sertanejo é tão mestiço como em sua constituição física” (Machado, 1930: 218) – não consegue conter o julgamento negativo ante o “disparate” representado pela convivência desordenada entre santuários, sacis e orixás, indício da incapacidade popular e mestiça em separar o princípio da coisa representada: “Só as criaturas de mentalidade superior se contentam com abstrações” (Machado, 1930: 218).

Como para Gilberto Freyre poucos anos depois, o papel representado pelos judeus na vida econômica da Península Ibérica é, em Vida e morte do bandeirante, “odioso”:

Calcula-se facilmente quanto rancor e malquerença devem provocar esses homens, de avidez proverbial, que numa sociedade pobre, toda ela de lavradores e guerreiros, açambarcam o comércio, exploram a onzena, arrecadam os impostos da Coroa e os direitos da Igreja, cobram os foros e rendas para os senhores da terra, corvejam sobre a miséria alheia, encarnando assim aos olhos do vulgo a ferocidade do Fisco e a voracidade da Usura (Machado, 1930: 192).

Por fim, incomoda a complacência ante a criação em terras portuguesas do Tribunal do Santo Ofício (que, aliás, começou a funcionar em 1536, não 1547, como escreve). Jurista de formação, Alcântara Machado acredita que a Inquisição “vem simplesmente legalizar e sistematizar, pela execução e pelo confisco, o que antes se fazia, sem forma nem figura de juízo, por decreto sumaríssimo das multidões, no pretório anárquico das ruas”. E deduz: “Um progresso, afinal de contas” (Machado, 1930: 192-193). Nem uma palavra é dita sobre o horror representado por um tribunal de exceção que, por três séculos, julga ideias e desfibra o tecido social.

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A correspondência administrativa, a legislação ordinária e extraordinária, as consultas do Conselho Ultramarino, enfim, toda uma gama de documentos oficiais haviam embasado a maior parte das obras importantes da historiografia brasileira até então. A obra de Varnhagen, História geral do Brasil, é o grande monumento desse tipo de história, ainda hoje insuperado.

Nos anos 20 e 30, um punhado de estudiosos provocariam uma inflexão nessa ordem de coisas, renovando de forma notável o repertório documental utilizado pelos historiadores e permitindo que os grandes nomes e os grandes feitos fossem eclipsados pelos atos e comportamentos partilhados por muitos. Entre esses estudiosos, alinhava-se José de Alcântara Machado.

Antes dele, contudo, cabe destacar a ação pioneira de um dos maiores eruditos que o país já teve: José Capistrano de Abreu, incansável descobridor de autores e editor das Primeiras visitações do Santo Ofício às partes do Brasil. Os assentos dos quatro anos de atividade da Inquisição no Recôncavo baiano e no Nordeste deram substância para o Retrato do Brasil, de Paulo Prado, talvez o primeiro ensaio sobre sensibilidades coletivas escrito entre nós.

Logo depois de Alcântara Machado, destaca-se Gilberto Freyre, pioneiro na utilização de anúncios de jornais, livros de receitas, diários familiares, subversor da hierarquia que separava documentos mais nobres e documentos menores. Sem estes, difícil conceber Casa-grande & senzala, Sobrados e mucambos ou Açúcar.

Mas voltemos ao nosso autor. Alcântara Machado lança mão, de quando em vez, das Visitações. Deixa-se inclusive fascinar por elas de forma exagerada no capítulo sobre “As devoções dos bandeirantes”, onde o tema central da obra – a vida cotidiana dos sertanistas de São Paulo – fica inexplicavelmente para trás enquanto o autor persegue as desventuras dos réus da Inquisição no Nordeste distante. Mas o que o distingue na historiografia brasileira é o uso pioneiro e inovador dos inventários e testamentos paulistas. Décadas se passariam antes da utilização deste tipo de fonte se tornar habitual na historiografia europeia. Salvo engano, foi o grupo dos Annales que, no âmbito das teses universitárias, começou a extrair sentido dos inventários e dos testamentos. Datam do final dos anos 60 e dos anos 70 os trabalhos de Philippe Ariès ou Michel Vovelle sobre a devoção e a piedade popular ou sobre as atitudes diante da morte (Ariès, 1977; Vovelle, 1974, 1978).

Quando exerceu cargos públicos de destaque no estado de São Paulo, Washington Luís mandara publicar boa parte dos inventários e testamentos paulistas do período colonial – aqueles processados de 1578 a 1700 pelo primeiro cartório de órfãos da Capital. Historiador de fim de semana, Alcântara Machado se valera do fato, que lhe permitia o acesso fácil à massa documental de primeira grandeza. A leitura que dela fez é luminosa e inspirada, e ainda hoje sua perspicácia causa assombro.

Após o exame de 27 volumes e a leitura de cerca de quatrocentos e cinquenta processos, sua sensibilidade de historiador lançava por terra um mito firmado no século XVIII com Pedro Taques e frei Gaspar da Madre de Deus, renovado no século XIX com Azevedo Marques e incorporado à historiografia do século XX por Oliveira Viana: o de que a sociedade paulista era rica. Nada, nas fontes, abonava as descrições sobre “o luzimento e o donaire de um salão de Versalhes engastado na bruteza da floresta virgem: homens muito grossos de haveres e muito finos de maneiras, opulentos e cultos, vivendo à lei da nobreza numa atmosfera de elegância e fausto” (Machado, 1937: 13). Tudo, ao contrário, indicava a escassez material da vida numa região excêntrica, periférica à exploração colonial de maior monta; a “imensa maioria das avaliações” denunciava a “carência de cabedais apreciáveis” (Machado, 1930: 20), e num conjunto de 400 inventários seiscentistas, eram apenas 20 (ou 5% do total) os que revelavam abastança (p. 19):

O que vale a terra sem gente que a povoe e aproveite? O que falta aos paulistas não é o chão, que aí está, baldio e imenso, à espera de quem o fecunde. Faltam-lhe, sim, a ferramenta, o vestuário, tudo quanto a colônia não produz ainda e tem de vir, através de obstáculos sem conta, da metrópole distante (Machado, 1930: 23).

A reflexão sobre o valor dos objetos e das propriedades, sujeito a flutuações através dos tempos; a constatação da precariedade da vida material dos paulistas – legam-se móveis quebrados, tigelas, duas ou três colheres – e da vila de São Paulo – “[N]ão custa muito evocá-la em seu desprimor e tristeza” (Machado, 1930: 40) – permitiram que Alcântara Machado realizasse um salto analítico notável com relação às interpretações anteriores, mais rentes à mitologia construída pelos já referidos linhagistas. Mesmo se explicitamente preocupado com as elites – “[O] que nos aguça a curiosidade é o ambiente em que se move a aristocracia da colônia” (Machado, 1930: 51) –, dissocia preeminência social de riqueza econômica. Neste sentido, avança como ninguém até então no sentido de melhor compreender a aristocracia brasileira: opulenta, muitas vezes, nos centros dinâmicos da colônia, os que diretamente se articulavam à economia metropolitana e ao sistema colonial; modesta e rústica nas regiões periféricas e autocontidas.

De registros secos, aparentemente frios e neutros, Alcântara Machado extrai, neste sentido, interpretações reveladoras:

Ora, esse bandeirante [Lourenço Castanho Taques] que, na frase retumbante de Pedro Taques, conserva e sustenta o respeito e o tratamento de sua pessoa potentada, tem apenas isto, que estamos vendo, na casa que mora: dois bufetes, quatro cadeiras, seis tamboretes (três deles quebrados), um catre, cinco colchões, três catres de mão, uma caixa, duas bacias e um castiçal de latão, três tachos de cobre, um pavilhão, um tapete, dez pratos e uma salva e um saleiro de estanho, nove colheres e cinco tamboladeiras de prata.
Haverá cousa mais relativa do que o luxo? (Machado, 1930: 58-59).

Um após o outro, o autor pinça dos inventários dados capazes de revelar a estrutura econômica e social de um mundo pré-capitalista, onde bens de raiz valem menos do que bens móveis – roupas, colchões, joias, alfaias – e onde a aparência tem mais importância do que a utilidade. Dois capítulos, “As fortunas coloniais” e “Fato de vestir, joias e limpeza da casa” são fundamentais para se entender esse movimento analítico, constante no livro, e que consiste em revelar estruturas profundas a partir da enumeração de elementos próprios ao cotidiano e à vida material. O valor atribuído a roupas “para ouvir missa e aparecer na praça” (Machado, 1930: 73); o costume, próprio aos poucos apotentados, em “ostentar a sua opulência” “na baixela e nas alfaias de cama e mesa” (p. 84) confirmam o caráter estamental daquela sociedade, onde, se há espaço – mesmo que reduzido – para “coisas deslumbrantes”, “avulta a ausência de certas coisas pequeninas” mas práticas, como os lenços (p. 85). Mundo que desqualifica o trabalho manual e abriga relações desproporcionadas entre o alto preço dos tecidos, que vêm de longe, e o custo do feitio das roupas, “de modicidade quase fabulosa” (p. 72). Mudanças cotidianas nos hábitos de vestir não são aleatórias, revelando transformações econômicas em curso: “Às meias de agulha, de fio de algodão, se vão juntando as de seda, à medida que aumenta a fortuna privada e se desenvolve o comércio” (p. 71).

“O dinheiro e os sucedâneos” é um dos capítulos onde a leitura criativa de fontes nem sempre abundantes em dados qualitativos se faz mais evidente – e convém dizer que, aqui, outros documentos, igualmente secos, são invocados em auxílio dos inventários. Mais uma vez, a vida econômica de São Paulo é captada por meio de elementos da cultura material. Na ausência de dinheiro amoedado, instituem-se outras “moedas”, todas conformadas pelas necessidades e usos cotidianos: com palha satisfazem-se salários de funcionários municipais; com açúcar honra-se a dívida contraída com a compra de escravos. Os panos de algodão contam entre as formas mais populares de pagamento, mas há outras também importantes: “os couros ou a courama, o gado, o mantimento como correr pela terra, as peles de porco e de onça, a cera, o mel, a aguardente, (…), a marmelada, os feijões, o milho, as aves, a farinha de guerra boa e de receber” (Machado, 1930: 136).

Por fim, o uso dos testamentos, mais intenso nos capítulos “Índios e tapanhunos” e “Em face da morte”. Enxergando através das fontes, Alcântara Machado indica traços do que hoje chama-se mentalidades, e desvenda significados nem sempre explícitos. Veja-se a passagem seguinte:

A acreditarmos em Antônia de Oliveira, viúva do fundador de Parnaíba, os índios que possuía teriam vindo igualmente de suas aldeias e da sua terra sem ninguém ir por eles e só pela fama do marido, o capitão André Fernandes, e só pelo bom tratamento que com eles usava. Sabidas as proezas do famigerado salteador da redução de San Pablo, grande matador e desolador de índios, no dizer das testemunhas no processo contra Dom Luís de Céspedes, vacilamos em acreditar que de tão longe viessem os desgraçados pedir-lhe agasalho e mantença (Machado, 1930: 176).

Veja-se ainda aquela outra passagem, onde, após dar voz à fonte, comenta o testamento e as últimas vontades de F. R. de Miranda, ao que tudo indica morto no sertão:

(…) tenho alguns serviçais que mando a minha mulher e filhos que querendo eles estar em sua companhia os tratem como forros, e quando se queiram ir não lhes impedirão sua ida, mas antes a favoreçam pela afronta que lhes fiz com os trazer com pouca vontade sua. Com pouca vontade … Eufemismo encantador (Machado, 1930: 171).

Os testamentos deixam entrever aspectos da religiosidade cotidiana dos sertanistas, que o autor pinça com sensibilidade pouco comum à época, quando a religião dogmática ainda merecia mais atenção do que as práticas vividas. Só com Casa-grande & senzala ocorreria análise mais consistente da religiosidade enquanto manifestação cultural digna de nota, mas Gilberto Freyre não serve de parâmetro: suas páginas luminosas só encontrariam eco na década de 1980, lidas já à luz da história das mentalidades.

À empresa sertanista, arriscadíssima, impunha medos e temores do fim. Muitos testamentos foram feitos antes da partida, e outros tantos em plena mata, quando a morte se anunciava de repente. Na hora extrema, manifestavam-se crenças e concepções religiosas que atestam o anseio de uma religião onde o santo, humanizado, ficasse mais próximo do fiel: “Procurando [Afonso Dias] captar as boas graças não só do intercessor, como também de sua família, ordena que se rezem três missas a Santo Antônio e outra ao pai do Santo” (Machado, 1930: 233).

Manifestavam-se igualmente arrependimentos ante a lembrança de atos reprováveis cometidos no passado, como as violências contra os índios. Um desses arrependidos encomenda dez missas “para satisfação da força que fez ao gentio e dos mantimentos que lhe comeu” (Machado, 1930: 235).

A metodologia contemporânea tem abordado inventários e testamentos com grande aparato técnico, usando programas especiais de tabulação de dados, elaborando tabelas complexas, quantificando tanto bens pecuniários quanto devoções e anseios espirituais. Em meio à mania high-tech, a abordagem de Alcântara Machado refresca e revigora, impondo o valor insuperável da qualidade.

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Nada mais delicado do que ajuizar sobre o caráter precursor de uma obra ou de um autor. Ao escrever sobre os antecessores da história das mentalidades, Michel Vovelle invocou com propriedade a figura ridícula do burguês fidalgo de Molière, Monsieur Jourdain: ao ser informado por seu professor de francês que a conversação integrava a prosa, constatara que, até então, fizera prosa sem sabê-lo (Vovelle, 1987: 14). Apesar de existir uma coincidência intrigante entre aspectos tratados pela moderna história das mentalidades ou pela história cultural, de um lado, e uma certa tradição historiográfica brasileira mais voltada para a análise de fenômenos culturais, por outro, talvez só se possa atribuir com justeza o caráter precursor a um autor e a uma obra: o autor é Gilberto Freyre, em quase tudo quanto escreveu; a obra é Visão do paraíso, obra-prima de Sérgio Buarque de Holanda.

Sem ser, portanto, um trabalho afinado com a história das mentalidades ou com a moderna história cultural, Vida e morte do bandeirante apresenta muitos traços precursores, da mesma forma que os Capítulos de história colonial, de Capistrano de Abreu. Este trouxe para primeiro plano a importância do Brasil profundo – o rio São Francisco ganha nesta obra o epíteto de rio da unidade nacional – e deslocou o eixo interpretativo de nossa história, que desde frei Vicente do Salvador repousava na imagem poderosa do caranguejo/colonizador a arranhar teimosamente a orla marítima. A obra de Alcântara Machado, por sua vez, não quis explicar o Brasil, mas uma de suas capitanias, aliás uma das mais afastadas dos centros de poder colonial: São Paulo. Ao fazê-lo, contudo, acabou trazendo novos elementos para se compreender o país: como quase sempre acontece com as análises particularizantes bem-sucedidas, elas acabam sendo básicas para a compreensão dos aspectos mais gerais.

Tanto Capistrano quanto Alcântara Machado perceberam a importância dos aspectos materiais na cultura de um povo, e foram capazes de abordá-los enquanto problemas históricos. Se os Capítulos de história colonial sempre me pareceram uma promessa não cumprida – opinião aliás coincidente com a de Stuart Schwartz, que a defendeu num excelente prefácio escrito para a edição americana (Schwartz, 1997: XVII-XXXIV) –, vejo Vida e morte do bandeirante como a primeira obra da historiografia brasileira contemporânea.

Não se entenda, com isto, que tomaria a dianteira com relação a obras anteriores e tanto ou mais fundamentais, como D. João VI no Brasil, de Oliveira Lima. O que causa impacto no livrinho de Alcântara Machado é a modernidade na escolha do objeto e das fontes, a dissolução das personagens no destino comum da capitania, a valorização de temas até então desconsiderados, uma sensibilidade histórica que, apesar de certos preconceitos, é nossa contemporânea, e que vasculha o nexo das estruturas por detrás de fenômenos aparentemente insignificantes.

Muito do que depois foi desenvolvido nas obras “paulistas” de Sérgio Buarque de Holanda pode ser rastreado em Vida e morte do bandeirante. Primeiro, algumas das pistas de pesquisa apontadas por Alcântara Machado no capítulo “O sítio e a roça”: a importância dos trigais e dos teares nos primeiros tempos da capitania, ambos merecedores de estudos particularizados que integram hoje em dia a coletânea Caminhos e fronteiras[4].

Depois, a busca de soluções para os impasses da vida cotidiana, em grande parte tributárias do meio natural. Algumas passagens de “Médicos, doenças, remédios”, capítulo de Vida e morte do bandeirante, parecem antepassadas diretas de “Botica da natureza” e de “Frechas, feras, febres”, que contam entre os mais belos capítulos de Índios e mamalucos (Machado, 1930: 74-89, 90-124). Após citar passagem de Curvo Semedo sobre a mordedura de cobra, Alcântara Machado acrescenta:

À essa terapêutica é bem provável que os paulistas de então preferissem a pedra bazar (sic), concreção pedregosa que se forma no estômago, nos intestinos ou na bexiga de certos animais, e à qual atribuíam grandes virtudes os médicos do Oriente, principalmente como antídoto. (Machado, 1930: 103).

Não há, da mesma forma, como não lembrar de “Samaritanas do sertão” (Machado, 1930: 36-42) ao ler em “O sertão”, capítulo final da obra de Alcântara Machado, que: “À míngua de água para beber, se dessedenta com o sangue dos animais, o suco dos frutos, a seiva das folhas e raízes” (Machado, 1930: 256).

Aliás, “O sertão”, homônimo de um dos Capítulos de história colonial de Capistrano, conta entre as mais belas páginas do livro, como já observara Sérgio Milliet (1980: 15-23) em seu “Prefácio”. “Centro solar do mundo colonial”, para ele “está voltada constantemente a alma coletiva, como a agulha imantada para o polo magnético” (Machado, 1930: 245). Sertanistas e marinheiros apresentam óbvios pontos comuns, e tal identificação lembra outra, mais matizada: a que, tanto em Caminhos e fronteiras quanto em Monções, Sérgio Buarque de Holanda estabelece entre a expansão ultramarina portuguesa e a expansão paulista no interior do continente. Diz Alcântara Machado:

Entre o marinheiro e o sertanista são transparentes as afinidades. Resultam das muitas que aparentam com o sertão o oceano. (….) Diante do oceano, como diante do sertão, é o mesmo assombro, é a mesma impressão de infinito e de eternidade, é a mesma vertigem. (…) O andar, até ele, se modifica: o do mareante, balanceado, a refletir o balouço das ondas; o do sertanejo, em linha quebrada, a reproduzir o rumo divagante das picadas e dos carreadores. Homem do mar e homem da floresta têm o mesmo temperamento, são igualmente simples e brutais, ingênuos e intrépidos. O oceano e o sertão perseguem-nos por toda a parte (Machado, 1930: 247-248).

Em dezembro de 1616, no sertão de Paraupava, fizera-se o inventário de Pero de Araújo. A falta de material para escrever fez com que o escrivão aproveitasse “o primeiro retalho de papel que se lhe depara”, relata Alcântara Machado. O trecho que segue atesta, melhor do que qualquer outro, a notável sensibilidade do historiador:

Por uma dessas coincidências esplêndidas em que o destino se compraz, a última folha dos autos tem numa das faces os termos finais do inventário e na outra a cópia manuscrita de algumas estrofes camoneanas. São aquelas, precisamente, em que, depois de terem passado por calmas, por tormentas e opressões, e transposto o limite aonde chega o Sol, se aprestam os portugueses a investir o cabo Tormentório. Ninguém há que não apreenda o simbolismo dessa obra maravilhosa do acaso, que é um fragmento da epopeia dos Gamas e dos Albuquerques a servir de fecho ao inventário do bandeirante obscuro. Dir-se-ia que o gênio de Camões aparece à beira da sepultura em que descansa o herói desconhecido, para associar na mesma glória as caravelas arrogantes, vencedoras do Oceano, e as canoas humildes dos sertanistas (Machado, 1930: 93).

Outros, depois dele, viram a expansão paulista como um novo capítulo da expansão portuguesa, agora interiorizada no coração da América. Ao saudá-lo na Academia, em 1934, Afrânio Peixoto reconhecia: “Porque o verdadeiro Brasil é o sertão” (Machado, 1937: 51)

Em 1945, Sérgio Buarque de Holanda escreveria: “Em verdade a migração para o Cuiabá, durante a era das monções, foi, em quase todos os seus aspectos e muito especialmente nos seus efeitos imediatos, uma forma de migração ultramarina”. Cabe ressalvar que, em Monções, o caráter fluvial da empresa monçoneira reforçaria a associação entre os dois fenômenos (Holanda, 1994: 149). Mas tudo indica ter sido por meio das páginas de Alcântara Machado que Sérgio se deu conta da proximidade entre a lide do mar e a do sertão, aliás enraizada no imaginário popular brasileiro e traduzida nas várias fórmulas messiânicas em que “o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”.

Publicado em 1929, o livro de Alcântara Machado teve repercussão imediata; depois, pouco a pouco, foi caindo num semiesquecimento. No nível da história local, nunca deixaram de citá-lo; mais recentemente, vem-se relativizando seu alcance explicativo sobre a pobreza paulista (Monteiro, 1994; Blaj, 1995). No nível da historiografia nacional, ao contrário, poucos o conhecem, lembrando, neste tocante, outro livro excepcional, que trouxe o cotidiano à baila numa época em que isto não era moda: Tempo dos flamengos, de José Antônio Gonsalves de Melo, publicado quase vinte anos depois, em 1947.

E no entanto, a sensibilidade moderna de José de Alcântara Machado de Oliveira intriga, perturba e fascina. Uma sensibilidade próxima da dos historiadores de hoje, que buscam novos problemas, novas abordagens, novos objetos (Le Goff & Nora, 1974).

É possível questionar a possibilidade de inovação na escolha dos objetos, pois quando se atenta para a produção historiográfica num largo período de tempo constata-se a permanência e a repetição dos mesmos objetos no interior da disciplina histórica. O novo, portanto, seria novo apenas na aparência.

Contudo, quando se nota que certos objetos deixaram de ser periféricos e se tornaram centrais – quando a abordagem da vida cotidiana ou da cultura material deixa de integrar um estudo mais amplo, e de mero capítulo ou elemento acessório se torna, ela mesma, o centro da análise – há que reconhecer a inovação. Mais do que uma questão de ênfase, trata-se, aqui, de mudança no enfoque e na problematização.

No conjunto da obra de um mesmo autor, objetos periféricos convivem muitas vezes com outros, mais centrais e caros a um maior número de historiadores. Michelet não ficou célebre por ter, n’A feiticeira, dedicado um livro inteiro a objeto então considerado como de menor importância, e sim por ter escrito uma História da França. Caminhos e fronteiras, de Sérgio Buarque de Holanda, foi eclipsado durante décadas por Raízes do Brasil.

Alcântara Machado, que no campo do Direito publicou vários trabalhos, foi historiador de um livro só, todo consagrado a tema então absolutamente periférico. Por suas mãos, o estudo do cotidiano e da vida material de um determinado grupo social tornou-se objeto central em nossa historiografia. Além do objeto, também o enfoque e os problemas levantados apresentaram caráter inovador.

O impacto de uma grande obra de História se mede também pelos seguidores que consegue fazer. Por detrás do “ciclo paulista” da obra de Sérgio Buarque de Holanda, e independente de seu talento único, está, sem dúvida, a obra precursora desse paulista em tudo o mais convencional. Sérgio levou mais longe a reflexão, e foi capaz de construir um verdadeiro sistema de explicação histórica. Mas, no caso, não vale comparar: é o maior historiador brasileiro de todos os tempos, enquanto Alcântara Machado, sem dúvida grande, dono de sensibilidade histórica afiadíssima e moderna, é historiador de um único trabalho de História.

Nossa sensibilidade de historiadores do final do milênio se identifica em quase tudo com a deste severo jurista e homem de letras do início do século. Seria antes pelo objeto escolhido do que pela análise realizada? Ou tudo não passaria de mera coincidência?

Termino, pois, como comecei: perguntando. Será que fomos nós, historiadores contemporâneos, que inventamos Vida e morte do bandeirante, ou fomos inventados por ela?


Notas

[1] Utilizo esta edição, de 1930, de preferência à de 1980, mais recente mas com muitos erros.

[2] Para os dados biográficos, ver Menezes (1969: 742, 745, v. III). Para a atuação dessas três gerações de intelectuais, ver Soares (1955). Macedo Soares foi o primeiro ocupante da cadeira que não pertencia à família: “É um Machado d’Oliveira o seu patrono; outro, o fundador; e, finalmente, um terceiro nela permaneceu vários anos” (Soares, 1955: 9).

[3] Conferir citações em Ellis Jr. (1934: 13). Para o “ambiente carregado de sustos e incertezas”, ver Machado (1930: 14). Sobre o surgimento do orgulho paulista, ver Antonio Candido (1967: 161-191). Neste ensaio, atribui-se a Cláudio Manuel da Costa, frei Gaspar da Madre de Deus e Pedro Taques de Almeida Paes Leme a construção do ufanismo paulista (Candido, 1967: 168 e segs.).

[4] Sobre os trigais, ver Holanda (1994), “Os trigais de São Paulo” (p. 173-180); sobre os teares, “O declínio da indústria caseira” (Holanda, 1994: 233-244) e “Redes e redeiras” (p. 245-260).

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