
No ano em que comemora 90 anos, Silviano Santiago republica pela Editora Vozes seu primeiro livro de crítica, cinquenta anos depois. Lançado originalmente em 1976, Carlos Drummond de Andrade propõe uma leitura inovadora da obra de Drummond, assinalando um ponto de inflexão na crítica literária no país.
Quarto volume da Coleção Clássicos Brasileiros das Ciências Sociais, coordenada por André Botelho, o livro integra uma iniciativa que vem recolocando em circulação obras decisivas, representativas de temas e áreas de pesquisa das ciências sociais em sentido amplo – que você pode conhecer melhor aqui.
Confira abaixo uma matéria sobre o livro, assinada por Caroline Tresoldi, doutoranda no PPGSA/UFRJ e editora da BVPS.
50/90 Drummond em Silviano
Por Caroline Tresoldi (PPGSA/UFRJ e BVPS)
Numa entrevista que Silviano Santiago concedeu a Hugo Herrera Pardo, publicada na Revista Chilena de Estudios Latinoamericanos em 2016, ele retoma um verso de Carlos Drummond de Andrade para aludir às questões que guiavam seu trabalho quando escreveu o ensaio, hoje clássico, “O entre-lugar do discurso latino-americano”, no início dos anos 1970: “O tempo é a minha matéria, / o tempo presente, / os homens presentes / a vida presente”. Retirado de Alguma poesia (1930), o verso do poeta mineiro é, de fato, muito preciso para qualificar aquilo que, desde cedo, orienta o trabalho de Silviano: pensar a partir do presente, sob o signo da experiência e da contingência, recusando tanto a nostalgia quanto as pretensões de totalidade.


Essa dupla recusa – da origem estabilizadora e da síntese totalizante – atravessa a obra de Silviano Santiago. Entre o interesse pelo presente, o gosto pela novidade e a desconfiança diante de qualquer ordem disciplinar do pensamento, o crítico e ficcionista mineiro reconhece ter buscado uma forma de escrita marcada pela fragmentação, pela indisciplina e pela abertura ao inacabado. “Meu modo de escrever e de pensar não poderia ser disciplinado; eu gostava da indisciplina como forma de expressão”, afirma nessa mesma entrevista, insistindo na necessidade de pensar a partir de uma perspectiva situacional, atravessada pelas tensões do presente – inclusive, ou principalmente, quando esse presente se dava sob o signo de uma violenta ditadura militar, que ia reorganizando a cultura brasileira e pressionando o debate intelectual para sua atualização.
É nesse quadro que Silviano Santiago publicou, em 1976, seu primeiro livro de crítica: Carlos Drummond de Andrade, obra que, meio século depois, retorna ao debate como um clássico incontornável. Relançado pela Editora Vozes, agora na Coleção Clássicos Brasileiros das Ciências Sociais, coordenada por André Botelho, o volume não apenas propõe uma leitura inovadora e inacabada da obra de Carlos Drummond de Andrade, nosso poeta maior, como também assinala um ponto de inflexão na crítica literária brasileira, ao apostar em formas de leitura que deslocavam os parâmetros então dominantes.


Carlos Drummond de Andrade organiza-se como uma montagem heterogênea, na qual a poesia acompanha o ensaio do início ao fim. Um dos principais gestos críticos do livro consiste em deslocar o problema da autoria, num momento em que Drummond ainda estava vivo e em plena atividade literária. Propondo a ideia de “circulação do poema sem poeta” – título de uma das entradas do livro, que se tornou subtítulo desta segunda edição –, Silviano desfaz a centralidade do sujeito autoral e reinscreve o poema como objeto em trânsito, atravessado por múltiplas determinações discursivas. Nesse deslocamento, o que está em jogo é menos a negação da figura do autor do que a recusa de sua função como instância última de sentido. O poema se apresenta, assim, como superfície de inscrição, como lugar de passagem de vozes, tradições e leituras.
Essa operação crítica se articula a uma dupla frente. De um lado, aprofunda-se a crítica à noção de origem – eixo fundamental do debate sobre o “entre-lugar” – ao mostrar que o sentido não precede o texto, mas se produz em sua circulação. De outro, recusa-se uma leitura essencialista da literatura, que buscaria fixar significados estáveis ou reconduzir o texto a uma unidade interpretativa. O que se propõe, antes, é uma leitura atenta aos modos de funcionamento da linguagem: seus deslizamentos, suas repetições, suas diferenças.
Não era a primeira vez que Silviano escrevia sobre Drummond. Basta lembrarmos o ensaio “Camões e Drummond: a máquina do mundo”, publicado na revista Hispania, nos Estados Unidos, em 1966 – ocasião em que o próprio Carlos Drummond de Andrade lhe dedicou o poema “Em a/grade/cimento”. Nesse texto dos anos 1960, posteriormente incluído na edição mais recente de Uma literatura nos trópicos, lançada em 2019, Silviano desafia a leitura do modernismo como ruptura absoluta, evidenciando a presença da tradição camoniana na obra do poeta de Itabira, sobretudo por meio da imagem da “máquina do mundo”, retirada do canto IX de Os Lusíadas. Como o próprio Silviano recorda em diálogo com João Pombo Barile, tratava-se de mostrar que “o modernismo não era o marco zero da literatura brasileira”, mas antes um momento de rearticulação da tradição.[1]

Já no livro de 1976, escrito a convite do poeta e crítico Affonso Ávila – então responsável pela coleção Poetas Modernos do Brasil, da Editora Vozes –, Silviano aprofunda sua análise da poesia de Carlos Drummond de Andrade ao mobilizar conceitos desenvolvidos por Jacques Derrida, como différance, descentramento, suplemento e escritura, que começavam então a ganhar circulação no Brasil.
Neste mesmo ano, Silviano publicava o Glossário de Derrida, com seus alunos de pós-graduação da PUC-Rio – instituição à qual se vinculou ao retornar ao país, no início dos anos 1970, após uma trajetória bem-sucedida como professor de literatura brasileira e francesa nos Estados Unidos. Nascido no interior da prática pedagógica, o projeto, supervisionado por Silviano, visava enfrentar a opacidade da escrita derridiana e tornar operatórios seus principais conceitos. Mais do que um instrumento didático, o Glossário funcionou como um vetor de transformação do campo intelectual brasileiro, ao contribuir para a difusão da desconstrução no Brasil e abrir espaço para outras formas de leitura.


A simultaneidade entre os dois projetos – o livro sobre um dos maiores poetas brasileiros e o glossário dedicado ao filósofo francês nascido na Argélia – permite vislumbrar o modo de operação da crítica de Silviano Santiago. Trata-se de uma prática em que teoria e leitura operam conjuntamente, de modo que o aparato conceitual não surge como aplicação externa, mas como condição de possibilidade da própria leitura. A crítica se configura, assim, como um trabalho de reinscrição: os conceitos são deslocados, traduzidos e rearticulados no contexto brasileiro e latino-americano, produzindo efeitos que excedem sua origem. E isso, vale repetir, em plena ditadura militar – num exercício que, a um só tempo, tensionava os paradigmas teóricos então vigentes no Brasil e interrogava as próprias formas de controle do discurso.
Relendo Carlos Drummond de Andrade à luz da desconstrução, Silviano Santiago ia contribuindo para redefinir o campo da crítica literária no país. Sua leitura buscava expor a dimensão irredutível da linguagem, sua abertura constitutiva e sua resistência à fixação. Nesse gesto, é possível reconhecer uma afinidade com o próprio Drummond, especialmente no modo como sua poesia trabalha a tensão entre memória e presente, entre interioridade e mundo. Ao deslocar o poema de seu autor, Silviano radicalizava essa tensão e a reinscrevia no plano da teoria, fazendo da leitura um espaço de experimentação.

Cinquenta anos depois, Carlos Drummond de Andrade permanece atual não porque ofereça uma interpretação definitiva de Drummond, mas porque institui um modo de ler – atento à circulação, à diferença e à instabilidade do sentido. Como observa Jorge “Joca” Wolff, que escreveu o posfácio desta nova edição, trata-se de uma “pedra-de-toque” da crítica literária brasileira: um livro que devolve à literatura sua condição mais própria – a de um campo aberto, em movimento, no qual o sentido nunca se fixa completamente, mas se produz no entre das leituras.
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P.S. Além de recolocar em circulação este livro fundamental para a crítica brasileira, o lançamento de Carlos Drummond de Andrade, em 2026, é especial também por outro motivo: esta é a primeira de uma série de ações comemorativas dos 90 anos de Silviano Santiago, a serem celebrados no final de setembro. Muitas dessas ações tiveram origem aqui na BVPS. Fiquem atentos: há ainda outras novidades por vir.
Nota
[1] João Pombo Barile publicou, no ano passado, Presente do acaso: um ensaio biográfico sobre Silviano Santiago, obra em que biógrafo e biografado conversam longamente. Aproveitamos para agradecer a Barile por nos fornecer o material recolhido no acervo de Silviano sobre Drummond, em especial a carta que o poeta mineiro enviou a Silviano em 1976, logo após receber seu exemplar de Carlos Drummond de Andrade.
