
Um diário em aberto: Palestina será lançado nesta quarta-feira, dia 13 de maio, na Livraria da Travessa de Ipanema (rua do Visconde de Pirajá, 572 – Rio de Janeiro), às 19h.
Em sua estreia na literatura, a artista plástica Lena Bergstein lança a obra fruto de anos de pesquisa e de uma travessia intelectual e afetiva em busca da compreensão da questão palestina. Unindo reflexão, memórias, história e escrita poética, o livro conduz uma investigação rigorosa da Nakba e dos acontecimentos que a antecederam por meio de uma narrativa que entrelaça testemunhos pessoais e reflexões sobre a dor da partida e a impossibilidade do retorno. Mais do que um libelo, a obra é uma tentativa de construir uma literatura que se confronte com um passado e um presente que, no caso palestino, permanecem tragicamente indissociáveis.
Confira abaixo o release e trechos da obra.
Release
Em Um diário em aberto – Palestina, Lena Bergstein elabora uma escrita de memória atravessada pela história, lançando um olhar sensível e contundente sobre a realidade palestina. A partir de sua experiência como artista plástica e escritora, constrói uma narrativa híbrida que reúne registros pessoais, históricos e poéticos, além de desenhos e fotografias.
Com este livro Lena faz sua estreia na literatura e a Cosac reinaugura sua presença na ficção contemporânea brasileira – com a mesma excelência que marcou seu catálogo e a mesma aposta em títulos que não cabem em uma só prateleira.
A obra aborda temas como exílio, diáspora, memória e identidade, com foco em acontecimentos do século passado, que culminaram na criação do estado de Israel, ao mesmo tempo em que denuncia as injustiças impostas ao povo palestino ao longo da história – um passado e um presente que não conseguem se dissociar, pois são parte da mesma sucessão implacável dos acontecimentos.
Na introdução, Lena apresenta uma gênese da obra a partir de suas tentativas de ir a Israel e das diversas influências artísticas e poéticas que se fundem e se superpõem na sua escrita: “De repente pensei em algo que não tinha pensado antes. Como seria falar de Jerusalém, sentir Jerusalém, perceber as diferenças da cidade entre palestinos e israelenses? Enfim, falar de tudo que me interessava sem ir a Jerusalém?”
Inspirada por autores como Edward Said, Mahmoud Darwish e Emile Habiby, e apoiada por alguns dos novos historiadores israelenses, a autora cria um diário dedicado a dar voz aos silenciados e a preservar as memórias de uma terra marcada pela dor e pela resistência.
Sobre a concepção gráfica, Lena explica que explora “a simultaneidade e a combinação de vários campos, confluentes ou não, assinalando a pluralidade de relações que se pode estabelecer dentro de uma obra e em fuga dela”. Já a respeito das ilustrações que dividem os capítulos do volume, ela complementa: “sempre trabalhei na relação da escrita e do desenho; nessas páginas escolhi desenhar através das linhas poéticas de Mahmoud Darwish, poeta palestino”.
Em seu prefácio à edição, Silviano Santiago se emociona ao escrever à autora: “ainda estou sob o efeito da leitura. Você conseguiu algo de extraordinário, que vai além do depoimento ou do libelo, da prosa ou da poesia; vai além do seu trabalho como artista plástica, vai além da sua vivência e reflexão de cidadã judia no Brasil e no mundo”.
Trechos
“Judaicidade: um risco que se corre e uma chance que se dá para uma negociação de paz entre Israel e a Palestina. Uma chance estará sempre conectada a um risco, chance e risco, risco e chance, um não existirá sem o outro. Mas, para isso, ao menos, temos de desejar verdadeiramente, violentamente, desejar, e desejar mais, uma negociação de paz.”
“Quando comecei a escrever este diário, imaginei que os livros e as palavras de Edward Said e a prosa poética de Mahmoud Darwish e Emile Habiby me bastariam. Mas, quando fui mergulhando nas múltiplas interrogações da história, nos arquivos finalmente abertos, lidos e estudados, as narrativas começaram a causar dor, culpa, e me chocaram além de toda e qualquer proporção. As falas imorais das mais prezadas figuras públicas israelenses, desde o começo do século XX, me envergonharam e me entristeceram. Personagens que continuam a assombrar a vida e a alma do povo palestino, os deserdados, os exilados, os banidos.”
“O pescador falava com os peixes quando um menino judeu se aproximou e lhe perguntou em que língua conversavam. O pescador respondeu que era em árabe. E o menino perguntou se os peixes entendiam árabe. E o pescador respondeu que sim, os peixes grandes, velhos, que estão aqui há muito tempo, entendem árabe. Então o menino perguntou dos peixinhos, se por acaso entendiam hebraico. E o homem respondeu que tanto árabe quanto hebraico, porque o mar não tem fronteiras.”
Sobre a autora
Lena Bergstein construiu sua trajetória a partir da gravura em metal, transformando a superfície da chapa em campo de memória, impressões e inscrições. Ao migrar para a pintura, manteve as palavras como elemento central de sua poética. Desde 1989, dialoga com o pensamento de Jacques Derrida, realizando leituras plásticas e poéticas de sua obra. Desse diálogo resultou a parceria com o filósofo no livro Enlouquecer o subjétil (1998), vencedor do Prêmio Jabuti em 1999. Sua pesquisa atravessa arte e escrita — tema que também desenvolve como professora e conferencista, refletindo sobre os caminhos paralelos dessas linguagens na história da arte.