Homenagem | Carlos Guilherme Mota

Carlos Guilherme Mota, um dos grandes nomes da historiografia brasileira, faleceu ontem, dia 20 de maio de 2026, aos 85 anos.

Professor titular de História Contemporânea da FFLCH-USP e de História da Cultura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, deixa uma contribuição fundamental. Ganhador do prêmio Machado de Assis (2011) e professor emérito da USP, dedicou sua trajetória a investigar as ideias e a cultura que moldaram o Brasil. Entre seus livros estão A Ideia de Revolução no Brasil e Outras Ideias, 1789-1799: a Revolução Francesa e História do Brasil. Sua obra mais influente, Ideologia da Cultura Brasileira (1933-1974), dedicou-se a mapear as vertentes do pensamento crítico nacional, de Mário de Andrade e Caio Prado Jr. a Antonio Candido e Ferreira Gullar.

Em homenagem a Carlos Guilherme Mota, a BVPS publica o prefácio que ele escreveu para Crescendo durante a Guerra numa Província Ultramarina (1978), de Silviano Santiago. Bons amigos, Carlos Guilherme, nos conta seu sobrinho, o editor Sergio Cohn, tinha Silviano como “um grande poeta, para além de grande pensador. Sempre me dizia isso e me deu os livros de poesia do Silviano autografados, dizendo que eu deveria ler com muita atenção”. Lembrar da amizade, do historiador cultivado e de sua família intelectual, de vidas entrelaçadas pelos livros, é a nossa forma singela de manifestar pesar pela perda do autor. E também, com a poesia que ele gostava, de nos solidarizarmos com aquelas e aqueles que sofrem de mais perto a sua perda. Trazemos ao fim fotografias dessa amizade.


Prefácio, nas asas da Panair

Silviano Santiago foi um que descobriu que as coisas mudam e que tudo é pequeno nas asas da Panair. Mineiro como Fernando Brant e Milton Nascimento, uma de suas principais características pode ser considerada a preocupação com o desvendamento, sem concessões, das velhas estruturas mentais em que se enleia a chamada Cultura.

Nasceu em Formiga, em 1936, mas vive na vanguarda. O que vale dizer: à margem. Por essa razão, não foi canonizado pela crítica da província, que nunca conseguiu digerir bem o problema das vanguardas entre nós (embora essa mesma crítica sempre tenha saudado as vanguardas metropolitanas, complementos estruturais de uma cultura dependente).

Sua trajetória o leva de Formiga ao Rio, do Rio a Paris (sem escalas), de Paris ao Canadá e aos Estados Unidos onde experimentaria as glórias e os dilemas de ser chairman numa sociedade em ebulição de guerra (Vietnã) e de conflitos raciais. Em Paris, elabora e defende tese sobre Les Faux-Monnayeurs, de André Gide (Sorbonne, 1968). Mas tudo tem um preço, e este filho de uma província ultramarina, se viveu as trepidações do momento crítico norte-americano (hoje em férias) e a maré enchente francesa que levou às revisões e ao movimento estudantil de 68, ao retornar ficará condenado à marginalidade em relação aos polos nacionais de promoção literária. Ou, para usar uma expressão cara a Affonso Romano de Sant’Anna, o“poder literário” não lhe será condescendente. E nem Silviano Santiago com ele.

O foco central das preocupações de Silviano é o problema da memória. Mas não a memória dos positivistas, dos realistas, dos liberais, dos mecanicistas, ou dos historiadores da memória oficial. Não se trata de algo positivo — a memória, mas sim do conjunto de versões sobre os acontecimentos que fizeram com que eles próprios passassem a ser considerados acontecimentos. A busca do contínuo nas descontinuidades, e não a fabricação de uma linha positiva de fatos enfileirados a que se convencionou chamar história, eis a postura. E eis a meta. Claro que, nessa perspectiva, os documentos não são aquilo que a tradição positiva cristalizada em nosso sistema ideológico habituou a arrolar e dar foros de ciência. A investigação sobre a maneira de se perceber os fenômenos, eis a obsessão do autor de O Olhar, trabalho de pesquisa na ficção publicado em 1974. E nessa trilha se colocará o autor, reconstituindo os fragmentos de uma memória (“formação”?) que foi um pouco a de todos nós, pouco para lá ou para cá dos quarenta anos, nos quadros ideológicos da pequena burguesia que assistia impávida à montagem do capitalismo monopolista. Que aqui se traduzia em “capitalismo selvagem”, segundo o Florestan Fernandes.

Nessa história, foram levados os picos das Itabiras e deixadas estorinhas contadas por detrás da máscara de Batman. “Estamos importando veneno para nossas crianças”, bradava o Carlos Lacerda — nos quadros da esquerda, então — em sessão plenária do I Congresso Brasileiro de Escritores (São Paulo), em 1945. E Silviano, marcado ainda pelas produções do “nouveau-roman” (aqui também memória), joga pelo meio do livro uma epígrafe:


“J’ai desiré avoir
une inconsolable mémoire”.
Duras-Resnais, apud Edmundo Desnoes

Articular fragmentos de memória que anunciam uma senda nova para a difícil história das ideologias no Brasil, essa a importante contribuição da poesia de Silviano. E com essa poesia, um quadro novo de metáforas para repensar o fenômeno imperialista. Quem viveu o impacto das obras de Sartre, sobre o colonialismo como sistema, ou de Memmi, retratando o colonizador tal como é visto pelo colonizado, ou quem isebianamente namorou Balandier (penso em Roland Corbisier, que fez aliás trajetória inversa à de Lacerda) encontrará na poesia de Silviano o traço dos anos 50. Mas não apenas os anos 50 da geração Complemento, a que pertence, geração brilhante e diversificada e que vem estourar, por exemplo, em A Festa (1976), de Ivan Angelo (coeditado anteriormente com Silviano, em 1961, no livro Duas Faces), para não falar da própria poesia de Silviano (Salto, 1970). Tampouco são os eventos dos anos 40 que retornam à superfície da consciência social de um autor marcado (embora sem encontro marcado) pelos anos 50. Na verdade, é a leitura dos anos 40, com as lentes dos anos 50 e 60 (desenvolvimentismo + “nouveau-roman” + alienação e crítica da alienação), por um autor lúcido em 70.

Não se trata de um retorno, que Silviano não retorna, mas da emergência de uma nova linha de metáforas que, se já foi vislumbrada e ensaiada por C. Drummond de Andrade (na aparente alienação de Tutu Caramujo, por exemplo), não deu seguimento à linhagem significativa de crítica ao Império. E essa metáfora nova permite ver o que não se vê quando está dentro: a loucura na família; os uniformes das pessoas (“Um e todos”); novos hábitos do Império (em 1948, a Coca-cola da tela chega às lojas Americanas); o próprio Império contemporâneo, reaproveitando as formas do Antigo Sistema Colonial português; o amor (“moça que era moça não podia namorar”), o amor das empregadas, que apareciam mortas à custa de guaraná champagne plus formicida tatu. E uma crítica seca à mitologia que obscurece ainda hoje a compreensão da vida partidária no fim do Estado Novo: “Dando nome aos bois”.

Silviano — para quem o crítico sempre vem a reboque dos processos culturais — agora escolhe a poesia como técnica de sondagem desses terríveis anos 40, em que saímos da guerra para os quadros de uma nova dependência. Sabe que o crítico vem depois, diversamente da poesia, que frequentemente é o prenúncio de uma nova vaga de pesquisas e reflexões. Não se surpreenderá o historiador futuro se, amanhã, descobrir que os contemporâneos de Silviano Santiago tentaram repropor uma História da Cultura Importada, uma História da Cultura Popular (em angulação não populista), uma História da Loucura no Brasil, uma História do Direito (que era, afinal, a legalidade nos anos 40?), uma História das Ideologias em que — digamos — Graciliano, Mário e Lobato sejam efetivamente comparados.

Uma História nova nascerá, sem esquecer o pano de fundo musical (pela ZYB-6, Rádio Voz de…) fornecido por Glenn Miller ou Tommy Dorsey, ou pelos cantores brasileiros, que, na Urca, usavam nomes americanizados — e acabaram sendo os pais da bossa nova. Mas esse já é um outro balanço.

São Paulo, dezembro 1976.
Carlos Guilherme Mota


Silviano com Carolina Mota. Filha caçula do casamento de Carlos Guilherme Mota com a historiadora Janice Theodoro da Silva. Austin, Texas, 1977.
Dedicatória escrita, em 1976, para Silviano Santiago.
Ementa de curso ministrado por Carlos Guilherme Mota na Universidade do Texas, 1977.