Pasolini com a gente | Tutti notas, por Renato Negrão

Na terceira semana de posts da série Pasolini com a gente, trazemos publicações de Renato Negrão e JORDAN, que, através de relatos autobiográficos, retratam como a dimensão individual se relaciona de maneira visceral ao repertório legado por Pier Paolo Pasolini.

Negrão, como que um convite à descrença, nos traz um texto que não distingue com clareza o que viveu do que inventou. Seja em uma livraria, um teatro, um aterro ou mesma em cama alheia, o autor coleciona capítulos de um roteiro em que parece não reconhecer como seu, mas que Pasolini, como uma sombra, reaparece em cada um deles. O poeta JORDAN, por sua vez, também em relato pessoal, atravessa elementos como infância, violência, sexualidade e fé sem pedir licença. Convocando Freud como interlocutor, nos traz uma prosa nua e crua que não separa o corpo das memórias.

Não perca, na próxima semana quinta-feira, a última publicação da série. Confira os posts anteriores clicando aqui.

Boa leitura!


Tutti Notas

Renato Negrão

Negrão compra Pasolini

Flagrante cultural. O jovem escritor Renato Negrão, 22 anos, foi visto adquirindo, quase ao acaso, o livro Os jovens infelizes – Antologia de ensaios corsários, da Editora Brasiliense, coletânea de textos do cineasta e escritor italiano Pier Paolo Pasolini. A obra reúne ensaios contundentes em que Pasolini analisa as transformações sociais da Itália do pós-guerra e a crise da juventude diante do avanço do consumismo. 

Segundo pessoas próximas, Negrão comentou ter se surpreendido ao reencontrar o autor em mais um momento de sua trajetória intelectual — como se Pasolini, sempre provocador, insistisse em reaparecer nos capítulos decisivos de sua formação.

Noite Fervente

Em noite fervente na cena cultural da capital mineira, o jovem escritor Renato Negrão é visto na plateia da estreia de Pasolini, vida e morte, no teatro Marília. A montagem, que movimenta o circuito teatral de 1987, mergulha na trajetória do cineasta e intelectual italiano Pier Paolo Pasolini.

No palco, Geraldo Carrato assume o papel de Pasolini, enquanto o jovem ator Guilherme de Pádua interpreta pino Pelosi, apontado como assassino do artista. Para Pádua, trata-se de um dos primeiros papéis de destaque na carreira teatral, antes de alçar novos voos profissionais.

A encenação explora vida e obra do cineasta com intensidade crítica e estética, atraindo nomes da literatura e das artes locais — entre eles, Renato Negrão, atento a cada cena da montagem que já dá o que falar na cidade.

Militares interrompem encontro no Aterro do Flamengo e caso termina sob suspeita de extorsão.

Uma cena de pegação no Aterro do Flamengo foi interrompida por jovens uniformizados do exército brasileiro na noite desta semana. Segundo relatos, os militares pertenciam ao regimento Sampaio (1º batalhão de infantaria mecanizado), unidade histórica com forte atuação na região e frequentemente mobilizada para ações de segurança em grandes eventos internacionais, como o G 20.

O batalhão mantém presença constante no Aterro do Flamengo e em seu entorno, operando com veículos blindados e recrutas, efetivos variáveis, sangues novos e soldados especializados do exército. A circulação de militares é comum nas imediações do MAM (Museu de Arte Moderna) e ao longo da orla, sobretudo em períodos de reforço na segurança.

De acordo com testemunhas, durante uma abordagem, os soldados teriam adotado uma postura inesperada: em vez de dispersar os envolvidos, passaram a defender o garoto de programa presente na cena. Ainda conforme os relatos, os militares insinuaram que poderiam enquadrar o outro participante por prática libidinosa, o que gerou clima de tensão.

Todos os envolvidos — o garoto de programa, os soldados e o jovem que teria contratado o encontro — seriam moradores de regiões periféricas e teriam cerca de 25 anos. 

A situação levantou suspeitas de que a intervenção teria sido usada como forma de intimidação, com a suposta intenção de pressionar o contratante do programa para obter vantagem financeira mediante ameaça de autuação. Não há confirmação oficial sobre a ocorrência, e o exército brasileiro não se pronunciou até o momento sobre o episódio descrito.

Jovem é flagrado com arma debaixo do travesseiro durante encontro

Um incidente inusitado ocorreu quando um homem de 1m55, identificado apenas como jovem michê, foi levado para casa por um cliente. Durante a estadia, ele se deitou com uma arma debaixo do travesseiro, alegando que a medida era necessária para sua proteção pessoal, dada a sua baixa estatura. Não houve registro de ocorrência ou feridos.

Pulmão movimenta vida noturna e gera debates em Maputo.

O Pulmão, circuito de barracas e bares informais localizado na rua da resistência, no bairro da Malhangalene, em Maputo, segue como um dos principais pontos de encontro da juventude e de moradores locais. Conhecido pelo ambiente agitado e pelo “espírito de bairro”, o espaço reúne diversas barracas que vendem cerveja gelada e petiscos típicos.

O local também tem sido alvo de debates sobre horários de funcionamento e restrições impostas pelas autoridades municipais. Além disso, há relatos de que alguns jovens frequentadores procuram turistas para programas sexuais, utilizando um lote vago ao lado do circuito como espaço para encontros, situação que levanta discussões sobre segurança e fiscalização na área.

Pelas lentes de Renato Negrão, a beleza de quem vive à margem ganha protagonismo.

Sempre atento às narrativas que escapam do óbvio, o escritor e artista visual Renato Negrão volta seu olhar para pessoas à margem da sociedade — e transforma o que muitos insistem em não ver em imagem de impacto e sensibilidade.

Na nova série fotográfica, o autor aposta na proximidade e na escuta como ponto de partida, revelando beleza, dignidade e presença onde o cotidiano urbano costuma impor invisibilidade. Nada de sensacionalismo: aqui, a estética caminha ao lado do respeito.

“Quero criar imagens que não exponham a ferida, mas revelem a força”, afirma Negrão, que mais uma vez tensiona as fronteiras entre documento e arte, mostrando que protagonismo também se constrói pelo modo de olhar.


Referências

FREUD, Sigmund. (1986). A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess: 1887-1904. Edição de Jeffrey Moussaieff Masson. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Imago.

WINNICOTT, Donald Woods. (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.

Sobre o autor

Renato Negrão é poeta e compositor, artista visual e arte educador. Autor de Odisseia VácuoVicente Viciado e outros cinco livros de poemas.