Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Bom Jardim (9 de janeiro)   


Mário de Andrade continua sua imersão no universo dos engenhos nordestinos e descreve a fabricação tradicional do açúcar nos antigos banguês. Os detalhes são o principal alvo de sua atenção. Nesta crônica, Mário observa os espaços – como a casa do engenho e a casa das máquinas –, os processo de produção e a divisão do trabalho, capturando, ao fim, os ânimos crescentes pela modernização.

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Bom Jardim (9 de janeiro)

Os engenhos de banguê tiram o nome duma padiola de carnaúba em que se carrega o bagaço de cana prá bagaceira. A bagaceira é o espaço que fica em torno da cana do engenho. Aí os bois vêm mastigar o bagaço, aproveitando o restico de caldo ficado nele. Depois de sêco o bagaço é aproveitado como combustivel. O que sobre no fim da moagem, queima-se. Vai servir de adubo prás terras do canavial.  

A casa do engenho, chata, no geral com a chaminé baixota ao lado, é subdividida em duas partes: a casa de máquina e a casa de caldeira, esta em plano inferior. Nas casas de engenho mui antigas que nem esta do Bom-Jardim, inda subsiste entre as duas casas, uma especie de camarote, o “sobradinho”, em plano mais alto, dominando o ambiente. Aí que o senhor de engenho ficava nos tempos de dantes, dia inteiro, mandando e vigiando, fazendo e desfazendo.  

A casa de máquina é o lugar da moagem. O caldo corre da moenda por um canalete no chão e vai cair por uma bica na parol que já está na casa de caldeira. Nesta casa é que está o “assentamento”, conjunto de tachas em que se fabrica o mel. Outro canalete conduz a garapa do parol prá tacha de “caldo frio” onde o caldo já principia sendo descachaçado. “Descachaçar” é limpar das impurezas. Estas formam a “cachaça”, mistura que o gado adora provavelmente sem razão… Ou por alguma razão… gadal que desconheço. 

Do “caldo frio” a garapa é transportada prá tacha que a segue na serie de tachas do “assentamento”. Essa tacha segunda é a “caldeira” em que o caldo frio ferve pela primeira vez. Na caldeira ainda a fervedura bota às impurezas restantes numa escuma feia que tambem vai formar a “cachaça” do gado. Da caldeira o caldo fervendo é transportado prás duas tachas seguintes e consecutivas do assentamento, os caldeirotes, pra novas ferveduras que vão apurando o mel. Quando as ferveduras estão espumando até o bordo das tachas, se bota semente de carrapateira nelas: abaixam num átimo. Na caldeira e nos dois caldeirotes a garapa é “ajudada”, se sacode um bocado de cal nela para neutralizar a açidez. 

Do segundo caldeirote a garapa já bem grossa é transportada finalmente prá “tacha de boca” onde se dá o ponto no mel, última fervedura. Esta é a tal chamada “peito de moça” porquê a espuma toma a forma solene dum seio novo, coisa linda. Quem dá o ponto no mel, em Pernambuco é o “cunzinhadô”. É o homem que trabalha a garapa, que a transporta duma tacha prá imediatamente seguinte, que descachaça, faz tudo. Aqui chamam-no de “mestre” e si tem ajudante, este é o “banguêro”. 

No assentamento as tachas na ordem da tacha de boca prá de caldo frio estão ligadas em plano inclinado descendente por um plano atijolado e caiado com rebordo que impede a garapa de cair no chão. Ella escorre prá tacha imediatamente inferior. 

Quando o mel está no ponto, é derramado no “resfriador” onde esfria e vai endurecendo. Não deixam que endureça. É logo despejado nas fôrmas e transportado prá “casa de purgar”, onde, voltadas com a boca pra baixo pra ​​escorrer o “mel de furo”, parte incristalisavel. No geral basta um dia pro mel escorrer e o assucar se cristalisar na fôrma. Tirada esta o pão-de-assucar está feito, duas partes: o “cabucho” parte sêca, definitiva, e a “cara” parte de baixo, humida ainda. Quebra-se o pão de assucar e a “cara” é levada pra um terreirinho e quebrada. Seca ao Sol. É assim. 

Agora no “quebrador” o assucar é quebrado pra ensacar, assucar bruto de exportação. 

O que é destinado ao consumo do engenho é purgado com barro e refinado em casa. Fica dum branco encardido, cristais visiveis, gostosissimo no café, estragando o chá. 

Como se vê são ainda processos bem primarios de fábrica… Os pessimistas falam que pelo menos trinta por centro do assucar perde. Parece muito… Porém vinte por centro que seja, o brasileiro já está cansado com 400 anos de banguê… Pede usinas. O “coqueiro” se inspira e na “pancada do ganzá” celebra as turbinas modernas… 

— “Adonde eu vi nove trubina?… 

Na Usina Brasileira. 

— Adonde eu vi nove trubina?… 

Na Usina Brasileira.” 

MÁRIO DE ANDRADE