BVPS | Simpósio Internacional | Capitalismo e Autoritarismo: o que fazer?

O Blog da BVPS publica hoje o primeiro post do simpósio internacional Capitalismo e Autoritarismo: o que fazer?, organizado por Fabrício Maciel (UFF)e Maurício Hoelz (UFRRJ e editor responsável do blog da BVPS), e que conta com a assessoria editorial de Miguel Cunha (PPGCS/UFRRJ).

O simpósio convidou especialistas brasileiras/os e do exterior, a partir de três grandes áreas das ciências sociais – a teoria social, a sociologia do trabalho e o pensamento social e político brasileiro –, a responder quatro perguntas em torno das intrincadas relações entre autoritarismo e capitalismo no mundo contemporâneo. As respostas serão publicadas em blocos sempre às quartas-feiras. Clicando aqui você pode ler a apresentação assinada pelos organizadores.

Hoje teremos como convidadas/os:

Raewyn Connell, professora emérita da University of Sydney. Uma das principais referências internacionais nos estudos de gênero e masculinidades. Autora de diversos livros, publicou, entre eles, Masculinities e Southern Theory: The Global Dynamics of Knowledge in Social Science.

Camila Rocha, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Dedica-se ao estudo da nova direita, das redes digitais e da política contemporânea no Brasil. Autora, entre outros, de Menos Marx, Mais Mises: O liberalismo e a nova direita no Brasil.

José Maurício Domingues, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ). Desenvolve pesquisas nas áreas de teoria social, modernidade e pensamento social latino-americano. Autor, entre outros, de Teoria Crítica e (Semi)Periferia e Political Modernity and Social Theory.

Jorge Chaloub, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do pensamento político e social brasileiro. Dedica-se ao estudo do liberalismo, das direitas e da história intelectual no Brasil. Autor, entre outros, de Interpretações contemporâneas do Brasil e Os tempos e discursos da direita latino-americana (org.).

Boa leitura!


Capitalismo e Autoritarismo: o que fazer?

1. Qual é o seu diagnóstico sobre a relação entre capitalismo e autoritarismo na atualidade?

Raewyn Connell: Não devemos cometer o erro de imaginar o capitalismo como um sistema coerente e fortemente coeso, que gera o autoritarismo político como um resultado lógico. O mundo real do “capitalismo” é selvagemente incoerente, ilógico e cheio de tensões. Como forma de organizar a vida produtiva, as economias capitalistas foram construídas por meio de violência histórica e, hoje, são mantidas coesas por meio de coerção, manipulação e mentiras generalizadas. A economia internacional é, como Milton Santos a descreveu há 25 anos, uma “globalização perversa”. Os regimes autoritários são um produto possível, ainda que não necessário.

No caso a que mais deveríamos prestar atenção hoje – a China –, o autoritarismo veio primeiro. O atual crescimento massivo das empresas capitalistas foi resultado de uma guinada política da ditadura que havia vencido a guerra civil trinta anos antes. Depois de criar uma base industrial estatal, no fim da década de 1970 o regime escolheu um novo caminho para o desenvolvimento: um capitalismo controlado pelo partido, com repressão feroz à dissidência.

No restante do mundo, um conjunto heterogêneo de ditaduras militares, regimes étnicos, Estados desenvolvimentistas pós-coloniais e oligarquias que se autodenominavam democracias envolveu-se nos projetos que chamamos de “neoliberalismo” e “globalização”. Seguiram-se um enorme crescimento do comércio internacional, uma realocação global da indústria, o declínio dos regimes de bem-estar social, a queda da densidade sindical e do poder do movimento operário e o aumento da desigualdade e da precarização – produzindo o mundo em que vivemos agora.

Essas condições transformadas têm algo a ver com a ascensão de regimes autoritários – mas não seguindo uma fórmula única. O colapso da União Soviética produziu um desastre econômico e demográfico. O apoio, na Rússia, a um novo autoritarismo faz sentido, mas a adesão do regime de Putin ao capitalismo de compadrio não obedece à mesma lógica. Nos EUA e no Reino Unido, foram os partidos de direita que impulsionaram fortemente a desregulamentação e a privatização, e eles se tornaram mais autoritários. Na Austrália e em Aotearoa Nova Zelândia, foram governos de partidos trabalhistas que construíram o regime neoliberal, o que não produziu um Estado autoritário. Ou ainda não.

Camila Rocha: O autoritarismo atual, na maior parte dos países em que se expressa, tem um forte caráter nacionalista, reacionário e patriarcal. Isso se deve à crise de legitimidade de instituições internacionais, por um lado, e à crise de discursos relacionados a direitos humanos de minorias (mulheres, LGBTQIA+, imigrantes, pessoas não-brancas e não-humanos), por outro. Tais crises estão relacionadas, por sua vez, ao aprofundamento de lógicas de exploração e expropriação capitalistas que possuem como consequências: aumento da concentração de renda, perda de direitos sociais e trabalhistas, sucateamento e privatização de serviços públicos, declínio de atividades sindicais, e crescente desigualdade social.  Em meio a tal cenário, populações de países centrais têm receio de perder o padrão de vida conquistado nas últimas décadas. Há uma percepção de que existe uma “competição” com estrangeiros dentro ou fora de seu país por postos de trabalho e importância em cadeias globais de produção, daí o apelo do nacionalismo-nativista. Já populações de países periféricos estão frustradas com os parcos avanços sociais oferecidos por políticos tradicionais em regimes democráticos e enxergam líderes autoritários como uma possibilidade de ruptura com o status quo e transformação radical. Em países do Sul Global, o discurso nacionalista, por vezes, reivindica um apelo anticolonial, porém, retomando discursos reacionários ligados à manutenção de uma pretensa homogeneidade étnica-religiosa da nação. Ideias e figuras públicas associadas a futuro e progresso também passaram a estar cada vez mais alinhadas a discursos autoritários, reacionários e patriarcais do que a discursos democráticos. Nesse sentido, são exemplares os discursos de magnatas como Peter Thiel e Elon Musk e políticos como Nayib Bukele e Javier Milei. Por fim, é importante notar o crescimento de ideologias libertarianas em associação ao pensamento autoritário: discursos contra impostos e qualquer tipo de regulação governamental associados a defesa de nativismo, repressão violenta a criminosos e patriarcalismo.

José Maurício Domingues: O capitalismo tem desde sempre uma relação contraditória com a democracia. Ele em princípio descentraliza o poder, mas introduz desigualdades sociais que favorecem uma influência desmedida do poder econômico – as classes sociais a ele vinculadas – sobre o poder político igualmente diferenciado. Quanto mais concentrado o poder econômico – isto é, quanto mais restritas as classes sociais dominantes e desiguais em relação ao restante, à maioria de fato, da sociedade –, maior sua influência potencial sobre o sistema político se este também é fechado e excludente da maior parte da população (pior ainda se seus elementos neopatrimonias são densos). É o que vemos hoje, com essa dupla tendência à restrição levando a democracia liberal representativa – que é democrática, mas possui um núcleo oligárquico – a passar para um tipo avançado de oligarquia liberal. Tudo parece democrático, mas há restrições à manifestação da opinião, à participação e a uma real influência dos plebeus – politicamente falando – sobre o sistema político e os políticos profissionais.

Jorge Chaloub: Os discursos de legitimação da ordem capitalista assumiram uma nova feição nas últimas décadas, sobretudo quando os comparamos com o padrão hegemônico posterior a 1945. No pós-guerra houve um crescente esforço, como parte do imaginário construído ao longo da Guerra Fria, de se naturalizar as relações entre capitalismo e democracia, em discurso que frequentemente tomava a ordem democrática como consequência mais frequente do mercado e o capitalismo como elemento indissociável da democracia.

Algo, contudo, mudou no pós-1989, quando ganharam força discursos que assumem de forma explícita uma tensão entre capitalismo e democracia, não para pensar uma superação do capitalismo a partir da esquerda, mas para propor utopias autoritárias, que rompem com a tradição eufemística da direita no pós-1945, diagnosticada por autores como Roger Griffin, e defender abertamente ordem sociais não democráticas.

Destacam-se, neste sentido, tanto o retorno de antigas linguagens políticas, como o fascismo, que voltam a ocupar o centro da cena política com um imaginário abertamente não democrático, quanto novos repertórios, marcados pelo hidridismo de diversas tradições e autores, conjugados para delinear ordens político-sociais não democráticas. Dentre os exemplos possíveis para o segundo caso, podemos mencionar conjunções entre aceleracionismo e anarcocapitalismo, mobilizadas por autores como Nick Land e Peter Thiel; ou formulações etnonacionalistas, ultraliberais ou reacionárias marcadas por um racismo explícito, muitas vezes formuladas a partir de argumentos em torno da ideia de QI, como bem exposto pelos trabalhos de Quinn Slobodian, ou por uma ideia de sobreposição entre raça e cultura, tal como investigado nos esforços recentes de Melinda Cooper.

A defesa de ordens político-sociais declaradamente autoritárias muda as relações entre capitalismo e democracia, no sentido de que se passa não apenas a disputar conceitos de democracia em embates eleitorais e na esfera pública, mas toma-se a própria democracia como objeto de disputa.

2. Como você considera que a sua área de conhecimento poderia interagir com outras áreas na construção deste diagnóstico?

Raewyn Connell: A produção acadêmica sobre o novo autoritarismo é, evidentemente, multidisciplinar. A sociologia, a economia, a ciência política, a história, os estudos culturais e as relações internacionais estão todos envolvidos. Também fazem parte do debate campos interdisciplinares como os estudos de segurança e as mudanças climáticas. Essas contribuições são relativamente conhecidas. Penso que deveríamos prestar atenção também em dois outros campos, menos discutidos nos debates sobre o autoritarismo, que são importantes para compreender a sua realidade contemporânea.

O primeiro são os estudos de gênero, em particular as pesquisas sobre masculinidades. Não é segredo que a maioria dos regimes autoritários contemporâneos é chefiada por homens e efetivamente controlada por grupos de homens. Os movimentos e os governos que eles lideram destacam-se pelo conservadorismo de gênero. A retórica que utilizam para mobilizar sua “base” frequentemente inclui uma celebração da masculinidade convencional e ataques ao feminismo, à homossexualidade, aos grupos trans e ao que a hierarquia católica chama de “teoria de gênero”. Os próprios líderes podem fazer uma exibição enfática de masculinidade – Putin, em particular, é famoso por isso.

É certo que algumas poucas mulheres ganharam destaque na política de extrema-direita (Marine Le Pen, Giorgia Meloni), ao passo que o regime de Modi legislou em favor dos direitos das pessoas trans. De modo geral, contudo, há um entrelaçamento entre autoritarismo e políticas de gênero reacionárias. Isso pode ser importante para compreender o apelo popular dos movimentos autoritários, num período marcado tanto pela insegurança econômica quanto por mudanças de longo prazo na corporificação social.

O segundo campo são os estudos pós-coloniais, entendidos em sentido amplo, de forma a incluir a pesquisa decolonial, as teorias do Sul etc. Existe um argumento de que a ampla agenda neoliberal veio tanto do Sul global quanto do Norte global. Deveríamos considerar como o autoritarismo pode ser gestado em contextos pós-coloniais, bem como as críticas que também surgiram desses contextos, de pensadores como Ashis Nandy e Achille Mbembe.

Há um fato notável que aponta nessa direção: toda sociedade pós-colonial tem uma experiência profunda de um regime autoritário, uma vez que o próprio poder colonial é uma forma de autoritarismo. De fato, o domínio colonial é a forma mais comum de autoritarismo na história mundial recente. Os regimes pós-independência em geral preservaram a maquinaria repressiva do Estado colonial – exércitos, polícias, prisões, censura – que com frequência se tornou o instrumento das ditaduras pós-coloniais. As lutas contra essa maquinaria podem ser fontes fundamentais para uma política antiautoritária hoje.

Camila Rocha: A Ciência Política poderia interagir com áreas como sociologia, antropologia, economia política, geopolítica, direito história e psicologia social para compreender de forma aprofundada como mudanças de ordem macroeconômica e geopolítica passaram a impactar cosmovisões, atitudes e comportamentos de diferentes populações nas últimas décadas, tendo em vista seus contextos nacionais e regionais específicos.

José Maurício Domingues: A sociologia é muito vizinha da ciência política, inclusive da disciplina de relações internacionais; e a teoria social e sociológica, da teoria política. Isso deve ser enfatizado e potenciado. Por outro lado, a economia – especialmente se lhe atribuímos, descartando o caráter muito restrito da economia neoclássica, caráter de economia política – pode convergir com essas disciplinas no diagnóstico do desenvolvimento do capitalismo e, nesse processo, do aumento das desigualdades. A antropologia, por outro lado, nos ajuda a ver como as diferentes classes sociais vivem sob este regime de acumulação do capital e de dominação política.

Jorge Chaloub: Inicialmente é necessário destacar que a área da teoria política tem fronteiras bem precárias, com forte diálogo com outros campos do conhecimento por sua feição interdisciplinar. Em relação ao tema proposto, parte da área constrói um diagnóstico do capitalismo e do autoritarismo contemporâneos a partir da conjunção entre as visões de mundo e linguagens políticas dos atores – que são constitutivos do próprio conflito político – e as condições sociais de construção das ideias, com particular atenção a sua historicidade. Neste esforço, ela mobiliza diretamente o conhecimento produzido por áreas como sociologia, economia política e história, em movimento necessário para suas reflexões. Autores importantes dos debates sobre o tema, como Nancy Fraser, Wendy Brown, Rahel Jaeggi, Melinda Cooper e Quin Slobodian tomam a teoria política como um instrumento central para a construção dos seus principais argumentos.

A interação pode ser especialmente profícua se há uma preocupação em conjugar a reconstrução de linguagens políticas a processos de mudança de regimes de historicidade, transformações em padrões de acumulação ou mudanças em formas de ação social. A crescente relevância das linguagens descritas na questão anterior deve, nesse sentido, ser pensada a partir de contribuições de autores como Wolfgang Streeck, que discute novas dinâmicas da acumulação capitalista, ou Hartmut Rosa, que diagnostica a partir da sociologia novas formas da experiência social do tempo. A partir desse movimento, as linguagens não são percebidas como discursos dispersos no tempo e no espaço, mas enquanto forma de conceber e intervir sobre os conflitos sociais e políticos.

3. Em sua opinião, quais possibilidades de ação efetiva poderiam ser orientadas por esta discussão, no sentido de enfrentar os efeitos sociais negativos produzidos pelo aprofundamento do autoritarismo na atualidade?

Raewyn Connell: Para responder a essa pergunta, precisamos primeiro especificar quais são as principais “consequências sociais” de um autoritarismo mais profundo. Serei breve. Penso que estas três são as tendências de crise mais importantes. 1) O aumento da desigualdade e da precariedade na maior parte das regiões do mundo, ao longo da última geração, que é endurecido pelos regimes autoritários. 2) O ressurgimento do sexismo, do racismo e de um nacionalismo belicoso, que são temas organizadores dos movimentos autoritários e postos em prática pelos regimes autoritários. 3) A destruição ambiental acelerada, especialmente decorrente do uso de combustíveis fósseis, resultante da corrupção e da ausência de prestação de contas do poder autoritário.

O “Estado de Direito” internacional e nacional, as invocações dos “direitos humanos” e outros dispositivos do liberalismo dominante mostraram-se ineficazes diante dos movimentos autoritários populistas e das políticas de autointeresse dos regimes autoritários. Atualmente, não há sanção eficaz contra a violência dos regimes chefiados por Putin, Trump, Modi, Xi e Netanyahu. A cultura bilionária se orgulha da “disrupção”, de despedaçar os equilíbrios sociais estabelecidos. Como mostra a recente política climática e midiática, há pouca contenção eficaz sobre os controladores interesseiros das corporações que comandam as redes sociais, a pesquisa biomédica ou as indústrias de combustíveis fósseis.

Parece claro, então, que quaisquer respostas eficazes terão de vir de fora do quadro da política dominante. Elas exigirão, fundamentalmente, organização entre os grupos sociais – a maioria da população mundial – cujas vidas estão se tornando insustentáveis graças às três tendências de crise mencionadas acima. Que papel os intelectuais podem desempenhar nesse processo ainda está por ser visto. Se algum projeto intelectual pode dar sustentação a esse processo, as ciências sociais parecem estar entre os mais relevantes. Mas isso exige que as ciências sociais se concentrem nos problemas que mais importam.

Camila Rocha: Do ponto de vista de ação efetiva, seria necessário construir, a partir de diálogos no Norte e Sul Global, medidas nacionais e internacionais com vistas a alcançar maior justiça e igualdade por meio de:  i. mecanismos de desconcentração e distribuição de renda (taxas, impostos, medidas contra evasão de divisas e paraísos fiscais, medidas de transparência e combate à corrupção, entre outras); ii. investimentos em transferências de tecnologia para países do Sul Global com vistas ao desenvolvimento de novas cadeias de produção sustentáveis e que lhes proporcionem maior autonomia econômica; iii. novas formas de proteção social, ambiental e trabalhista adequadas a diferentes contextos que levem em consideração o trabalho de cuidado desempenhado por mulheres, o envelhecimento das populações, e o respeito a formas de vida de populações não-urbanas, indígenas e não-humanas; iv. mecanismos de combate à oligopolização de empresas de comunicação e tecnologia; v. mudanças na representação de países em instituições internacionais, bem como novas formas de atuação que recupere a legitimidade das ações de tais instâncias na mediação de conflitos, crises e guerras; vi. medidas urgentes destinadas a combater o aquecimento global, preservação de florestas e reflorestamento de ambientes degradados.

José Maurício Domingues: Lutas por renovar e aprofundar a democracia, restringindo o poder autônomo do sistema político formal, estatal, dando publicidade a todos os processos internos a eles; abrir novos canais de participação, incluir mais rotatividade dos cargos de representação e no executivo, combater o neopatrimonialismo e a corrupção sem concessões.

Jorge Chaloub: Há um primeiro esforço que é conceitual: autoritarismo é um termo profundamente polissêmico, que já foi utilizado no sentido de um tipo de regime político, de personalidade ou mesmo como um amplo contraconceito de democracia. Para perceber como enfrentar seus efeitos sociais negativos é, portanto, necessário antes defini-lo com mais precisão, não apenas para fins intelectuais e acadêmicos, mas para a organização da ação política.

Nesse sentido, a reconstrução de discursos críticos à democracia e apologéticos a utopias autoritárias podem não apenas melhor determinar os argumentos, atores e bases sociais dessas ideias, como construir tipologias úteis para a distinção dos vários tipos de autoritarismo. Não se pode lidar com a verve autoritária da linguagem política neofascista ou neonazista do mesmo modo que com as pregações antidemocráticas do anarcocapitalista, já que suas estratégias políticas, discursos e públicos são bem diversos. É necessário, todavia, delinear tanto suas divergências quanto eventuais consonâncias, muitas vezes construída a partir da ideia de inimigo, já que as duas perspectivas são centrais para compreender e resistir às coalizões políticas de ultradireita. O cenário brasileiro é um bom exemplo.

Como coalizão, o bolsonarismo é profundamente heterogêneo, encontrando unidade em meio à construção de um inimigo, amplamente identificado com o campo da esquerda, e pela rejeição às experiências democráticas do pós-1945. Qualquer ação para combatê-lo, ou derrotar novas coalizões de ultradireita, passa, contudo, por melhor compreender suas frações internas, que revelam ao mesmo tempo as tensões internas à coalizão e o que a mantém unida.

4. Quais autores e/ou obras em sua área de conhecimento seriam relevantes para este debate? Mencione três ou quatro.

Raewyn Connell: José Rizal, Noli me tangere (1887). O romance clássico do imperialismo tardio no Pacífico, ambientado na colônia espanhola das Filipinas. Ele dramatiza a estrutura e a dinâmica da sociedade colonial, tal como vistas por um jovem intelectual do povo colonizado. É um documento notável das corrupções e dos antagonismos que florescem sob o autoritarismo – e da sua violência. O autor foi assassinado judicialmente pelo regime imperial justamente quando a luta filipina pela independência começava.

Milton Santos, Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal (2000). Um notável panorama, surgido dos debates das ciências sociais dos anos 1990 sobre a “globalização” como a nova forma do capitalismo, e que descreve o mundo produzido pelo imperialismo e pelo neoliberalismo, justamente quando começava a onda contemporânea de autoritarismo. Lúcido quanto à vertente totalitária da reorganização neoliberal do capitalismo, Santos tem também aguda consciência da turbulência do cenário global e da sua irracionalidade subjacente e dos seus potenciais de mudança.

Lynn Horton, Men of Money: Elite masculinities and the neoliberal project (2022). Eis aqui, então, os beneficiários! Homens como Bill Gates, Steve Jobs, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg, bilionários exemplares da nova economia tecnocapitalista desregulamentada do Norte global. Horton enfatiza o fato de seu gênero. Sua ascensão apoiou-se não apenas no privilégio geral dos homens no mundo corporativo, mas na construção de padrões alterados de masculinidade de elite. (Elon Musk faz parte da mesma história, evidenciando a ameaçadora irresponsabilidade do novo poder da riqueza extrema.)

Camila Rocha: Quinn Slobodian, Globalists (2018) e Crack-up Capitalism (2023);

Nancy Fraser, Cannibal Capitalism (2022);

Gary Gerstle, The Rise and Fall of the Neoliberal Order (2002);

Maristela Svampa, As fronteiras do neoextrativismo na América Latina (2018).

José Maurício Domingues: Eu escrevi Political Modernity and Social Theory, publicado em 2024, com exatamente esse objetivo. As obras de Thomas Piketty, em especial O capital no século XX, são essenciais também nesse sentido, bem como o livro de Jens Bochert e Jürgen Zeiss (orgs.), The Political Class in Advanced Democracies. No Brasil há ainda uma recusa de encarar isso de frente.

Jorge Chaloub: Sobre os debates mais contemporâneos, penso nos trabalhos de Quinn Slobodian e Melinda Cooper, sobre neoliberalismo, libertarianismo e anarcocapitalismo. Os autores tratam de temas como as relações entre um imaginário racial, típico do supremacismo branco, e as variantes ultraliberais; a ideia de ordem geopolítica do imaginário neoliberal contemporâneo, e as formulações atuais do imaginário da austeridade e da crítica às ideias de direitos. Merecem atenção obras como Hayek’s Bastards: Race, Gold, IQ, and the Capitalism of the Far Right (2025) e Crack-Up Capitalism: Market Radicals and the Dream of a World Without Democracy (2023), de Slobodian; Counterrevolution: Extravagance and Austerity in Public Finance (2025) e Family Values: Between Neoliberalism and the New Social Conservatism (2018), de Cooper.

Outro autor contemporâneo relevante para o debate, sobretudo a partir do tema da normalização de discursos de ultradireita e da recusa a democracia é Aurelien Mondon, em especial seu livro de 2020, ao lado de Aaron Winter, Reactionary Democracy: How Racism and the Populist Far Right Became Mainstream. São bem relevantes suas reflexões sobre as relações entre a direita tradicional e novos atores de direita, assim como suas análises sobre o modo de circulação de discursos autoritários na esfera pública.

Por fim, acho que merecem atenção, por iluminarem aspectos fundamentais das transformações no mundo político e das mudanças dos padrões de circulação dos discursos, os trabalhos de Hartmut Rosa sobre a transformação das estruturas sociais modernas. Suas pesquisas permitem compreender fenômenos como a enorme relevância atual das redes sociais de um modo profundamente articulado às transformações nos padrões de acumulação e das próprias experiências do capitalismo contemporâneo.