
A coluna Ressurgências, assinada por Alcida Rita Ramos (UnB) e Francisco Sarmento (Clã yãâhi di’ipeé, KAAPI), presta homenagem à antropóloga Carmen Lucia da Silva, falecida em 26 de maio deste ano, cuja trajetória se confunde com a própria ressurgência do povo Xetá.
Em um texto marcado pela admiração, Alcida Rita Ramos recupera o trabalho da pesquisadora que reuniu sobreviventes dispersos após décadas de extermínio e desterro, contribuindo para torná-los uma Fênix dos tempos modernos. Carmen Lucia da Silva foi sua orientanda de doutorado, e Alcida teve o privilégio de acompanhar o nascimento da tese Em busca da sociedade perdida, que revelou o exercício espetacular de memória coletiva do povo Xetá, declarado extinto em 1964. A homenagem é ainda uma reflexão sobre o poder da etnologia e da persistência indígena diante de sucessivas tentativas de apagamento.
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Coluna Ressurgências
Por Alcida Rita Ramos (UnB) e
Francisco Sarmento (Clã yãâhi di’ipeé, KAAPI)
Ficamos mais pobres com a morte de Carmen Lucia da Silva no dia 26 de maio de 2026. Foram muitas décadas de sofrimento físico e vontade férrea de viver e fazer viver. À antropóloga da Universidade Federal de Mato Grosso, à mulher que salvou o povo Xetá do oblívio, à sensível pesquisadora cujo feito inédito foi transformar esse povo em Fênix dos tempos modernos, à criança de 5 anos que sobreviveu a cruéis queimaduras que a fragilizaram pelo resto da vida e cresceu para ser um exemplo de coragem e gentileza, rendemos-lhe aqui a nossa homenagem.
Esta coluna é escrita por sua orientadora do doutorado, que teve o privilégio de ajudar a nascer uma tese que revela o exercício espetacular de memória coletiva e que já tem no título a sua essência: Em busca da sociedade perdida. Mas foi a dissertação de mestrado, sob a orientação da colega Jean Langdon, da Universidade Federal de Santa Catarina, que mostrou a crueza da intenção de eliminar o povo Xetá. Sobreviventes do Extermínio, defendida em 1998, é um tour de force que expõem em carne viva a perversidade com que Estado e sociedade dominantes destroem os povos indígenas. Sua escrita é capaz de levar o leitor às lágrimas e à constatação de que, para matar uma sociedade organizada, é preciso extinguir até o último indivíduo. Se há sobreviventes, há chance de ressurgência. E foi isso que aconteceu.
A ressurgência dos Xetá
Alcida Rita Ramos
Assim como para Fernando Pessoa, a Pátria era a língua portuguesa,
para os sobreviventes do extermínio, o Mundo é a língua Xetá
(Carmen Lucia da Silva, Em busca da sociedade perdida, 2003)
Em 1964, a sociedade Xetá foi declarada extinta. Sua terra tradicional na Serra dos Dourados, noroeste do Paraná, estava, finalmente, livre para a colonização. Cumpria-se o desejo do governador Moisés Lupion de criar espaços vazios para instalar o progresso com plantio de café. Sobre os restos mortais de um povo inteiro fundaram-se cidades como Umuarama, Douradina, Ivaté, Maria Helena, Campo Mourão, Maringá, Cruzeiro do Oeste, Icaraíma, etc. Chegara ao fim a longa agonia das famílias Xetá em fuga contínua, penosa, pela mata, dia e noite por anos a fio, ao ronco implacável de tratores no seu cerco mortal. Mas, como a ironia não tem limites, a semente do povo Xetá renasceu das cinzas, graças aos mesmos algozes.
Fazendeiros envolvidos naquela tarefa de limpeza territorial e étnica, quiçá buscando troféus, raptaram cerca de doze crianças Xetá e as espalharam pelas fazendas. Lá se fizeram adultos, lá se tornaram subalternos, lá aprenderam a falar português. Alguns nem sabiam da existência dos outros.
Passa-se o tempo e, nos anos 80, designada pela Funai, da qual era funcionária, para acompanhar um indígena desconhecido a uma perícia no manicômio judicial de Curitiba, Carmen Lucia da Silva encontra Tikuein (Mã). “Naquele ambiente inóspito, sombrio e triste”, durante a longa espera, ele, um dos sobreviventes Xetá, foi desfiando memórias sobre o seu passado. Falava do seu povo que já não existia. Sobraram apenas umas oito pessoas (quatro nunca foram encontradas). A partir daí, com a orientação de Tikuein, Carmen empenhou-se em encontrar os outros sobreviventes espalhados pelo Paraná e além. Conseguiu encontrá-los e, aos poucos, foi fazendo o milagre do reencontro. Deu nova vida aos desgarrados.
Até hoje de manhã … me achava só no mundo sem parente. Agora eu me encontrei, tenho parentes, tenho até irmãos. É como deitar pobre e amanhecer rico (Tiguá/Eirakã, mulher sobrevivente).
Reconstruiu o desespero do acosso incessante …
Naquele tempo, nós passávamos o tempo todo fugindo dos brancos, cada dia dormíamos num lugar diferente dentro do mato. Nossa vida era correr
… e do desassossego extremo.
Um dia, nós estávamos dormindo no mato e ouvimos um tiro. Os adultos nos falaram que os brancos estavam matando, e nós corremos (Ã, mulher sobrevivente).
Uns ainda crianças, outros já adolescentes, esses jovens Xetá conseguiram reter a língua materna e a memória da sociedade perdida, mesmo sem a praticarem.
Conversei muito sozinho pra não esquecer minha língua e minha gente (Tikuein).
O trauma da menina Tiguá emudeceu-a.
Deixei de falar … até mesmo na minha língua. Dona Carolina disse que eu passei um ano sem conversar com ninguém (Tiguá).
Carmen, etnógrafa nata, para quem as informações brotavam naturalmente, ouvinte solidária, encontrou nos sobreviventes Xetá parceiros ideais no flagelo. Tanto ela como eles transformaram sua tragédia pessoal num trampolim para a superação. A sintonia entre etnógrafa e colaboradores foi tão forte que a levou a perguntar por que a acolheram tão bem. Responderam: “porque você também é uma sobrevivente”!

E foi nessa condição que Carmen Lucia da Silva transformou uma situação de extraordinária força existencial num magnífico trabalho acadêmico que ainda não teve a divulgação que merece: dissertação de mestrado e tese de doutorado, trabalhos inéditos de grande potencial humanístico que faz muita falta à aridez da academia contemporânea. São lições de resistência, humildade, generosidade e sabedoria. Sua pesquisa de campo dispensou o folclórico choque cultural. Para levantar os dados, Carmen não precisou “subir nem descer horas a fio o curso de nenhum rio”, nem “empreender longas e fatigantes caminhadas pela mata”. Tão pouco experimentou o “estranhamento do outro … nem com a alimentação, moradia, os banhos no rio, as caçadas, a pescaria …”. Sua “situação de campo” era qualquer lugar em que pudesse reunir-se com os narradores Xetá onde quer que morassem (geralmente, aldeias de outras etnias).
Os sobreviventes Xetá encontraram em Carmen o estímulo de que precisavam para expressar suas vivências e memórias dos tempos em comunidade na Serra dos Dourados. “Da moça que estuda a história do seu povo, aos poucos foram atribuindo-me outros papéis, como o de intermediária e interlocutora”, diz ela.
Com o seu apoio, recriaram as condições necessárias ‒ e suficientes ‒ para fazer uma volta ao passado que, mesmo sem perceber, ainda os embalava. É no subtítulo de sua dissertação de mestrado ‒ Uma etnografia das narrativas e lembranças da sociedade Xetá ‒ que encontramos o teor dessa volta ao passado e que condições são essas que permitem que isso aconteça.
Recontar o passado requer o mínimo de três pessoas, mimetizando o estilo da oratória original. Para reuni-las, pediram a colaboração da etnógrafa. Era a condição sine qua non, explica Carmen, para “criar um ambiente que possibilitasse a eles evocar os dados da memória coletiva Xetá, inclusive com narração de histórias na língua do grupo… como na aldeia”. Era um desejo antigo que a pesquisa de Carmen “despertou e concretizou”.
Como diz Carmen na tese Em busca da sociedade perdida, no ato de narrar, é “como se [a extinta sociedade] se recusasse a desaparecer, impondo sua presença espectral aos seus membros sobreviventes”. Na fala de seus filhos vivos, “ela se conta, se materializa e se deixa representar”. Por sua vez, eram eles próprios que provocavam tal imposição. Sabiam que narrar em conjunto, propositadamente, trazia à vida a sociedade morta. Por esse ato, os narradores, mesmo depois de tantos anos de desterro, brindaram o mundo que os tornou órfãos com densos relatos de como era viver na floresta, como era a paisagem, fauna e flora, o mundo fluvial. Acompanhamos os ciclos de vida, o calendário Xetá, os dramas comunitários, os nomes pessoais, o parentesco, o casamento, a organização política. Se a dissertação de mestrado mostra a crua realidade da perda e do reencontro, a tese de doutorado traz o processo de narrar e o conteúdo das narrações: a vida Xetá, como palavra, em sua plenitude. Uma plenitude virtual, mas consistente, emotiva. Quando os narradores se transportam ao passado, “se juntam e se transfiguram em arautos da sociedade extinta”. E assim a sacralizam, à moda de Durkheim. “Terminado o tempo de reunião e o estado de efervescência ritual que seu coletivo, mesmo exíguo, consegue gerar, essa sociedade virtual se dissolve e os narradores retornam aos seus respectivos espaços profanos”. Trabalho monumental contra o esquecimento e o nada.
Nenhum dos sobreviventes casou com pessoa Xetá. Seus cônjuges são Guarani, Kaingang e não indígenas. Vivem em aldeias alheias ou em alguma periferia urbana. No entanto, todos os seus descendentes adotaram a identidade Xetá, independentemente de ter pai ou mãe não Xetá, o que fez crescer a moribunda etnia. Dos oito sobreviventes reunidos por Carmen Lucia da Silva, passaram agora a cerca de 200 pessoas. Como seria de esperar, foi ela que os conduziu à reivindicação por terra própria e indenização pelos profundos danos sofridos. Sua proposta de demarcação foi acatada, mas estancou em 1999 por efeito do ignóbil Marco Temporal.
Os Xetá, agora como ativos sujeitos políticos, surgem na cena indigenista com uma Retomada de 42 famílias exigindo que o governo conclua a demarcação do território que chamam de Terra Indígena Herarekã Xetá, uma fração da que perderam irremediavelmente. Um comentário do CIMI acrescenta: “A retomada é também uma homenagem aos ancestrais que, ao encantarem, levaram consigo o sonho da terra sagrada” (https://cimi.org.br/2026/02/retomada-povo-xeta-70-anos-apos-massacre/).

Foto: Carmen Lucia da Silva.
Carta do povo Xetá às autoridades públicas
São Jerônimo da Serra (PR), 7 de janeiro de 2026.
No dia 6 de janeiro, iniciamos uma mobilização em defesa de nosso direito à vida. Reunindo lideranças, homens, mulheres, jovens e crianças de nossa comunidade, e juntos ocupamos pacificamente um pedaço de terra na região norte do estado do Paraná, como forma de lutar pelo futuro de nosso povo. A área é habitualmente indicada por pessoas e autoridades locais como pública, pertencente ao Estado do Paraná, e fica situada no distrito de Terra Nova, município de São Jerônimo da Serra. Nossas reivindicações principais são a conclusão da demarcação da Terra Indígena Herarekã Xetá e a implementação da reparação que nos é devida. Estamos lutando pela regularização fundiária de parcela de nosso território tradicional há 26 anos, desde quando o processo foi iniciado pela Funai, em 1999, e sem que os governos tenham se comprometido de fato com o cumprimento de nossos direitos até agora. Por décadas, enviamos documentos e nos reunimos com órgãos e autoridades governamentais, mas nenhuma providência oficial efetiva foi tomada, inclusive no atual governo. Nosso povo sofreu muito com a violência da colonização. Na década de 1950, nossas terras na região de Serra dos Dourados, no noroeste do estado, foram cedidas ilegalmente pelo Governo do Estado do Paraná a companhias colonizadoras particulares, que se apropriaram do que é nosso e nos destruíram. As comunidades que resistiram à invasão tiveram as aldeias destruídas, nossos parentes foram exterminados ou expulsos, e os sobreviventes foram removidos e separados, conduzidos para diversas localidades por colonos e agentes públicos, o que levou nosso povo a quase desaparecer. Alguns parentes sobreviventes se reencontraram apenas 40 anos depois, e vários estão desaparecidos até hoje. Hoje, somos um povo sem terra e desagregado, vivendo longe de nosso território e vítimas do descaso público, que acentua um quadro de vulnerabilidade social de nossas comunidades, que já é agudo. A negação de nossos direitos, principalmente a inconclusão do processo demarcatório, traz muitos prejuízos ao nosso povo. Estamos impedidos de exercer nosso modo de vida e de ter autonomia, e a cada dia nossa cultura está mais ameaçada, devido à nossa separação forçada e a morte de nossos líderes mais velhos, que foram arrancados da terra e de suas famílias quando ainda crianças. Tal postura é genocida. Já são 70 anos sofrendo com a negação de nosso direito à terra. A primeira proposta de demarcação de terras para o nosso povo foi proposta na ALEP em 1955, mas rejeitada pelo Governo do Estado do Paraná. Depois, em 1961, uma terra nos foi designada em decreto do presidente Jânio Quadros, no âmbito do Parque Nacional de Sete Quedas, sem que nenhuma medida fosse tomada para a regularização da área, até que a área foi extinta por ordem do General Batista Figueiredo, no contexto de construção da UHE de Itaipu Binacional, durante a ditadura. Desde então, lutamos, e agora exigimos uma solução efetiva e célere. É o estado brasileiro que tem uma dívida enorme com nosso povo, e se recusa a se responsabilizar, responder e mudar de conduta. Não queremos desavenças com ninguém, nem tomar terra pertencente a quem quer que seja. Esperamos que as autoridades ajam para evitar uma escalada do conflito.
Coletivo de Lideranças do Povo Xetá
Concluo esta coluna constatando, comovida, que sim, a etnologia tem poder e uma grande etnóloga tem valor. Carmen Lucia da Silva, hoje como ontem, eu lhe rendo minha homenagem!
