
Publicamos hoje, simultaneamente em português e espanhol, ensaio de Gustavo Lins Ribeiro, professor da Universidad Autónoma Metropolitana do México, sobre uma ameaça que se constrói de maneira silenciosa e tem as ciências sociais e humanas como alvo prioritário.
Ribeiro traça um marcante paralelo entre a perseguição à intelectualidade europeia no período do nazi-fascismo e o que chama de “tecno-oligarquia” contemporânea – representada pela aliança entre Silicon Valley e extrema direita –, em que esta opera por meios mais discretos: cortes de financiamento, campanhas de desprestígio e manipulação algorítmica. Apoiando-se no pesquisador ucraniano Anton Shejovtsov, o autor identifica no projeto desta tecno extrema direita um esforço sistemático de tornar obsoletas as artes, as humanidades e a consciência histórica, que são obstáculos indesejáveis para quem ambiciona um mundo autoritário. Se Shejovtsov está certo ao afirmar que o humanismo é “a base mais evidente e coerente de toda resistência” a esse projeto, então defender as ciências sociais se torna uma necessidade política. Afinal, a quem interessa o fim da intelligentsia crítica?
Boa leitura!
As ciências sociais e humanas no mundo apocalíptico das (ultra)direitas.
Por Gustavo Lins Ribeiro (Universidad Autónoma Metropolitana)
En los tiempos que vivimos, la defensa de la humanidad no es una simple metáfora.
Es la tarea política que está definiendo nuestra época.
Y la democracia sigue siendo el único marco en el que esa
defensa puede llevarse a cabo de manera significativa.
(Anton Shejovtsov)
Quando os ventos da política mudam e entram em cena, como agora, os fascistas revigorados, a alt-right, a tecnodireita ou tecno-oligarquia, as ciências sociais e humanas, especialmente em suas facetas críticas, passam a ser um alvo prioritário. Claro, a ignorância sobre o que acontece no mundo sempre favoreceu o exercício da hegemonia por elites retrógradas. Basta ver o que aconteceu com a intelectualidade europeia na década de 1930 com a ascensão de nazistas e fascistas. Os que conseguiram escapar às terríveis violências deixaram seus países e se abrigaram em santuários como a Universidade no Exílio que chegou a reunir, depois de 1933, na New School for Social Research, em Nova Iorque, uma expressiva quantidade de professores marcados por serem judeus ou de esquerda. Mas as ciências sociais cresceram e se globalizaram fortemente com o crescimento do sistema universitário após a Segunda Guerra. A perseguição político-ideológica aos cientistas sociais no presente resultaria em um problema de escala muito maior.
Os métodos, hoje, podem ser menos trágicos, mas não por isso menos eficientes. É possível sufocar e destruir por inanição de duas maneiras: cortes de financiamento e campanhas de desprestígio profissional que afugentam jovens vocacionados para o exercício da crítica e reflexão sobre a vida social, econômica, política e cultural. Além disso, acrescentarei um outro e poderoso elemento macroestrutural que impacta nosso ambiente atual e a intelligentsia em geral: as mudanças nas tecnologias da inteligência que apontam para um possível momento obscuro da vida intelectual e das suas reverberações na política.
Pierre Lévy definiu como “tecnologias da inteligência” as técnicas materiais e simbólicas que aumentam e transformam a capacidade cognitiva humana. A introdução da escrita por meio do alfabeto, por exemplo, é uma delas, e a Revolução de Gutemberg é outra. Ambas com impactos de larguíssima duração. Hoje, estamos sob a hegemonia do capitalismo eletrônico-informático que intervém em nossas capacidades intelectuais (produção, difusão e armazenamento de conhecimento, por exemplo). A era digital e a internet abriram as portas para o desenvolvimento de poderosas tecnologias da inteligência e de manipulação do mundo virtual. Chegamos a mais um momento, nessa linhagem de inovações, em que se afirma que a própria inteligência humana será transferida para poderosas máquinas e sistemas que nos ultrapassarão por meio da inteligência artificial.
Há pelo menos 15 anos pululam alertas sobre os efeitos negativos destas tecnologias com impactos sociais, políticos e cognitivos, especialmente sobre as crianças e jovens abduzidos por telas sedutoras que propositadamente os prendem por horas, alterando sua maturação cerebral e suas capacidades de manter a atenção por tempos prolongados. Como pesquisadores e professores advindos da era analógica, leitores e escritores de livros, vemos diminuir a competência de leitura em profundidade dos estudantes e o aumento das transferências que fazem das suas habilidades interpretativas às máquinas, por meio do que talvez pudesse ser chamado de plágio eletrônico incrementado por aplicativos de IA.
Também me preocupam os efeitos seletivos sobre a disponibilidade na rede de conteúdos fornecidos por algoritmos controlados por poderosas companhias e o uso eficiente que a direita tem feito desses instrumentos na vida política. Mais ainda, e não digo por temor corporativo, me preocupa o que tudo isso implica para a existência de uma intelligentsia crítica, especialmente aquela densamente formada nas ciências sociais e humanidades. O fim da intelligentsia, pelo aumento da ignorância e incapacidade cognitiva, só pode interessar a quem mantém a hegemonia, despreza a democracia e prefere a manutenção das desigualdades com os privilégios de que desfrutam. Esse quadro favorece o poder e os instrumentos digitais têm múltiplos e profundos efeitos nessa direção.
Ao mesmo tempo, a aliança entre Silicon Valley, a Meca do capitalismo eletrônico-informático, e o imperialismo americano nunca ficaram tão claras quanto na posse do segundo governo Donald Trump, em janeiro de 2025, e no seu desenrolar. A chamada tecno-direita alimenta cada vez mais a máquina imperial e a perseguição aos que lutam pela democracia e pelo fim da hegemonia da extrema direita internamente aos Estados Unidos. Basta ver a intimidade da poderosa empresa Palantir e seus representantes com o aparato de segurança interna e externa estadunidenses, inclusive em termos de formulações programáticas que se baseiam tanto no excepcionalismo americano, quanto na supremacia branca e em discursos apocalípticos de inspiração cristã. Anti-democrática e hiper-individualista, libertária apenas para os vencedores (numa espécie de crença crua e cruel na seleção natural, digna de outras vertentes políticas extremistas e destrutoras no passado), essa tecno-direita, ou tecno-oligarquia, representa a mais clara ameaça ao futuro da vida, em geral, e às ciências sociais e humanas, em particular, desde o aparecimento do nazismo e do fascismo.
Anton Shejovtsov, um pesquisador ucraniano especializado em direitas radicais, em artigo recente publicado em Le Grand Continent (maio 2026), destacou o grande perigo político que a tecno-oligarquia representa e resumiu o seu projeto em curso como um esforço de construir um mundo autoritário que despreza o controle social sobre seus desígnios de poder, visa a eliminação das funções de redistribuição e proteção do Estado, mas com a manutenção de sua capacidade de coerção. Constrói-se, ademais, uma visão de futuro neo-eugenista para os poucos que poderão escapar à condição humana, onde haverá uma manipulação algorítmica que institui um profundo poder epistêmico e de censura, com uma capacidade de vigilância que produz um controle capaz de prevenir a dissidência. Paralelamente, as artes, as humanidades e a consciência histórica são tidas como obstáculos frente à necessidade de suplantar a espécie humana mediante a inteligência artificial. O objetivo é a obsolescência da própria humanidade. Diante deste contexto, Shejovtsov propugna que o humanismo é “a base mais evidente e coerente de toda a resistência à tecno-oligarquia”, ao insistir em que “a humanidade, em sua diversidade e seu caráter coletivo, não se tornou obsoleta”. Para ele, a tecno-oligarquia está ciente da existência dessa base resistente e “trabalha sistematicamente para impedi-la, amplificando as divisões, aprofundando os antagonismos e, muitas vezes, utilizando métodos próprios do fascismo para fragmentar qualquer frente única potencial”.
O diagnóstico de Shejovtsov, além de ser um chamado à união de uma pluralidade de forças políticas mobilizáveis por essa ampla “base resistente”, também leva a entender que as ciências sociais e as humanidades são um alvo potencial e de fato das (ultra)direitas contemporâneas. Essas disciplinas, de várias formas, remetem a uma compreensão sofisticada da humanidade em suas diferentes manifestações. Se o autor ucraniano está correto, urge discutir a continuidade da intelligentsia crítica e argumentar sua necessidade sociológica e política, junto a autoridades estatais e mecenas privados que prezem o valor da vida humana e das visões por justiça social e ambiental, como alternativa à barbárie que uma poderosa elite de mega capitalistas digitais está progressivamente impondo ao mundo, alavancando o seu poderio econômico e político apocalíptico. Esta tarefa requer complexas alianças nacionais e internacionais. É mais do que urgente.
Las ciencias sociales y humanas en el mundo apocalíptico de la (ultra)derecha.
Por Gustavo Lins Ribeiro (Universidad Autónoma Metropolitana)
En los tiempos que vivimos, la defensa de la humanidad no es una simple metáfora.
Es la tarea política que está definiendo nuestra época.
Y la democracia sigue siendo el único marco en el que esa
defensa puede llevarse a cabo de manera significativa.
(Anton Shejovtsov)
Cuando los vientos de la política cambian y entran en escena, como ahora, los fascistas revitalizados, la alt-right, la tecnoderecha o la tecno-oligarquía, las ciencias sociales y humanas, especialmente en sus facetas críticas, pasan a ser un blanco prioritario. Claro, la ignorancia sobre lo que ocurre en el mundo siempre ha favorecido el ejercicio de la hegemonía por parte de las élites retrógradas. Basta con ver lo que le sucedió a la intelectualidad europea en la década de 1930 con el ascenso de nazis y fascistas. Los que lograron escapar de la terrible violencia abandonaron sus países y se refugiaron en santuarios como la Universidad en el Exilio, que llegó a reunir, después de 1933, en la New School for Social Research de Nueva York, a un número significativo de profesores señalados por ser judíos o de izquierda. Pero las ciencias sociales crecieron y se globalizaron fuertemente con el crecimiento del sistema universitario tras la Segunda Guerra Mundial. La persecución político-ideológica de los científicos sociales en la actualidad daría lugar a un problema de una magnitud mucho mayor.
Los métodos actuales pueden ser menos trágicos, pero no por ello menos eficaces. Es posible asfixiar y destruir por inanición de dos maneras: mediante recortes de financiación y campañas de desprestigio profesional que ahuyentan a los jóvenes con vocación para el ejercicio de la crítica y la reflexión sobre la vida social, económica, política y cultural. Además, añadiré otro poderoso elemento macroestructural que impacta en nuestro entorno actual y en la intelectualidad en general: los cambios en las tecnologías de la inteligencia que apuntan a un posible momento oscuro de la vida intelectual y sus repercusiones en la política.
Pierre Lévy definió como tecnologías de la inteligencia las técnicas materiales y simbólicas que aumentan y transforman la capacidad cognitiva humana. La introducción de la escritura mediante el alfabeto, por ejemplo, es una de ellas, y la Revolución de Gutenberg es otra. Ambas con impactos de muy larga duración. Hoy, estamos bajo la hegemonía del capitalismo electrónico-informático que interviene en nuestras capacidades intelectuales (producción, interpretación, difusión y almacenamiento de conocimiento, por ejemplo). La era digital e Internet han abierto las puertas al desarrollo de poderosas tecnologías de inteligencia y de manipulación del mundo virtual. Hemos llegado a un nuevo momento, en esta línea de innovaciones, en el que se afirma que la propia inteligencia humana se transferirá a poderosas máquinas y sistemas que nos superarán mediante la inteligencia artificial.
Desde hace al menos 15 años abundan las advertencias sobre los efectos negativos de estas tecnologías, con repercusiones sociales, políticas y cognitivas, especialmente en los niños y jóvenes cautivados por pantallas seductoras que, a propósito, los mantienen atrapados durante horas, alterando su maduración cerebral y su capacidad para mantener la atención durante períodos prolongados. Como investigadores y profesores procedentes de la era analógica, lectores y escritores de libros, vemos cómo disminuye la competencia de lectura en profundidad de los estudiantes y cómo aumenta la transferencia de sus habilidades interpretativas a las máquinas, a través de lo que tal vez podría llamarse plagio electrónico potenciado por aplicaciones de IA.
También me preocupan los efectos selectivos sobre la disponibilidad en la red de contenidos proporcionados por algoritmos controlados por poderosas empresas y el uso eficiente que la derecha ha hecho de estos instrumentos en la vida política. Más aún, y no lo digo por temor corporativo, me preocupa lo que todo esto implica para la existencia de una intelligentsia crítica, especialmente aquella densamente formada en las ciencias sociales y las humanidades. El fin de la intelligentsia, debido al aumento de la ignorancia y la incapacidad cognitiva, solo puede interesar a quienes mantienen la hegemonía, desprecian la democracia y prefieren el mantenimiento de las desigualdades con los privilegios de los que disfrutan. Este panorama favorece al poder y los instrumentos digitales tienen múltiples y profundos efectos en esa dirección.
Al mismo tiempo, la alianza entre Silicon Valley, la meca del capitalismo electrónico-informático, y el imperialismo estadounidense nunca ha quedado tan clara como en la toma de posesión del segundo gobierno de Donald Trump, en enero de 2025, y en su desarrollo posterior. La llamada «tecno-derecha» alimenta cada vez más la maquinaria imperial y la persecución de quienes luchan por la democracia y por el fin de la hegemonía de la extrema derecha dentro de Estados Unidos. Basta con ver la estrecha relación de la poderosa empresa Palantir y sus representantes con el aparato de seguridad interna y externa estadounidense, incluso en términos de formulaciones programáticas que se basan tanto en el excepcionalismo estadounidense como en la supremacía blanca y en discursos apocalípticos de inspiración cristiana. Antidemocrática e hiperindividualista, libertaria solo para los vencedores (en una especie de creencia cruda y cruel en la selección natural, digna de otras corrientes políticas extremistas y destructivas del pasado), esta tecno-derecha, o tecno-oligarquía, representa la amenaza más clara para el futuro de la vida, en general, y de las ciencias sociales y humanas, en particular, desde la aparición del nazismo y el fascismo.
Anton Shejovtsov, un investigador ucraniano especializado en la derecha radical, en un artículo reciente publicado en Le Grand Continent (mayo de 2026), destacó el gran peligro político que representa la tecno-oligarquía y resumió su proyecto en curso como un esfuerzo por construir un mundo autoritario que desprecia el control social sobre sus designios de poder, tiene como objetivo la eliminación de las funciones de redistribución y protección del Estado, pero manteniendo su capacidad de coacción. Además, se construye una visión de futuro neo-eugenista para los pocos que podrán escapar de la condición humana, en la que habrá una manipulación algorítmica que instaurará un profundo poder epistémico y de censura, con una capacidad de vigilancia que generará un control capaz de prevenir la disidencia. Paralelamente, las artes, las humanidades y la conciencia histórica se consideran obstáculos frente a la necesidad de suplantar a la especie humana mediante la inteligencia artificial. El objetivo es la obsolescencia de la propia humanidad. Ante este contexto, Shejovtsov sostiene que el humanismo es «la base más evidente y coherente de toda resistencia a la tecno-oligarquía», al insistir en que «la humanidad, en su diversidad y su carácter colectivo, no se ha vuelto obsoleta». Para él, la tecno-oligarquía es consciente de la existencia de esta base resistente y «trabaja sistemáticamente para impedirla, amplificando las divisiones, profundizando los antagonismos y, a menudo, utilizando métodos propios del fascismo para fragmentar cualquier frente único potencial».
El diagnóstico de Shejovtsov, además de ser un llamado a la unión de una pluralidad de fuerzas políticas movilizables por esta amplia «base resistente», también lleva a comprender que las ciencias sociales y las humanidades son un blanco potencial y de hecho de las (ultra)derechas contemporáneas. Estas disciplinas, de diversas maneras, remiten a una comprensión sofisticada de la humanidad en sus diferentes manifestaciones. Si el autor ucraniano tiene razón, es necesario debatir la continuidad de la intelligentsia crítica y defender su necesidad sociológica y política ante las autoridades estatales y los mecenas privados que valoran la vida humana y las visiones de justicia social y ambiental como alternativa a la barbarie que una poderosa élite de megacapitalistas digitales está imponiendo progresivamente al mundo, aprovechando su apocalíptico poderío económico y político. Esta tarea requiere alianzas nacionales e internacionales complejas. Es más que urgente.
Gustavo Lins Ribeiro é mestre em Antropologia pela Universidade de Brasília (1980) e doutor pela City University of New York (1988). Professor emérito do Departamento de Antropologia da UnB, atualmente é professor do Departamento de Estudos Culturais da Universidad Autónoma Metropolitana-UAM-Lerma (México).
